Viagem de Bike Brasília (DF) ao Rio de Janeiro (RJ). Verão 2002.
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VIAGEM DE BIKE – VERÃO 2002 |
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BRASÍLIA (DF) AO RIO DE JANEIRO (RJ) 1.467 km |
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RELATO ATUALIZADO EM 2014, 2015, 2019 E 2024. |

O Rio de Janeiro não é uma cidade exuberante. É cidade erguida em lugar exuberante - e essa distinção é essencial.
Porque cidade é coisa que nós construímos, enquanto lugar é dado pela natureza. [...] é uma cidade grande que ocupa o pouco que há de terra habitável entre a montanha, o mar e as lagoas. [...] dada a geografia, produzindo muitos aterros ao longo dos séculos.
VIAGEM
DE BIKE – VERÃO 2002 BRASÍLIA
(DF) AO RIO DE JANEIRO (RJ) | ||||
DATA | TRECHOS | DISTÂNCIA Km/DIA | ∑ | |
26/12/01 | Brasília
(DF) a Cristalina (GO) | 133 km | 133 km | |
27/12/01 | Cristalina (GO) a Catalão (GO) | 177 km | 310 km | |
28/12/01 | Catalão
(GO) a Uberlândia (MG) | 119 km | 429 km | |
29/12/01 | Uberlândia (MG) a Uberaba (MG) | 118 km | 547 km | |
30/12/01 | Uberaba
(MG) a Orlândia (SP) | 117 km | 664 km | |
31/12/01 | Orlândia (SP) a Pirassununga (SP) | 159 km | 823 km | |
01/01/02 | Pirassununga
(SP) a Itatiba (SP) | 158 km | 981 km | |
02/01/02 | Itatiba (SP) a Jacareí (SP) | 116 km | 1.097 km | |
03/01/02 | Jacareí
(SP) a Queluz (SP) | 157 km | 1.
254km | |
04/01/02 | Queluz (SP) a Piraí (RJ) | 107 km | 1.361 km | |
05/01/02 | Piraí
(RJ) ao Rio de Janeiro (RJ) | 106 km | 1.467
km | |
133,3 KM/DIA | TOTAL 1.467 KM | |||

ROTEIRO BRASÍLIA (DF) AO RIO DE JANEIRO (RJ) MAPA ACIMA |
De Brasília
(DF) a Cristalina (GO), pedalei pela BR – 040, que é sobreposta à BR – 050. Em Cristalina
(GO), eles se desmembram. A BR - 040,
segue para BH e Rio de Janeiro (RJ), enquanto a BR - 050 me conduziu [direção
geral Sul] a Catalão (GO), ao Triângulo Mineiro, a Ribeirão Preto (SP) e a
Campinas (SP), onde tomei a proa Leste, rumando ao Vale do Paraíba (Jacareí
SP). A partir de Jacareí (SP), proa Norte até o Rio de Janeiro (RJ), pedalando pela Via Dutra
(BR -116). |
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26/12/2001 |
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1º DIA |
BRASÍLIA (DF) A CRISTALINA (GO) |
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133 km |
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ATUALIZAÇÃO
2024 |
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Desde de
2015, a Concessionária Via – 040, administra a BR – 040, entre Brasília (DF)
e Juiz de Fora (MG), trecho com 936 km de extensão. |
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A Via – 040
deixou a concessão da Rodovia BR – 040, entre Brasília (DF) e Juiz de
Fora (MG), em 05 de agosto de 2024. |
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Dos 936 km
administrados pela extinta via – 040, a única etapa – por ora, sem concessão,
fica entre Brasília (DF) e Cristalina (GO), pouco mais de 100 km e atualmente
sob administração do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes
(DNIT). A cobrança de
pedágio foi suspensa, até outra concessionária assumir a etapa Brasília (DF)
e Cristalina (GO). |
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A etapa entre
Cristalina (GO) e Belo Horizonte (MG), com 594,8 km da BR – 040, está sob a
responsabilidade da Concessionária Via Cristais. |
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Entre BH e
Juiz de Fora, a BR – 040 é
administrada pela Concessionária EPR Via Mineira, em 232,1 km. |
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Disponível em:
>https://jornalaentrevista.com.br/noticia/14712/um-ano-apos-a-saida-da-via-040-da-concessao-da-br-040-confira-o-que-mudou-na-rodovia>.
Acesso: 05/08/2024. |
A viagem começou quando
abri o portão da garagem do edifício no qual moro em Brasília (DF). Eram 8h04
do dia 26/12/2001, quarta-feira, tempo nublado e ar de ressaca natalina.
O trânsito no Eixo
Rodoviário, diferentemente de outros dias, era pequeno àquela hora. No céu,
formações baixas, os cúmulos nimbos [em latim cumulonimbus], a
nuvem chuvosa do mau tempo. A temperatura era de 22°C e não ventava.
Naquele primeiro dia de
viagem fiz pela BR–040 o percurso Brasília a Cristalina (GO) em 7h e 50, um
recorde. As condições da estrada, entre as duas cidades, são excelentes e o
acostamento, com 3,0 metros de largura, um tapete.
Quando faltavam 22
quilômetros para chegar à cidade dos cristais, o Sol apareceu forte e começou a
maçaricar a pele.
Uma hora mais tarde, um
aguaceiro marcou a minha chegada a Cristalina (GO). Eram 15h54, e a bátega se
estendeu pela noite e madrugada, deixando–me apreensivo em relação ao dia
seguinte.
Na maior parte do Brasil,
entre a linha do Equador e o Trópico de Capricórnio, as chuvas marcam
o verão e as estiagens marcam o inverno. Dezembro é verão no Hemisfério Sul.
Portanto, as chuvas dessa época, não me surpreenderam.
Ciente, eu estava, que
elas seriam a minha única parceira durante a viagem.
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27/12/2001 |
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2º DIA |
CRISTALINA (GO) A CATALÃO (GO) |
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177 km |
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Na quinta-feira, dia
27/12/2001, ao acordar em Cristalina (GO), após excelente noite de sono
reparador, chovia forte. Uma névoa densa encobria a cidade dos cristais. Fiquei
deitado escutando o barulho da salseirada.
Enquanto esperava o
aguaceiro (ou salseirada) terminar, ou pelo menos diminuir, assisti ao Jornal
Bom Dia Brasil, que anunciou "temporais para as Regiões Centro-Oeste e
Sudeste". Que maçada! (aborrecimento).
Não podia ficar deitado.
Precisava tomar uma decisão: ou seguir sob forte aguada ou desistir e voltar
para casa. "Se fracassasse em minha aventura" - disse a mim
mesmo -, "sempre ficará o consolo de uma futura aventura". Tal
racionalização, não contribuiu para tranquilizar–me. Mas voltar não é do meu
feitio e nem estava em meus planos.
Depois de tanto tempo de
preparo, não faria sentido dar meia–volta.
Tomei café, paguei a conta
e deixei o Goyas Hotel às 9h20. Chovia muito e o nevoeiro era intenso. Não
sou de açúcar e tampouco tenho medo de água.
Coloquei o capacete e
segui para Catalão (GO), 177 quilômetros à frente. Naquele trecho, assim como
ao longo do percurso daquele segundo dia de jornada, o acostamento é da melhor
qualidade.
Apesar da forte pancada de
água, que não dava trégua, comecei o segundo dia de viagem girando forte e
atingindo a média de 26 km/h, na primeira hora de pedal. Parada na Pamonharia
Sonho Verde, às 10h45.
A chuva continuava, mas
não ventava, o traçado é plano e mantive boa média horária.
Às 12 h cheguei ao Posto
Ponte Alta (*), um oásis em meio às
retas extensas. É um ponto de apoio dos ônibus que ligam o Centro–Sul ao
Nordeste e à Amazônia.
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(*) Em
2022, o Posto Ponte Alta foi posto ao rés do chão, sendo inaugurado, em 2023,
o Posto Vereda Verde, deveras melhor do que o falecido. |
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ATUALIZAÇÃO |
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A partir de
2015, a BR – 050
passou a ser administrada pela Concessionária Eco 050, que duplicou o trecho
entre Cristalina (GO) e a divisa GO/MG, totalizando 219 quilômetros e
excelente acostamento. Em setembro
de 2019, a Concessionária ECOVIA MINAS GÓIAS, antiga ECO 50, assumiu a
concessão do trecho Cristalina (GO), a Delta (MG) na divisa MG/SP. |
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Disponível em:
< https://www.ecoviasminasgoias.com.br/mapa>. Acesso:
31/09/2019. |
Um motorista que ia para
Uberaba (MG), cumprindo um horário de Brasília (DF) a Porto Alegre (RS),
perguntou–me qual o meu destino. Quando falei que ia até o Rio de Janeiro (RJ),
ele surpreendeu-se e disse "que eu estava bastante animado".
Muitas pessoas fizeram-me
a mesma indagação ao longo da viagem. Algumas me perguntaram se eu "estava
pagando promessa", enquanto outras elogiaram a organização e não
deixaram de reconhecer a coragem em encarar essa empreitada.
Quando questionavam sobre
os riscos de assalto, eu respondia: “é mais fácil ser assaltado viajando de
ônibus”, haja vista as estatísticas da Polícia Rodoviária Federal. "Conhece
alguém que foi assaltado viajando de bicicleta"? Silêncio do
interlocutor.
