Viagem de Bike Estrada Real - Paraty (RJ) a Ouro Preto (MG). Outono 2022.


VIAGEM DE BIKE - ESTRADA REAL

06/05 A 18/05/2022 - ATUALIZADO EM 2025.

CAMINHOS VELHO E NOVO

DE PARATY (RJ) A OURO PRETO (MG)

621 km

Maio é o mês do IYAAR, luz ou brilho no calendário hebraico.

 

Foto: Fernando Mendes.

Disponível em: <https://institutoestradareal.com.br/>. Acesso: 31/05/2022.

 

Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/estrada-real/>. Acesso: 31/05/2022.

Disponível em:<https://www.olinto.com.br/guia-livro-dvd-viagem-bicicleta/estrada-real-caminho-velho/>. Acesso: 31/05/2022.

ESTRADA REAL

PARATY (RJ) A OURO PRETO (MG) – 621 KM

MAIO 2022

DATA

ETAPAS

KM/DIA

∑ (km)

06.05

PARATY (RJ) A CUNHA (SP)

49,2 km

49,2 km

07.05

CUNHA (SP) A GUARÁ (SP)

48,39 km

87,78 km

136,98 km

GUARÁ (SP) À VILA DO EMBAÚ (SP)

39,39 km

08.05

VILA DO EMBAÚ (SP) À DIVISA SP/MG

21 km

33,43 km

170,41 km

DIVISA SP/MG A PASSA QUATRO (MG)

12,43 km

09.05

P. QUATRO (MG) A ITANHANDU (MG)

11 km

56,37 km

226,78 km

ITANHANDU (MG) A POUSO ALTO (MG

29 km

P. ALTO (MG) A SÃO LOURENÇO (MG)

16,37 km

10.05

SÃO LOURENÇO (MG) A CAXAMBU (MG)

26,39 km

62,98 km

289,76 km

CAXAMBU (MG) A BAEPENDI (MG)

12 km

BAEPENDI (MG) A CRUZÍLIA (MG)

24,59 km

11.05

CRUZÍLIA (MG) A CARRANCAS (MG)

61,31 km

61,31 km

351,07 km

12.05

CARRANCAS (MG) A CAQUENDE (MG)

29,41 km

29,41 km

380,48 km

13.05

CAQUENDE (MG) A S. S. DA VITÓRIA

22,29 km

47,61 km

428,09 km

S. S. DA VITÓRIA A SÃO J. DEL REI (MG)

25,32 km

14.05

SÃO JOÃO DEL REI (MG)A PRADOS (MG)

33,22 km

33,22 km

461,31 km

15.05

PRADOS (MG) A LAGOA DOURADA (MG)

28 km

55,62 km

516,93 km

L. DOURADA (MG) A CASA GRANDE (MG)

27,62 km

16.05

CASA GRANDE (MG) A C. LAFAIETE (MG)

35,31 km

56,31 km

573,24 km

C. LAFAIETE (MG) A O. BRANCO (MG)

21 km

17.05

O. BRANCO (MG) A LAVRAS NOVAS (MG)

28 km

28 km

601,24 km

18.05

L. NOVAS (MG) A OURO PRETO (MG)

19,76 km

19,76 km

621 km

Terceira jornada pelo Caminho Velho da Estrada Real (2011, 2015 e 2022) e a primeira na rota Paraty (RJ) a Ouro Preto (MG), mesclando 85% do trajeto pelo Caminho Velho (Paraty - RJ a Casa Grande - MG) e 15% pelo Caminho Novo (Casa Grande - MG a Ouro Preto - MG).

Para chegar a Paraty (RJ), encarei um périplo rodoviário de 24 horas em dois ônibus: de Brasília (DF) a São Paulo (SP), Terminal Tietê e de São Paulo (SP) a Paraty (RJ). 

Saí da Capital Federal (onde moro faz 50 anos) às 19h do dia 03/05/2022 e cheguei à Costa Verde às 19h doutro dia (04/05/2022). Foram 1.300 quilômetros.

Hospedei-me na Pousada Maré Cheia - recomendo - e passei o dia seguinte (05/05/2022) a passear e a fotografar Paraty (RJ). 

Precisava relaxar para iniciar [no dia seguinte] a jornada de bike até Ouro Preto (MG), 621 quilômetros à frente ou 419,5 milhas romanas (1 milha romana equivale a 1.480 metros).

Praia do Pontal. Paraty (RJ).

Igreja do Rosário. Paraty (RJ).

Igreja Nossa Senhora das Dores vista de lado. Paraty (RJ).

Igreja Nossa Senhora das Dores. Paraty (RJ).

 

Paraty (RJ).

 

Paraty (RJ).

 

Paraty (RJ).

 Igreja de Santa Rita. Paraty (RJ).

 

Igreja Nossa Senhora das Dores. Paraty (RJ). 

 

Paraty (RJ).

  

Rua da Lapa. Paraty (RJ).

 

Paraty (RJ). Fotos: Fernando Mendes.

