Viagem de de Bike pelos Estados do RJ e SP. Verão 2003
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RELATO VIAGEM DE BIKE |
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VERÃO 2003 |
PELOS ESTADOS DO RIO DE JANEIRO E DE SÃO PAULO |
1.274 km |
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DATA |
DO (DE) |
PARA |
KM/DIA |
∑ |
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28/12/2002 |
Rio de Janeiro (RJ) |
Angra dos Reis (RJ) |
182 km |
182 km |
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29/12/2002 |
Angra dos Reis (RJ) |
Paraty (RJ) |
100 km |
282 km |
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30/12/2002 |
Paraty (RJ) |
Trindade (RJ) |
Ônibus |
#### |
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31/12/2002 |
Paraty (RJ) |
Cunha (SP) |
46 km |
328 km |
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01/01/2003 |
Cunha (SP) |
Queluz (SP) |
109 km |
437 km |
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02/01/2003 |
Queluz (SP) |
Bananal (SP) |
90 km |
527 km |
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03/02/2003 |
Bananal (SP) |
Quatis (RJ) |
52 km |
579 km |
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04/01/2003 |
Quatis (RJ) |
Conservatória (RJ) |
54 km |
633 km |
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05/01/2003 |
Conservatória (RJ) |
Rio das Flores (RJ) |
69 km |
702 km |
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06/01/2003 |
Rio das Flores (RJ) |
Três Rios (RJ) |
77 km |
779 km |
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07/01/2003 |
Três Rios (RJ) |
Teresópolis (RJ) |
88 km |
867 km |
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08/01/2003 |
Teresópolis (RJ) |
Nova Friburgo (RJ) |
90 km |
957 km |
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09/01/2003 |
Nova Friburgo (RJ) |
Sana (RJ) |
67 km |
1.024 km |
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10/01/2003 |
Sana (RJ) |
Araruama (RJ) |
120 km |
1.144 km |
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11/01/2003 |
Araruama (RJ) |
Rio de Janeiro (RJ) |
130 km |
1.274 km |
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MÉDIA: 82,5 KM/DIA |
TOTAL: 1.274 km |
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Depois que a cidade começou a crescer rente à praia, os mais pobres foram concentrando-se nos morros, pagando aluguel.
A ideia de fazer um giro pelos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo era antiga. Chegou hora de planejar e executar uma empreitada por terras fluminenses e paulistas.
Nomeei a aventura de "Périplos Fluminense e Paulista", alternando cidades conhecidas, de ambos os estados, e outras não.
Fui de ônibus da Capital Federal, onde moro desde 1972, à capital fluminense, onde nasci.
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1º Dia |
28/12/2002 |
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RIO DE JANEIRO (RJ) A ANGRA DOS REIS (RJ) |
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182 km |
Deixei o Rio de Janeiro (RJ) no sábado, 28/12/2002, sob chuva fina, às 4 horas, em plena escuridão, ingressando na ciclovia, que se estende paralela ao Atlântico Sul, transpassando várias praias, até finalizar na chegada ao Aeroporto Santos Dumont.
A partir de 2009, com as obras de revitalização da Zona Portuária e adjacências, a ciclovia, até então (2003), segue para a Praça XV, onde se ramifica pela área central.
Os quiosques à beira-mar estavam cheios. A turma aproveitava para se despedir do último sábado de 2002.
Muitos olhavam-me de forma espantada: “aonde será que esse cara vai a essa hora com toda essa bagagem e debaixo de chuva"?
Imaginei essa pergunta enquanto pedalava pela orla de Ipanema, até alcançar o Arpoador, atravessar a Rua Francisco Otaviano, desembocar no Posto Seis - Copacabana - e onde, mesmo a distância, observei o Morro do Pão de Açúcar [1], encoberto por nuvens encharcadas de umidade. A chuva bailava ao sabor do vento.
Ao final da orla de Copacabana [2], na divisa com o bairro do Leme, dobrei à esquerda e segui pela Avenida Princesa Isabel.
Transpassei o Túnel Coelho Cintra, que marca a divisa entre os bairros de Copacabana e Botafogo, e inaugurei as primeiras pedaladas pela Avenida Lauro Sodré.
A Casa de Shows [o Canecão] passou pelo meu través leste e, a alguns metros à frente, dobrei à esquerda e passei a pedalar pela Avenida Pasteur, que "deságua" na Enseada de Botafogo [3].
Era artilheiro e seu posto militar era o canhão. Portanto, o apelido: Botafogo. Era o Botafogo ali da vizinhança.
Passei pela Praia do Flamengo [4], Museu de Arte Moderna (MAM), Aeroporto Santos Dumont, chegando à Quadricentenária Praça XV [5], às 5h.
Segui pela Rua da
Assembleia - antiga Rua da Cadeia - até alcançar à Rua 1º de Março -antiga Rua Direita - e chegar à
Avenida Presidente Vargas, defronte à Igreja da Candelária [6]. Eram
5h11.
É bem provável que o nome Praia do Flamengo venha daí, dessa gente flamenga, holandeses ou belgas.
Fonte: 1565 : enquanto o Brasil nascia / Pedro Dória. - 1ª ed. - Rio de Janeiro : Harper Collins, 2017. p. 225.
Mas, naquela época [século XVII], era o Largo do Polé, porque, desde 1626, ficava ali a polé, um tronco onde amarravam os condenados para o açoite ou somente para que ficassem presos às vistas de todos.
Ergueu a primeira Candelária, no mesmo lugar onde se encontra sua portentosa versão atual.
O majestoso relógio da Central do Brasil, inaugurado em 1943 e maior que o Big Ben, marcava 5h18.
A chuva fina continuava. Havia pouco movimento nas ruas do centro da cidade.
A chegada à Rodoviária Novo Rio (desde de 2019 Rodoviária do Rio) foi tranquila.
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ATUALIZAÇÃO |
O Relógio da Central do Brasil, no Centro do Rio de Janeiro, passou - em 2018 - pela maior reforma dos últimos 25 anos. Foi tombado pelo Patrimônio Histórico e Cultural em 1996. |
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Fonte:
www.revistamuseu.com.br/site/br/noticias/nacionais/5223-26-08-2018-relogio-da-central-do-brasil-e-revitalizado.html.
Acesso: 26/08/2018. |
Pela passarela suspensa, atravessei a Avenida Rodrigues Alves, passei pelo [extinto] JB, na Avenida Rio de Janeiro, e penetrei na [imensa] Avenida Brasil, no bairro do Caju.
A primeira parada foi em frente à Fiocruz, o Tabernáculo da Ciência. Estava ensopado. Chovia a cântaros.
Concentrei-me no trecho que estava por vir, o pior daquele dia: pedalar integralmente a Avenida Brasil, ao largo dos seus 39 bairros (*), espalhados ao longo de 58,5 quilômetros de extensão, findados em Santa Cruz, bairro da Zona Oeste e segundo bairro imperial do Rio de Janeiro; o primeiro foi São Cristóvão.
(*) A AVENIDA BRASIL CONECTA IMPORTANTES
ÁREAS DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO (RJ), PASSANDO PELOS SEGUINTES BAIRROS,
ORGANIZADOS DA ZONA PORTUÁRIA À ZONA OESTE.
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ZONA PORTUÁRIA (1) |
Caju |
ZONA NORTE (27) |
São Cristóvão, Benfica, Vasco da Gama, Manguinhos, Bonsucesso,
Ramos, Olaria, Penha, Penha Circular, Brás de Pina, Cordovil, Parada de
Lucas, Vigário Geral, Jardim América, Irajá, Vicente de Carvalho, Tomás
Coelho, Vaz Lobo, Colégio, Irajá, Coelho Neto, Acari, Fazenda Botafogo,
Barros Filho, Costa Barros, Pavuna e Guadalupe.
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ZONA OESTE (11) |
Deodoro, Vila Militar, Magalhães Bastos, Realengo, Padre Miguel,
Bangu, Senador Camará, Santíssimo, Campo Grande, Paciência e Santa Cruz.
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Disponível em: https://www.google.com/search?q=bairros+atravessados+pela+avenida+brasil+no+rj>.
Acesso: 12/06/2026. |
Em
Santa Cruz, a nomenclatura "Avenida Brasil" muda para "Rio - Santos", trecho da imensa Rodovia BR - 101.
Foram 2 horas de pedal nonstop na travessia da Avenida Brasil, iniciada às 6h30 e finalizada às 8h30.
Nonstop ou non-stop, ambas as formas estão corretas.
A Ilha do Governador [7] fica isolada da Avenida Brasil, pelas águas da Baía da Guanabara.
[7] - antiga Ilha de Paranapuã.
Fonte: 1565 : enquanto o Brasil nascia / Pedro Dória. - 1ª ed. - Rio de Janeiro : Harper Collins, 2017. p. 225.
O Sol venceu as nuvens espessas e com cara de chuva e, cada vez mais alto e impiedoso, iniciou o maçaricar da pele.
O calor estival (próprio do verão) ficou mais cascudo quando a primeira subida apareceu pela proa, no km 430, da Rio - Santos, no acesso ao Túnel Muriqui (RJ) - Itacuruçá (RJ), em Mangaratiba, (RJ).
De casa até aquele ponto, o trajeto é predominantemente plano.
No interior da galeria, com 528 metros de extensão, minava água em profusão, vindas do teto e das paredes rochosas, resultado das chuvas das últimas semanas. Havia uma enorme poça no interior da "toca" e, à medida que os veículos passavam, eu ia sendo molhado por inteiro.
Ao sair na extremidade oposta, estava ensopado. Mas a roupa secou logo, pois os tecidos do short e da camisa são de dry-fit (ajuste seco, ao pé da letra).
Percorridos 12, 6 quilômetros, após atravessar o Túnel Muriqui (RJ - Itacuruçá (RJ), outro banho, passei pelo segundo túnel, no km 418, o Túnel da Praia do Saco, em Mangaratiba (RJ), com extensão de 474 metros.
Era sábado, dia 28/12/2002 e, às margens da rodovia Rio-Santos, foi possível avistar vários adoradores de Iemanjá, que faziam seus rituais à Rainha das Águas, em pequenas cachoeiras às margens da estrada.
Mães e Pais de santos misturavam-se aos seguidores
da seita e aos curiosos, que lotavam o acostamento da estrada para assistir ao
cerimonial.
Após Mangaratiba (RJ), veio uma sucessão de belas praias, bastante movimentadas naquele último sábado de 2002.
Passei pela Praia do Guity e, em seguida, pelo luxuosíssimo Condomínio Portobello Resort & Safári, Praia dos Pinheiros, Praia do Sítio Bom, Praia da Cruz, Praia do Castilho, Praia da Paciência, Praia da Jaquinha, Praia Dona Ana, Praia Garatucaia, Praia de Conceição de Jacareí, acesso à Praia de Portogalo e parada em Jacuecanga (RJ), na região do Estaleiro Verolme.
A sucessão de belas praias atravessadas, tem 41,5 quilômetros.
Calor saariano. Água de coco (coco é sem acento) a R$ 0,50 (preço de 12/2002).
Lembrei-me da viagem que fiz com minha filha Suzana (a caçula) por aquelas bandas no verão de 1997, ocasião na qual sequer imaginei percorrer o mesmo trajeto de bicicleta.
Angra dos Reis (RJ), local do 1º pernoite, não tardou a aparecer. Primeiro avistei as comunidades, com moradias assentadas nos morros que circundam a cidade, paisagem diametralmente oposta às residências, localizadas na parte baixa da cidade.
Num empório próximo ao Cais da Lapa, saboreei açaí na tigela [700 ml], acompanhado de delicioso sanduíche de frango. Estava muito quente para almoçar e, em seguida, pedalar.
Estada no Hotel Eri, uma casa antiga transformada em pensão.
O quarto parecia o mapa do Chile, ou seja, estreito e cumprido. A bicicleta ficou no quintal. A proprietária, uma senhora muito idosa e que falava pelos cotovelos, pediu para não colocar a bike no quarto, pois poderia sujar as paredes. Não caberia mesmo. O quarto é tão estreito, semelhante a um abrigo antibombas, que eu, com 1,80m de estatura, não cabia - deitado - entre as paredes.
Nada de TV no quarto, mas estava bom assim mesmo. O preço foi bem em conta e os hotéis, além de caros, estavam lotados.
Depois do banho fui dar uma volta pela cidade. Jantei cedo e voltei à pensão para descansar. Havia pedalado, porta a porta, naquele dia 28/12/2002, 182 quilômetros. No dia seguinte, mais 100 quilômetros até Paraty (RJ).
Comecei a ler, de José Saramago, a Bagagem do Viajante, tema bastante sugestivo para a ocasião. É um livro de contos.
Adormeci antes do terceiro parágrafo e dormi um sono pesado, sem sonhos.
2º Dia | 29/12/2002 |
ANGRA DOS REIS (RJ) A PARATY (RJ) | |
100 km |
Às 6h, fui acordado por uma ensandecida sinfonia canina. É a minha sina ser despertado dessa forma.
Onde moro, em Brasília (DF), é o mesmo inferno, principalmente nos finais de semana. Mesmo a tantos quilômetros da minha casa, não fiquei livre da ladainha canina matutina.
Tomei café em uma
panificadora próxima à pensão, arrumei meus haveres e parti para Paraty (RJ),
ingressando na rodovia Rio–Santos, um trecho da extensa Rodovia BR-101 às 8h30.