Às 13h23, parei no
Restaurante Paineira, às margens da BR–050. Era hora do almoço. Degustei
saboroso bife acebolado, arroz, feijão e salada. Comida deliciosa.
O dono do estabelecimento
quis saber detalhes acerca da minha viagem. Saí de lá com a impressão de que
ele não entendeu o porquê de eu seguir para o Rio de Janeiro (RJ) por aquele
caminho [BR–050], quando o habitual é fazê-lo pela BR–040.
O melhor caminho nem sempre é o mais curto [BR–040]; o melhor caminho é o mais seguro [BR–050]. Princípio tão velho quanto o mundo.
Quando planejei essa
aventura, a possibilidade de não chegar à cidade assinalada no roteiro, em
virtude de mau tempo ou problemas mecânicos, entre outros, obrigou-me a
selecionar, no trecho pedalado, uma localidade alternativa.
Caso não fosse possível ir
até o próximo destino, pararia antes ou, se fosse o caso, voltaria à cidade de
onde parti. Por exemplo: de Brasília (DF) para Cristalina (GO) a alternativa
era ficar em Luziânia (GO) ou voltar para casa. De Cristalina (GO) para
Catalão (GO), a alternativa era a pequena Campo Alegre (GO). De Catalão (GO) a
Uberlândia (MG), a alternativa era Araguari (MG) e assim por diante.
Às 13h35, deixei o
Restaurante Paineira. A chuva continuava forte. Caso não cessasse até a chegada
a Campo Alegre de Goiás (GO), eu não continuaria a pedalar naquele dia.
O movimento de veículos
leves e pesados era pequeno. Estava encharcado até a alma. Nunca havia sentido
uma bátega daquelas pedalando. Os ossos pareciam molhados.
Quando Campo Alegre de
Goiás (GO) foi avistada, dentro de um pequeno vale fluvial, foram
completados 110 quilômetros. Faltavam apenas 67
quilômetros para chegar a Catalão (GO).
Ao parar no Posto Xará, no
trevo de entrada da cidade, a chuva, surpreendentemente parou e, sendo assim, a
alternativa de ficar por lá foi cancelada.
Retomei as pedaladas às
15h50. Parou de chover, mas começou a ventar. Um vento frontal. Logo passou a
ser lateral que, se não ajudou, pelo menos não atrapalhou.
Com o fim da chuva e a
pista menos molhada, pedalei forte por duas horas, parando para algumas
fotos.
Às 18h05, fiz a última
parada antes do encerramento da jornada daquele dia. Foi no Posto Eldorado.
Apesar da temperatura amena e da forte chuva que caiu ao longo do dia, o
consumo de líquido foi elevado: 5 litros entre água e sucos.
Quando voltei para a
estrada, o azul do céu foi aparecendo entre densas nuvens, na direção oeste,
prenúncio de melhora no tempo, depois de um dia de muita, muita
chuva. Eram 18h30.
Observei que o Sol, entre
grossas nuvens, ainda estava alto. Faltava 1 hora para chegar a Catalão (GO).
Como as roupas que levei são de um material próprio para a prática de
exercícios, chamado dry-fit, tão logo o Sol apareceu, minha camisa
e meu short secaram. O tênis continuou encharcado.
A quinze minutos do Motel
Summer Time, local do 2º pernoite, passou um Gol marrom por mim, na direção de
Brasília (DF), buzinou e, pelo retrovisor da bike, observei as luzes de freio
do carro acionadas.
Deu meia–volta e veio em
minha direção. Era o meu grande amigo Euller, professor de Química e que, por
cinco anos, foi meu parceiro nas viagens a Três Marias (MG) com os nossos
alunos.
Ele voltava do Rio de
Janeiro (RJ) e havia me ligado no dia anterior, quando eu pernoitava em
Cristalina (GO), pedindo alternativas de estradas para Brasília (DF), pois a
BR–040, na subida da Serra de Petrópolis (RJ), estava interditada em vários
pontos, devido à queda de barreiras.
Disse a ele para vir por
SP, na direção contrária do caminho que eu estava fazendo. Registramos o
encontro com algumas fotos e seguimos em direções opostas.
Às 19h cheguei ao
Motel Summer Times, às margens da BR–050, km 267, e dei por
encerrado o segundo dia de pedal.
Foram 177
quilômetros percorridos em 9h40. Um recorde.
Ao chegar para pernoite
nos hotéis ou motéis, cumpria um ritual que se repetiu por ao longo da viagem:
exercícios de alongamento, tomar banho e lavar a roupa utilizada. Concluídas
essas tarefas, pedia o jantar e terminava o dia com uma boa leitura.
Fui acordado com um
temporal de vento e água, desencadeados de madrugada.
Voltei a dormir. Deixei a
chuva lá fora. Isso era problema para o dia seguinte.
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28/12/2001 |
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3º DIA |
CATALÃO (GO) A UBERLÂNDIA (MG) |
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119 km |
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Levantei-me por volta das
8h. Pedi o café e iniciei o ritual de aquecimento e alongamento.
Mesmo com o tempo nublado,
não dispensava o uso de protetor solar. Eventualmente a chuva parava e o Sol,
mesmo entre as nuvens, agia como um braseiro sobre a pele.
Às 9h03, deixei o Summer Times e ingressei na BR–050, passei pelo perímetro urbano de Catalão (GO) e parei no Posto JK, às 9h43, para hidratação e aquisição de barras de cereais.
BR -050. Ponte sobre o Rio Paranaíba. Divisa GO/MG.
Antes da Duplicação. Foto: Fernando Mendes.BR -050. Ponte sobre o Rio Paranaíba. Divisa GO/MG.
Antes da Duplicação. Foto: Fernando Mendes.
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ATUALIZAÇÃO |
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Em 2015, a Concessionária ECO 050 passou a administrar a Rodovia BR – 050 e duplicou a ponte (foto abaixo) sobre o Rio Paranaíba, na divisa GO/MG. |
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Foto color Ponte Wagner Estelita Campos[2023]. Disponível em: <https://www.badiinho.com.br/com-finalizacao-das-obras-de-reforco-e-alargamento-ponte-wagner-estelita-campos-na-divisa-de-goias-com-minas-gerais-esta-com-dois-lados-liberados/. Acesso:
02/02/2023. |
Do Posto JK, de onde saí às 10h, percorri 34 quilômetros, fartos em declives, em direção ao Rio Paranaíba, divisor natural dos Estados de Goiás e de Minas Gerais e, por extensão, marca a divisa entre as Regiões Centro–Oeste e Sudeste.
Atravessei a ponte – hoje duplicada – e ingressei em terras mineiras. Visualizei, pelo retrovisor da bike, Goiás se afastando. Eram 11h25.
E vieram os aclives. Da divisa GO/MG até Araguari (MG), 38 quilômetros, dos quais 30, em forte ângulo de subida, intervalados por curtas retas.
Não chovia, por enquanto, todavia nuvens pesadas, barrigudas e escuras me espreitavam. Estavam à roda e atentas à minha jornada.
Mas ao iniciar a subida de
uma borda de chapada – erroneamente chamada, por muitos, de
"serra" –, que antecede a chegada a Araguari (MG), desabou uma bátega
de respeito. Foi como se uma gigantesca caixa d'água, bem acima da minha
cabeça, fosse virada sobre mim, sem piedade. A chuva estava por toda
parte, finalmente me abraçando.
Parei no Posto
Brasileirão, em Araguari (MG), às 15h, todavia perecia ser mais tarde em
virtude do tempo muito fechado. Enquanto comprava água na loja de conveniência,
observava o dilúvio que me aguardava adiante.
De volta à bike e
à estrada fui avançando, como a proa de um navio mar adentro, para concluir os
derradeiros 30 quilômetros até Uberlândia (MG), cidade do 3º pernoite.
A chuva não caía, ela
desabava; parecia vir em ondas. Os pingos, à semelhança de bagos de uvas,
ricocheteavam no chão.
Atravessei o perímetro
urbano de Araguari (MG) e, a partir da ponte sobre a linha férrea, vem uma
descida animal, com 5 quilômetros, em direção ao Rio Araguari. Acostamento
muito gasto e com várias ondulações.
Até a ponte sobre o Rio
Araguari, o trânsito, embora intenso, é muito lento, isto porque os veículos
pesados não têm alternativas senão descerem em marcha reduzidíssima, pois o
traçado é sinuoso e as curvas fechadas. Chovia forte. O asfalto está em ótimas
condições; o acostamento, nem tanto.
A ponte sobre o Rio
Araguari (*) [era] muito antiga
e continha uma espremida passagem para pedestres e ciclistas.
O rio estava com um grande
volume de água e, mesmo com o tempo chuvoso, a paisagem daquela área é muito
bonita.
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(*) ATUALIZAÇÃO |
Em 2022, a ponte sobre o Rio Araguari foi duplicada. Foto abaixo. |
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Disponível em:
https://www.badiinho.com.br/concessionaria-eco050-celebra-uma-decada-com-mais-de-200-quilometros-de-duplicacao-na-br-050-e-com-investimentos-bilionarios/. Acesso:
09/01/2024. |
Após
atravessar a [nova] ponte sobre o Rio Araguari encarei uma subida forte de 5
quilômetros até divisar, ao fundo da paisagem, a área urbana de Uberlândia
(MG), o maior município do Triângulo Mineiro (*).
