Viagem de Bike - Noroeste de Minas Gerais e Sudeste de Goiás. Outono 2002.


VIAGEM DE BIKE PELO NOROESTE DE 

MINAS GERAIS E SUDESTE DE GOIÁS

530 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>. 
Acesso: 01/09/2022 (com adaptações).

31/05/2002

Brasília (DF) a Unaí (MG)

180 km

01/06/2002

Unaí (MG) a Paracatu (MG)

100 km

02/06/2002

Paracatu (MG) a Cristalina (GO)

110 km

03/06/2002

Cristalina (GO) a Brasília (DF)

140 km

Média diária: 132,5 km

530 km


1º Dia

30/05/2002

Brasília (DF) a Unaí (MG)

180 km

Saí de casa, na Asa Norte, pontualmente às 6 h. Estava escuro e a temperatura era de 13°C, segundo o termômetro que tenho na varanda do meu apartamento. 

As primeiras pedaladas foram preguiçosas. Segui pela via W-1 até a CLN 404/405, desci em direção à Avenida L-2 Norte e tomei o rumo do Setor de Autarquias Norte. Passei pelo mergulhão que liga a L-2 Norte à L-2 Sul e, em frente à Casa do Candango, abandonei a L-2 Sul e desci em direção à Ponte Costa e Silva, para atravessar o Lago Paranoá.

Para alcançar a BR-251 foi preciso atravessar o bairro do Lago Sul até a QI 23, onde dobrei à direita e ingressei na DF-035. 

Subi quatro quilômetros, passei pelo Jardim Botânico [través leste], alcancei o entroncamento com a DF-001, dobrei à direita, vi a Escola Superior de Administração Fazendária (E.S.A.F) no meu través sul e segui pela DF-001, passando pela entrada de São Sebastião (R.A XIV) e, logo a seguir, pelo acesso ao Presídio da Papuda. Eram 7h 10 e a temperatura em agradáveis 16° C.

Oito quilômetros à frente, abandonei a DF-001 e dobrei à esquerda, ingressando na BR-251, a estrada que liga, naquele trecho, Brasília a Unaí (MG). Havia pedalado 37 quilômetros. Faltavam 143 para alcançar Unaí (MG).

Foto: Fernando Mendes.

A direção geral passou a ser leste e, dessa maneira, o sol estava bem à minha frente, um palmo acima do horizonte, prometendo um dia belíssimo, típico de fim de outono no Planalto Central: céu claro e sem nuvens. Mas o vento contra [ou de proa] estava terrível, e isso me atrasou muito.

Esses dias de céu muito azul e sem nuvens me levam de volta aos tempos da [falecida] Transbrasil, empresa aérea na qual trabalhei entre 1980 e 1986. Quando os aviões da empresa estavam a poucos minutos do pouso - no jargão aeronáutico “na final” -, os pilotos chamavam pelo VHF (Very High Frequency), na frequência 130.8 MHz, a sala de operações onde eu trabalhava e solicitavam o METAR (informações meteorológicas codificadas, informando as condições do tempo na região dos aeroportos) da etapa seguinte do voo.

A denominação para céu claro e sem formações é dita 9999 ou grupo de nove, indicando visibilidade maior que 10 quilômetros, sem nuvens abaixo de 5000 pés e nenhuma possibilidade de precipitação ou tempestades. Também é usual falar CAVOK.

Nos quatro dias de viagem o tempo esteve aberto, com céu limpo, típico desse período pré-inverno no Centro-Oeste. Se eu consultasse o METAR das localidades pelas quais passei durante quatro dias de pedal, certamente a visibilidade seria 9999 ou CAVOK (acrônimo de Ceiling or Clouds, And Visibility are OK). Em português: teto ou nuvens e visibilidade estão OK.

Prossegui a jornada encarando um trecho de 28 quilômetros bastante acidentado, com declives e aclives acentuados.

Passei pela Escola Classe Betânia, localizada no Núcleo Rural de mesmo nome, no meu través sul e, logo adiante, no meu través norte, uma visão incrível: uma imensa clareira no cerrado e o presídio da Papuda ao fundo, muito distante da estrada (BR-251).

Pensei nos detentos, que têm as janelas das celas voltadas para a rodovia, imaginando que tão difícil quanto escapar da Papuda seria percorrer aquela clareira até alcançar a estrada sem serem vistos.