O quarto que ocupei na Pousada Maré Cheia fica de frente para a Praia do Pontal, ou seja, virado para o Leste. O orto solar, naquela sexta-feira, dia 06/05/2022, aconteceu às 6h21. 

Lentamente despreguei as pálpebras e a claridade atravessou a cortina dos meus cílios. O grande dia chegou. Alvíssaras.

Da varanda do aposento vi o Sol se erguendo preguiçosamente no horizonte Oriental, brindando Paraty (RJ) [e região] com um dia belíssimo de céu azul, no qual algumas poucas nuvens quietas denunciavam a ausência de vento e desenhavam figuras incompreensíveis.

Após farto e delicioso café da manhã (pequeno almoço em Portugal), retornei ao quarto, acomodei meus haveres num inseparável par de alforjes, que levo preso à garupa da bike, e me dirigi ao Centro de Informações Turísticas, na Praça do Chafariz, para retirar o Passaporte Estrada Real.

A funcionária me entregou o salvo-conduto com jeito quase solene, me lembrando um coroinha entregando a hóstia na comunhão.

 

Passaporte Estrada Real. Fotos: Fernando Mendes. 

Naquele sítio [a Praça do Chafariz] foi "plantado" o primeiro Marco da Estrada Real, ponto de partida para quem começa a viagem em Paraty (RJ) rumo a Ouro Preto (MG) e última marcação àqueles que vêm na direção oposta (de Ouro Preto - MG a Paraty- RJ). 

Passaporte Estrada Real. Fotos: Fernando Mendes. 

Saída de Paraty (RJ). Praça do Chafariz. Foto: Fernando Mendes.

AS ESTRADAS ROMANAS E A ESTRADA REAL

SINGULARIDADES

Quando tomei conhecimento da Estrada Real e dos caminhos que ela empreende, uma de suas simbologias me fez buscar algo que havia se perdido na penumbra do esquecimento: os miliários, marcos de pedra que sinalizavam as estradas romanas e avisavam das aldeias próximas, bem como das milhas romanas que as separavam.

Caio Graco, político romano da época da República Romana, no século II a.C, elaborou a legislação sobre estradas pavimentadas e acerca dos indispensáveis miliários, que orientavam os viajantes.

1 milha romana vale 1.480 metros.

Os Marcos do Instituto Estrada Real - erroneamente chamados por muitos de TOTENS - têm a mesma função dos miliários à época do Império Romano.

Construídos em concreto [os Marcos] trazem o traçado dos quatro caminhos da Estrada Real (Diamantes, Velho, Novo e Sabarabuçu), indicando onde o viajante se encontra ("você está aqui"), a localização geográfica do lugar, informando a latitude, a longitude, a altitude e o DATUM (palavra em latim que se refere a "detalhe"), que nada mais é do que o sistema de coordenadas de referência usados pelos diversos aparelhos de GPS em uso.

NOTAS DO AUTOR.


1º DIA

06/05/2022

PARATY (RJ) A CUNHA (SP)

49,2 km

Pontualmente às 10h, posicionei–me de costas para as correntes da Rua da Lapa, enquanto um nativo, ao me ver partindo, desejou–me "boa viagem". Agradeci, glorifiquei e fui.

As primeiras pedaladas pela Avenida Roberto da Silveira, conduziram–me à saída da área urbana de Paraty (RJ), que termina no entroncamento com a Rodovia Federal BR-101, a Rio - Santos. 

Atravessei-a perpendicularmente e ingressei na Rodovia Estadual RJ-165, que se estende até a divisa RJ/SP, 23 quilômetros à frente. 

Uma ciclovia me conduziu – por oito quilômetros – até o Bairro Pantanal, finalizada na travessia da ponte sobre o Rio Perequê-Açu. 

O céu azul e pacífico se estendia sem limites, num mar profundo de nuvens que me acompanhavam. Meu Garmin GPS de pulso assinalava temperatura de 26°C.

Rio Perequê-Açu. Foto: Fernando Mendes.

Finda a travessia [da ponte], uma obstinada ascensão, com 23 ininterruptos quilômetros de extensão, assinala a maior subida registrada nos quatro caminhos que constituem a Estrada Real. 

Veio-me à mente, naquele momento pré-escalada da vertente Oriental da Serra do Mar, um velho ditado iídiche (*), deveras apropriado ao momento: "O Homem planeja e Deus ri".

(*) iídiche é a língua germânica das comunidades judaicas da Europa Central e Oriental.


Estrada Real é isso: ou não se vai ou, quando se vai, se sabe ao que se vai.
Fonte: Estrada Real: Caminho Velho/Antônio Olinto & Rafaela Asprino,
3ª ed. - São Paulo 2021, p. 27 (com adaptações).
Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).
Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

Até o 8° quilômetro - entre Paraty (RJ) e o início da subida da Serra do Mar -, a inclinação é civilizada. A partir daí [do 8º quilômetro], até o 23º quilômetro, "o bicho pega". 