Fazia muito calor, mais do que no dia anterior, e o movimento de automóveis na Rodovia Rio - Santo, aumentava exponencialmente. A passagem de ano por aquelas bandas é muito concorrida.
Angra dos Reis (RJ), assim como a maioria das cidades brasileiras, não cresce; ela incha. Nos arredores existe uma expansão da cidade chamada Nova Angra, um bairro populoso e estruturado, localizado no Distrito de Cunhambebe, na jurisdição de Angra dos Reis (RJ).
A região do Frade, destino exclusivo e luxuoso, conta com marina para embarcações, heliponto, campo de golfe e o boulevard de lojas. A Praias do Frade é belíssimas e a nobreza tem suas casas de veraneios e seus barcos suntuosos para passeios pela Baía de Angra.
Do alto de uma ponte, tirei fotos da região.
Os viajantes, dos habitáculos de seus automóveis, não têm a mesma oportunidade que os ciclistas têm, ao ver as belezas da Rio – Santos.
Das pontes, por exemplo, o visual é magnífico, mas
não há acostamento para veículos de quatro ou mais rodas. Mas para bicicleta, os
espaços existentes [nas pontes] são suficientes e seguros para parar e apreciar
a paisagem. Logo surgiu a Usina Nuclear, na Praia de Itaorna, pedra podre em
língua Tupi.
A Usina Nuclear, hoje nas mãos da Eletronuclear, ainda continua a suscitar debates polêmicos. De um lado os elevados gastos, cerca de US$ 30 bilhões consumidos em uma empreitada cuja relação custo/benefício é bastante criticada: o elevado valor de implantação para um benefício pífio, pois a Usina gera 3% da energia elétrica consumida no País. Seu potencial é tão baixo que sequer aparece nos balanços energéticos elaborados pelo M.M.E.
Do outro lado existem aqueles que defendem que, a despeito do que foi gasto, a Usina de Angra colocou o Brasil em uma era tecnológica e o País passou dominar o know-how de enriquecimento de urânio, a partir de um projeto da Marinha do Brasil.
Mas o cerne da discussão está no fato de a
Alemanha, que nos vendeu a tecnologia nuclear a peso de ouro, ter anunciado [em
2000] a desativação de suas usinas nucleares, no máximo, em 20 anos, por
entender que essa forma de obtenção de energia é perigosíssima para o ambiente,
além do alto custo de operação.
Continuei a comprar água de coco por R$ 0,50. Muitos ambulantes à beira da estrada. O movimento de fim de ano crescia, todos estavam querendo faturar o seu.
Por volta do meio-dia deu lerdice total. O calor era sufocante. Do asfalto subia um bafo, impressão de estar com o inferno sob meus pés. Se tivesse naquela hora um termômetro de precisão, não me espantaria com temperaturas registradas na casa dos 42°C.
Silêncio das rodas em um ponto de ônibus à beira da estrada. Deitei-me no banco. Não havia ninguém esperando pelos coletivos que rodam por ali. Continuei deitado. Senti que era preciso esperar um pouco antes de prosseguir. Calor demencial. Faltavam uns 25 quilômetros para chegar a Paraty (RJ). Cochilei sob o "chilreio" monótono das incansáveis cigarras e seus gritos abrasadores.
Paraty (RJ) foi alcançada às 14h. Abandonei a Rio-Santos, dobrei à direita no trevo central da BR-101 e entrei na cidade pela Avenida Roberto Silveira.
Em frente à agência do Bradesco, dobrei à esquerda e
segui pela Rua João do Prado até o final, chegando à
Hospedaria Casa do Rio, um Albergue da Juventude, show de bola.
Fica às margens do Rio Perequê-Açu, tem ótimas instalações e excelente localização.
No albergue, todos ficaram espantados quando disse ter vindo do Rio de Janeiro (RJ) pedalando e ter outros 1.000 a percorrer, até voltar para casa.
Ficamos conversando até às 17h, quando saí para almoçar. Nem senti o tempo passar. Fui o último hóspede a chegar naquele 29/12/2002, um dia muito quente, com 100 quilômetros pedalados, em 5 horas e meia.
Nessa época de fim de ano, hospedar-se em Paraty (RJ) é uma tarefa muito dispendiosa. As pensões e hotéis utilizam sistema de pacotes: de R$ 600,00 a R$ 900,00 cinco dias para o casal. Os preços são de 12/2002.
Como viajei sozinho, nem hotéis nem pousadas quiseram hospedar-me, muito menos para único pernoite. O jeito foi procurar outra forma de acomodação. Recorri à Internet e nos sites de busca encontrei a Hospedaria Casa do Rio. Diária de RS 50,00. Preço de 12/2002.
Embora pareça um preço salgado para uma pessoa, acabou ficando em conta, se comparado aos preços dos pacotes vigentes nos demais estabelecimentos paratienses.
Terminado o almoço fui à rodoviária obter informações quanto aos horários dos ônibus para a praia de Trindade. Depois fui ao centro histórico. Paraty (RJ) fervilhava de gente e calor.
Às 18 horas, os alto-falantes das igrejas choraram no ar a Hora do Ângelus e a canção Ave-Maria encheu o ar da cidade.
À noite, o Centro Histórico da cidade parecia uma estufa. O calor acumulado durante o dia esquentou o asfalto, as paredes e o ar.
As igrejas estavam iluminadas, as ruas e os restaurantes lotados, as lanchonetes e os cafés eram pequenos para tanta gente. Era véspera de Ano Novo. Fazia um ano da morte da Cássia Eller.
Como era Paraty em 1640, época da fundação? Seria tão concorrida? Do ciclo do ouro, no século XVII, ao ciclo do turismo atualmente, Paraty (RJ) tem mais de 300 anos de história.
Será que aquela multidão que lotava a cidade tem conhecimento dessa história?
Será que sabem, por exemplo, que o porto de Paraty era o segundo mais importante do Brasil Colônia?
No início do ciclo do ouro, uma viagem de Ouro Preto a Paraty,
transportando o precioso metal, em lombo de animais, era feita em um mês.
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3º Dia |
30/12/2002 |
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PARATY (RJ) A TRINDADE (RJ) |
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ÔNIBUS |
Segui no ônibus das 10h, que saiu às 11h, para a praia de Trindade [8].
[8] - A
estrada de Trindade passa pelo morro do Deus-me-livre, assim conhecido por sua
dificuldade em atravessá-lo, principalmente em dia de chuva.
Hoje, a situação mudou. A estrada
está asfaltada. Isso é bom para os moradores e para os turistas, mas assusta e
preocupa quando vemos um volume exagerado de pessoas, como em feriados
prolongados, podendo trazer importantes consequências para o ambiente.
Na estrada, à esquerda, está o
começo de uma trilha (que não está sinalizada) que vai para a Praia Brava.
Depois de 30 minutos de caminhada, chega-se a uma praia espetacular, que está
sempre deserta, rodeada de Mata Atlântica.
As ondas são fortes e tem fonte de água doce.
Voltando à estrada e seguindo em frente, chega-se à Praia do Cepilho, a preferida dos surfistas.
Um barzinho localizado estrategicamente
acalma a sede, a fome e o cansaço. Atravessando em seguida um pequeno riacho,
avista-se logo a Vila.
Ao longo de toda a Vila está a Praia de Fora ou dos Ranchos. Esta denominação se refere aos "barzinhos" de beira-mar onde se pode matar a sede, a fome e, se for época de Lua Cheia, pode-se esperar o nascer [da lua] no horizonte. É de arrepiar!
As pedras arredondadas, que dão beleza ao lugar, estavam cheias de banhistas, que pareciam morsas antárticas, aquecendo-se aos primeiros raios solares do Verão Austral.
Fui a Trindade de ônibus, pois não teria onde deixar [na praia] a bike em segurança. Fiz longas caminhadas até as partes mais distantes da muvuca e consegui fotos sensacionais. O banho de mar foi magnífico.
Do alto da Serra do Mar descem vários rios que proporcionam belos banhos de água doce. Existem várias trilhas que levam às praias da região.
O calor era forte e desaconselhável, àquela hora, para encarar o sobe e desce de morros para alcançar essas praias.
Na hora do almoço não havia um lugar sequer nos bares da praia. Com muita boa vontade, um argentino, dono de pequeno restaurante, acrescentou uma mesa para mim, mesmo assim a comida demorou cerca de uma hora para ser servida. Gostosa, porém cara.
Resumindo: o passeio à Praia de Trindade foi um PI (Programa de Índio), cotado com 10 machadinhas. Ônibus lotado, atrasado, gente em profusão por todos os lados, cerveja quente, trânsito engarrafado no vilarejo e muito, muito calor. Valeu pelo banho de mar e pelas fotos. Retornei a Paraty (RJ) ao entardecer.
Jantei e fiquei até tarde conversando com o pessoal do albergue. Enquanto eu fui a Trindade, eles foram passear na antiga trilha do ouro e tomar banho nas várias cachoeiras localizadas às margens da Rodovia RJ-165.
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4º Dia |
31/12/2002 |
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PARATY (RJ) A CUNHA (SP) |
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46 km |
Último dia do ano e o mais quente até então. Às 8 horas da manhã a temperatura, no Centro Histórico de Paraty (RJ), era de 30°C.
Cometi um grave erro ao não sair cedo. Subestimei os 46 quilômetros a percorrer naquele último dia do ano.
Antes de pegar a estrada, fui ao
Centro Histórico para umas fotos. O céu estava esplendidamente azul, cheio de Sol e sem
nuvens. Não poderia perder aquele cenário. Caso não o fizesse, me arrependeria.
Deixei Paraty para trás às
12h, a hora do zênite ou Sol a pino; a pino e escaldante.
Pela Avenida Roberto Silveira cheguei ao entroncamento com a Rodovia BR-101 (Rio - Santos), atravessei-a e ingressei na Rodovia RJ-165, com ciclovia paralela, por 8 quilômetros, finalizada no Bairro Pantanal, ponto a partir do qual executei uma conversão de 90° à direita para atravessar a ponte de madeira sobre o Rio Perequê–Açu.
Finalizada a travessia, conversão à esquerda, quando tem início uma obstinada ascensão contínua, com 15 quilômetros de extensão, que termina ao alcançar a divisa dos Estados do Rio e de Sã Paulo, local no qual a Rodovia RJ-165 passa a ser Rodovia SP-171.
No 8º quilômetro, percorridos em 1 hora, parei no Povoado de Penha para tomar água.
A igreja, como todas nomeadas "da Penha" - que significa penhasco -, está no alto de um promontório, às margens da Rodovia RJ - 165.
Um beiral, construído no entorno do templo, permite observar a paisagem formada pela Serra do Mar, atapetada pela Mata Atlântica.
A proprietária do empório ficou surpresa quando lhe disse que estava indo para Cunha (SP): “o senhor está muito animado moço". "Cunha fica longe e têm muitas subidas, além do trecho de terra que é ruim demais”.
É ruim demais porque, faltando 10 quilômetros para a divisa RJ/SP, a Rodovia RJ - 165 atravessa o Parque Nacional da Serra da Bocaina, em trecho de terra ou leito natural.
O IBAMA não permite que aquele trecho (de 10 quilômetros) seja asfaltado.
À medida que subia, o calor e a inclinação da estrada aumentavam. O movimento de veículos rumo a Paraty (RJ) era intenso. Na direção que eu seguia, era inexistente. Afinal quem iria passar o ano novo em Cunha (SP)? Eu!
Existem chácaras, casas de veraneio, algumas pousadas e ateliês ao longo da Rodovia RJ-165. Quanto mais subia, mais bonita ia ficando a paisagem da região.
A Baía de Paraty, lá embaixo, em meio à vegetação da Mata Atlântica, proporcionou um visual magnífico (foto).
Às 16h, após ter pedalado 12 quilômetros - em apenas 2 horas - desde a saída de Paraty (RJ), a estrada de asfalto deu lugar à estrada de terra ou em leito natural e ingressei na área do Parque Nacional da Serra da Bocaina - subgrupo da Serra do Mar.
“e aí mano"! "Vai aonde", perguntou-me o motorista.
“Pretendo chegar a Cunha (SP), ainda hoje”. respondi.
“Mas essa estrada está ruim para pedalar e cheia de pedra soltas e valas", complementei.
“Bota a bike aí na caçamba que eu te levo ", falou o motorista.
“Vou para Lorena (SP) e te deixo na divisa SP/RJ, complementou”.
"DEMOROU"! Agradeci e não perdi tempo.
Ajeitei a bike na caçamba da Pick-Up Corsa, acomodei-me como foi possível, fui comendo poeira e sacolejando como se estivesse num caminhão pau de arara.
Esses dois camaradas caíram do céu. Foi uma bela ajuda. Se não fosse assim, não sei se chegaria a Cunha (SP) naquele ano (2002); talvez, no seguinte (2003).
Quando o trecho da RJ - 165, em leito natural, acabou, pedi para que parassem.
O Sol testemunhava tudo à minha volta, um verde contemplativo.
Bem no ponto conhecido como "virada da serra", onde está a divisa RJ/SP, desci a bike da Pick-Up Corsa, agradeci a solidariedade da dupla, voltei a pedalar no asfalto, a Rodovia RJ - 165 ficou para trás e ingressei na Rodovia SP - 171. Bem-vindo Estado de São Paulo.
Cunha (SP) a 23 quilômetros.