Por razões (óbvias) de segurança, toda a vegetação de cerrado foi retirada originando um imenso espaço vazio, sem árvores ou qualquer outro obstáculo que possa vir a camuflar candidatos à fuga e dificultar que asseclas os esperem à beira da estrada com a infraestrutura de escape montada.

BR - 251. Foto: Fernando Mendes.

As últimas chuvas caíram na terceira semana de maio e, a partir de agora, com a proximidade do inverno, a umidade relativa do ar cairá muito e o cerrado [brevemente] arderá em chamas. 

Naquele dia 30 de maio de 2002, estávamos a exatos 22 dias da chegada oficial do inverno, a pior estação do ano para quem mora no Brasil Central, nem tanto pelo frio, que é coisa rara por aqui, mas pela baixa umidade no ar, em decorrência da estiagem, que chega [em média] a 100 dias.

Comecei a descer a depressão do (1) Rio São Bartolomeu após a passagem da Escola Classe Betânia. Foram quatro quilômetros ladeira abaixo até a ponte que atravessa um dos mais importantes rios do Distrito Federal.

 (1) Nascido no coração do Distrito Federal, a partir das águas que vêm da região mais alta de Sobradinho e Planaltina, próximo à Lagoa Joaquim Medeiros, o Rio São Bartolomeu corre no sentido norte-sul recebendo poluentes da atividade agrícola e principalmente dos esgotos de populações que vivem em seu entorno. 

 Foram formados condomínios na área que se destinava originalmente ao Lago de São Bartolomeu, inviabilizando o projeto de formação de um reservatório com 110 km 2 de espelho d'água, previsto desde 1970, mas o projeto acabou arquivado devido, principalmente, à ocupação urbana irregular.

O lago seria formado pela água do Rio São Bartolomeu e afluentes.

 Disponível em:<https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2017/11/20/interna_cidadesdf,642033/lago-sao-bartolomeu-em-brasilia.shtml>. Acesso: 30/06/2002.

Rio São Bartolomeu. Foto: Fernando Mendes.
BR - 251. Ponte sobre o Rio São Bartolomeu. Foto: Fernando Mendes.
Rio São Bartolomeu. Foto: Fernando Mendes.

Para efeito de comparação, o Lago Paranoá, localizado no Plano Piloto de Brasília, tem um espelho d'água que alagou uma área de 38 km2. (Nota do Autor). 

Após a ponte sobre o Rio São Bartolomeu, como sempre acontece quando passamos por uma depressão na qual corre um rio, veio um aclive com três quilômetros de moderada ascensão. Ao vencer aquela ladeira, trecho plano com dois quilômetros. Logo surgiu, à direita, o Posto Pedrão, local da primeira parada para almoçar e renovar o estoque de líquidos. Eram 11h.

Ao meio-dia, saí do Posto Pedrão, ainda dentro do quadrilátero do Distrito Federal, passei pelos acessos ao Núcleo Rural Café sem Troco, a Planaltina, ao Vale do Amanhecer e ao Núcleo Rural do Capão Seco.

Naquele ponto, após uma longa curva à direita, a direção mudou para SE (Sudeste) e o Sol ficou um pouco à minha esquerda, em diagonal. Prossegui pedalando e vendo tudo passar em câmera lenta, como a repetição do tira-teima nos jogos de futebol.

A paisagem passa lentamente com imensas áreas ocupadas pela soja, milho e feijão; os pensamentos tornam-se vagarosos. Há tempo para se pensar em muitas coisas. Quando me perguntam "no que penso quando viajo de bicicleta", a resposta vem rapidinho: "planejando a próxima aventura".

Mas é preciso ficar atento à estrada. Chega de tanto sonhar. Às vezes perguntam-me “por qual lado da rodovia eu sigo quando estou viajando de bicicleta?”. A resposta é rápida: “pelo lado que manda o (CBT) Código Brasileiro de Trânsito!”

Diferentemente do que muitos pensam, o tráfego de bicicletas deve ser feito na mesma direção dos demais veículos, independentemente do número de rodas. A minha Caloi vai à mesma direção de uma carreta de 18 rodas, por exemplo. E há espaço para todos. A ver o que diz o Código:

 A circulação de bicicletas deverá ocorrer, sempre que houver, nas ciclovias, ciclofaixas ou acostamento. Caso contrário, deverão ser conduzidas nas bordas da pista, sempre no sentido de circulação da via. Art 58.