Eram17h, no Horário Brasileiro de Verão.
(*) Diferentemente do que muitos dizem, pensam ou entendem, o Triângulo
Mineiro NÃO é formado somente pelos municípios de Araguari, de
Uberlândia e de Uberaba.
O Triângulo Mineiro é uma das dez
regiões de planejamento ou Macrorregiões do Estado de Minas
Gerais, constituído por 35 municípios, conforme mapa e
tabelas que se seguem.
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OS 35 MUNICÍPIOS DO TRIÂNGULO MINEIRO (CENSO 2022) |
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|
MUNICÍPIO |
POPULAÇÃO |
MUNICÍPIO |
POPULAÇÃO |
|
1. Água
Comprida |
2.108 |
22. Ituiutaba |
102.207 |
|
2. Araguari |
117.808 |
23. Iturama |
38.295 |
|
3. Araporã |
8.479 |
24. Limeira
do Oeste |
8.687 |
|
4. Cachoeira Dourada |
2.315 |
25. Monte Alegre de Minas |
20.170 |
|
5. Campina
Verde |
18.011 |
26.
Pirajuba |
5.537 |
|
6. Campo Florido |
8.466 |
27. Planura |
11.145 |
|
7. Canápolis |
10.608 |
28. Prata |
28.342 |
|
8. Capinópolis |
14.655 |
29. Santa Vitória |
20.973 |
|
9.
Carneirinho |
9.422 |
30. São
Fco. de Sales |
5.732 |
|
10. Cascalho Rico |
2.712 |
31. Tupaciguara |
24.470 |
|
11.
Centralina |
10.207 |
32. Uberaba |
377.846 |
|
12. Comendador Gomes |
2.773 |
33. Uberlândia |
713.232 |
|
13. C. das
Alagoas |
28.381 |
34. União
de Minas |
3.828 |
|
14. Conquista |
6.694 |
35. Veríssimo |
3.411 |
|
15. Delta |
10.494 |
Disponível em:< https://www.in.gov.br/web/dou/-/portaria-pr-470-de-28-de-junho-de-2023-493169747>. Acesso: 20/05/2026. ÁREA: 53.719 KM². O gentílico para quem nasce, em um
dos 35 municípios do Triângulo Mieiro, é TRIANGOLINO. |
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|
16. Fronteira |
14.533 |
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Total: 35 municípios 1.718.957 habitantes |
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"Antes
de adquirir a sua atual configuração, o Triângulo Mineiro fazia parte da região
do Alto Paranaíba".
"O
reordenamento das regiões, promovido pelo IBGE na década de 1990, fez com que
essa área fosse dividida em duas, de onde surgiu, então, o Triângulo
Mineiro."
Não me senti disposto a entrar em Uberlândia (MG) – que não conheço – e procurar hospedagem.
Estava molhado até os ossos. Precisava de banho e comida quentes. O primeiro
motel [Lipstick] que passou à minha direita, entrei.
Ao
sair do banho, tive a impressão de que troquei de pele. Lavei a roupa usada
naquele dia, exercícios de alongamento e a tão esperada ceia. Mas
como aquele motel está muito largado, não havia jantar. Contentei–me com um
sanduíche safado de frango.
Choveu a noite toda, castigando com a força de uma artilharia as vidraças do quarto e as costas quadradas do aparelho de ar–condicionado.
Felizmente uso tapadores de ouvidos. Não durmo sem eles; não vivo sem eles.
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29/12/2001 |
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4º DIA |
UBERLÂNDIA (MG) A UBERABA (MG) |
|
118 km |
|
Quando o
amanhecer se mostrava entre as frestas do tecido claro e
transparente das cortinas do quarto, notei o tempo nublado.
Pouco
conseguia enxergar o perfil reduzido do céu, à semelhança da forma
afilada da Lua Crescente, em seus primeiros dias.
Observei, enquanto
tomava o café da manhã e através da vidraça do aposento, nuvens de base
cinzenta e muito baixas. Prognóstico de mais água. E não deu outra.
Assim que
retomei à bike e à rodovia BR–050, começou o aguaceiro, como
um rio vertical a cair sobre mim.
A
intensidade foi aumentando e a coisa começou a ficar complicada, porque o
trânsito na travessia de Uberlândia (MG) é intenso e confuso.
|
ATUALIZAÇÃO |
|
Em 2018, foi inaugurado o Contorno Rodoviário de Uberlândia (MG),
alternativa para desviar do frenético trânsito da BR – 050, que atravessa o
perímetro urbano, num trecho com trincheiras, sem acostamento ou guarda –
corpo. |
A estrada
estava em obras de duplicação até Uberaba (MG). Caos total.
Após me
livrar desse trecho urbano de muito movimento, parei no Posto Kung–Fu e comprei
uma garrafa com água mineral de 1,5 litro, que chegou a Uberaba (MG) intacta.
Bebia água da chuva.
Entre
Uberlândia (MG) e Uberaba (MG) existem poucos pontos de apoio. Dos 120
quilômetros que separam as duas maiores cidades do Triângulo Mineiro, 70
quilômetros estão duplicados, embora não liberados para o trânsito.
|
O trecho
entre Uberlândia (MG) a Uberaba (MG) está
duplicado desde 2014. |
BR-050 entre Uberlândia (MG) e Uberaba (MG) antes da duplicação.
Para mim foi
ótimo, pois reinei absoluto na pista nova e bem longe do trânsito da
BR –050 que, naquele sábado, estava intenso nas duas direções. Pedalei na
maior tranquilidade e em segurança.
Todavia, os
50 quilômetros finais estavam com as obras de duplicação em andamento. Pedalar
com aquele aguaceiro foi difícil.
Coloquei
duas faixas refletivas em forma de X, aquelas que os guardas de trânsito e os
motoqueiros usam para serem vistos pelos motoristas, acionei as luzes piscantes
de proa, popa, bombordo e estibordo e fui em frente. Tão importante quanto
ver é ser visto. A chuva e a neblina dificultavam a visibilidade.
Percorri os
50 quilômetros restantes em três horas, chegando a Uberaba (MG) às 14h 45.
Estada no Hotel Antares, da Rede Graal, localizado às margens da BR–050, no km
173.
Foi servida
uma suculenta feijoada. Era o que eu precisava, após pedalar 118 quilômetros
sob forte aguaceiro.
Findo o
almoço, voltou a chover forte. Fui para o quarto e assisti ao filme Debby
& Loyde, dois idiotas em apuros.
A chuva
parou por volta das 21h, quando acordei da hibernação pós-feijoada.
Na voz do
jornalista Boris Casoy, ouvi a notícia do falecimento da cantora Cássia Eller,
enquanto fazia um frugal lanche antes de dormir. Era véspera de Lua
Cheia.
Por volta
das 22h, foi possível ver a claridade da Lua, que se esforçava para vencer
densas nuvens. Prenúncio de tempo bom para o dia seguinte? A ver.
Li um pouco
e cama. Descanso é essencial para uma boa pedalada noutro dia.
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30/12/2001 |
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5º DIA |
UBERABA (MG) A ORLÂNDIA (SP) |
|
117 km |
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Zarpei de Uberaba (MG) às
9h01, após esplêndido café da manhã. Caia uma chuva leve, estilo garoa
paulistana.
Os primeiros 30
quilômetros foram pedalados num sobe e desce ininterruptos, à semelhança de
corcovas de camelos, mantendo–se assim até chegar à recém–inaugurada Ponte do
Rio Grande, divisor natural dos Estados de Minas Gerais (Delta – MG) e São
Paulo (Igarapava–SP). Eram 11h.
A partir da
divisa MG/SP, ingressei na Rodovia Anhanguera (SP–330), duplicada, pedagiada e
mantendo–se nessas condições até Campinas (SP), numa extensão de 346
quilômetros. O acostamento é largo e nivelado à faixa de rolamento. As
sinalizações verticais (placas) e horizontais (faixas) são muito boas.
Às 9h33,
atravessei a nova Ponte sobre o Rio Grande, inaugurada em 3 de maio de 2001, em
substituição à antiga ponte ferroviária da Linha Tronco da Estrada de Ferro
Mogiana (*), cujas operações foram
encerradas em 1980.
(*) O traçado principal da Estrada de Ferro Mogiana ligava a cidade de Campinas (SP) a Araguari (MG), atravessando o interior paulista, cruzando o Rio Grande e chegando ao Triângulo Mineiro.
Foto: Fernando Mendes, em viagem [de bike] de Uberaba (MG) a Franca (SP), em 08/03/2023.
Não chovia
no lado mineiro; chovia fraco no lado paulista.
Às 10h e sob
Sol forte, comecei as primeiras pedaladas pela Rodovia Anhanguera (SP–330).
Naquele dia,
a média horária encolheu bastante em virtude do calor e devido à Rodovia
Anhanguera, em seus primeiros 30 quilômetros, atravessar uma área de topografia
acentuadamente ondulada, à semelhança de gigantesco tobogã. Ou seja, aclives e
declives alternam-se; raros são os trechos planos.
De ambas as
faixas de rolamento da Via Anhanguera, avistam-se canaviais que se perdem no
horizonte.