Foram (ou são) 15 quilômetros em ascensão (sem refresco), gerando uma proporção entre subida/km pedalado de 1 para 1. 

Sendo pontual: para 1 km pedalado, a elevação do terreno é de 104 m, ou seja, 104 metros X 15 km = 1.560 metros de ascensão ininterrupta.

Em virtude dessa "parede" a subir, logo nos primeiros quilômetros, muitos cicloturistas preferem percorrer o Caminho Velho, iniciando a jornada em Ouro Preto (MG), sob a alegação: "do interior (Ouro Preto - MG) para o litoral (Paraty - RJ) têm mais descidas do que subidas". Percepção errônea (ou quase). 

Levando-se em conta a distância de 621 quilômetros entre Paraty (RJ) e Ouro Preto (MG), ou vice-versa, as subidas - entre Paraty (RJ) e Ouro Preto (MG) (ascensos) - e as descidas - entre Oruro Preto (MG) e Paraty (RJ) (descensos) - quase se equivalem, e a proporção é de 2,04 m (de subida ou descida) para cada quilômetro pedalado.

Aquela visão [nada geográfica] de que "Ouro Preto está lá em cima" e "Paraty está lá embaixo" leva muitos a crer que do interior para o litoral é "tudo para baixo". Ledo engano.

Na condição de Professor de Geografia, presenciei esse tipo de raciocínio [falacioso] por anos a fio no Magistério. Coloque o mapa sobre a mesa e o "lá em cima" e o "lá embaixo" desaparecem.

O "lá em cima" tem nome: Norte; o "lá embaixo", também: Sul.

A conclusão que cheguei é a seguinte: a maioria dos ciclistas prefere sair de Ouro Preto (MG) rumo a Paraty (RJ) por entender que as descidas predominam em relação às subidas. Isso é fato, mas a diferença altimétrica é quase imperceptível, conforme tabelas que se seguem.

Paraty (RJ) a Ouro Preto (MG)

Aclive total

10.639 m

Declive total

9.411 m

1.228 m de ascensão


Ouro Preto (MG) a Paraty (RJ)

Aclive total

9.411 m

Declive total

10.639 m

1.228 m de descenso

Disponível em:<https://www.olinto.com.br/guia-livro-dvd-viagem-bicicleta/estrada-real-caminho-velho/>. Acesso: 31/05/2022.

Indagado por muitas pessoas, ao longo do caminho, acerca da minha rota (Paraty - RJ a Ouro Preto - MG), fiquei sem entender o porquê da expressão de espanto quando diziam: "você está fazendo o caminho ao contrário!". Não entendi o porquê do "ao contrário".

Caso um viajante saia do Rio de Janeiro (RJ) rumo a São Paulo (SP), seguindo pela Via Dutra, enquanto outro viajante sai de São Paulo (SP) para o Rio de Janeiro (RJ), pela mesma Via Dutra, em certo ponto do trajeto - decerto - irão se encontrar. Mas qual deles está indo "ao contrário"? Não faz sentido essa observação.

Portanto, quem opta pelo trajeto Paraty (RJ) a Ouro Preto (MG), jamais percorrerá o caminho "ao contrário". As direções são opostas, mas o trajeto não é "ao contrário"!

Aquela visão [nada geográfica] de que "Ouro Preto está lá em cima" e "Paraty está lá embaixo" leva muitos a crer que do interior para o litoral é "tudo para baixo". Ledo engano.

Na condição de Professor de Geografia, presenciei esse tipo de raciocínio [falacioso] por anos a fio no Magistério. Coloque o mapa sobre a mesa e o "lá em cima" e o "lá embaixo" desaparecem.

O "lá em cima" tem nome: Norte; o "lá embaixo", também: Sul.

As chuvas do verão (2021/22) fizeram consideráveis estragos no piso da Rodovia RJ - 165. 

Muitas interrupções com "pare e siga", em virtude das obras de recuperação asfáltica, pintura da sinalização horizontal e a reconstrução das galerias de captação de águas pluviais, destruídas, após sucessivos dilúvios estivais (próprio do Verão).

Os Verões no Hemisfério Sul vão de 21 de dezembro a 21 de março. No Hemisfério Norte, no mesmo período, acontecem os invernos. É assim desde Adão e Eva.

[...] "as quatro estações do ano são nítidas e claramente demarcadas, cada uma com os seus sinais, os seus sons, os seus cheiros, a sua própria ampulheta por onde o tempo escorre, nem devagar nem depressa, apenas no seu ritmo sempre igual".

Fonte: Rio das Flores / Miguel Sousa Tavares - São Paulo : Companhia das Letras, 2008, p. 490. Romance : Literatura Portuguesa. 

O movimento de veículos na Rodovia RJ - 165 era grande e longos engarrafamentos se formaram por conta das obras. Isso atrasou deveras o trecho inicial da viagem.

No km 8, parada no Bairro da Penha para sorver uma chávena de café coado na hora, acompanhado de rapadura em barra, enquanto avistava a Igreja Matriz Nossa Senhora da Penha.