Toda bicicleta deverá possuir além de sinalização noturna dianteira, traseira, lateral e nos pedais, campainha e espelho retrovisor do lado esquerdo. Art. 105 VI.

  Os ciclistas desmontados empurrando as bicicletas equiparam-se ao pedestre, podendo, neste caso, trafegarem pela calçada. Art. 68 § 1º.

Fonte Código Nacional de Trânsito.


Disponível em:<https://www.ctbdigital.com.br/artigo/art58>.
Acesso: 30/06/2002.

Constata-se, portanto, que não se deve pedalar, em hipótese alguma, pela contramão. A maioria das pessoas acredita - e acredita de forma errônea - que é mais seguro pedalar na direção contrária aos demais veículos, alegando que podem vê-los aproximando-se, ao passo que na mesma direção do fluxo, muitos se sentem aflitos porque não veem os carros.

Ledo engano. Qualquer veículo, vindo na direção contrária à do ciclista, dificilmente conseguirá evitar o pior porque ambos aparecem de frente, um para o outro, em milésimos de segundos. Não há tempo para reação.

Se o ciclista sobreviver – hipótese improvável, porém não impossível – não terá direito à cobertura do seguro pela imprudência de estar pedalando na contramão. Normalmente os veículos têm seguro contra terceiros, mas, nesse caso, a vítima perde o direito ao seguro. É uma norma das seguradoras. Por isso, as bicicletas têm que estar equipadas com espelho retrovisor do lado esquerdo como nos automóveis.

A todo o momento o retrovisor tem que ser consultado. São regras do Código Brasileiro de Trânsito. Seria um absurdo imaginar que a pedalada tem que ser feita na contramão.

E aí eu pergunto: “será que os ciclistas - que insistem em pedalar pela contramão - dirigem seus automóveis [igualmente] pela contramão para serem vistos pelos outros condutores”? Parece-me um contrassenso.

No entanto, muitos ciclistas acreditam que, mesmo com todos os argumentos contrários, pedalar tem que ser na direção oposta aos outros veículos.

O Código Brasileiro de Trânsito é bem claro e, ademais, leis foram feitas para serem cumpridas. Me considero-me um cidadão cumpridor das leis, principalmente no que diz respeito ao trânsito, independentemente da quantidade de rodas e do tipo de veículo, cuja condução esteja sob a minha responsabilidade.

Do Posto Pedrão à divisa do Distrito Federal com o Estado de Goiás são 15 quilômetros de planura. Uma reta que pareceu interminável. Às 12 h 45 atravessei a divisa do DF com o Estado de Goiás.

 (Lembrete: o Distrito Federal não é um estado. É uma Unidade da Federação).

mapa distrito federal [s.d] color disponível em:<https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Brazil_Distrito_Federal_location_map.svg>. Acesso: 30/06/2002.

 O mapa do Distrito Federal foi confeccionado mesclando fronteiras secas e fronteiras naturais. 

Os limites Norte e Sul (fronteiras secas) foram traçados a partir dos paralelos 15º 10´ S e 16º 08´ S respectivamente, enquanto os limites Leste e Oeste (fronteiras naturais) foram obtidos a partir do Rio Preto - limite leste - e do Rio Descoberto - limite oeste. 

(Nota do Autor).

Às 12 h 45 passei sob o paralelo 16º 08´ao sul do Equador e penetrei no Estado de Goiás. Ao mudar de Unidade da Federação, a BR – 251, no trecho goiano, estava uma calamidade, fartamente esburacada e os veículos, de todos os tamanhos, andavam em zigue-zague, prática muito perigosa para os ciclistas.

Foi o pior pedaço dos quatro dias de viagem. Muita poeira e pouco rendimento.

BR 251. Divisa Distrito Federal/Goiás. Foto: Fernando Mendes.

Os 36 quilômetros em terras de Goiás foram percorridos em duas horas. Às 14h 45, atravessei a ponte sobre o Córrego Arrependido, que marca a divisa natural dos Estados de Goiás e de Minas Gerais. Estava a 66 quilômetros de Unaí (MG).