ATUALIZAÇÃO |
A etapa entre o início do Parque Estadual da Serra da Bocaina e a divisa RJ/SP, registrada neste relato como muito ruim e sempre em péssimo estado de conservação, foi calçada com bloquetes. Fim do tormento. Obra concluída em 2015. Alvíssaras. Fotos: Fernando Mendes, em viagem de bike Paraty (RJ) a Ouro Preto (MG), maio 2022. |
Eram 18h. Fazia 6 horas que havia saído de Paraty (RJ); 6 horas gastas para pedalar, em fortíssimo ângulo de inclinação, que chegou a picos de 8 a 9%, parcos 23 quilômetros.
Devido ao Horário Brasileiro de Verão, restavam duas horas de luz natural, tempo suficiente para percorrer os 23 quilômetros finais até Cunha (SP), em trecho com predomínio de descensos, à exceção de uma subida contínua, com três quilômetros, na chegada à Cidade das Cerâmicas (Cunha - SP).
A média horária voltou a subir, a paisagem é belíssima, mas o calor, mesmo naquela altitude (1.540 m), arrefeceu pouco, apesar do aumento da velocidade nas descidas.
Graças àquelas duas almas caridosas que me “rebocaram”, cheguei a Cunha (SP), são e salvo e muito empoeirado, como um trabalhador de mina de carvão.
Às 19h20 atravessei o portal a cidade de Cunha (SP) e cheguei à Praça da Igreja Matriz do Rosário.
Havia um palanque sendo montado em frente ao templo e o som estava sendo testado para a festa da virada do ano.
Enquanto fazia o check-in no Hotel Portal do Sol, tocava - na praça, a título de teste -, a música “Que nem Maré”, de Jorge Vercilo, canção na qual o autor diz que: “a saudade é que nem maré, quando vem, de repente, de tarde, invade e transborda esse bem me quer". "A saudade é que nem maré".
A cidade estava pouco movimentada naquele início da última noite do ano de 2002.
Após merecido banho, no qual tive sensação de ter trocado a pele, empoeirada da estrada, por outra nova e limpa, voltei à rua para degustar uma deliciosa pizza. Somente eu no restaurante. O garçom falou que o movimento nas ruas aumentaria pouco depois das 22h. Dito e feito.
Aos poucos, a Praça da Matriz, em [9] Cunha (SP), estava tão cheia quanto uma partida decisiva de Fla-Flu, guardadas as devidas proporções.
Veio gente dos quatro pontos cardeais.
Da janela do meu quarto no hotel, assisti à queima de fogos, quando os ponteiros do relógio da Igreja Matriz se juntaram no 12.
Os fogos explodindo no céu estrelado daquela noite tropical, duraram 20 minutos, o mesmo tempo da queima em Copacabana.
Fazia um ano que estava em Pirassununga (SP), assistindo pela TV, do hotel no qual pernoitei, a passagem de ano (2001/2002). Naquela ocasião, eu viajava de Brasília (DF) ao Rio de Janeiro (RJ), obviamente, pedalando.
Consegui dormir depois das 3 da manhã, quando o som
foi desligado na praça e cada um foi para suas casas.
[9] - O povoamento das terras hoje pertencentes a Cunha (SP) teve início durante o ciclo do ouro, com a criação de várias fazendas ao longo da Trilha dos Guayanazes, ou o Caminho do Ouro, que ligava a região da Capitania de Minas ao porto de Paraty.
Presume-se
que o topônimo (origem do nome) seja derivado de uma das famílias, Cunha
Menezes, que aqui estiveram.
Nas atividades econômicas,
destaque para a agricultura, com o cultivo de milho, feijão, batata inglesa,
cana-de-açúcar; a agropecuária, com a produção de ovos, mel e leite; a
fruticultura de clima temperado e a piscicultura de trutas.
Para desenvolver o
artesanato (a cerâmica é o
forte do município), Cunha (SP) oferece a Casa do Artesão.
A cidade
tem 22 mil habitantes e 80% deles se concentram na área rural, garantindo a
comidinha caseira e os produtos naturalmente servidos à mesa.
Entre os melhores
restaurantes, garanta seu lugar à mesa do Quebra Cangalha, onde a comida tem
sabor da serra e o ambiente é aconchegante; o Recanto Uruguayo serve como pouso
aos turistas apreciar as guloseimas da Doceria da Cidinha, na praça da Matriz
Nossa Senhora do Rosário.
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5º Dia |
01/01/2003 |
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CUNHA (SP) A QUELUZ (SP) |
|
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46 km |
O céu cheio de Sol e sem nuvens, anunciava que, o primeiro dia do Ano da Graça de 2003, seria belíssimo e bastante quente. E o foi.
Àquela hora - umas 9h, talvez -, enquanto saboreava o café da manhã, a temperatura era alta.
Ao pedalar rumo à saída da cidade, para alcançar a Rodovia SP - 171, passei por um relógio digital, próximo à Pousada Clima da Serra, que marcava 31°C. Canícula senegalesa.
Parada para fotos da Igreja Matriz do Rosário.
Era dia da posse do presidente Lula em Brasília (DF), onde, àquela hora, chovia a cântaros. Em Cunha (SP), assim como em toda a rota a ser seguida naquele Dia Mundial da Paz, o tempo estava esplêndido.
A cidade é circundada pela Serra do Mar e as araucárias são vistas por todos os lados.
Atravessei o portal da cidade e voltei à Rodovia SP-171, que me levou, por meio de fortes subidas e alucinantes descidas – intervaladas por belos vales floridos -, até Guaratinguetá (SP), no Vale do Paraíba, 46 quilômetros adiante.
A Rodovia SP–171 estava muito ruim, com diversos remendos em asfalto gasto e acostamento repleto de terra fofa.
O movimento era quase
zero, proporcionando pedalar tranquilamente, desfrutando de uma paisagem
belíssima da Serra do Quebra Cangalha (subgrupo da Serra do Mar),
que se mistura às araucárias e a pequenos cursos d’água, margeando a
estrada, cortando–a, enquanto atravessava pequenas pontes de concreto.
Às 13h30 cheguei a Guaratinguetá (terra das garças brancas), abandonei a Rodovia SP-171 e, pela alça de acesso, ingressei na Via Dutra, pista sul, na direção de Queluz (SP), 57 quilômetros adiante.
A Rodovia Rio - São Paulo, diferentemente dos demais dias do ano, quando o movimento de veículos é frenético, estava silenciosa. Passavam poucos carros e caminhões.
Às 13h30 cheguei a
Guaratinguetá (terra das garças brancas), abandonei a Rodovia SP-171 e, pela
alça de acesso, ingressei na Via Dutra, pista sul, na direção de Queluz (SP),
57 quilômetros adiante.
A Rodovia Rio - São Paulo, diferentemente dos demais dias do ano, quando o movimento de veículos é frenético, estava silenciosa. Passavam poucos carros e caminhões.
Observei, nos postos à beira da estrada, muitos veículos estacionados. Era pouco provável que, àquela hora, voltassem à estrada
A transparência e luminosidade daquele primeiro dia do ano, permitiram divisar, enquanto pedalava pela Via Dutra, no meu través Oeste (à minha esquerda), a Serra da Mantiqueira, sem nuvens nos pontos mais altos – coisa rara –, proporcionando belo contraste entre o granito de suas rochas e o azul do céu.
No meu través Leste (à minha direita), a
Serra do Mar descortinava espetáculo de igual monta.
Parei em uma churrascaria no km 62,5. Muitas pessoas se aglomeravam defronte a vários aparelhos de TV, presos às pilastras, no interior do estabelecimento.
Caso não estivesse
atualizado com os fatos que iam pela Pátria, podia jurar que estávamos em dia
de jogo da Seleção Brasileira pela Copa do Mundo. Nada disso. Todos estavam
atentos às imagens que mostravam a posse do presidente Lula, em Brasília (DF).
A festa pareceu-me bastante concorrida. Mais tarde, quando assisti ao JN, pude sentir o quanto a posse do Lula “mexeu” com o País.
Às 15h, após esplêndido almoço, voltei à estrada, pedalei forte, por meio de longa reta e, uma após outra, transpassei - pela ordem - os seguintes municípios: Lorena (SP), Canas (SP), Cachoeira Paulista (SP) - sede do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) -, Cruzeiro (SP), entrada para Silveiras (SP) - a cadeia dessa localidade foi projetada por Euclides da Cunha - e, a seguir, parei no majestoso trevo de Lavrinhas (SP), o mais belo da Via Dutra.
Naquele ponto, o Trevo de Lavrinhas e a majestosa ponte sobre o Rio Paraíba do Sul, construída sobre arcos romanos, são atrativos imperdíveis para fotos.
Quando retornei à estrada, senti uns pingos. Seria chuva? Impossível! O céu estava azul e sem nuvens. Bem, quase sem nuvens.
Acima de mim, ou seja, na minha vertical, alguns Cb´s, densos e verticalizados, moviam-se, segundo minha leitura visual, não muito precisa, a uns 2 mil metros acima do solo.
São acompanhados [os Cb] de ventos intensos, granizo, fenômenos elétricos e congelamento. Representam perigo maior à navegação aérea em relação às navegações terrestre e às marítimas.
Não podia ignorar os perigos desse tipo de formação sob minha cabeça e seus múltiplos fatores, principalmente, a queda de raios e, secundariamente, precipitação de granizo.
Rapidamente um aguaceiro vertical desabou como se a tampa de uma caixa d´água gigante tivesse sido aberta sobre mim. Os pingos, à semelhança de bagos de uvas, eram grossos e multiplicavam-se, à medida que as trovoadas eram anunciadas por flashes (clarões) dos relâmpagos. Em poucos segundos, estava sob um temporal típico de verão.
Choveu forte por trinta minutos e me vi obrigado a parar, porque o asfalto ficou escorregadio, não para a bicicleta, mas para os veículos que transitavam pela Dutra.
Era possível sentir o cheiro do óleo que se desprendia do asfalto.
Parei no Posto Quatro Irmãos. Estava ensopado. Não tive coragem de adentrar ao estabelecimento, naquele estado em que me encontrava. Pedi uma Coca-Cola do lado de fora. O atendente veio, me serviu e perguntou de onde eu estava vindo e aonde (o mesmo que para onde) eu estava indo.
Pergunta que se tornou rotina quando viajo de bicicleta. Depois da resposta, acerca do trajeto, veio cara de espanto. Estou acostumado ao semblante assustado dos meus interlocutores quando digo de onde venho e para onde vou. “Está pagando promessa”, me perguntou.
Por que será que as pessoas associam promessa com autoflagelação? Pagar promessa é sinônimo de se autoflagelar? Viajar de bicicleta é autoflagelação? Não creio. Para mim, viajar de bicicleta [ou não] está entre as coisas que mais amo nesta existência. Acredito que vivi muitas vidas, das quais, suspeito, ter passado a maior parte delas viajando, de bicicleta ou não.
Eram 17h quando retomei à bike e à Dutra. O asfalto estava encharcado e não demorou a surgiu aquela névoa característica de superfícies aquecidas depois da chuva.
A drenagem da Dutra está muito boa. Nada de poças d´água que provocam aquaplanagem. O calor aumentou. Subia do asfalto um bafo quente e pesado, acompanhado de um agradável odor de terra molhada.
Às 17h45 o Hotel Athenas, estalagem do pernoite daquele dia primeiro do ano de 2003, foi avistado, à esquerda, na pista direção São Paulo, a pista Sul, no km 8.
Atravessei a Dutra pela passarela, entrei no estabelecimento, check-in feito e mais uma etapa concluída em segurança.
Acomodação em um quarto virado para a estrada. No ano passado, quando fui de Brasília para o Rio [de bike], hospedei-me no Athenas.
Naquela viagem fiquei em um quarto do lado oposto à rodovia, defronte a um terreno baldio, na esperança de dormir sem o barulho do vai e vem de veículos. Ledo engano.
De madrugada, um galo sem noção, começou uma cantoria com intervalos exatos de 30 segundos. Desta feita, preferi o barulho da estrada ao canto do galináceo.
A noite foi muito maldormida por conta do calor, que deixou o quarto com ar abafado e nem o ventilador do teto arrefeceu o ambiente.
6º Dia | 02/01/2003 |
QUELUZ (SP) A BANANAL (SP) | |
90 km |
Depois de uma noite abafada, calorenta e mal dormida, arrumei meus haveres, tomei um excelente café da manhã e, às 10h, rumei na direção de Bananal (SP), distante 90 quilômetros de Queluz (SP).
Atravessei a Dutra, da Pista Sul para a Pista Norte, transpassando a passarela elevada, que desemboca na Pista Norte - direção Rio de Janeiro (RJ) - e, por alguns metros - uns 450, talvez -, pela alça de acesso à direita, cheguei à área central de Queluz (SP), com trânsito e frenético e muitos condutores pareciam apressados.
O hábito da pressa não tem vacina. Pressa no trânsito: comportamento comum em quase todas as áreas urbanas do País.
Queluz (SP), apesar dos diminutos 9.704 habitantes (IBGE 2025), quanto ao comportamento de muitos motoristas, não foge à regra.
Livrei-me daquele frenesi, atravessei a ponte sobre o Rio Paraíba do Sul e ingressei na rodovia SP- 68, a Estrada dos Tropeiros. [10]
[10] - A Estrada dos Tropeiros foi o caminho utilizado no
século XVII até parte do XIX, nas viagens dos tropeiros na região Sudeste e
Sul. Há várias Estradas dos Tropeiros no Brasil, mas a mais importante é a
atual SP-68, ligando Silveiras (SP) a Bananal (SP).
A mesma estrada serviu de base para a antiga Rio-São Paulo, que utilizou as trilhas como orientação do melhor caminho para chegar ao Vale do Paraíba.