As áreas
cultivadas com soja também vêm crescendo nos municípios situados às margens da
rodovia, na porção norte do Estado de São Paulo, como Igarapava, Aramina,
Buritizal, Ituverava, Guará, São Joaquim da Barra e Orlândia.
Foi nesta última que pernoitei, ao final daquele quinto dia de viagem.
Foto: Fernando Mendes.
Passei por Igarapava (SP) às 12h. Parei no Posto Estoril para almoçar. Lembrei–me da feijoada de Uberaba (MG). Almocei e toquei em frente, passando por Aramina (SP) e Ituverava (SP).
A Anhanguera, diferentemente de muitas estradas brasileiras, não atravessa áreas urbanas, passando ao largo de cada uma delas. Com isso, o motorista não tem que enfrentar sucessões de quebra–molas e nem atravessar perímetros urbanos com trânsito confuso, pedestres desatentos, ciclistas distraídos, carroças na contramão e animais soltos.
Telas de arame isolam a rodovia das casas, às margens da estrada. Para travessia das faixas de rolamento existem passarelas suspensas.
O calor era forte e as nuvens de chuvas ficaram em Minas Gerais. Quando atravessei a ponte sobre o Rio Grande, o marco quilométrico passou para "km 450", decrescendo até a capital paulista, no "km ZERO", dando início à Marginal Tietê, bairro da Penha.
No km 405,
em Ituverava (SP), passei pelo 1º pedágio. Motos e bicicletas são isentas. Esse
trecho esteve sob a administração da Via Norte. Atualmente quem o administra é
a Viapav.
De Ituverava
(SP) a Guará (SP) são 10 quilômetros de planura, a primeira desde o meu
ingresso na SP–330. A pequena Guará (SP) fica em ambos os lados da estrada,
protegida por cercas e os carros passam bem longe da população.
Até São Joaquim da Barra (SP) foram 18 quilômetros. Parei para alongar as pernas. Eram 15h30. O azul do céu era digno de contemplação.
Faltavam apenas 18 quilômetros para Orlândia (SP), quando começou a soprar um vento de proa (vento contra), os aclives ficaram mais extensos e a média horária caiu. Mas, cheguei bem e em segurança, às 18h. Hospedagem no recém–inaugurado Hotel São Marcos, reservado via internet.
Por volta das 20h, quando voltava para o hotel, depois do jantar, a Lua Cheia, última do ano de 2001, apareceu no ponto Leste, emergindo em meio aos canaviais.
Com a presença de algumas nuvens na minha vertical, em poucos minutos a Lua Cheia, semelhante a uma bolacha, estava encoberta. Fiquei a contemplar aquela pintura e pensado na minha viagem. Imaginei pedalar sob aquele luar.
A cidade de Orlândia (SP) é muito pequena e pacata. Conta com 38 mil habitantes e uma área de apenas 297 km2.
No passado, ela fez parte de um dos
ramais mais importantes da maior Cia. Férrea do século XVIII, a Cia. Mogiana de
Estradas de Ferro.
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31/12/2001 |
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6º DIA |
ORLÂNDIA (SP) A PIRASSUNUNGA (SP) |
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159 km |
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No último
dia do Ano da Graça de 2001 deixei Orlândia (SP) às 9h com tempo claro,
temperatura agradável, céu cheio de Sol e sem nuvens.
Longos 159
quilômetros a percorrer até Pirassununga (SP), famosa pela cachaça 51, aquelas
da “boa ideia”.
Ao ingressar
na via Anhanguera, notei que a linha férrea da antiga Cia. Mogiana atravessa a
cidade e segue paralela à Rodovia Anhanguera (SP–330) até Cravinhos (SP).
Quantas
histórias aqueles trilhos não guardam. A história de uma região que teve no
café o primeiro surto de desenvolvimento do Brasil Império. A cana de açúcar, a
soja e a criação de gado comandam atualmente a economia daquela região.
Passei pelo
2 º pedágio, em Sales de Oliveira (SP), às 10h27, depois de pedalar os
primeiros 26 quilômetros após a saída de Orlândia (SP). A temperatura subia
rapidamente e o dia prometia ser quente.
De Sales de
Oliveira (SP) até Jardinópolis (SP), pedalei forte por 29 quilômetros. Parada
obrigatória diante da colossal ponte férrea, paralela à Rodovia Anhanguera.
A cidade é
atravessada pela antiga Linha Tronco da Companhia Mogiana, hoje conhecida como
Variante Entroncamento-Amoroso Costa.
Atualmente,
esses trilhos fazem parte do Corredor Centro–Sudeste da Ferrovia
Centro–Atlântica (FCA), operada e administrada pela VLI Logística.
Foto: Fernando Mendes.
Foto: Fernando Mendes.
A Ponte
Ferroviária de Jardinópolis (SP) tem 500 m de extensão e altura corresponde a
um prédio de 15 andares.
Depois de
fotografá–la, segui rumo a Ribeirão Preto (SP), chegando à Califórnia
Brasileira às 12h, hora do Zênite ou Sol a pino.
Liguei às
minhas filhas em Brasília (DF) para dar notícias. De Orlândia (SP) a Ribeirão
Preto (SP), havia pedalado 53 quilômetros. Faltavam 119 km para Pirassununga
(SP). E a temperatura subindo.
Às 12h15
continuei a viagem sob Sol abrasador e calor senegalês. Foi a partir daquele
ponto que tirei as mais belas fotos da Via Anhanguera.
Algumas
nuvens, em meio ao céu muito azul, proporcionaram belas imagens da estrada,
flanqueada por intermináveis canaviais.
Depois das fotos, outros 20 quilômetros sem pontos de apoio. A água que eu levava estava quente e, portanto, intragável.
Em Cravinhos (SP) almocei divinamente e a química digestiva se desenrolou enquanto pedalava – nonstop (*) – até São Simão (SP).
(*)
Nonstop (tudo junto) é a grafia preferida no inglês americano para adjetivos e advérbios (ex: a nonstop flight).
Non–stop (com hífen) é a
forma mais tradicional e a preferida no inglês britânico.
Ambas significam "sem parar" ou "direto".
(Nota do Autor).
Após o 3º
pedágio, encostei a bicicleta no Posto do Tim e comprei algumas barras de
rapadura. Açúcar na veia.
Faltavam 63
quilômetros para Pirassununga (SP). Conclui esse trecho em 3 horas. Mantive uma
média muito boa para um dia de distância longa e temperatura elevada.
Às 15h,
considerada a hora mais quente do dia, o termômetro do meu relógio de pulso
marcou insanos 37°C. A sensação térmica, decerto, era maior.
Transpassei
a ponte sobre o famoso Rio Mogi-Guaçu e Pirassununga (SP) foi ascendida 18
quilômetros à frente. Antes de entrar na área urbana da cidade, fui ao Graal
Coral (km 210 da Via Anhanguera) e saboreei pedaços de melão e melancia.
Hospedagem
numa casa que oferece pouso aos viajantes. Os preços dos hotéis convencionais
estavam deveras "salgados".
Devidamente
banhado, saí à caça de víveres. A cidade estava deserta, nem parecia o último
dia do ano. Restaurantes, bares e lanchonetes estavam fechados. Para jantar,
precisei voltar à estrada e fazer a refeição no Graal Coral. Fui a passos.
Voltei ao
hotel por volta das 21h. As ruas continuavam desertas. A Sra. Helena,
que é a dona da estalagem, comentou, enquanto me servia uma chávena de café
coado na hora: "chegou feriado, a população viaja para as praias".
"As preferidas são as do Litoral Norte, uns 300 quilômetros daqui".
Brasília
(DF) poderia ser tão perto do mar quanto Pirassununga (SP).
Quando o ano
velho deu lugar ao novo, alguns morteiros foram disparados nas ruas. Mas foram
poucos. Assisti pela TV à queima de fogos em Copacabana.
Existe um
ditado, com mais anos que o Sol, que diz: "quando o novo chega, o velho
tem que parar".
Fazia um ano
da Virada do Século (2000–2001), que testemunhei, em companhia de minhas duas
filhas, na Praia de Copacabana, Rio de Janeiro (RJ).
Em
Pirassununga (SP), no interior de um quarto de pensão, à meia–noite,
testemunhei o início de 2002, o segundo ano da primeira década do século XXI
(2001 a 2010).
Mesmo
estando sozinho em um quarto de hotel, na deserta Pirassununga (SP), em plena
passagem de ano, certamente, estava mais seguro do que um ano antes, na agitada
Copacabana, quando um acidente com os fogos de artifícios matou uma pessoa e
deixou várias feridas.
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01/01/2002 |
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7º DIA |
PIRASSUNUNGA (SP) A ITATIBA (SP) |
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158 km |
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No primeiro dia do Ano da Graça de 2002, às 7h, terminei o delicioso café da manhã e às 9h estava de volta à Anhanguera e às pedaladas.
Tempo nublado e o céu cinza, a cor da
solidão, segundo os expertos [ou experts] nas relações aquarelas e sentimentos.
Calibragem dos pneus da bike no Posto Pica–Pau e bora pedalar até Leme (SP), 23 quilômetros adiante.
Ao deixar
Pirassununga (SP) avistei, no meu través Oeste, ou seja, à minha (*) esquerda, os imensos tonéis ou tanques
circulares que armazenam a cachaça 51, posicionados quase às margens da
estrada.