 BR 251. Divisa Distrito Federal/Goiás. Foto: Fernando Mendes.
BR 251. Divisa Distrito Federal/Goiás. Foto: Fernando Mendes.
Foto: Fernando Mendes.

Parada providencial no posto homônimo do córrego, um oásis para o viajante, a salvação da lavoura, pois a água estava no fim.

Comprei água suficiente para os 66 quilômetros restantes ou 4 horas de viagem. Da divisa GO/MG a Unaí (MG), o trecho é muito deserto e sem opções de paradas ou cidades alternativas.

A paisagem mudou radicalmente. As longas retas sem aclives e declives deram lugar a um traçado bastante sinuoso, com trechos de pequenas serras marcados por subidas e descidas fortes.

À minha volta um visual espetacular, com morros de puro calcário e muitas grutas inexploradas. Nada de calor. 

Naquela manhã, a temperatura máxima não ultrapassou os 24° C. A direção geral do pedal voltou a ser Leste.

O trecho esburacado da BR – 251 em Goiás, provocou atraso. Quando faltavam 35 quilômetros para o meu destino, não foi preciso muito esforço para concluir que não chegaria a Unaí (MG) com a luz natural.

O Sol, que escorria mansamente para o poente, se pôs atrás de mim, às 17 h 44 e, àquela altura, havia 10 quilômetros a percorrer até o Posto Horizonte Mineiro, local do primeiro pernoite.

Retirei da mala a faixa refletiva em forma de X e acionei as luzes piscantes do bagageiro, da blusa e do capacete. Pouco depois das 18 horas avistei, a uns 500 m, o logotipo da Texaco. Indaguei a um senhor que caminhava na direção contrária à minha se aquele posto lá no alto da subida era o Horizonte Mineiro, e ele respondeu-me afirmativamente. 

Eram 18h 20. Foram 12 horas e 20 minutos de viagem. Média de 15 km/h.

O Posto Horizonte Mineiro situa-se às margens da BR-251, na saída para Paracatu (MG), destino do dia seguinte.

O jantar foi servido no restaurante anexo ao posto. Prato comercial com um bifão acebolado, salada, macarrão, arroz e feijão. Era tudo que eu precisava ao encerrar a jornada daquele dia 30 de maio 2002.

Após a janta retornei ao quarto para ler “Ensaios sobre a Cegueira”, de José Saramago. Adormeci por volta das 23 h.


2º Dia

31/05/2002

Unaí (MG) a Paracatu (MG)

100 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>. 
Acesso: 01/09/2022 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>. 
Acesso: 01/09/2022 (com adaptações).

Acordei às 8h, o café da manhã foi servido no mesmo local do jantar na noite anterior e enquanto realizava o ritual de alongamentos e aplicação de protetor solar, vi a seleção de Senegal fazer [na França] o primeiro gol da XVII Copa do Mundo. Saí pouco antes de terminar o 1º tempo da peleja.

Ingressei na BR-251 às 9 h 33 tomando a direção de Paracatu (MG), 100 quilômetros à frente. Paracatu (MG), palavra sonora que vem da língua tupi-guarani e quer dizer “Rio Bom”.

A partir de Unaí (MG), a BR-251 é sobreposta à Rodovia Estadual MG-188. Essa sobreposição termina no trevo de acesso a Brasilândia (MG) e Bonfinópolis (MG): quem vai para Paracatu (MG) segue pela MG-188 e quem segue para as outras duas localidades citadas, continua na BR-251.

Foto: Fernando Mendes.
Rodovia MG - 188. Foto: Fernando Mendes.
Foto: Fernando Mendes.

A direção geral, no segundo dia, passou a ser sul, com o Sol à minha direita e a Lua Cheia se pondo à minha esquerda.

A visibilidade era 9999 ou CAVOK e o vento, menos intenso em relação ao dia anterior, atrapalhou o desempenho para um trecho bastante plano e pouco movimentado. Apenas um posto de combustíveis entre Unaí (MG) e Paracatu (MG), o Posto da Branca. 

Má vontade da funcionária que me atendeu no balcão, com uma criança de uns seis meses no colo e ela [funcionária] fazendo tudo com apenas uma das mãos. Receber o dinheiro e dar o troco não foi tarefa das mais fáceis. 