Igreja Matriz Nossa Senhora da Penha.
Foto: Fernando Mendes.

O pedal continuou à vera; os "pare e siga", também.

Paraty (RJ) e sua majestosa baía, lá embaixo, foram ficando pequenas enquanto a subida ficava cascuda. 

Meu coração, a pleno rendimento, revelava ritmo sinusal, ou seja, indicação de batimentos saudáveis. 

Disponível em: https://www.shutterstock.com/pt/search/normal-sinus-rhythm?dd_referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com%2F.
Acesso: 31/05/2022.

Fiquei a imaginar as linhas verdes e pulsantes de um monitor de frequência cardíaca, encurtando e alongando ao sabor dos batimentos. 

Cota 440 metros e subindo.

Foto: Fernando Mendes.

Próximo à cota 500 metros, pausa na Barraca do Careca. Degustei deliciosos pastéis de banana com canela. Eram 12h50. Estava pedalando fazia 2 horas e 50 minutos. 

A química digestiva, àquela altura [do caminho e dos acontecimentos], havia digerido o café da manhã ou pequeno almoço (em Portugal). Faltavam dois quilômetros para o início do calçamento e o fim do asfalto. Cota 510 metros e subindo.

Às 13h16, após pedalar 12 quilômetros [em 3 horas e 16 minutos] desde a saída de Paraty (RJ), atingi o ponto no qual o asfalto [da RJ - 165] cede lugar ao calçamento em bloquetes. Cota 600 metros e subindo.

Essa obra foi concluída em 2015 e pôs fim à etapa, em leito natural, em péssimas condições de uso, com 11 quilômetros de extensão e parte integrante do Parque Nacional da Serra da Bocaina 1

- Serra da Bocaina é um subgrupo da Serra do Mar.

Foto: Fernando Mendes.

Em maio de 2011, ocasião na qual percorri a Estrada Real pela primeira vez, fazendo a rota Diamantina (MG) a Paraty (RJ), atravessei esse trecho - hoje calçado - em precárias condições de tráfego, mesmo para bicicletas. 

Ao[re] iniciar as pedaladas, agora sobre o calçamento de paralelepípedos modernos - os bloquetes -, passei sob estruturas perpendiculares à estrada, usada pelos animais silvestres para passar de um lado para outro da mata, sem riscos de atropelamentos. Cota 820 metros e subindo.

Lamentavelmente o tempo virou, uma névoa alvadia, que flutuava próxima ao chão e com aspecto pouco amável, encobriu o caminho.

A forte radiação solar desde o amanhecer aqueceu o ar, tornando-o menos denso (leve) e envolvendo as escarpas da Serra da Bocaina (subgrupo da Serra do Mar), condensando-se e dando lugar a tão incômoda neblina ou “névoa alvadia”, que se espalhava à roda. 

bike foi abrindo caminho através da névoa, avançando como a proa de um navio mar adentro. Cota 910 metros e subindo.

Dos mirantes ao longo do caminho, nada se via nada da paisagem. A temperatura caiu rapidamente. O termômetro do GPS assinalava modestos 13°C, com sensação térmica de 10°C. 

Ao sair de Paraty (RJ), há pouco mais de cinco horas, a temperatura [ao nível do mar] era de agradáveis 26°C. 

Cota 1.300 metros e subindo. Amplitude térmica de 13°C.

 

Estrada Real entre Paraty (RJ) e Cunha (SP).
Foto: Fernando Mendes.

 

Passagem aérea para a fauna sem riscos de atropelamentos.

Estrada Real entre Paraty (RJ) e Cunha (SP).
Foto: Fernando Mendes.

 

Estrada Real entre Paraty (RJ) e Cunha (SP).
Foto: Fernando Mendes.

 

Estrada Real entre Paraty (RJ) e Cunha (SP).
Foto: Fernando Mendes.

 

Estrada Real entre Paraty (RJ) e Cunha (SP).
Foto: Fernando Mendes.

 

Estrada Real entre Paraty (RJ) e Cunha (SP).
Foto: Fernando Mendes.

Às 15h52, decorridas 5 horas e 52 minutos, desde a saída Paraty (RJ), e "escalar" 23 quilômetros, cheguei à "virada" da serra. Cota altimétrica: 1.540 metros.

Ao coroar o "cume", uma rajada de vento frio me recebeu, dando as boas-vindas. Alvíssaras!

Na "virada" da serra, o Estado do Rio de Janeiro (RJ) ficou para trás. Bem-vindo Estado de São Paulo (SP). A nomenclatura RJ - 165 deu lugar à nomenclatura SP - 171.

Venci a maior subida [23 km] do Caminho Velho, embora tenha enfrentado até Ouro Preto (MG) subidas menores em extensão, todavia com inclinações semelhantes a esse trecho inicial.

TRECHO PARATY (RJ) À “VIRADA” DA SERRA - 23 km.