(*) Antes de pronomes
possessivos femininos como "minha", o uso da crase é facultativo.
(Nota do Autor).

Acesso: 31/01/2002.
São
recipientes semelhantes àqueles que existem nas distribuidoras de combustíveis.
Essa cachaça está sendo exportada para a Europa e, na Alemanha, a 51 é mais
vendida do que limonada no Saara ou no Kalahari.
Passei pelo
5º pedágio em Leme (SP) e abortei a parada programada para não perder o ritmo
forte impresso naquele trecho, com longas retas e predomínio de planuras.
Em Araras
(SP), 20 quilômetros à frente de Leme (SP), alcançada às 11h50 – muito
cedo para almoçar –, dei preferência às rapaduras e comprei água.
Enquanto
estive parado, esquadrinhei o céu em busca de algum ponto azul. Não logrei
êxito.
Encerradas
as comemorações pela passagem do ano, minha preocupação era com o aumento do
movimento na Via Anhanguera, daqueles que voltavam à Capital Paulista e
adjacências.
O fluxo de
automóveis na SP–330 era bem grande quando deixei Araras (SP), às 12h15.
Caso chovesse, e com aquele trânsito frenético, o cenário mudaria de normal
para tenso e molhado.
Felizmente
não choveu, embora a presença de veículos aumentasse de linear para
exponencial, à medida que o cronômetro do meu relógio de pulso devorava os
dígitos, enquanto a bike ia engolindo o asfalto.
Na passagem
pela sexta Praça de Pedágio, em Limeira (SP), havia denso engarrafamento, que
se estendia até as cabines de cobrança das tarifas. Veículos demais, guaritas
de menos. Para ciclistas, nada de perrengues.
Naquele
ponto, a Via Anhanguera bifurca e dá origem à Rodovia dos Bandeirantes
(SP–348), alternativa mais rápida àqueles que seguem para a Capital e Região
Metropolitana, por conta das quatro faixas de rolagem, contra duas faixas na
Anhanguera.
Meu destino
daquele primeiro dia de 2002 era Campinas (SP). Continuei a jornada pela Via
Anhanguera.
Às 13h e
sentindo meu estômago oco como um cântaro vazio, parada no Graal Topázio para
almoço.
O interior
do estabelecimento assemelhava-se à Rua 25 de Março em véspera de Natal, ou
seja, um maremágnum (abundância desordenada, confusão de
gente). Mas sobrevivi e, por extensão, saí de lá bem alimentado.
Pouco antes
do Graal Topázio, em Limeira (SP), a Rodovia SP-310, que vem de São José do Rio
Preto (SP), Catanduva (SP), Matão (SP), Araraquara (SP), São Carlos (SP) e Rio
Claro (SP), "deságua" na Anhanguera, resultando, daquele ponto em
diante, no aumento exponencial de veículos.
Passei pela
oitava Praça de Pedágio, em Nova Odessa (SP), e pela primeira vez avistei
favelas à beira da Anhanguera, a SP–330.
Sumaré (SP),
que abriga a fábrica dos autos da Honda, foi alcançada às 15h25 e 22
quilômetros adiante, estava em Campinas (SP), mais precisamente no km 104, onde
existe uma alça de acesso à Rodovia D. Pedro I (SP–065).
A Anhanguera ficou no passado.
Pela Rodovia
D. Pedro I ou SP–065, pedalei os 39 – e
últimos – quilômetros do dia até Itatiba (SP), enquanto nuvens
negras, semelhantes às ameixas colocadas no doce "olho de sogra",
verteram uma chuva pesada, acompanhada de raios, relâmpagos, trovões e vento
impertinente. Pacote completo.
Às 16h30,
ensopado como um pardal na chuva, dei entrada no Motel Desert Inn,
às margens da SP–065. Estalagem muito confortável, alcova de banho ampla e
cardápio variado.
Comecei bem
o ano, fazendo duas coisas que curto muito: pedalar e viajar. Até pouco tempo,
ou fazia uma coisa ou fazia outra. Mas agora é possível fazer as duas
simultaneamente. Viajar de bicicleta é muito bom.
Dormi cedo
para acordar cedo.
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02/01/2002 |
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8º DIA |
ITATIBA (SP) A JACAREÍ (SP) |
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116 km |
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Pouco antes
das 7h30 deixei o Desert Inn e voltei à Rodovia D. Pedro I.
Nuvens de brancura láctea ornamentavam o céu azul–celeste. Embora fosse cedo, o
ar estava abafado. O termômetro do meu relógio de pulso marcava 27°C.
Passei pelo
único pedágio para automóveis e pedalei forte até Atibaia (SP), 48 quilômetros
à frente, chegando às 10h13. Parada providencial no SAU (Serviço de Atendimento
ao Usuário). Água gelada no bebedouro e ingestão de rapaduras. O estoque de
líquidos estava quase a zero.
Atravessei a
ponte sobre a BR–381, Rodovia Fernão Dias, que liga SP a BH e 23 quilômetros
adiante, uma pausa refrescante em Igaratá (SP), banhada por uma belíssima
represa de águas límpidas e convidativas ao banho.
É a represa
do Rio Jaguari, considerada pelos órgãos ambientais a mais limpa do Brasil.
Trata–se de um reservatório de 40 km2 (a mesma dimensão
do Lago Paranoá, em Brasília - DF), que parece abraçar ambos os lados da
Rodovia SP – 065.
Antes de
iniciar a travessia da ponte sobre a represa, abandonei a SP–065 e segui por
uma trilha, que termina em uma das várias praias. Banho maravilhoso
naquelas águas transparentes e frias.
Com o calor
que estava fazendo, foi impossível resistir. Arrefecimento da temperatura
corporal e ânimo renovado.
Fiquei uma
hora na Represa do Rio Jaguari, em Igaratá (SP), para banho e fotos. Faltavam
30 quilômetros para Jacareí (SP).
Banhado e
deveras refrescado, voltei ao pedal e à estrada. Igaratá (SP) foi atingida às
14h30. O banho abriu o apetite. Num Posto Ipiranga, a 24 quilômetros do acesso
à Via Dutra, deliciosa refeição à base de massa e salada.
| Via Dutra vista do viaduto da SP - 065. Jacareí (SP). Foto: Fernando Mendes. |
Um calor
infernal na volta à bike. Todavia, Jacareí (SP) estava bem próxima.
Precisava de um banho e, após, relaxar numa cama bem larga e sentindo o frescor
do ar–condicionado do aposento.
Às 16h,
abandonei a SP–65 e, finalmente, ingressei na Via Dutra (BR-116), administrada,
desde 1996, pela Concessionária CCR Nova Dutra.
O ano de
2001 marcou as comemorações dos 50 anos da Via Dutra. No dia 19 de janeiro de
1951, o presidente Eurico Gaspar Dutra inaugurou a ligação Rio – São Paulo, com
402 quilômetros de extensão, nomeada BR–116, que teve diversos trechos
retificados, outros inéditos, em substituição à antiga Rio – São Paulo.
Àquela
época, início da década de 1950, a novidade ficou por conta do trajeto 100% em
pista duplicada. A Dutra foi a primeira rodovia do País a ter duplicação
integral de ponta a ponta.
O
Restaurante da Rede Frango Assado passou no meu través Leste, venci outra Praça
de Pedágio – Jacareí (SP) – e logo estava na suíte do Top´s Motel,
no km 169 da Dutra.
No interior
do quarto, o ar–condicionado aliviou a sensação calor paquistanês da área
externa.
Pedalar pela
Dutra, até o Rio de Janeiro (RJ), foi a minha homenagem silenciosa aos 50 anos
da mais importante rodovia brasileira.
Naquele 2º dia do novo ano, completei 2/3 da viagem. Faltava a etapa da Via Dutra, ou seja, faltavam 340 quilômetros para o Rio de Janeiro (RJ). Podia sentir o cheiro da maresia.
03/01/2002 | |
9º DIA | JACAREÍ (SP) A QUELUZ (SP) |
157 km | |
Deixei o Top´s Motel
e o maravilhoso ar–condicionado às 8h30. Começava a travessia do Vale do
Paraíba, o Centro Geográfico do Brasil.
A
quem interessar possa.
Centro
Geográfico não significa localizar-se no centro de algum lugar.
Por
definição, Centro Geográfico é uma alusão que fazemos às áreas mais
desenvolvidas de um país.
No
Brasil, o Centro Geográfico é, sem dúvida, o Vale do Paraíba, pois ele [o Vale] concentra
60% do parque industrial brasileiro, 25% da população do País, em diminuta área
de 0,5% do território nacional, na qual cresce - embora não plenamente completa
- a Megalópole Brasileira.
Brasília
- DF, na melhor das hipóteses, é o centro geométrico do Brasil.
(Nota do Autor).
O Vale do
Paraíba é limitado geograficamente pela Serra da Mantiqueira, a Noroeste (NW) e
pela Serra do Mar, a Sudeste (SE).
Entre essas
duas formações serranas, do período Arqueozoico, está o Vale, por onde corre o
Rio Paraíba do Sul, que tem a sua nascente na cidade de Areias (SP), localizada
na Serra do Mar.

A Via Dutra foi assentada dentro desse vale [do Paraíba] e corre, ora paralela ao Rio Paraíba do Sul; ora a serpenteá-lo.