A pequena não parava de mexer nos botões da caixa registradora, colocou uma moeda na boca e a mãe parecia acostumada com tudo aquilo.

Rodovia MG - 188. Foto: Fernando Mendes.
Rodovia MG - 188. Foto: Fernando Mendes.

Atingi metade do percurso daquele dia 31 de maio de 2002. Eram 12h e o Sol havia alcançado o zênite, nome dado ao ponto mais elevado do firmamento, aquele que vemos ao dirigir o nosso olhar diretamente para cima.

Disponível em:<http://montessorianos11.blogspot.com/2011/05/zenite-ponto-em-que-vertical-de-um.html>. Acesso: 30/06/2002. 

Por volta das 13 h, atravessei a ponte sobre o Ribeirão da Aldeia, curso d´água que marca a divisa dos municípios de Unaí (MG) e Paracatu (MG). Logo adiante, à minha direita, uma belíssima vereda (1), repleta de buritis e com água cristalina. Enchi as garrafas e, em seguida, tomei um banho refrescante e revigorante.

Vereda. Foto: Fernando Mendes.

(1) Vereda é um tipo de formação vegetal do Cerrado que ocorre nas florestas-galeria. Caracterizada pelos solos hidromórficos (solo que, em condições naturais, se encontra saturado por água), podem apresentar buritis (da família das palmáceas), em meio a agrupamentos de espécies arbustivo-herbáceas e são seguidas pelos campestres. 

No cerrado brasileiro são denominados campo limpo. São caracterizadas por uma topografia amena e úmida, mantendo parte da umidade em estratos de solo superficial e garantindo a umidade mesmo em períodos de seca, tornando-se um refúgio da fauna e flora, assim como local de abastecimento hídrico para os animais [e ciclistas].

 Recebem este nome por serem caminho para a fauna. Comumente encontradas nos Estado de Minas Gerais, Bahia e na Região Centro-Oeste.

 Disponível em: <https://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Agencia16/AG01/arvore/AG01_65_911200585234.html>. Acesso: 30/06/2002 (com adaptações).

 

Foto: Fernando Mendes.

Paracatu (MG) 2 não tardou a aparecer. Avistei-a, do alto de um aclive, no fundo de um vale, o Vale do Rio Paracatu. Eram 15h 35 quando abandonei a MG-188 e ingressei na BR-040. 

Segui na direção Belo Horizonte (MG), por uns 300 metros, até alcançar o Posto e Hotel Catuí. Fui para o quarto, troquei o capacete pelo boné e voltei à estrada, porém sem a bike. Caminhei seis quilômetros em 1 hora.

  2 Localizada no noroeste mineiro, a cidade de Paracatu nasceu na primeira metade do século XVIII, em 1730, sob o signo do ouro. Durante quase um século, o metal floresceu generosamente nos depósitos de aluvião, encontrados facilmente nos diversos córregos do município. A atração exercida pela abundância com que o ouro fluía de seus veios de água contribuiu para o rápido crescimento do arraial.

 Em 20 de outubro de 1798, um alvará da rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, Maria I de Portugal (*), oficializou a criação da Vila de Paracatu do Príncipe. A efêmera riqueza, entretanto, logo se dissipou e o declínio produtivo do ouro provocou a decadência econômica da vila. 

  Com a construção de Brasília, a região tomou novo impulso e Paracatu beneficiou-se da sua situação às margens da BR 040.


Disponível em:<http://paracatu.mg.gov.br/paracatu>.
Acesso: 20/10/2001 (com adaptações).

(*) seu reinado estendeu-se de 1777 a 1816, ano de seu falecimento no Rio de Janeiro, ocasião na qual a Família Real fugiu para os trópicos devido ao receio de ser deposta, à semelhança do que ocorreu nos países europeus recentemente invadidos pelas tropas francesas. 

(Nota do Autor).

Caminhar após longas pedaladas é uma boa maneira de dar à musculatura das pernas um trabalho diferente e mais leve em relação a pedalar. Quando regressei ao hotel, banho, fotos do pôr-do-Sol e jantar.

Adormeci lendo Ensaios sobre a cegueira. Deviam ser 22 h.


3º DIA

01/06/2002

Paracatu   (MG) a Cristalina (GO)

110 km


Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>. 
Acesso: 01/09/2022 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>. 
Acesso: 01/09/2022 (com adaptações).