Foi pela Estrada dos Tropeiros (SP-68) que D. Pedro I passou na viagem entre Rio e São Paulo, no ano de 1822, quando o Brasil se emancipou de Portugal (1822).
A história do Brasil, e principalmente dos brasileiros, está presente em cada curva.
No trajeto, principalmente entre Silveiras (SP) e Bananal (SP), surgiram cidades que hoje conservam sua majestade, nas construções históricas e atrações naturais.
A
aparente decadência desses sítios revela os ciclos da vida, e as cidades dos
Tropeiros, situadas estrategicamente, em média, a quatro léguas (24 km), entre uma e outra, estão ressurgindo por meio do ecoturismo, o tropeirismo contemporâneo.
A Estrada dos Tropeiros é o Circuito das Cidades Históricas de São Paulo.
Mesmo que as construções não sejam tão importantes historicamente, o cenário que oferecem permite, sem nenhuma dificuldade, uma superprodução cinematográfica, reconstituindo a história do Tropeirismo.
Como se não bastasse, a natureza é generosa na região,
tendo como destaque o Parque Nacional da Serra da Bocaina.
As árvores centenárias oferecem a
sombra do tempo, dos séculos e são silenciosas testemunhas de um passado que o
Brasil não pode esquecer.
Quem viaja pela Estrada dos
Tropeiros (SP – 068), decerto irá aumentar seu saldo de conhecimento sobre a
História do Brasil.
Na Serra da Bocaina, pode-se perceber que, no estresse da vida moderna, há pessoas que vivem em outro ritmo e refletir sobre a "pressa", palavra que passou a dominar o cotidiano de muitas pessoas.
Descrevo, mais detidamente, as características das - segundo Monteiro Lobato - "cidades mortas" do Vale do Paraíba".
Ao longo do século XIX, as cidades do Vale Histórico, representaram a porção mais rica e desenvolvida do Brasil.
[11] - Cone Leste Paulista é uma expressão que ainda não consta nos livros didáticos de Geografia.
Porém, desde 1996, tem sido amplamente usada para se referir aos 43 municípios localizados na Serra da Mantiqueira, Vale do Paraíba, Alto Paraíba, Litoral Norte e Vale Histórico do Estado de São Paulo.
Ei-los na tabela que se segue.
Nota e tabela confeccionadas pelo Autor.
Serra da Mantiqueira 4 Municípios | 1. Campos
do Jordão | ||
2. Santo
Antônio do Pinhal | |||
3.
São Bento do Sapucaí | |||
4. Monteiro
Lobato | |||
Litoral Norte de São Paulo 4 Municípios | 1. Caraguatatuba | ||
2. São
Sebastião | |||
3. Ubatuba | |||
4. Ilhabela | |||
Vale Histórico 10 Municípios | 1. Cruzeiro | ||
2.
Silveiras | |||
3. São José
do Barreiro | |||
4.
Lavrinhas | |||
6. Areias | |||
7. Arapeí | |||
8. Queluz | |||
9. Piquete | |||
10.
Bananal | |||
Alto Paraíba 12 Municípios | 1.
Guararema | ||
2. Jambeiro | |||
3. Natividade
da Serra | |||
4. Santa
Branca | |||
5. São Luiz
do Paraitinga | |||
6. Mogi das
Cruzes | |||
7. Igaratá | |||
8. Lagoinha | |||
9.
Paraibuna | |||
10. Santa
Isabel | |||
11. Redenção
da Serra | |||
12. Salesópolis | |||
Vale do Paraíba Paulista 13 Municípios | 1. São José
dos Campos | ||
2. Caçapava | |||
3.
Pindamonhangaba | |||
4. Jacareí | |||
5.Taubaté | |||
6.Tremembé | |||
7.
Guaratinguetá | |||
8. Canas | |||
9. Potim | |||
10. Roseira | |||
11.
Cachoeira Paulista | |||
12. Lorena | |||
13.
Aparecida | |||
De Queluz (SP) a Bananal (SP) pedalei por uma região belíssima. A serra da Bocaina, subgrupo da Serra do Mar, domina a paisagem e configura a estrada (Rodovia dos Tropeiros SP-68), num sobe e desce leve e constante.
Medianas subidas até Areias (SP), por onde passei às 11h20. O sobe e desce permanece pelos 22 de quilômetros até São José do Barreiro (SP), alcançada às 13h10.
Cheguei à pequena Formoso (SP), distrito de São José do Barreiro, às 14h15, uma cidade que, de tão pequena, não consta nos mapas rodoviários.
Vencidas as subidas e as descidas leves, passei por Arapeí (SP). Eram 16h. Comi uns pastéis de queijo deliciosos. O cheiro estava no ar e me guiou ao bar no qual estavam sendo servidos.
Os 18
quilômetros finais para alcançar Bananal (SP) foram percorridos em 1 hora e fechando o circuito das cidades históricas de SP, às 17h. O nome
"Bananal" deriva do tupi banani, que significa "rio
sinuoso".
Encontrei o Hotel Brasil, reservado e localizado em frente à praça principal de Bananal, fechado. Uma briga de família acabou cerrando as portas da mais antiga hospedaria da cidade. Acomodei-me, então, na Pousada DK, inaugurada recentemente e vizinha à Pharmácia Popular.
Tomei banho, fiz os exercícios de alongamento e lavei a roupa utilizada, aproveitando a lavanderia da pousada. Não sei quando teria outra à disposição. Terminada as obrigações, saí para uma volta pela cidade.
Em Bananal (SP) existe aquele ar de localidade pequena na qual a vida decorre monótona e placidamente. Mas durante a semana. Nos finais de semana, feriados prolongados e férias escolares, a cidade é "invadida" por uma horda de amantes de esportes radicais [ou não].
A monotonia e a placidez transformam Bananal (SP), de esquecida após o término do Ciclo do Café, num sítio onde turistas bebericam as belezas naturais e arquitetônicas. Os casarões dos
falecidos barões do café podem ser vistos pelas ruas. Bananal (SP) [12] foi a cidade que financiou o
Brasil.
[12] - A origem de Bananal está ligada à
construção de uma alternativa, naquela época, que permitisse viajar entre o Rio de
Janeiro e São Paulo, sem enfrentar a difícil viagem por mar, a partir de Paraty (RJ).
No fausto do Ciclo do Café, Bananal (SP) tornou-se uma
potência econômica da época, a ponto de, no Brasil Império, ter sido necessário
o aval de fazendeiros da região, para que o Banco Rotschild (família judia, com origem em Hamburgo, Alemanha,
que estabeleceu uma dinastia bancária na Europa) emprestasse
dinheiro ao Brasil.
Durante
sua época áurea, Bananal (SP) assistiu à construção de inúmeras casas e
fazendas, cuja opulência e refinamento confirmam o poderio econômico dos barões
do café.
Em 1832 passou a ser cidade.
A riqueza era tanta que, durante bom
tempo, teve moeda própria, financiou a construção de uma ferrovia, importou uma
estação ferroviária completa da Bélgica, exemplar único na América Latina.
Ao final do século XIX, com fim da escravidão, os sinais de cansaço da terra eram evidentes.
Estradas asfaltadas deram ponto final ao ciclo de desenvolvimento de Bananal (SP).
Com a
inauguração da Via Dutra (1951), a cidade de Bananal (SP) ficou fora do circuito Rio- São
Paulo. Foi relegada ao esquecimento.
Devido ao seu potencial
histórico, seu rico artesanato e grande número de atrações turísticas, Bananal
(SP) começou a dar sinais de recuperação.
Hoje é um polo turístico em pleno desenvolvimento.
Situada a apenas duas horas do Rio de Janeiro e 4 horas de São
Paulo, a cidade possui atrações naturais e culturais que lhe garantem um futuro
brilhante.
Além da Estação
Ferroviária e das Fazendas Resgate e Boa Esperança, absolutamente imperdíveis,
o visitante fica deslumbrado com a riqueza dos sobrados da Rua Manoel Aguiar,
as inúmeras construções históricas espalhadas pela cidade.
A Igreja Matriz, Senhor Bom Jesus do Livramento,
motivo de orgulho de seus mais de 9.000 habitantes (IBGE - 2003), foi construída em 1811, em
estilo colonial.
Em 2022, Bananal abrigava 9.969 habitantes e em 2025 concentrava 10.097 habitantes (IBGE - 2022 e 2025).
A riqueza da cidade
era tanta que até uma farmácia ganhou dimensões históricas, como é o caso da
Pharmácia Popular, que funciona desde 1830.
Surgiu inicialmente como Pharmácia Imperial, mas com a República, ouviu os conselhos e mudou de nome.
É a mais antiga do
País em funcionamento, com peças únicas do século XIX.
A Estação Ferroviária de Bananal, importada da Bélgica, em modelo pré-fabricado em placas de aço, foi inaugurada em 1889, sendo um dos acervos mais valiosos do Estado de São Paulo.
A Estrada de Ferro Bananal começou a ser construída em 1882, e a linha, partindo da Estação de Saudade, em Barra Mansa (RJ), no ramal de São Paulo, chegou a Rialto, ainda na Província do Rio de Janeiro, em 1883. No Natal de 1888, alcançou Bananal (SP).
Em 1918, a União encampou a ferrovia, mas por um curto período. Em 1931, esteve subordinada à E. F. Oeste de Minas, mas voltou a fazer parte do ramal da E. F. Central do Brasil. Foi desativada em 01/06/1964.
Em um Brasil de alma rodoviária, a era romântica das ferrovias teve vida curta. Ao conhecer a Estação Ferroviária de Bananal foi possível sentir a nostalgia que está presente entre os habitantes com idade avançada.
Este sentimento saudoso aumentou, ainda mais, quando a antiga Estação Ferroviária virou estação rodoviária. A economia do Brasil foi sobre trilhos; hoje é sobre rodas.
A Locomotiva 302 [13] está estacionada – para sempre – ao lado da estação.
[13] - A desativação da estrada de ferro paralisou o vai e vem da 302 que, por décadas, ligou Bananal (SP) a Barra Mansa (RJ).
(Nota do Autor).
Ignácio Loyola Brandão, à página 57, na obra Dutra 50 Anos, quatro séculos em cinco horas, publicado pela Editora paulista DBA (Dorea Books and Art – SP) e com apoio do Ministério da Cultura, em homenagem aos 50 anos da mais famosa e importante estrada do País, escreveu: "na altura de Barra Mansa, pode-se tomar a estrada (RJ-157/SP-68) que passa por Bananal. Monteiro Lobato chamou-a de "cidade morta".
"A povoação de Bananal, depois dos recordes na produção de café, estagnou e retrocedeu. A população diminuiu. Nas épocas áureas chegou a ter 25 mil habitantes. Hoje, não passa de 9 mil".
Em 1822, a caminho de
São Paulo, D. Pedro I pernoitou na cidade. Por ela passaram, também, os
naturalistas Spix, Martius e Saint-Hilaire.
Ficava em Bananal (SP) a maior fazenda do Império, a Boa Vista, com 2.400 escravizados. Hoje é um hotel-fazenda.
As casas das fazendas ostentavam afrescos de pintores europeus, e plantadores contratavam professores particulares de música, latim, francês, alemão, até inglês.
O lustre do palacete de Dom Domiciniana Vallim media 1,80 metros de diâmetro. As maçanetas de quase todas as casas eram de cristal.
O Visconde de São Laurindo possuía um aparelho de jantar de duzentas peças, com suas iniciais gravadas em ouro.
As grandes famílias moravam nas fazendas, mas cada uma possuía um imenso sobrado nas áreas urbanas.
No teatro Santa Cecília, decorado pelo pintor Villarionga – autor de incontáveis afrescos pelas mansões –, era proibido vaiar e jogar coisas no palco, excetuadas flores e grinaldas, em forma de aplausos.
Durante o Segundo Reinado (1840 a 1889), a cidade teve dezenove jornais. Franceses abriram a padaria mais moderna do Vale do Paraíba, a À La Gerbe d´Or, que oferecia pães de viagem recheados com paio, linguiça, frango e pombo.
No Rio de Janeiro, as mulheres de Bananal compravam seda pura da China, seda lavrada, brocados, tafetás, linho belga. Nas festas, cabeleireiros vinham da Corte, pagos a peso de ouro.
O Bazar Bananalense mantinha um estoque de Champanhe Clicquot, vinhos do Porto e de Bordeaux, Genebra Holandesa, Cerveja Basse, peito de peru (uma novidade), camarões, salmão, lagosta, patês, salame de Lyon, queijo do Reino, mostarda francesa.
Toda casa tinha sua cozinha, sua doceira, sua especialista em pães e broas, roscas e biscoitos, sequilhos. A mãe-benta de Bananal ainda é um quitute dos mais apreciados.
Era a aristocracia rural em seu clímax. Nos anos de 1864-5, a renda de Bananal superou até mesmo a renda da capital da província.
No entanto, outras regiões passaram a plantar café de excelente qualidade. As terras do Vale cansaram, viram-se sujeitas a erosão e pragas.
Com a abolição da escravatura (1888), os senhores de café ficaram sem mão de obra.
Não tinham se preparado, não tinham contratado nem tinham como contratar colonos. Foram perdendo terras, abandonando fazendas. Fortunas se dissolveram. Sensível melhora aconteceu quando a estrada velha do Rio a São Paulo passou pela cidade.
O comércio se intensificou um pouco e o movimento de veículos cresceu. Mas por pouco tempo.