No passado, a cafeicultura, utilizando mão de obra escravizada, trouxe riquezas para região. Quando ocorreu o esgotamento dos solos, veio a decadência.
"O café, que durante anos a fio sustentou o Brasil, teve um primeiro choque violento quando a Infanta D. Isabel, no final da Monarquia e atuando como regente na ausência do pai, D. Pedro II, aboliu a escravatura, sem aviso prévio – muito embora então fossem conhecidas as suas simpatias pela causa abolicionista.
Isso, mais a exaustão dos campos, cultivados sem o pousio e sem obedecer às curvas de nível, provocou o descalabro súbito de sector.
Seguiu–se o abandono generalizado da mão de obra negra escravizada e a ruína da casta nova rica dos barões do café".
Fonte: Rio das Flores / Miguel Sousa Tavares - São Paulo : Companhia das Letras, 2008. A Editora optou por manter a grafia do português de Portugal.
A Bolsa de Valores de Nova York foi à lona, em outubro de 1929. Os EUA, maiores compradores do café brasileiro, entraram em recessão e pararam de importar o principal [e único] produto constante da pauta de exportações do País.
A oferta
ficou maior que a demanda e o resultado foi o excesso de café no mercado. E
café em excesso significou queda nos preços das sacas. Essa crise marcou o fim
da época áurea da cafeicultura no Brasil.
A partir de
então, o Vale do Paraíba deixou de ser agroexportador e se tornou urbano e
industrial, fazendo–se valer dos capitais acumulados com o ciclo do café.
Foi no 1º
mandato de Vargas (1930–1945) que as indústrias começaram a se alastrar pelo
Vale. Começou pela CNS (Cia. Siderúrgica Nacional), em 1942, e não parou mais.
O governo
bancou a infraestrutura, com rodovias e hidrelétricas, e isso atraiu mais
indústrias para o Vale do Paraíba, tanto nacionais quanto estrangeiras.
Indústrias atraem indústrias.
Mas por
outro lado, essa política de valorização do Vale levou o País às grandes
desigualdades regionais: um Sudeste poderoso e desenvolvido, enquanto o Norte e
o Nordeste ficaram carentes e parcamente desenvolvidos.
As maiores
megalópoles da Terra estão nos EUA, no eixo Boston - Washington – DC, com 1.100
km, e no Japão, na ligação Tóquio – Osaka, com 500 km.
A megalópole
brasileira, ainda em fase de construção, abarca o eixo Rio–São Paulo,
interligada espacialmente pela Via Dutra, por 402 quilômetros.
A megalópole
brasileira, ainda em fase de construção, abarca o eixo Rio – São Paulo,
interligada espacialmente pela Via Dutra, com 402 quilômetros de extensão,
entre o Trevo das Margaridas, no Bairro de Irajá, no Rio de Janeiro, e a Ponte
Presidente Dutra, em São Paulo, no acesso à Marginal Tietê, no Bairro Parque
Novo Mundo.
Rapidamente
atravessei São José dos Campos (SP), a maior cidade do Vale do Paraíba,
com 539.000 habitantes (IBGE - 2002) e 771.000 (IBGE 2026) e que
abriga polos tecnológicos de ponta na América Latina. Ei–los:
1.
EMBRAER,
fabrica aviões comerciais, executivos, agrícolas e militares, peças
aeroespaciais, serviços e suporte na área. É um conglomerado transnacional
brasileiro e 3ª maior fabricante de aviões na Terra. É líder no segmento de até
130 assentos.
2. DCTA (Departamento de
Ciência e Tecnologia Aeroespacial), é uma organização militar e instituição
científica e tecnológica que planeja, gerencia, realiza e controla as
atividades relacionadas com a ciência, a tecnologia e a inovação no âmbito da
FAB (Força Aérea Brasileira);
3. INPE (Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais), moderno centro de previsão meteorológica
e monitoramento de queimadas pelo território (é referência mundial), além de
realizar pesquisas na área da fusão nuclear;
4. ITA (Instituto
Tecnológico Aeronáutico), instituição de ensino superior pública da Força
Aérea Brasileira, vinculada ao Departamento de Ciência e Tecnologia
Aeroespacial (DCTA).
Ao
transpassar Caçapava (SP), 22 quilômetros à frente de São José dos Campos (SP),
avistei, à minha dianteira, a distância que não soube precisar, um ciclista que
seguia na mesma direção que eu. Observei que, pela quantidade de coisas que
carregava na bike, estava a viajar.
Apertei as
pedaladas e consegui alcançá–lo. Começamos a conversar e ele (Alexandre) me
disse que vinha de Araçatuba (SP) e ia para o Rio (RJ).
Paramos em
Taubaté (SP) para almoçar. Eram 12h. Conversamos sobre o desenrolar das nossas
viagens, enquanto saboreávamos um delicioso PF no Posto Sete Estrelas. Chamei–o
para ir a Aparecida (SP) conhecer o Santuário Nacional.
Tiramos
fotos ao passar pelo pedágio, que fica na divisa dos municípios de Moreira
César (SP) e Pindamonhangaba (SP).
Algumas
nuvens esparsas sobre a Via Dutra, se acumulavam no topo da Serra da
Mantiqueira, vista da estrada no través Oeste, ou seja, à minha esquerda.
Foto: Fernando Mendes.
Chegamos a
Aparecida (SP) às 14h, após percorremos 43 quilômetros pós-almoço, em Taubaté
(SP).
Por duas horas andamos pelas basílicas, a nova, inaugurada em 1980, e a antiga, em estilo barroco, erguida como capela em 26 de julho de 1745 e dando lugar à atual Basílica Histórica, em 1888.
Saí
de lá sabendo bem mais acerca do lugar do que quando entrei, duas horas antes.
Sempre procurei fazer das minhas viagens, independentemente do meio de
transporte utilizado, uma maneira de aprender sobre os lugares pelos quais, não
importando se o sítio (lugar) é uma igreja ou uma cachoeira.
Voltamos
à Dutra e aos pedais às 16h. O calor era implacável e as subidas começaram.
O
Alexandre, que carregava muita bagagem em sua bicicleta, incluindo uma barraca
de camping, começou a ficar para trás.
Quando
chegamos a Cachoeira Paulista (SP), ele parou em um posto de combustíveis e
disse para eu seguir e não o esperar.
Tiramos
mais fotos, trocamos endereços eletrônicos e nos despedimos. Depois de 10 dias
pedalando sozinho, foi bom ter companhia.
Ao
longo dos 18 quilômetros que se seguiram à saída de Cachoeira Paulista (SP), as
subidas ficaram intensas e o calor estava abrasador.
Passado
o Trevo de Lavrinhas (SP), o mais belo e imponente da Via Dutra, um declive
sinuoso e pronunciado, termina após curva bem aberta, à esquerda, alinhando-se
com uma ponte, em estilo romano, que passa simultaneamente sobre o Rio Paraíba
do Sul e a linha férrea administrada pela RMS Logística.
Queluz
(SP) a 13 quilômetros.
Eram
18h46 quando parei no Hotel Athenas, à beira da estrada. Faltavam dois
dias para alcançar o Rio de Janeiro (RJ). Estava quase lá.
Jantei
no Restaurante do Gaúcho, que fica no posto de serviços anexo ao hotel. A
refeição estava uma delícia, principalmente o feijão.
Assisti
ao JN para me inteirar acerca dos assuntos que iam pela Pátria e fui para o
quarto. Sensação de fim de viagem.
Eu
tinha a impressão de estar fora de casa fazia dias e, ao mesmo tempo, a
sensação de que a viagem estava passando rapidamente.
De
Brasília (DF) a Queluz (SP), pedalei 1.204 quilômetros em nove dias. Até aquele
ponto, havia atravessado três estados (GO, MG e faltavam apenas 8 quilômetros
para sair do Estado de SP), enquanto o ponto final da aventura, o Rio de
Janeiro (RJ), minha terra natal, estava a apenas 248 quilômetros de distância.
Logo ali.
Antes de dormir repassei todos os dias da viagem, os lugares nos quais estive, as paisagens, os temporais inclementes, nos quatro primeiros dias da viagem, as estadas confortáveis ao longo do caminho, as refeições deliciosas, ter a companhia do Alexandre – mesmo por poucas horas – e as grandes subidas que venci, sem maiores dificuldades.
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04/01/2002 |
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10º DIA |
QUELUZ (SP) A PIRAÍ (RJ) |
|
107 km |
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Penúltimo
dia da jornada começou tarde, às 9h30. Dormi muito mal.
A partir das
4h da manhã, um galo começou a cantar no quintal da casa adjacente ao hotel.
Cantava alto e forte. Não houve forma de dormir, a não ser por um momento,
quando "a trombeta matinal" (*) diminuía
ou era interrompia.
De repente,
voltavam os cantos "da última vigília", e com força renovada, tomando
conta do silêncio e de meus nervos castigados.
Às 5h da
manhã permanecia acordado. Dormi quando as últimas estrelas deram lugar à
aurora, ou os meus ouvidos se acostumaram com o canto do galináceo ou o cansaço
me derrotou.
(*) Quinto
Horatius Flaccus, romano que viveu entre 65 a.C e 8 a.C, foi poeta lírico e
satírico e, acerca de galos - descritos por ele como "as trombetas
matinais"-, escreveu que "os galos ao cantar, anunciam a última
vigília, que começa às 4h, ou seja, duas horas antes do orto solar.