2ª SUBIDA MAIS DIFÍCIL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

2º SUBIDA MAIS DIFÍCIL DA REGIÃO SUDESTE

2ª SUBIDA MAIS DIFÍCIL DO BRASIL

Disponível em: https://www.riderize.com/routes/subida-de-paraty-a-cunha-pS6M9TeWcI. Acesso: 31/05/2022.

Após fotos e uma comemoração solitária, subi na bike e continuei a viagem. Não podia ficar parado por mais tempo. A temperatura quase polar (?), me obrigou a seguir.

A estrada inclinou absurdamente para baixo e as descidas - tão esperadas - tornaram-se inimigas. O vento gelado castigava, apesar de vestir casaco corta-vento e luvas.

Rápida parada na Cachoeira do Mato Limpo. Banho àquela hora, nem pensar.

 

Cachoeira do Mato Limpo.
Foto: Fernando Mendes.

 

Cachoeira do Mato Limpo.
Foto: Fernando Mendes.

Continuei a descer em velocidade moderada, pois a roupa suada, contrastando com o ar frio daquela altitude, deram-me a impressão de congelamento dos ossos.

Passada a Pousada Antigo Caminho do Ouro, uns dois quilômetros à frente, parei no Kallas da Serra, o Sabor da Roça. Precisava me aquecer. Troquei a blusa muito suada sob o casaco corta-vento e coloquei uma limpa e seca. 

Saboreei delicioso pão com linguiça e segui para a última etapa daquele primeiro dia de viagem. A cidade de Cunha (SP), estava a 17,5 quilômetros. Os descensos continuaram a "abençoar" o caminho.

A névoa alvadia dissipou-se à medida que a altitude foi baixando. Pedalava - após o lanche -, em altitudes que variavam - em descenso - de 1.540 m a 1.000 m. 

As formações rochosas da Serra do Mar, dona e senhora do horizonte e coberta pela Mata Atlântica, nas partes mais elevadas, assemelhavam-se a ondas verdes e imóveis, enquanto o Sol, batendo em retirada para o Oeste, tingia o firmamento de vermelho ou de laranja, conforme sua vontade. Espetáculo gratuito. Parada para contemplação.

O ocaso (pôr do Sol) naquele primeiro dia de viagem aconteceu às 17h31. 

 

Foto: Fernando Mendes.

À exceção de uma subida [3 km] forte na chegada à Cunha (SP), a Cidade das Cerâmicas, os 17,5 quilômetros restantes foram em contínuo descenso e cobertos com celeridade e sem percalços.

Sob o manto da noite, cheguei a Cunha (SP) às 18h33. 

O capacete é dotado de luzes/sinalizadores e um par de potentes faróis, acoplados ao guidão, garantindo iluminação segura do caminho.

Hospedei-me na Pousada Clima da Serra. Recomendo.


PARATY (RJ) A CUNHA (SP)

Distância percorrida

49,2 km

Calorias (kcal)

3.800

Total subida

1.881 m

Total descida

1.010 m

Ritmo cardíaco médio (RMC)

132 b.p.m

Velocidade Média

9,8 km/h

Dados obtidos Garmin Forerunner 310XT


Ouro Preto (MG) a 571,8 quilômetros.

2º DIA

07/05/2022

CUNHA (SP) À VILA DO EMBAÚ (SP)

87,78 km


Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).
Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

Noite esplendidamente bem dormida, sob denso e promissor silêncio. 

O chalé fica bem afastado da rua, garantia de sono jamais interrompido por sons noturnos, tais como: motos com escapamentos furados, sons automotivos com músicas horrorosas e horda de pessoas barulhentas - quiçá embriagadas -, que disputam quem fala mais alto, enquanto vagam pelas ruas desertas da cidade à procura de suas casas ou bares abertos.

Terminado o pequeno almoço (café da manhã em Portugal) fui [a passos] à Doceria da Cidinha, na área central de Cunha (SP), obter o carimbo no Passaporte Estrada Real. 

Esse estabelecimento é uma história à parte na cidade. O café expresso e a variedade de doces e guloseimas fazem daquele empório "açucarado" o melhor num raio de 400 quilômetros. 

Indo a Cunha (SP), uma visita à Cidinha é obrigatória ou imperdível. Eu garanto.

 

 Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Cunha (SP). Foto: Fernando Mendes.

De volta à Pousada Clima da Serra, com meus haveres devidamente acomodados nos alforjes, tomei a proa de Guaratinguetá (SP), 47 quilômetros adiante.

Às 10h15 abandonei a Alameda Francisco da Cunha Menezes, executei conversão à direita em ângulo de 90º e ingressei na Rodovia SP - 171. O céu estava cheio de Sol. 

Outro dia esplêndido para pedalar e apreciar o "outro lado" da Serra do Mar, ou seja, sua vertente ocidental, virada para a Serra da Mantiqueira, com o Vale do Paraíba a intervalá-las.

Segui pela Rodovia SP–171, com asfalto de qualidade e acostamento bem pavimentado, diferente de ontem, entre a "virada" da serra e Cunha (SP), o acostamento é inexistente.