A Dutra, inaugurada em 1951, passa longe de Bananal (SP), que se esvaziou, caiu no silêncio. Hoje, tenta sobreviver com o turismo interno. O crochê de barbante é uma especialidade local.
Bananal é a imagem da vida que se foi. Da glória, dinheiro e poder.
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7º Dia |
03/01/2003 |
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BANANAL (SP) A QUATIS (RJ) |
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52 km |
Deixei a cidade da opulência, de outrora, às 10h e iniciei a jornada daquele dia 3 de janeiro, com tempo firme, Sol forte, céu com nuvens de brancura láctea, sem formas definidas e muito, muito calor.
Fui pedalando de leve pelas ruas de paralelepípedos até alcançar a SP-64, que liga Bananal (SP) à divisa com o Estado do Rio, numa extensão de 16 quilômetros.
Ingressado em terras fluminenses, pedalei placidamente outros 10 quilômetros, pela Rodovia RJ-157, a Rodovia Engenheiro Alexandre Drable [14], até Barra Mansa (RJ).
Entrei na cidade por um bairro muito pobre, com casas inacabadas, muitas roupas nos varais, cercas separando quintais e parabólicas em profusão sobre os telhados.
[14] - Amyr Klink, em seu livro, Mar Sem Fim, uma viagem de 360º ao redor da Antártida, à página 123, faz o seguinte comentário, que considero deveras pertinente:
“vício incurável esse, o de dar nome de pessoas, mortas [ou não], às coisas públicas, e, pior ainda, de mudar nomes às vezes naturais e espontâneos de obras, vias ou lugares.
Assim, a estrada caminho do ouro (SP-171) para descer até Paraty (RJ), ganhou o nome estapafúrdio de Estrada Vice-Prefeito Salvador não-sei-o-quê”.
"A SP-64 chama-se Rodovia Álvaro Brasil Filho, a RJ-157 chama-se Rodovia Engenheiro Alexandre Drable.
Pelo Brasil afora, são inúmeros os exemplos de duplo desrespeito, ao se tirar o nome genuíno dos lugares e o de roubar o nome do defunto, quase sempre sem seu consentimento".
Ao terminar a travessia desse bairro, feita por uma rua estreita e cheia de lombadas, veio uma descida forte, que termina na alça de acesso à Via Dutra. Tomei a direção de São Paulo, mas o pedal interrompido por uma causa justa: almoço.
Diferentemente do 1º dia do ano, quando pedalei pela Dutra, no trecho Guaratinguetá (SP) a Queluz (SP) e o movimento era muito pequeno, naquele dia 3 de janeiro de 2003, uma sexta-feira, a Dutra estava movimentadíssima – como sempre – e entrei, rapidamente, na estrada, em meio àquele frenesi de veículos de variados tamanhos e número de rodas.
Pedalei, sem trégua, por 20 quilômetros até a saída 290, acesso à pequena Quatis (RJ). Abandonei a estrada pela saída lateral à direita e ingressei na RJ-159, recém-asfaltada, que me levou a Porto Real (RJ), sítio da fábrica da Peugeot, a primeira da marca no Brasil.
Após atravessar uma ponte sobre o Rio Paraíba do Sul, tem início a RJ-143, que me conduziu à pacata [15] Quatis (RJ), incógnita localidade do Vale do Paraíba Fluminense.
Ameaçava chuva quando cheguei à Pousada Pôr do Sol.
Foi o tempo de me acomodar no quarto e um temporal, em cascata solta, acompanhado de trovoadas e vento forte - pacote completo - desabou sobre a região. Eram
15h 30. Parou de chover às 18h. Fiquei no quarto a ler.
Além das belezas naturais, encanta pelo aconchego de seu povo,
suas festas e folclore. Com arquitetura colonial do século XVIII, a cidade
proporciona ao visitante uma viagem ao passado.
Ao segundo e quarto domingos de cada mês, a cidade se torna pequena para receber trabalhadores rurais e artesãos que chegam para participar da Feira da Roça.
Essa festa é comandada por uma associação criada há 10 anos e que estabelece as normas a serem seguidas por seus associados.
Nessa feira, os
turistas e moradores encontram produtos da roça, artesanato, cachaça produzida
na região, mel, biscoitos, plantas medicinais, comida típica e forró.
A região onde se situa Quatis (RJ) demorou a ser desbravada em razão da barreira geográfica imposta pela Serra do Mar.
Em 1724, foi iniciada a
escalada da Serra por ordem do Governador Geral Luiz Monteiro (governou
de 10/05/1725 a 22/04/1732), com a finalidade de abrir
um caminho mais curto para São Paulo, sem os inconvenientes da travessia
marítima até Paraty.
Quatis passou a ser o caminho natural dos Bandeirantes, tropeiros e boiadeiros, além daqueles que recebiam concessões de sesmarias por volta de 1764/65, e se encaminhavam para as atuais cidades de Volta Redonda (RJ) e Barra Mansa (RJ).
Com o declínio da procura do ouro em Minas Gerais e o desenvolvimento da cultura do café, no final do século XVIII, foram concedidas muitas sesmarias a futuros cafeicultores.
Em
1820, houve notícia de duas importantes fazendas em Quatis: a Fazenda do Cedro
do Comendador Bernardo José Ferraz e a Fazenda Nossa Senhora do Rosário dos
Quatis, de Antônio Marcondes do Amaral.
O local no qual se situa Quatis (RJ) começou quando o fazendeiro Faustino Pinheiro e sua mulher Gertrudes Maria de Jesus, fizeram uma doação, em 5 de Março de 1832, para construção de uma igreja e de um pequeno povoado.
Até
1844, Quatis (RJ) pertenceu ao Município de Resende (RJ), quando foi desmembrada e
incorporada ao Município de Barra Mansa (RJ).
Com a inauguração
da Estação Ferroviária, em 1897, e com a conclusão do trecho que a incorporava
à Estrada de Ferro Oeste de Minas, muitos colonos e fazendeiros afluíram para
adquirir terras ou trabalhar em fazendas de café.
Muitos fazendeiros passaram, com o tempo, a se ocupar da pecuária.
O Colégio Ateneu Quatiense foi fundado em 1897 e, no mesmo ano, em 19 de março, o sistema de luz elétrica foi instalado na cidade, atraindo melhoramentos.
Quatis (RJ) foi emancipada em 11 de dezembro de 1990.
Quando a chuva passou, saí para o reconhecimento do lugar. Nada dos tempos áureos dos ciclos do ouro e do café ficaram preservados.
Quatis (RJ) é uma cidade recôndita (desconhecida) e que teve importância crucial na antiga rota do ouro. Era parada obrigatória, antes de começar a descida da Serra do Mar, para as tropas de mulas e tropeiros, vindos de Ouro Preto (MG), que seguiam até Paraty (RJ) transportando precioso metal, para posterior envio a Portugal.
A Matriz de Nossa Senhora do Rosário, construída em 1832, em estilo eclético - nada internamente parece estar em conflito -, originalmente foi pintada em azul e branco, mas teve a fachada alterada para amarelo, quase gema de ovo.
Voltei logo para a pousada e terminei ler o livro
de contos do José Saramago. Dormi cedo e não vi graça nenhuma em Quatis (RJ).
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8º Dia |
04/01/2003 |
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QUATIS (RJ) A CONSERVATÓRIA (RJ) |
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54 km |
Ao planejar a etapa Quatis (RJ) a Conservatória, Distrito de Valença (RJ), optei por seguir pela RJ-143, mesmo sendo em leito natural, evitando, dessa maneira, pedalar por estradas muito movimentadas. A RJ-143, atravessa a Serra do Amparo, muito bonita, cheia de fazendas e belas formações rochosas. O movimento de veículos foi quase nenhum naquele sábado.
Pude seguir em meio ao silêncio, quebrado pelas maritacas que voavam em bando, fazendo a maior fuzarca.
Às 13h saí de Quatis (RJ) e passei sob a magnífica ponte ferroviária da MRS Logística, que corta um vale muito bonito e largo. A extensão [da ponte] deve ser de pouco mais de um quilômetro e com altura de uns 50 metros. Espetacular obra da engenharia ferroviária.
Passada a ponte ferroviária, veio um trecho muito acidentado, com subidas e descidas alternadas e íngremes.
Logo, estava a girar sobre estrada em leito natural, a RJ - 143, que liga Quatis (RJ) a Conservatória (RJ), com 54 quilômetros de extensão. O tempo estava emburrado e com cara de chuva
O piso estava muito castigado pelas últimas chuvas e, em algumas subidas, foram colocadas pedras, semienterradas, para que os veículos tenham tração e consigam vencer os aclives. Com a bicicleta não encontrei maiores dificuldades.
Sem grandes esforços, venci 22 quilômetros, desde a saída de Quatis (RJ), e passei por Nossa Senhora do Amparo, distrito de Barra Mansa (RJ), que cresceu dentro de um vale, o Vale do Rio Turvo.
É uma bela localidade, com calçamento em pedras sextavadas, belas casas, comércio variado e muita gente pelas ruas. Amparo é muito mais bonita que Quatis (RJ).
Quando parei para tomar água, percebi que o pneu traseiro estava abaixo da calibragem normal, o popular, murcho.
Ao iniciar a jornada daquele dia, em Quatis (RJ), estava com a calibragem correta. Teria furado? Continuei, após enchê-lo com a bomba que trago à cautela.
Quando cheguei ao final da rua principal de Nossa Senhora do Amparo, o calçamento deu lugar à estrada em leito natural. Estava de volta à RJ-143. A próxima cidade foi São José do Turvo (RJ), distrito de Barra do Piraí (RJ), 14 quilômetros à frente de Amparo.
Levei quase duas horas para percorrer esse trecho, mais acidentado do que o anterior e o pneu traseiro, a intervalos de 10 minutos, precisava de mais ar. E tome bombadas.
Acreditei que em São José do Turvo (RJ) encontraria um posto para calibrá-lo. Quebrei a cara. A cidade é minúscula e não tem postos de combustíveis. O jeito foi continuar pedalando e parando, a cada 10 minutos, para novas bombadas. Decidi que trocaria a câmara de ar na estrada apenas se o pneu baixasse por completo.
Deixei a pequena São José do Turvo (RJ) às 16h, mas não sem antes degustar uns deliciosos pastéis de queijo no único empório do lugar.
Conservatória (RJ) estava próxima. Faltavam apenas 14 quilômetros, os mais penosos daquele dia. O piso da estrada piorou consideravelmente. Muitas ravinas e sulcos, abertos pelo escoamento superficial das águas das chuvas, dificultavam a manutenção da média horária conseguida até ali.
O intervalo para bombear ar para o pneu caiu para 5 minutos e o calor era abrasador. Sensação de ser um frango dentro de um forno elétrico. Nenhuma cachoeira ou rio à vista.
O jeito foi encarar as subidas com aquele piso pior a cada metro. Parei na porteira de uma fazenda. Pensei em substituir a câmara de ar. Não havia dúvida que estava furada, mas devia ser um furo pequeno, porque o pneu murchava vagarosamente.
Desisti quando, pela marcação do odômetro, constatei que faltavam apenas 8 quilômetros para Conservatória (RJ).
Veio uma subida alienada de cinco quilômetros e, após, uma descida curta e as primeiras casas de Conservatória (RJ) começaram a aparecer, em ambos os lados da estrada.
Entrei em na cidade das serestas empurrando dignamente a bike. Eram 18h. Apesar do tempo fechado, ainda havia muita claridade devido ao Horário de Verão.
A Pousada Angélica, para minha sorte, fica ao lado do único posto de combustíveis de Conservatória (RJ). Deixei meus haveres no quarto e fui trocar a câmara de ar, substituindo-a por uma ainda sem uso.
Quanto ao remendo na câmara furada, deixei para fazê-lo no dia seguinte. Estava na hora de merecido banho, sair para jantar e conhecer a vida noturna de Conservatória (RJ), a terra mundial da seresta.
Enquanto jantava, observei, através da janela do Restaurante Boemia, os seresteiros em reunião, a céu aberto, para definir qual o trajeto a ser seguido naquela noite de sábado.
A cidade fervilhava de gente. Turistas do Estado e da vizinhança saem pelas ruas acompanhando “os velhinhos dos violões”. Esse ritual não acontece nos dias de chuva. Sem chuva, tem público garantido.
Jantei, assisti ao cerimonial e voltei à pousada. De madrugada, acordei com o barulho da chuva, que caía com força, castigando as vidraças do quarto e as costas quadradas do aparelho de ar-condicionado. “Tomara que não tenha estragado o tour dos violeiros”, pensei.
No dia seguinte, domingo, dia 5 de janeiro, deixei meus haveres no quarto do hotel e, após o café da manhã, montei na bicicleta e rumei em direção à Serra da Beleza [16] e fui conhecer a Ponte dos Arcos [17], no antigo leito da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas).
Foram cinco quilômetros de subidas, com inclinação moderada, em leito natural, e em ótimo estado de conservação.
[16] - Também conhecida por Serra do Taquara, apresenta relevo típico de idade geológica avançada, com os cumes de formas arredondadas, ação do pai tempo.
Suas encostas apresentam trechos em mata virgem, de médio e alto portes, capoeirões e vegetação rasteira.
O trecho mais elevado da RJ-137, o Mirante da Serra, é o melhor local para se apreciar a paisagem que circunda a região, um infindável "mar de morros", avistando-se desde o Pico do Cavalo Ruço, até a torre da Igreja Matriz de Santa Rita de Jacutinga (MG), além de uma visão total do Vale do Rio Preto.