Ao
cocoricar, o galináceo está "a advertir os demônios e os espíritos
errantes da noite que se retirem". "O galo é o cantor de Deus por que
repete seus louvores sete vezes".
Quando
acordei, o Sol estava na lida fazia tempo. Àquela hora [9h] eu devia estar na
estrada.
Num átimo
pulei da cama, tomei o café da manhã com ar de pressa e raspei–me do Hotel
Athenas, seguindo na direção de Piraí (RJ), 107 quilômetros adiante, fartos em
subidas. O calor prometia.
Ao passar pela divisa
estadual SP/RJ, oito quilômetros após o Athenas, registro fotográfico.
O Rio do
Salto, afluente do Rio Paraíba do Sul, intercepta ortogonalmente [90º] a Via
Dutra, sendo o divisor natural dos Estados do Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo
(SP) e também marca a divisa dos municípios de Queluz (SP) e Resende
(RJ).
É um ponto
que poucos conhecem, pois fica deveras afastado da Dutra, longe dos olhos dos
condutores, a bordo de seus velozes veículos.
De bike foi
fácil chegar ao Rio do Salto.
Em Engenheiro Passos (RJ), distrito de Resende (RJ), fiz uma especial viagem pelo passado, com as lembranças que minha mente foi longe buscar.
Parei a bike defronte à Estação Engenheiro Passos (RJ), que fica a poucos metros da entrada do Hotel Fazenda Villa Forte, lugar que eu, quando criança, adorava passear em qualquer época do ano.
Tenho lembranças das viagens em companhia de meus pais, irmãos, tios, tias, primos e primas.
Adorávamos ir de trem, embarcávamos na estação defronte ao Hotel Fazenda, íamos até Resende (RJ) e retornávamos, noutro comboio, de volta à estação de Engenheiro Passos (RJ), que guarda boas recordações da infância.
Infelizmente e estação de boas lembranças, está abandonada.
Pedalai por outros 11 quilômetros e atravessei o pedágio de Itatiaia (RJ), que fica próximo à entrada do Parque Nacional.
Um relógio digital, que alterna a hora com a temperatura, instalado na praça do pedágio, marcava 11h44 e 39° C. Foi o dia mais quente desde a saída de Brasília (DF).
Existe entre Itatiaia (RJ) e Resende (RJ), um pedaço da Finlândia no Brasil, a charmosa (*) Penedo (RJ).
(*) Localizada entre o Rio e São Paulo, Penedo (RJ) é a única colônia finlandesa da América do Sul.
Tudo começou em 1929 quando um grupo de naturalistas veio da Finlândia para criar uma sociedade.
Com o tempo, Penedo tornou-se um polo turístico, atraindo visitantes de todo o País, para desfrutar das cachoeiras, caminhadas à beira do Rio das Pedras, em meio a muita natureza.
Disponível em: <https://www.historiasdadutra.com.br/>. Acesso: 31/01/2002.
Passado a pequena Finlândia nos Trópicos, segui para Resende (RJ), trecho percorrido em 30 minutos e sob calor demencial.
Parei no Posto Olá Resendão!. Havia um delicioso cheiro de churrasco no ar. Não resisti. Era hora da boia, meio–dia.
Depois de farto rodízio, regado a
algumas Coca-Colas geladas, se pudesse dormiria em algum lugar bem fresco, porém,
prevaleceu a disciplina. 70 quilômetros me aguardavam até Piraí
(RJ).
Próximo à AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras) existe um shopping da Rede Graal à beira da Dutra. Um cartaz anunciava: "Caixa Eletrônico do Banco 24 horas".
Contava com apenas R$ 2,00 no bolso, após o almoço e as Cocas. Estava na hora de sacar mais algum para os gastos até Piraí (RJ).
Atravessei a Dutra pela passarela suspensa, deixei a bicicleta na guarita do estacionamento do shopping e dirigi–me ao caixa eletrônico.
O ar–condicionado no interior do autoatendimento foi um alívio para o calor que estava lá fora.
Coloquei o cartão na máquina e, ao invés de aparecer a mensagem “digite a sua senha”, apareceu outra mensagem, terrível: “cartão com problemas na tarja magnética”. “Dirija–se à sua agência e solicite outro cartão” e “engoliu – o”. Pânico geral.
Como me dirigir à minha agência se eu estava a mais de 1.400 quilômetros de Brasília (DF)?
Pelo interfone, a funcionária [do 0800] informou que quando isso acontece –problemas na tarja magnética – a máquina retém o cartão e automaticamente cancela–o. E, pior, que eu teria que solicitar outro cartão à minha agência, em Brasília (DF).
Achei melhor não falar em que condições eu estava viajando. Não adiantaria nada. Voltei para a estrada e fiquei parado tentando raciocinar. Dinheiro na conta corrente, mas sem poder sacá–lo, era tudo que não podia acontecer. E aí? Como eu faria? Não consegui pensar em nada.
Naquela época (2001–2002), não existiam PIX e muito menos os aplicativos bancários, nos rudimentares celulares existentes, que funcionavam de forma precária e limitada.
Continuei
a pedalar sem crer no que havia acontecido. E como tudo que está ruim pode
piorar, a bike derrapou e eu quase beijei o chão. O pneu
dianteiro foi estuprado por um prego. Até aquele ponto do dia, o resultado brilhava
pela ausência. Substituí a câmara furada e fui.
Mas como viajar o restante daquele dia [e o seguinte] com apenas RS 2,00 e uma folha de cheque? Levei o cartão VISA do BB, que funcionava como cartão de crédito, cartão de débito, saque e solicitação de folhas avulsas de cheques.
Por segurança, levei 4 folhas de cheque, sacava pouco dinheiro e procurava pagar as coisas sempre com débito em conta. Cartão de crédito, em último caso. Mas sem o cartão de débito, "ingerido" pela máquina do Banco 24 Horas, não poderia fazer nada.
Até Piraí (RJ) fui pedindo água nos bares dos postos e para comer eu tinha um bom estoque de barras de cereais e rapadura. O moral naquele dia estava em baixa e as subidas até Barra Mansa (RJ), em alta.
Passei Volta Redonda (RJ), Arrozal (RJ) e depois Piraí (RJ), onde parei para o último pernoite. Estava preocupado com aquela história de ter apenas R$ 2,00 no bolso.
Mas como o "Sangue de Jesus tem Poder", ao abrir a minha pequena mala de roupas para pegar a tesourinha de unhas, eis que dentro da minha carteira do Plano de Saúde, estava o meu cartão VISA do BRB (Banco de Brasília), que levei para casos emergenciais.
Não me lembrava desse cartão, pois sequer foi usado até aquele ponto da viagem. Havia caído na penumbra do esquecimento. Alvíssaras!
Como se tratava de um caso emergencial, usei–o no pagamento da estada no hotel em Piraí (RJ), o jantar daquela noite e a despesa na farmácia, no dia seguinte, com protetor solar.
Os gastos até o Rio de Janeiro (RJ) estavam garantidos, pois a maioria dos postos de combustíveis têm lojas de conveniência, que aceitam cartão de crédito. Meus problemas acabaram.
Dormi cedo torcendo para que nenhum galo me
acordasse antes do orto solar, ou seja, do nascer do Sol.
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05/01/2002 |
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11º DIA |
PIRAÍ (RJ) AO RIO DE JANEIRO (RJ) |
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106 km |
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Deixei Piraí
(RJ) para trás e ingressei na Via Dutra que, àquela hora, estava
deveras movimentada. Último dia de viagem. Impressão de ter saído de
Brasília (DF) há poucos dias.
Não tardou e
cheguei ao início da descida da Serra das Araras, após sucessão de curvas bem
abertas em trecho com leves ascensos.
Parei
a bike, respirei e esquadrinhei o início da descida das Araras. Não
existe acostamento.
Enquanto
estive parado, sentindo cheiro de manga no ar, observei que alguns
caminhões desciam em marcha bastante reduzida. Ocorreu–me uma ideia.
Aguardei
um caminhão começar, em marcha reduzida, a descida.
Fiz
sinal ao motorista e ele parece ter entendido a minha "tática".
Sinalizou com dois rápidos relampejos nos faróis do "bruto" e comecei
a descida, controlando, pelo retrovisor da bike, a distância entre
mim e o caminhão.
Dessa
forma, desci "escoltado" e não precisei me preocupar com carros
pequenos passando rente à bike. Alguns quilômetros adiante
– uns três talvez –, uma carreta, transportando bobinas de papéis, descia
mais devagar que eu e meu "batedor". Fiquei entre os dois, a
distância segura, e atento aos freios.
Ao
passar pelo majestoso Monumento Rodoviário da Serradas Araras (*) [km
225], saí da estrada, fiz um aceno de agradecimento ao meu "batedor",
e subi a rampa de acesso ao “Varandim da Serra das Araras" ou
Monumento Rodoviário Belvedere, também conhecido como Farol da Serra das
Araras, nomenclaturas dos tempos de glória daquela obra. Hoje não passa de um
tesouro esquecido.
(*) Concepção
arquitetônica protomoderna, em estilo art déco, com forma
inspirada no tema do obelisco, e hoje fechado e abandonado. Tem área de 54 mil
m2 de construção.