Pedalei sem tréguas por 23 quilômetros até o "Tudo na Roça", maravilhoso empório à beira da Rodovia SP-171. Saboreei uma chávena de café expresso com alguns pingos de leite. Que deleite.

Ao voltar à lida do pedal, constatei o Sol atingindo o zênite (meio-dia ou Sol a pino) e meu estômago clamava por víveres. 

Faltavam 28 quilômetros para Guaratinguetá (SP), palavra que na língua indígena quer dizer "terra das garças brancas".

Quando a Churrascaria da Serra passou no meu través sul, veio uma descida de 12 quilômetros. Trata-se da parte final da vertente ocidental da Serra do Mar. 

Terminado esse descenso, pedalava pelo Vale do Paraíba. 

Não tardou a aparecerem os primeiros bairros periféricos de "Guará" e logo estava a passar sob a Via Dutra, por meio de um pequeno mergulhão.

Às 13h37 parei à porta do Kafé Hotel e outro carimbo no Passaporte Estrada Real. 

Orientado pelo funcionário que me atendeu, fui almoçar no Restaurante Minuano. Refeição deliciosa e fartas opções no buffet. Deixei a bike no bicicletário comunitário de frente à casa de pasto e almocei tranquilamente.

Às 14h14 contornei [270º] a rotatória das "garças brancas", que enfeitam aquele trevo, e acessei a ponte sobre o Rio Paraíba do Sul, atravessando-a.

 

Foto: Fernando Mendes.

Terminada a travessia da ponte sobre o Rio Paraíba do Sul, segui pela Avenida João Pessoa - tem ciclovia - até a Gruta Nossa Senhora de Lourdes 2, que ficou à minha esquerda. 

2 A Gruta de Nossa Senhora de Lourdes é uma das Sete Maravilhas de Guaratinguetá (SP), e recebe diariamente turistas e peregrinos, que passam pelo circuito religioso do Vale do Paraíba. Ela [a Gruta] fica localizada ao lado do Memorial Filhas de Maria Auxiliadora.

 Enquanto construía o Orfanato para meninas pobres de Guaratinguetá (SP), Monsenhor João Filippo colocou a construção sob a proteção de Nossa Senhora de Lourdes. 

Para tal, o padre foi à França, de onde trouxe algumas pedras do mesmo local da aparição de Nossa Senhora de Lourdes. 

 As pedras foram depositadas aos pés da imagem da santa, num pequeno reservatório, no qual passa toda a água das bicas.

 Disponível em:<https://guaratingueta.sp.gov.br/as-sete-maravilhas-de-guaratingueta-gruta-de-nossa-senhora-de-lourdes/>. Acesso: 31/05/2022.

Ao chegar à Gruta, atravessei a Avenida João Pessoa e segui pela Rua Alberto Barbeta, que se transforma em estrada local, ladeada por muitos condomínios de alto padrão.

Logo o "alto padrão" ficou para trás e a paisagem mudou drasticamente. Início da estrada em leito natural. Pedalava à luz rica daquela tarde esplendorosa nos Trópicos.

Cheguei à Colônia Piagui, fundada no final do século XIX por imigrantes europeus, destacando italianos, espanhóis e austríacos.

No último bar antes da Vila do Embaú, parei para paçocas e Coca-Cola. Defronte a ele [o bar], um Marco da Estrada Real sinaliza "virar à esquerda". Ingressei num caminho largo, em leito natural, à semelhança da reta dos boxes de Interlagos.

De ambos os lados da senda, muitos bovinos; alguns mugiam, enquanto outros mastigavam capim em profusão, enquanto a Mantiqueira me espreitava como um fiscal na sala de provas do ENEM.

Não tardou a [re] começar o asfalto numa estrada estreita, sinuosa, predominantemente plana e com pequeno movimento de veículos. A média horária voltou a subir.

 

Foto: Fernando Mendes.

Às 17h passei pela Indústria Química Orica Mantiqueira, virei à direita conforme indicação de um Marco da Estrada Real e cheguei à [outra] ponte sobre o Rio Paraíba do Sul, que dá acesso à cidade de Lorena (SP). 

Excelente opção de pernoite para quem cansar antes de chegar à Vila do Embaú (SP) ou se estiver chovendo muito ou ambas as situações. Lorena (SP) é uma cidade muito agradável.

Restavam 29 minutos de luz natural. Não chovia e muito menos me sentia cansado. Toquei em frente.

Virei à esquerda e rumei para Vila do Embaú (SP), 22 quilômetros adiante, pedalando pela Estrada Municipal do Campinho, em leito natural. 

Passei sob o pontilhão da BR - 459 e, a seguir, pela Escola de Engenharia de Lorena - USP. O ocaso naquele sábado [7 de maio], estava marcado para às 17h29.

Às 18h29, uma hora após o pôr do Sol, cheguei à Vila do Embaú, bairro de Cachoeira Paulista (SP). 