[17] - A ponte dos arcos foi construída entre 1877 e 1883, pela extinta Estrada de Ferro Santa Isabel, inaugurada por Dom Pedro II em 1884 e, desde que passou por ela o último trem, em 1963, a ponte se tornou uma atração turística da localidade, sendo uma das mais antigas da rede ferroviária, que ainda se conserva em pé.
A Ponte dos Arcos possui 100m de extensão, 12m de altura e 4m de largura e foi construída em pedra, cal e óleo de baleia.
Compõe-se de dois arcos plenos, construídos à maneira egípcia, com pedras justapostas, funcionando a tração e compressão.
Sua base é constituída de grandes pedras sobrepostas e o corpo da ponte com pedras menores e roliças.
Disponível em:<https://https://www.portalvalencarj.com.br/ponte-dos-arcos/.
Tirei algumas fotos sob e sobre a Ponte dos Arcos. Do alto daquela maravilha da engenharia do século XIX, uma visão completa da Serra da Beleza e do Vale do Rio Preto.
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9º Dia |
05/01/2003 |
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CONSERVATÓRIA (RJ) A RIO DAS FLORES (RJ) |
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69 km |
Terminado o passeio para conhecer a Ponte dos Arcos, desci a serra, voltei a Conservatória (RJ), passei pela Pousada Angélica, arrumei meus haveres e parti na direção de Rio das Flores (RJ), 69 quilômetros à frente, com 25 quilômetros sobre leito natural.
Mas antes de pôr o pedal na estrada, passei no Lava Jato do Bacana para limpar a bicicleta. Estava com muito barro acumulado no quadro, nas rodas e nos pedais.
Embora os fabricantes e mecânicos condenem a prática de lavar a bike com fortes jatos de água, ignorei tal instrução e pedi ao Bacana que caprichasse, principalmente nas 7 catracas e 3 coroas (7 X 3 = 21 marchas).
Depois do banho, lubrifiquei a corrente e saí para a última volta pela cidade, antes de partir para Rio das Flores (RJ).
Fui conhecer a Locomotiva 206, da velha estrada de ferro, cartão postal de Conservatória. [18]
[18] - Conservatória - a "Capital Mundial da Seresta".
Várias novelas de televisão foram gravadas em Conservatória: O Feijão e o Sonho, Escrava Isaura, Sinhá Moça, uma pequena parte de Cambalacho, Salomé e A Viagem.
A primeira iluminação pública de Conservatória foi a querosene [1885] e perdurou até 1918, quando chegou a iluminação elétrica.
A construção das casas obedece ao padrão tradicional arquitetônico do século XIX. Nenhuma casa pode ser construída ou demolida sem a autorização da Prefeitura.
Mas é na base da alegria e das serestas que Conservatória é hoje a mais famosa cidade do País, quando se fala em "poesia cantada".
As casas em Conservatória são encontradas pelos carteiros não pelo número, mas por uma plaqueta com o nome de uma música. Quase todas são assim. Rua das Flores, na casa Chão de Estrelas ou na casa Luar de Paquetá, Saudosa Maloca, Maringá, Iracema, etc.
Se visitada de segunda a quinta-feira, Conservatória não despertará tanta atenção. Ela cochila esperando o entardecer da sexta-feira, fazendo-se confundir com um vilarejo comum, desses tantos que existem perdidos no interior.
Porém, quando chega a sexta-feira, as coisas se modificam porque Conservatória recebe centenas de visitantes que saem dali extasiados com tanta arte, poesia, dedicação e amor.
A população local - simpática e tranquila - passa à condição de minoria, pois os turistas estão em todos os lugares: nas lojas, nas calçadas, na igreja, enquanto os mais aventureiros partem para caminhadas, escaladas, banhos de cachoeira.
Atravessei pedalando o Túnel que Chora, construído (ou furado) por escravizados no século XIX. No interior da galeria, mina muita água das rochas. Era, até fins do século XIX, o único acesso ao Distrito de Conservatória (RJ).
Fui à antiga Estação Ferroviária, de onde a Locomotiva 206 partiu e chegou por meio século.
Hoje, descansa na praça principal e representa o maior símbolo, das épocas áureas do café em Conservatória (RJ).
Quando subi na Ponte dos Arcos, antigo leito ferroviário e onde o apito da 206 varava o ar, avisando da sua chegada ou da sua partida, foi possível imaginar a cena: a Maria Fumaça nº 206 apitando, fumegando e pedindo passagem.
Na memória dos mais velhos, que viveram a época romântica dos trens, o apito [da 206] ainda ecoa pela cidade. A Locomotiva [19] é a lembrança daqueles tempos.
[19] - Nasci na Filadélfia-EUA, no ano de 1910, graças ao grande inventor inglês Jorge Stepheson. De pedaços em pedaços, com muitos parafusos, arrebites e soldas eu fui construída. Meço 6 m de comprimento, 3,15m de altura e 2,86m de largura.
Em 1960, o então Presidente
da República, Jânio Quadros, teve a infeliz ideia de desativar quase todos
os ramais ferroviários que não davam lucro (que pobre visão de um Presidente da
República). Lucro para quem? Para ser desviado para outros meios de transportes,
para favorecer os magnatas dos transportes rodoviários? Para ser dilapidado
pelos corruptos do serviço público?
Um serviço ferroviário é
implantado não para dar lucro, mas para servir ao povo que necessita de meios
de transporte econômicos e eficientes.
Mas como lei é lei, a Estrada de
Ferro RMV foi desativada em 1961.
Muito tempo se
passou e eu fui parar na Oficina da RMV de Barra Mansa, totalmente abandonada,
esperando o maçarico me cortar toda em pedaços para ser vendida como
"ferro velho". Triste fim me esperava.
Pela RJ-143, que liga Conservatória (RJ) a Valença (RJ), por meio da Serra do Amparo, deixei aquela simpática e pacata cidade para trás. O tempo estava abafado e ameaçava chuva.
Até alcançar Valença (RJ), onde recomeça o asfalto, foram 25 quilômetros acidentados e entrecortados por vales, com gado mastigando capim sobre um tapete verde. Silêncio no ar. Poucos carros passaram por mim.
Parei para tomar água em uma birosca à beira da estrada. Uma senhora me atendeu. Trazia um papagaio no ombro esquerdo.
Quando me aproximei dela, ele deu um salto e pulou em cima do meu capacete. Como ciclistas de capacete por aquelas bandas são raros, a ave deve ter estranhado o objeto e começou a bicá-lo. A superfície do protetor de cabeça é lisa, o bicho escorregou e estatelou-se no chão, apesar do esforço – em vão – de bater as asas. Peguei-o e ele não me estranhou.
Quando tirei o capacete e coloquei-o em cima do balcão, novas bicadas. Tirei foto do papagaio. Ele estranhou o flash e disse alguma coisa que não entendi ou fingi que não entendi. Segui em frente. Faltava pouco para o asfalto.
Logo o trevo de Valença (RJ) apareceu e a RJ-143 deu lugar à RJ-125, asfaltada e muito movimentada.
O
ar abafado e as nuvens cinzas anunciavam, para breve, um aguaceiro.
Outros 16 quilômetros em trecho plano e cheguei à pequena Taboas (RJ). A cidade estava em festa. Vários templos evangélicos espalhados pelo perímetro urbano concentravam muitos fiéis.
Havia animada quermesse e não parava de chegar gente. Em certo trecho foi preciso descer da bike e empurrá-la em meio àquele maremagnun (mar de gente).
Mais seis quilômetros e cheguei à pacata Rio das Flores (RJ) que, no século XVIII, era o “trampolim” de acesso às minas da Capitania de Minas Gerais.
Nos tempos da ferrovia, havia um ramal de EFCB (Estrada de Ferro Central do Brasil), parada obrigatória para os trens que seguiam do Rio de Janeiro (RJ) a Juiz de Fora (MG). O ciclo do ouro acabou, o ramal da Central do Brasil foi desativado e Rio das Flores [20] ficou esquecida no tempo, onde tudo parece transcorrer como sempre: sem transcorrer.
É uma cidade bucólica, com população estimada em 66.290.000 habitantes - IBGE 2000 e dista 159 quilômetros do Rio de Janeiro (RJ).
[20] - Os primórdios devassamentos
do território do município de Rio das Flores não estão até hoje bem
esclarecidos.
Autores atribuem o seu devassamento às correntes de faiscadores, aventureiros e bandeirantes, que desde o início do século XVI, utilizavam o curso do Rio Paraíba, como ponto de referência para atingir as "Minas Gerais".
A estada foi na Pousada Rio das Flores, localizada no ponto mais alto da cidade. O acesso é feito por uma ladeira calçada com paralelepípedos e inclinação deveras cascuda.
São vários chalés e eu fui o único hóspede daquela noite de domingo, dia 5 de janeiro. Eram 18h quando cheguei à recepção para efetuar o check-in.
Enquanto me dirigia para o quarto, os sinos da Igreja de Santa Teresa d'Ávila, defronte à estalagem, choravam no ar a hora do Ângelus.
A
Pousada é administrada por uma senhora, filha e genro. Mas a
mascote da hospedaria é a pequena Laura, menina muito esperta, neta da
proprietária e muita dada com as pessoas. Não era para menos. Por ali passa muita gente e a garotinha está acostumada ao movimento. Fala com desembaraço
e contou-me quase três anos da sua
história.
A
cidade é muito silenciosa. Havia pouca gente nas ruas, quando saí para degustar
deliciosa pizza, preparada em forno à lenha.
Ao
retornar à pousada, o tempo abriu e a Lua Crescente apareceu entre as nuvens.
O
céu foi ficando estrelado à medida que o tempo limpava. Fiquei do lado de fora
do quarto contemplando aquele espetáculo, que permitiu divisar o
firmamento negro, brilhante e com hieróglifos de estralas, que brigavam umas
com as outras para brilhar mais do que a sua vizinha.
O silêncio era um bálsamo para os ouvidos. Dez badaladas do sino da Igreja de Santa Teresa d'Ávila se fizeram ouvir. Eram 22h.
Fui dormir repassando cada trecho pedalado, desde a saída do Rio de Janeiro (RJ), ainda no ano passado (2002).
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10º Dia |
06/01/2003 – DIA DE REIS |
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RIO DAS FLORES A TRÊS RIOS (RJ) |
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77 km |
Quando
acordei, chovia muito. Eram 10h. Havia dormido 12 horas seguidas. Fazia tempo
que não dormia tanto. Dei um pulo da cama e apressei-me para o café da manhã,
que estava para se encerrar.
O aguaceiro apertou e vontade não faltou para continuar deitado, passar aquele dia 6 de janeiro, Dia de Reis, vendo a chuva lá fora e descansando.
Mas no roteiro não estava previsto nenhum dia de descanso. Prevaleceu a
disciplina. Três Rios (RJ) era a minha próxima parada. Estava atrasado.
Raspei-me dali, sem tardança, sob chuva pesada.
Antes
de pegar a estrada, passei numa borracharia para remendar a câmara de ar, atingida por um prego, antes de chegar a Conservatória (RJ).
A
borracharia fica em um barraco de madeiras ao lado de uma loja de materiais de
construção. O borracheiro estava sentado à turca sobre vários pneus velhos e assistindo tranquilamente ao seriado Chaves. “Desculpe atrapalhar o seu
descanso, mas tenho uma câmara de ar a ser remendada”. “Estou seguindo
viagem e não posso ir sem estepe”. " O senhor pode, por favor,
providenciar o reparo"?
Prontamente
fui atendido, embora a prensa estivesse fria e levou bem uns dez minutos para
esquentar, mais uns quinze para concluir o serviço. Enquanto aguardava, sentei-me sobre alguns pneus e fiquei assistindo ao Chaves.
Às 11h o serviço de remendo foi concluído. Tomei a direção da saída, cruzei a ponte sobre o Rio das Flores e ingressei na RJ-145, com destino a Três Rios (RJ), 77 quilômetros à frente. Chovia copiosamente.
Após percorrer 7,1 quilômetros, parei na bela, e bem conservada, Estação Ferroviária Cachoeira do Funil, localizada no Distrito de Manoel Duarte, jurisdição de Rio das Flores (RJ).
Dois quilômetros adiante - a chuva persistia, todavia menos enfurecida - alcancei Monte Serrat (RJ), outro distrito de Comendador Levy Gasparian (RJ), atravessado pela Rodovia União e Indústria, a antiga Petrópolis (RJ) - Juiz de Fora (MG), construída pelo Comendador Mariano Procópio, que conectou as duas localidades, sendo fundamental para o escoamento da produção cafeeira da região.
Foi inaugurada em 23 de junho de 1861 com a presença de S.M.I D. Pedro II, sendo a primeira rodovia macadamizada [22] da América Latina.
Na viagem inaugural, o monarca percorreu a Rodovia União e Indústria de Petrópolis (RJ) a Juiz de Fora (MG), a bordo da diligência Mazzepa.
[22] - Adjetivo que descreve estradas ou ruas
pavimentadas com o sistema macadame.
Essa técnica consiste na compactação de várias camadas de pedra britada, desenvolvida pelo engenheiro escocês John Loudon McAdam, por volta de 1820, para criar superfícies duráveis e convexas.
Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Macadame. Acesso: 31/01/2003.
A
ponte sobre o Rio Paraibuna [22] - [23],
que assinala outra divisa natural entre os Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, veio a
substituir a antiga, queimada em 1842.