Acordei às 8 h e iniciei o ritual para o terceiro dia de viagem: Paracatu (MG) a Cristalina (GO), 110 quilômetros adiante e seguindo pela BR-040.

Enquanto a seleção da Alemanha goleava a seleção da Arábia Saudita, ainda no 1º tempo de jogo, pelo placar elástico de 8 X 0, eu me preparava para zarpar.

Às 9h 30 ingressei na BR-040, após deixar o Posto Catuí. Atravessei vagarosamente o perímetro urbano de Paracatu (MG), recheado de quebra-molas e com trânsito intenso, característico de um sábado (1º Junho 2002), com final de semana prolongado.

Após a última lombada, uma descida forte, uma pequena reta e uma subida poderosa de oito quilômetros, a serra da Tiririca, com traçado sinuoso e curvas acentuadas em forma de S.

Serra da Tiririca. Foto: Fernando Mendes.
Serra da Tiririca. Foto: Fernando Mendes.

Próximo ao final da subida existe uma bica. Parei e enchi as garrafas com água fresca, que desce pela encosta. 

Quando a subida da Tiririca terminou, longa reta marcada por discretas ondulações até chegar ao Posto Ranchão. Parada para hidratação. Estava cedo para o almoço. Eram 11h 30 havia pedalado, desde a saída de Paracatu (MG), parcos 30 quilômetros.

14 quilômetros à frente, às 12h 27, atravessei a ponte sobre o Rio São Marcos, que marca a divisa natural dos Estados de MG e GO. Parei no Posto Fiscal e almocei delicioso prato comercial. Retornei à estrada às 13h 03. Faltavam 62 quilômetros para Cristalina (GO).

Ponte sobre o Rio São Marcos. Foto: Fernando Mendes.
Foto: Fernando Mendes.
Foto: Fernando Mendes.
Foto: Fernando Mendes.
Foto: Fernando Mendes.

Dia esplêndido, céu limpo (CAVOK) e vento a favor ou de cauda. A temperatura estava mais amena em relação ao dia anterior, mas nem por isso deixei de tomar um banho nota 10 na vereda da Fazenda Casa Branca, localizada junto à rodovia. 

Apoiei a bicicleta em uma árvore e desci por um caminho feito por pessoas que também gostam de tomar banho por ali. Depois de 15 minutos, voltei à estrada. Pedalei forte até a Pamonharia Gameleira. Eram 14h 45. Cristalina (GO) estava a 35 quilômetros adiante.

A altitude de Paracatu (MG) é de 710 metros. A altitude de Cristalina (GO) é de 1.250 metros. No trecho entre as duas localidades, as ladeiras são imponentes e longas.

Da Pamonharia Gameleira até Cristalina (GO) o percurso é quase todo em ângulo de subida. Fiz os 35 quilômetros finais daquele dia em duas horas e meia. Cheguei à cidade dos cristais às 17h 15. Estada no Hotel Goyas.

Banhei, tirei fotos do entardecer e fui ao empório local comprar óleo Singer para lubrificar a corrente da bicicleta.

Jantei na Churrascaria Rodeio e voltei para o hotel. Comecei a ler e logo adormeci. Acordei às 2h da matina com o disparo do alarme do carro de um dos hóspedes. Voltei a dormi e acordei às 8 h.


4º DIA

02/06/2002

Cristalina (GO) a Brasília (DF)

140   km


Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>. 
Acesso: 01/09/2022 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>. 
Acesso: 01/09/2022 (com adaptações).

Depois de tomar um farto café da manhã (diária de R$ 25,00) voltei ao quarto e preparei-me para a última etapa da viagem: Cristalina (GO) a Brasília (DF). 140 quilômetros previstos para 7h 50 de pedal. 

Acabei fazendo a viagem em 7h e 15. Um recorde para esse trecho. Saí às 9h 29 e cheguei à minha casa às 16h 44. 

Quando o portão eletrônico da garagem do prédio onde moro foi aberto, após o acionamento do controle remoto, preso ao quadro da bicicleta, tive aquela sensação de final de viagem: missão cumprida. 

Logo senti vontade de realizar outra empreitada, de preferência no dia seguinte.

Brasília (DF), 30/06/2002.
















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