Teve duplo significado: I
- comemorou a gênese da Rio-São Paulo, em 1928;
II - é símbolo da era
rodoviária no Brasil.
Localizado no espaço
conhecido como “Varandim” na Serra das Araras, com 46 metros de altura sobre
uma base de 1.600 m2, foi rodeado de jardins, que quase tocavam às
águas da Represa das Lajes.
No interior do
Monumento existiam quatro painéis de Cândido Portinari (0,96 por 7,68 m).
Foram pintados com cores
fortes, violentas, que expressavam bem a construção de estradas de rodagem no
País.
Havia um restaurante com
vista privilegiadíssima da serra, com a estrada a cortá-la e da Represa das
Lajes, ao fundo.
O restaurante esteve entre
os mais disputados, com bar confortável para os
viajantes, banheiros limpos e espaçosos.
Quando o Monumento foi
fechado, em 1978, os painéis de Portinari foram abandonados, sofrendo com
a ação do tempo.
Recentemente foram
retirados e levados ao Museu de Belas-Artes do Rio de Janeiro (RJ).
Existe uma escada interna
com 175 degraus, que conduzem ao alto do mirante.
O projeto, de autoria
do Touring Club do Brasil (fundado em 1923), nasceu em 1927.
No
hall nobre havia um grande mapa rodoviário do Brasil.
Cada vez que um
estado se via ligado, por rodovia, ao Distrito Federal, que era no Rio de
Janeiro, a carta daquele estado era inserida no mapa.
O Monumento foi
considerado a primeira estação para conforto dos viajantes, edificada no século
XX, às margens de uma rodovia brasileira.
Disponível em:<https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/abandonado-ha-41-anos-monumento-rodoviario-da-presidente-dutra-ja-abrigou-obras-de-candido-portinari.phtml>. Acesso 31/07/2002.
Durante
muitos anos, o belo obelisco alegrava as noites com um facho de luz que
circulava 360°, podendo ser visto a longa distância.
O projeto é
do engenheiro Mário Chagas Dória e do arquiteto Raphael Galvão. Obra executada
pela Construtora Christiani Nielsen.
Infelizmente
aquele espetáculo concebido em arquitetura "protomoderna em estilo art
déco com forma inspirada no tema do obelisco", está abandonado e
repleto de pichações. Foi fechado em 1978. Que lástima como a cultura é tratada
em nosso país.
Não
há nenhuma placa indicando o que era, ou o porquê da construção. As entradas –
frontais e laterais – estão cerradas a cadeados e os vidros e azulejos
quebrados. Vi marcas nas paredes que me pareceram tiros. Lamentável.
O
imóvel foi tombado pelo INEPAC (Instituto Estadual do Patrimônio Cultural) em
31/08/1990.
Voltei
à bike após uns 30 minutos de exploração do "Varandim da
Serra das Araras".
Repeti
o ritual de sinalizar para o condutor de cargas pesadas, recebi o OK com o
polegar do "motora" apontado para cima e reiniciei a descida das
Araras. Muitas mangas esmagadas sobre o asfalto. Cheiro forte.
Nova parada num arremedo de acostamento, à direita, e fotos da Represa das Lajes, com 338,8 km2, mais de oito vezes a área da Floresta da Tijuca. O reservatório ficou concluído em 1949.
Abastece
até 1,8 milhão de habitantes de Itaguaí, Japeri, Nova Iguaçu, Paracambi,
Queimados e parte do município do Rio de Janeiro, com vazão média de 5.100 l/s,
segundo informações obtidas no sítio https://cedae.com.br/sistemaribeiraodaslajes>.
Acesso: 31/01/2002.
O
represamento deu origem à Usina Hidrelétrica de Fontes Nova, com capacidade de
132 mW, potência obtida a partir das três unidades geradoras de 44 mW cada.
Entraram em funcionamento em 1940, 1942 e 1948 respectivamente.
Informações
obtidas no sítio https://cedae.com.br/sistemaribeiraodaslajes>.
Acesso: 31/01/2002.
Concluí
a descida das Araras às 11h e ingressei na Baixada Fluminense, que parecia uma
extensão do inferno na Terra.
Passei
por Seropédica (RJ), Queimados (RJ), Nova Iguaçu (RJ), Belford Roxo (RJ) e São
João de Meriti (RJ), municípios que constituem a Baixada Fluminense,
trecho percorrido em 2 horas e meia, chegando ao Trevo das Margaridas, o
marco ZERO da Via Dutra, localizado no Bairro de Irajá, na Zona da Estrada de
Ferro da Leopoldina, às 13h30.
Penetrei
na Avenida Brasil, pouco movimentada, exceto nas imediações do Piscinão de
Ramos, chegando à Rodoviária Novo Rio, atual Rodoviária do Rio, desde 2019,
após uma hora de pedal, pela imensa Avenida Brasil. Eram 14h30.
Parada
estratégica num Posto Ipiranga, vizinho ao Gasômetro. Beberiquei lentamente um
copo de Mate Leão gelado.
Prossegui
pela Avenida Francisco Bicalho até o Viaduto dos Marinheiros, alcançando, sem
maiores dificuldades, a Avenida Presidente Vargas.
Era sábado e o trânsito estava tranquilo no centro da cidade.
Central do Brasil. Foto: Fernando Mendes.
Parada
defronte ao prédio da Central do Brasil, Edifício D. Pedro II, coroado por
majestoso relógio de quatro faces – um dos maiores analógicos da Terra.
Inaugurado
em 1943, construído pela IBM, foi tombado como Patrimônio Histórico, sendo o
maior – em magnitude – quando comparado ao famoso Big Ben (sem hífen) londrino
e concebido, a exemplo do Monumento Rodoviário da Serra das Araras, em
estilo art– déco.
Os ponteiros
marcavam precisamente 15h. Tirei uma foto do relógio para registrar aquela
minha triunfal, porém silenciosa, chegada ao Rio de Janeiro (RJ), vindo de
Brasília (DF), pedalando por 11 dias consecutivos.
Será que as
pessoas que me viam, através das janelas de um ônibus parado no sinal vermelho,
na esquina da Avenida Passos com a Presidente Vargas, poderiam imaginar que eu
estava vindo de tão longe?
Aos sábados,
a pista lateral da Presidente Vargas é fechada ao trânsito e vira
estacionamento para quem vai à Saara fazer compras. Pedalei por ali e cheguei
rápido à Igreja da Candelária.
Transpassei a Praça XV – o antigo Largo do Polé e, posteriormente, Largo do Paço – e, em pouco tempo, estava defronte ao Aeroporto Santos Dumont, passando a girar pela ciclovia, que começa no Museu de Arte Moderna – MAM, percorre o Aterro do Flamengo e é interrompida ao final da Praia de Botafogo, no Mourisco.
Foto: Fernando Mendes.
Eram 15h30,
quando sai do Túnel do Pasmado, passei pelo Canecão, Rio Sul, atravessei o
Túnel Novo e cheguei à Avenida Princesa Isabel. A brisa do mar de Copacabana me
saudou: "parabéns pela empreitada". Eu havia conseguido.
Esse ar de
chegada ao Rio não tem igual. Cheiro de maresia, Sol forte e praias cheias.
Atravessei a
Avenida Atlântica, defronte ao Hotel Meridien, ingressei na
ciclovia, desfilei por Copacabana até o Posto Seis, rumei, pela Rua Francisco
Otaviano até a Praia de Ipanema, na Rua Vieira Souto, esquina com o extinto
Barril 1.800.
Ao fundo, o
Morro Dois Irmãos deu a mim as boas–vindas à Cidade de São Sebastião do Rio de
Janeiro, fundada em 1º de Março de1565, entre o Pão de Açúcar e o Morro da Urca
e cresceu entre o São Bento e o Morro do Castelo.
Segui até o
Leblon pela ciclovia e, após atravessar a ponte sobre o canal do Jardim de
Alah, a última que transpassei, entre tantas pelo caminho, pedalei os últimos
metros até a garagem de casa e BINGO. Pontualmente 16h.
Havia
conseguido realizar o antigo desejo. Pedalei 1.467 quilômetros e cumpri a
viagem Brasília X Rio em 11 dias, com uma média de 134 km/dia.
Agradeci por
isso, guardei a bike em casa, fiz algumas ligações informando
a minha chegada e fui à praia refrescar–me.
Naquela
noite, antes de dormir, lembrei–me do dia 7 de setembro de 1968, quando fiz a
minha primeira viagem pela Via Dutra. Fomos eu, meus pais e minha tia Anete, do
Rio a São Paulo.
A viagem, no
Fusca 61, durou 12 horas e a minha tia leu, inúmeras vezes, as estórias do
livro de fábulas dos Irmãos Grimm (Contos de Grimm é uma coletânea de contos de
fadas e outros contos, publicada, inicialmente, em 1812 por Jacob e Wilhelm
Grimm).
Quem diria
que, 34 anos depois de ver a Dutra pela janela do Fusca, estaria a percorrê-la,
de bicicleta, entre Jacareí (SP) e Rio de Janeiro (RJ), realizando um desejo
antigo de pedalar de Brasília (DF) à Cidade Maravilhosa.
Viver é ter
a chance da surpresa.
“Se o Sol
vem saindo eu já vou partindo e quando anoitece estou noutro lugar”
(Cortando
Estradão, de Almir Sater).



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