[22] - Nos tempos do Ciclo do Ouro (1697 - 1810), a
travessia do Rio Paraibuna era feita um pouco mais rio acima (a montante) de
onde hoje está a ponte da estrada de ferro.
Alguns autores, diferentemente,
dizem que a atual foi construída sobre os pilares da antiga.
Um desenho da ponte, feito há mais de
150 anos por Rugendas, revela que era coberta. Esse cuidado era necessário,
pois aumentava sua vida útil uma vez que eram feitas de madeira.
Em 1842, a ponte que Rugendas desenhou, foi queimada à época da Revolução Liberal, de forma a dificultar o avanço das tropas “corretivas” do Duque de Caxias, que marchavam em direção ao território mineiro.
[23] - Em 1824, Rugendas representou a travessia para o
território mineiro pela ponte do Rio Paraybuna, no Caminho Novo para Minas
Gerais.
A ilustração é de 1824 e foi feita durante a expedição conduzida pelo Barão Georg Heinrich von Langsdorff.
Foi uma viagem científica, que
percorreu o Brasil entre 1824 e 1829, registrando a natureza e a sociedade do
País.
Considerada uma das mais importantes incursões científicas do século XIX no Brasil.
Capturei várias fotos da região, incluindo as corredeiras do Paraibuna, a Estação Ferroviária de mesmo nome, a bela Igreja de Monte Serrat, distrito de Comendador Levy Gasparian (RJ) e o colosso da Pedra do Paraibuna.
Segundo dados fornecidos pelo IBGE, a Pedra do Paraibuna possui aproximadamente 890 metros de altura e, em vão livre, tem imenso paredão vertical, com cerca de 450 metros de altura. Esse monolito é o eterno vigilante da região.
Estava coberto no topo por esparsas nuvens.
A primeira vez que por essa região passei, foi em 1972, quando me mudei do Rio de Janeiro (RJ) para Brasília (DF).
Naquela época, não existia a [nova] BR-040,
duplicada e pedagiada., quando me
mudei do Rio para Brasília. Naquela época, não existia a [nova] BR-040,
duplicada e pedagiada.
A única ligação do Rio de Janeiro (RJ) com Juiz de Fora (MG) era a Rodovia União e Indústria, posteriormente denominada de BR - 3, com traçado sinuoso e intenso movimento de caminhões.
Eram cinco horas de viagem do Rio (RJ) a Juiz de Fora (MG). Hoje são apenas três horas de viagem pela [nova] BR – 040, duplicada e pedagiada.
Depois das fotos e de boas recordações dos tempos em que viajava na União e Indústria, voltei ao pedal e alcancei a BR-040 por volta das 15h.
A chuva continuava. Era o primeiro banho de chuva de 2003.
Lavou a alma e levou os restos de 2002 que, por ventura, insistiram em ficar.
A [nova] BR-040 tem duas pistas de cada lado e grade de proteção no centro. O acostamento é espaçoso, com uns 3,0 m de largura.
Por ela - BR - 040 - pedalei 22 quilômetros até
alcançar Três Rios (RJ), às 17h. A chuva continuava fina e persistente.
Evitei entrar na cidade.
Acomodei-me no Motel Star, ao lado do Posto Trevo, às margens da BR - 040. Como era dia de semana, o pernoite saiu por R$ 20,00 (preço de jan. 2003), uma pechincha.
Banho quente e relaxante, depois de pegar
chuva no lombo por quatro horas sem trégua. A baixa do dia foi a inundação no
interior da bolsa que carregava no bagageiro. Molhou tudo, roupas, livros e folhetos com informações das cidades visitadas.
Improvisei
um varal no quarto, liguei o ar condicionado e torci para que tudo secasse até
o dia seguinte. Apaguei cedo.
Acordei
durante a madrugada. Olhei o céu. Estava parcialmente nublado. A Lua Crescente mostrava-se entre as nuvens.
O
quarto fica de frente para a estrada (BR-040). Estava silenciosa e com pouco
movimento. Abri a janela para renovar o ar. A temperatura era bem agradável. O
asfalto da estrada estava molhado. Choveu a maior parte daquele dia e daquela madrugada. Voltei a dormir
esperançoso por melhoras no tempo.
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11º Dia |
07/01/2003 |
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TRÊS RIOS (RJ) A TERESÓPOLIS (RJ) |
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88 km |
Quando acordei vi rastros de luz, que penetravam pelas laterais das cortinas do quarto. Não havia dúvida. O tempo estava aberto. Eram 7h.
Pedi o café, desmontei o varal improvisado e, às 8h 30, voltei a pedalar pela BR-040, até Itaipava (RJ).
De Três Rios (RJ) a Itaipava (RJ), pedalei 32 quilômetros, sob calor que dava sinais de aumento. E aumentou, e muito.
Parei em Areal (RJ), na Lanchonete Brasília, renovei o estoque de água e continuei até o Castelinho de Itaipava, no km 56.
Na parte de trás do Castelinho, atravessei a ponte sobre o Rio Piabanha e ingressei na BR-495, a Rodovia das Hortênsias, que me levou a Teresópolis (RJ), 35 quilômetros, com uma subida contínua de 12 quilômetros e descida de igual quilometragem.
Os 11 quilômetros restantes são formados por trechos planos que antecedem a subida e sucedem a descida, na entrada de Teresópolis (RJ).
Os
primeiros oito quilômetros se desenrolam pelo Vale do Cuiabá, região de belas
mansões e tráfego intenso.
Vencido
esse trecho, o piso da BR-495, até então em asfalto, passa a ser de cimento,
blocos retangulares encaixados, semelhante à Estrada do Corcovado e à subida da Serra de Petrópolis (RJ).
Aos
poucos, sem pressa, fui vencendo a subida. Parava para fotos, tomava água nas
biquinhas ao longo da estrada e observava a beleza do lugar.
Quanto
mais pedalava e subia, mais belo se tornava o visual. Cada ponte que cruzava,
um rio de águas cristalinas abastecia as caramanholas. Os banhos foram
refrescantes.
Às 13h15 cheguei à “virada da serra” e a subida cessou. Veio um trecho plano e depois 12 quilômetros de descenso até o centro de Teresópolis (RJ).
Passada a entrada da Granja Comary e depois de algumas perguntas a nativos, acerca da localização da estalagem, cheguei à Pousada Recanto da Serra. Eram 16h.
Outra etapa cumprida dentro do planejado. Mesmo encarando uma
subida de 12 quilômetros, compensada pela beleza da região, cheguei muito bem.
Nada de dores, sintoma de fadiga, cansaço ou saco cheio.
Saí
para almoçar. A temperatura, pela primeira - e única vez -, durante a viagem,
estava abaixo dos 30°C. O termômetro da rua marcava 23°C, bastante agradável.
Vi pessoas nas ruas vestindo casaco.
Degustei,
em um restaurante no centro, delicioso arroz com feijão acompanhado de salada e
dois ovos. Terminada a refeição, voltei à pousada, peguei a bicicleta e
pedalei até o Mirante do Soberbo, também
conhecido como Mirante da Vista Soberba.
É a partir daquele ponto [o Mirante] que se avista
o Pico Dedo de Deus, com seus 1.692 metros de altitude, cujo contorno
se assemelha a uma mão apontando o dedo indicador para o céu. O tempo estava nublado.
O Pico Dedo
de Deus pertence à Serra dos Órgãos, um subgrupo da Serra do Mar. Embora o
monumento geológico seja associado [erroneamente] à cidade de Teresópolis (RJ),
essa obra da natureza pertence ao município de Guapimirim (RJ).
Da sacada do Mirante do Soberbo é possível avistar a Baixada Fluminense (Guapimirim - RJ), a Baía da Guanabara, banhando diversas cidades do Grande Rio, entre elas Niterói, São Gonçalo e Magé.
Mas esse visual pode ser avistado/fotografado em dias de tempo bom e pouquíssima nebulosidade. Não foi o caso daquele dia.
Em
Teresópolis (RJ) o tempo muda rapidamente em virtude, principalmente, da
altitude.
Naquele
dia 7 de janeiro, depois das fotos e do rolezinho pelo Soberbo, quando voltava
à pousada, percebi a chegada de pesadas nuvens, os cumulunimbus, combinação
das palavras [em latim] cumulus, que quer dizer amontoado, e de nimbus, que quer dizer chuva, que se estendeu pelo resto da tarde e ao longo da noite.
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12º Dia |
08/01/2003 |
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TERESÓPOLIS (RJ) A NOVA FRIBURGO (RJ) |
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90 km |
Acordei
com uma ladainha canina no prédio ao lado do hotel. Sonolento, lutei contra a
claridade. Fechei os olhos e, ao abri-los novamente, vi a beleza do dia.
Tomei um excelente café da manhã e rumei em direção à saída de Teresópolis (RJ). O céu doía de tanto azul e estava sem nuvens. Dia ótimo para pedalar. Depois da chuvarada do dia anterior, o tempo foi camarada e manteve-se assim durante o trajeto.
Na saída de Teresópolis (RJ) e, aproveitando o dia de céu azul e poucas nuvens, fiz uma rápida parada no Mirante do Soberbo para fotografar o Dedo de Deus, agora com a paisagem bem diferente do dia anterior.
Estava ciente do sobe e desce moderado e ansioso para iniciar a viagem. A Rodovia Estadual RJ-130 (Circuito Tere-Fri), que liga Teresópolis (RJ) a Nova Friburgo (RJ), tem 77 quilômetros de extensão e serpenteia uma das mais belas áreas serranas do Estado do Rio de Janeiro.
Pedalei 10
quilômetros na direção de Além Paraíba (MG) - rumo Norte - até alcançar o
entroncamento com a RJ-130. No trevo de acesso a Nova Friburgo (RJ), fiz uma
parada para água e protetor solar. O sol estava “uma brasa, mora”.
A RJ-130 desfila dentro da Mata Atlântica, no coração da região serrana do Estado do Rio de Janeiro. É o acesso a cenários ideais para passeios, aventuras, esportes e descobertas.
O
circuito Tere-Fri oferece diversos atrativos para os visitantes, além de
charmosos hotéis e pousadas da região. Uma das principais atrações é o Jardim
do Nego [24],
com suas lindas esculturas talhadas no barranco. Fica no km 55.
[24] - Se foi do barro que Deus fez o homem é da mesma matéria prima que o escultor cearense Nego realiza grandes obras de arte em seu sítio na estrada Friburgo-Teresópolis.
O Jardim do Nego é um museu ao ar livre e único do gênero na Terra. Não é qualquer artista que consegue dar vida a barrancos e mantê-los intacto por muito tempo.
O musgo que envolve cada escultura protege
contra a erosão e ainda dá um colorido especial a cada uma, dependendo da
estação do ano.
O dono desse talento protege seu dom com tapa olho no meio da testa onde, segundo ele, se encontra uma terceira visão.
Entre tantas esculturas será que existe uma preferida? É difícil para o artista definir qual é o melhor trabalho. Da mais antiga - a mulher que existe há vinte anos e que está sendo reestruturada – até a mais nova, o bebê, que ainda está em processo de criação de musgo.
O visitante se encanta com cada detalhe. E se não bastasse tanta beleza, no final, Nego ainda dá uma amostra do seu outro talento, a música, completando o clima de paz.
No percurso da Tere-Fri, o clima de montanha convida a magníficos passeios e caminhadas em meio às belas paisagens, cercada de muito verde e riachos de águas cristalinas. Tomei banho em dois.
O Pico das Três Salinas é uma das mais belas paisagens do trajeto. Pode ser observado no município de Conquista (RJ).
Parada
na Churrascaria Linguiça do Padre. Estava famélico. O principal quitute da casa é pão
com linguiça. Comi três. Estavam ótimos. Era hora do almoço e o estômago
clamava por algo diferente de Nuttry ou rapadura.
As
araucárias estão presentes em muitos trechos, principalmente nos mais elevados.
A presença dessa árvore, de clima temperado frio e em área de clima tropical, é
explicada pela altitude do lugar. É um belo exemplo da altitude corrigindo a
latitude.
O
aniversário da minha filha mais velha (Daniela) contribuiu, em muito, para esse
dia ter sido deveras especial.
Depois
de percorrer esses maravilhosos 77 quilômetros da Tere-Fri ou RJ-130,
cheguei ao centro de Nova Friburgo (RJ) às 15h30.
Logo avistei o Hotel Avenida e por ali me instalei. O quarto no térreo me poupou de subir escadas com a bike.
Tomei banho e saí para rever a Suíça
Brasileira, onde estive pela última vez no inverno de 1990, passeando com
minhas duas filhas.
Não almocei naquele dia. Ao lado do hotel, um restaurante anunciava rodízio de massas à noite. Deixei para me deliciar na hora do jantar.
Telefonei, em
seguida, à Daniela (filha mais velha) que estava em Brasília (DF). Como a
UnB (Universidade de Brasília) repunha aulas após uma longa greve, ela e a
Suzana, a minha filha mais nova, não tiveram férias.
Parece
que faz pouco tempo, muito menos do que 21 anos, que a Daniela estava nascendo,
numa sexta-feira, 8 de janeiro de 1982. E assim passaram-se duas décadas e um ano.
Dormi muito mal naquela noite. O
colchão parecia uma tábua de bater carne.
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13º Dia |
09/01/2003 |
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NOVA FRIBURGO (RJ) À BARRA DO SANA (RJ) |
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67 km |
Acordei e senti o corpo dolorido. Saí para sacar uns reais no BB e parti para Barra do Sana (RJ) com escala em Lumiar (RJ).