Hospedagem no Motel Kokeluxe, o único estabelecimento para pernoite num raio de 20 quilômetros. A estalagem é simples, porém tem localização estratégica. 

Depois de atravessar o Vale do Paraíba, o Kokeluxe fica a poucos quilômetros - uns 12 talvez - do início da subida (e que subida) da Serra da Mantiqueira, na direção de Passa Quatro (MG). 

Após pedalar 87 quilômetros naquele segundo dia de jornada, pernoitar na Vila do Embaú foi garantia de descanso para encarar, no dia seguinte, as primeiras subidas da Mantiqueira.

No Sítio do Instituto Estrada Real está registrado que a Vila do Embaú não oferece pernoite.  

A informação que se segue precisa ser atualizada e retificada.

"Caminhantes e cavaleiros precisam ficar atentos na Vila Embaú, distrito de Cachoeira Paulista - SP, pois não há opção de hospedagem". 

CUNHA (SP) à VILA DO EMBAÚ (SP)

Distância percorrida

88,78 km

Calorias (kcal)

2.110

Total subida

777 m

Total descida

1.140 m

Ritmo cardíaco médio (RMC)

102 b.p.m

Velocidade Média

14 km/h

Dados obtidos Garmin Forerunner 310XT

Ouro Preto (MG) a 484,2 quilômetros.

3º DIA

08/05/2022 - DIA DAS MÃES

VILA DO EMBAÚ (SP) A PASSA QUATRO (MG)

33,43 km

 

Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/roteiros-planilhados/caminho-velho/trecho/vila-embau-sp+passa-quatro-mg/>. Acesso: 31/05/2022.

Fonte: minha página no sítio Wikiloc (com adaptações).

À primeira vista, a quilometragem frugal [33 km] daquele terceiro dia de viagem poderia tranquilamente ser percorrida em duas horas ou pouco menos. Eu disse, à primeira vista. 

Basta uma espiada na altimetria do trecho e a ideia de percorrê-lo rapidamente se esfumaça.

Entre a saída da Vila do Embaú (SP) até o Bairro do Passa Vinte, foram oito quilômetros percorridos placidamente entre pequenas propriedades rurais, chácaras e ranchos.

Estrada Real etapa Vila do Embaú (SP) a Passa Quatro (MG).
Ao fundo, a Mantiqueira. Foto: Fernando Mendes.

 

Estrada Real etapa Vila do Embaú (SP) a Passa Quatro (MG).
Ao fundo, a Mantiqueira. Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real etapa Vila do Embaú (SP) a Passa Quatro (MG).
Ao fundo, a Mantiqueira. Foto: Fernando Mendes.

Após degustar deliciosas paçocas no Bar do Bairro Passa Vinte e, a seguir, pedalar uns 400 metros, cheguei à Rodovia SP - 052, que liga Cachoeira Paulista (SP) à divisa SP - MG, na direção de Passa Quatro (MG). 

Nas duas edições que fiz pelo Caminho Velho, entre Ouro Preto (MG) e Paraty (RJ), uma em 2011 e outra em 2015, desci de Passa Quatro (MG) a Guaratinguetá (SP) pela Rodovia SP – 052, ignorando os Marcos da Estrada Real.

Nesta 3ª edição pelo Caminho Velho (2022), evitei subir os primeiros quilômetros pela Rodovia SP – 052. Fiz questão de conhecer aquela etapa da Estrada Real, em trilha, paralela à rodovia, serpenteando os primeiros contrafortes (*) da Mantiqueira, num cenário maravilhoso, em meio à Mata Atlântica e bem longe do frenético trânsito de veículos pelo asfalto.

(*) São "pilares" de sustentação das grandes elevações do relevo – a Mantiqueira –, sendo frequentemente utilizados para traçar trilhas, estradas e caminhos de acesso.

(Nota do Autor).

A 1,6 quilômetro do Restaurante Entre Rios, situado às margens da SP – 052, segui a orientação de um Marco da Estrada Real indicando acesso à trilha, inédita para mim.

Deixei o asfalto e ingressei num caminho em leito natural. Eram 11h.

Os primeiros três quilômetros foram fáceis. Solo bem compactado e caminho largo, com chácaras, casas para eventos, haras e áreas de pastagens. 

Trecho com quase imperceptível ascensão. Desconhecia o que me aguardava à frente.

 

Estrada Real etapa Vila do Embaú (SP) a Passa Quatro (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real etapa Vila do Embaú (SP) a Passa Quatro (MG).
Ao fundo, a Mantiqueira. Foto: Fernando Mendes.

A partir do Sítio do Túnel, a coisa complica. Atravessei, desembarcado da bike, um banhado que nem moto passaria. Lama até as canelas. 

A seguir, o caminho inclinou absurdamente em ângulo de subida. Valas e pedras soltas tornaram o pedalar impossível. E tome empurra bike, porém, com dignidade.

 

Estrada Real etapa Vila do Embaú (SP) a Passa Quatro (MG).
Foto: Fernando Mendes.