Ameaçava
chuva. A temperatura era de 22°C e o céu estava cinza chumbo, tomado
pelos stratus cumulus, formações que cobrem o firmamento,
geralmente com camada uniforme, sendo acompanhadas por precipitações de
fraca intensidade.
Tomei
a direção da pequena Muri, distante 8
quilômetros do centro de Nova Friburgo (RJ). Dobrei à esquerda no trevo e
ingressei na RJ-142, a rodovia Friburgo – Lumiar.
De Lumiar (RJ) até Sana (RJ) são 22 quilômetros em leito natural.
A Rodovia RJ - 142 foi asfaltada em 2006 e não tem acostamento.
Os primeiros quilômetros da
RJ-142 atravessam uma região plana e com belas casas flanqueando estrada. A
seguir vieram as subidas, longas e pouco inclinadas.
O movimento
de veículos era pequeno e a paisagem belíssima. O Rio Macaé apareceu para dar o
retoque final àquele cenário montanhoso e paradisíaco.
Em
uma subida mais longa avistei um cão que parecia me esperar para correr atrás
da bicicleta. Adotei uma tática diferente: seguindo conselhos de um ciclista
amigo, desci da bike e chamei-o.
Veio abanando o rabo, sintoma característico desses cães carentes. Vão com
a cara de qualquer um, coisa típica de vira-lata. Comecei a brincar com ele e
se enturmou de primeira. Assim que fiz menção em ir embora, o bicho começou a
chorar e foi me seguindo. Como era um trecho de subida e fui pedalando devagar,
o cão veio atrás.
Quando a subida terminou e a descida começou, ele aumentou a passada e logo estava correndo e me acompanhando. E assim fez por mais de cinco quilômetros. Parei e o bicho estava com a língua quase arrastando no asfalto. Zerei meu estoque de água para matar a sede dele.
Chamei um camarada parado na porteira de uma chácara e pedi que ficasse com o cão. Ele ficou. Continuei a pedalar e o cão chorava.
Cheguei
a Lumiar (RJ) por volta do meio-dia. O Sol no zênite (Sol a pino), venceu as nuvens cinzentas e apareceu para brindar a minha
chegada à pequena cidade.
A
500 metros da entrada, estava no centro, onde se localiza o Bar do Vovô, de
propriedade de um grande tricolor.
É
ponto de referência e central de informações. Nos finais de semana forma-se a
maior muvuca em frente ao Vovô.
Naquele
dia havia pouco movimento. A cidade estava vazia. Em Lumiar (RJ) o movimento
acontece nos finais de semana e feriados prolongados. Almocei um delicioso PF
no Vovô, deixei a bicicleta no bar e fui caminhar pela localidade.
Algumas fotos e segui para Barra do Sana, agora em estrada de terra, com 30 quilômetros de piso ruim, esburacado pela ação das águas superficiais e com fortes subidas e descidas.
O
Rio Macaé corre paralelo à estrada e quando o calor apertava, mergulhava em
suas águas límpidas e geladas.
Na
saída de Lumiar (RJ) avistei a Pedra Riscada (1.900 metros de altura).
Trata-se de um monólito de granito, à semelhança da Pedra do Paraibuna e seus riscos se devem à ação das águas das chuvas.
Eram 15 horas e, pelos meus cálculos, baseado no grau de dificuldade daquele trecho, chegaria a Sana (RJ) antes do entardecer, previsto para 19h45.
Foi um trecho incrivelmente belo, no qual o Rio Macaé, com seus meandros e fortes corredeiras, é um espetáculo à parte.
Após terminar uma longa subida, avistei o rio, lá embaixo, serpenteando o terreno e quebrando o silêncio do lugar, ao som das pequenas cachoeiras que se formam pelo caminho.
Estada
na Pousada do Geci. Uma casa adaptada para receber os hóspedes que
vão a Sana, ao longo dos 52/53
finais de semana do ano.
Era
uma quinta-feira, o povoado estava deserto. Eu fui o único hóspede naquela
noite. Não gosto muito de muvuca.
Depois
do jantar e sob um luar - a Lua agora encontrava-se na fase Crescente - espetacular, num céu forrado de estrelas, saí para
caminhar. Ouvia os barulhos de sapos e o chuá-chuá do Rio Macaé, que acompanha
a estrada de entrada e saída de Sana (RJ).
Caminhei por três horas e fui dormir. Como a natureza foi generosa com aquele pedaço do Estado do Rio. Começava a sentir o clima de fim de férias.
No dia seguinte,
Araruama (RJ) e no outro dia, Rio de Janeiro. Passou muito rápido.
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14º Dia |
10/01/2003 |
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BARRA DO SANA (RJ) A ARARUAMA (RJ) |
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120 km |
Acordei
cedo e fui tomar café na padaria local. Eram 8h. Suava em profusão.
Alimentado,
peguei a bicicleta e fui conhecer as cachoeiras de Sana (RJ). São muitas. Um
dia é pouco para ver todas.
Fiquei
nas mais próximas ao povoado. Como fazia um calor saariano, fiquei tomando
banho; ora em uma; ora em outra.
Água gelada, uma delícia para o corpo e à alma. A hora foi passando, relaxei e
desliguei-me do mundo.
Quando me informei da hora, quase tive um treco.
Era meio-dia. Havia 120 quilômetros até Araruama (RJ). Raspar-me dali com ar de pressa e atarantado.
Peguei
meus haveres na pousada, paguei a conta e, às 12h30, passei pelo Portal
de Sana, deixando aquele paraíso para trás.
Encarei 16
quilômetros pela estrada de terra (hoje está asfaltada) até chegar
a Casimiro de Abreu (RJ), às margens da BR-101. O calor era sufocante. Como o
banho de cachoeira estava gostoso. Eram 14h.
Casimiro de Abreu (RJ) assemelhava-se à sucursal do inferno, de onde parecia testemunhar minha cremação.
Subia um bafo do asfalto e a
temperatura devia estar próxima dos 45°C. Tomei a direção de Silva Jardim (RJ),
30 quilômetros à frente, em meio àquele Inferno de Dante.
Por
sorte existem muitos vendedores de água de coco pelo caminho. O movimento na
estrada [BR-101] era frenético - como de hábito - em ambas as direções.
Pretendia
fazer aqueles 30 quilômetros em uma hora. Pretendia. O calor não dava trégua e
tive que reduzir o ritmo, embora o trecho seja rigorosamente plano.
O
Sol esquentava minha nuca e o capacete contribuía para aumentar a temperatura
na cabeça. Parava a cada três quilômetros para beber algo. Comecei a comprar
garrafas de água mineral de 1,5 litro e despejar da cabeça aos pés.
Alcancei
Silva Jardim (RJ) às 16h 10. Abandonei a BR-101 e atravessei a cidade, para
pegar a RJ-140 até São Vicente de Paula (RJ). Foram 22 quilômetros por uma
estrada recém-inaugurada e flanqueada por ciclovia. Maravilha.
O
calor não dava trégua. Em São Vicente (RJ) parei em uma padaria para
tomar sorvete. Comprei 4 garrafas de água de 1,5 litro e derramei-as
sobre mim, assim que saí da área urbana.
Mudei de estrada. Deixei a RJ-140 e peguei a RJ-138. Muito esburacada e movimentada. Foram 12 quilômetros até alcançar a Via Lagos (RJ-124), sob concessão, pedagiada e sem acostamento.
Oito quilômetros adiante, cheguei ao acesso a Araruama (RJ). Eram 18
horas. Faltavam 12 quilômetros para encerrar aquela modorrenta e quente jornada do penúltimo dia da aventura. Rio de Janeiro (RJ) a 130 quilômetros.
Parei
em um bar assim que abandonei a Via Lagos. Pedi uma água de coco, depois outra,
e outra, depois um picolé de goiaba, outro e fui ficando. Foi a única pausa
refrescante naquele encalorado dia rumo à Região dos Lagos. Nada de vento ou
brisa.
Foi
o dia mais quente da viagem. O calor me deixou zonzo em alguns momentos. Quando
o Sol baixou foi possível continuar.
Cheguei
a Araruama (RJ) pouco antes da 20h. Logo encontrei um hotel. Jantei uma
deliciosa pizza, saí para caminhar um pouco e cama.
Acordei de madrugada quando um temporal bíblico se precipitou.
Temi pelo dia seguinte, pois o roteiro previsto era quase todo em estradas de terra até Itaipuaçu (RJ).
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15º Dia |
11/01/2003 |
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ARARUAMA (RJ) AO RIO DE JANEIRO (RJ) |
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130 km |
Sábado, 11 de janeiro, último dia de viagem.
De Araruama (RJ) ao Rio de Janeiro (RJ) foram 130 quilômetros pela orla. Voltei a ver o Atlântico Sul depois de duas semanas pedalando pelo interior do Estado de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Acordei depois das 9 da matina. Consegui sair de Araruama (RJ) às 10h35. Segui direto para Bacaxá (RJ) e de lá para Saquarema (RJ).
Fotos na praia de Itaúna e
continuei (sempre à beira-mar) com o Atlântico à esquerda, no meu través leste.
O asfalto da orla cedeu lugar à estrada de terra (RJ - 102).
Cheguei a Jaconé
(RJ) às 13h20. Apesar da temperatura elevada, o vento melhorava as coisas. Caso tivesse que encarar outro dia quente como o anterior, pensaria duas vezes.
A Praia de Ponta
Negra (RJ) foi alcançada às 13h40 e passei ao largo da Lagoa de Maricá às 14h15. Faltavam 76 quilômetros para o Rio de Janeiro (RJ).
A
pior parte foi quando atravessei a extensão da Praia de Itaipuaçu (RJ), Distrito de Maricá (RJ), com orla muito extensa, movimento intenso e o piso à beira-mar estava péssimo, contendo muitos
buracos. Eram 16h quando cheguei ao final daquela praia, cuja etimologia significa "grande pedra na qual a água faz barulho".
Abandonei a orla e segui em direção à estrada que atravessa a serra da Tiririca, uma pirambeira de quase 1 quilômetro inclinadíssimo. Pedalei até onde foi possível. Desci e empurrei a bike com altivez.
Carro
1.0 sobe em 1ª marcha e esgoelando. Essa serra atravessa a Pedra do Elefante e
a estrada me levou à Praia de Itaipu, do outro lado do morro, de onde se tem
uma vista magnífica do Rio de Janeiro. É possível enquadrar o Pão de
Açúcar, o Corcovado, o Morro Dois Irmãos e a Pedra da Gávea.
Percorrer o trecho, com 19 quilômetros, entre a Praia de Itaipu e a Estação das Barcas, no centro de Niterói (RJ), foi o meu inferno astral daquele sábado.
Pedalar essa distância em meio ao trânsito frenético de um final de sábado, com muito calor e praias lotadas, foi tenso. Em São Francisco atravessei um túnel. Nunca soube da existência de túnel em Niterói (RJ).
Consegui, depois de muito pedalar, chegar - às 18h55 - à Estação das Barcas, à Praça Arariboia, no centro.
A embarcação Martim Afonso zarpou rumo à Praça XV pontualmente às 19h. Apressei-me em comprar o ingresso para mim e para a bike.
Chegar
à capital fluminense passando por Niterói (RJ) é bem mais agradável
do que pela Avenida Brasil e/ou Baixada Fluminense.
Foi
um entardecer para fechar a minha viagem com chave de ouro. O Sol se pondo e
deixando um rastro prateado nas águas da Baía da Guanabara.
Desembarquei
na Praça XV, o antigo Largo do Polé, às 19h20 e pedalei 20 quilômetros até minha casa, no
Leblon. Foram os últimos giros do pedal. Faltava pouco para concluir outra
magnífica e bem planejada viagem em duas rodas.
Atravessei
a Praça XV, passei pelo Aeroporto Santos Dumont e ingressei na ciclovia. As
cores do entardecer brindavam aquele fim de sábado, com praias cheias e muito
calor.
Na Enseada de Botafogo, mais fotos do fim de tarde e do fim da viagem.
Atravessei os Túneis do Pasmado e Coelho Cintra, saindo na cara da Praia de Copacabana, na Avenida Princesa Isabel.
Pedalando pela ciclovia da Avenida Atlântica, rumei na direção do Posto 6, depois atravessei - ponta a ponta - a Rua Francisco Otaviano, voltando à orla das Praias do Arpoador, Ipanema e Leblon.
Após atravessar a ponte sobre o Canal do Jardim de Alha, atravessei a Avenida Borges de Medeiros, entrei na Rua Pereira Guimarães e parei diante do portão da garagem.
Desci a
rampa e parei a bicicleta no hall do elevador de
serviço. Desliguei o cateye. Eram 20h30. Missão comprida e muita
bem cumprida.
Voltei para Brasília (DF) no dia 23 de janeiro, com a bike acomodada no bagageiro do ônibus.
Pedalei do Leblon à Rodoviária Novo Rio (Rodoviária do Rio a partir de 2019), embarquei no ônibus leito das 14h30 e, após excelente viagem, com 16 horas e meia de duração, cheguei a Brasília (DF) do dia seguinte, às 7h da manhã.
Girei os pedais por 10 quilômetros da Rodoferroviária à minha casa, na Asa Norte.
Tudo saiu
exatamente como o planejado. Planejar é a regra.
Obrigado pela leitura.
Antônio Fernando Mendes - 43 anos.
Professor de Geografia e Geógrafo.
Brasília (DF), 31/01/2003.
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