Estrada Real etapa Vila do Embaú (SP) a Passa Quatro (MG).
 Foto: Fernando Mendes.

À medida que a qualidade do piso piorava, empurrar a bike ficava difícil, muito difícil. Com um par de alforjes que somavam 12 quilos, continuar o ascenso tornou-se um martírio. 

E esse calvário estendeu-se por três intermináveis quilômetros. Quanto mais avançava, pior ficavam a inclinação e a qualidade do piso, com valas pronunciadas e muitas, muitas pedras soltas, do tamanho de melões.

Às 13h "brotaram" no caminho trilhos de trem, que outrora fizeram parte do ramal da Estrada de Ferro Minas e Rio (inaugurada em 1884), que ligava a antiga Capital Federal - Rio de Janeiro - ao Sul de Minas Gerais, passando Cachoeira Paulista (SP), Cruzeiro (MG), Passa Quatro (MG), Itanhandu (MG), São Sebastião do Rio Verde (MG), São Lourenço (MG), Soledade de Minas (MG) e findava em Três Corações (MG), com extensão de 169 quilômetros.

Estação da Ferrovia Minas e Rio em Cruzeiro (SP). Ano 1885.
Disponível em:<https://pt.wikipedia.org/wiki/Estrada_de_Ferro_Minas_e_Rio#/media/Ficheiro:
Railroad_station_brazil_1885.jpg>. Acesso: 31/05/2022.

 

Estação da Ferrovia Minas e Rio em Cruzeiro (SP). Ano 2020.
Disponível em: <https://brasiltravelnews.com.br/noticias/complexo-ferroviario-de-cruzeiro-e-restaurado/>. Acesso: 31/05/2022.

A vegetação cobre a extensão da linha férrea e quem resolver percorrê-la, vai chegar ao Túnel da Mantiqueira, divisor dos municípios de Cruzeiro (SP) e Passa Quatro (MG). 

Conheço esse túnel e atravessei–o em três ocasiões: duas vezes num mochilão de São Lourenço (MG) a Aparecida (SP) e noutra oportunidade, em 2015, de bike, quando percorri o Caminho Velho da Estrada Real indo de Ouro Preto (MG) a Paraty (RJ). 

Portanto, tornou–se desnecessário ir até a entrada do Túnel da Mantiqueira no lado paulista. Obedeci a sinalização de um Marco da Estrada Real, que indicava seguir à direita e deixar os trilhos da antiga ferrovia para trás. 

E encarei 1,8 quilômetro de subida contínua, repleta de valas e pedras – do tamanho de goiabas – até alcançar o mirante, a 1.200m de altitude, onde uma imagem de Nossa Senhora Aparecida foi assentada sobre uma estrutura ladeada por dois cruzeiros.

 

Estrada Real etapa Vila do Embaú (SP) a Passa Quatro (MG).
Imagem de Nossa Senhora Aparecida ladeada por dois cruzeiros.
Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real etapa Vila do Embaú (SP) a Passa Quatro (MG).
Imagem de Nossa Senhora Aparecida ladeada por dois cruzeiros.
Foto: Fernando Mendes.

Trata-se de um mirante do qual se avista o Vale do Paraíba lá embaixo e é possível divisar as cidades de Cruzeiro (SP), Cachoeira Paulista (SP) e Lavrinhas (SP). Eram 13h 47. 

O estômago clamava por almoço. Estava famélico. Foram 2 horas e 47 minutos para percorrer seis difíceis  quilômetros de trilha.

 

Garganta do Embaú. Foto: Fernando Mendes.

A partir desse mirante, São Paulo (SP) ficou para trás e ingressei em Minas Gerais (MG), o Estado brasileiro com maior número de municípios, 853; a menor quantidade está em Roraima (RR), com apenas 15 Unidades Municipais.                                                

  

Estrada Real etapa Vila do Embaú (SP) a Passa Quatro (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real etapa Vila do Embaú (SP) a Passa Quatro (MG).
Foto: Fernando Mendes.

À esquerda desse portal de boas-vindas às Terras Altas da Mantiqueira, há um posto de combustíveis com imenso restaurante. Contudo foi impossível almoçar naquele estabelecimento. 

A fila para pegar o prato e servir-se no buffet chegava ao acostamento da Rodovia MG - 158. 

Era Dia das Mães, por isso a muvuca no estabelecimento. Pelo adiantar da hora, somado à confusão no recinto, desisti do repasto.

Um Marco da Estrada Real, dentro desse posto de combustíveis, indica uma descida, acesso ao Bairro do Registro, em Passa Quatro (MG). 

Uma placa aponta a direção do Túnel da Mantiqueira e da Estação Coronel Fulgêncio.

 

Estrada de Ferro Minas e Rio. Estação Coronel Fulgêncio. Passa Quatro (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

Estrada de Ferro Minas e Rio. Túnel da Mantiqueira. Passa Quatro (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

Estrada de Ferro Minas e Rio. Túnel da Mantiqueira. Passa Quatro (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Aos finais de semana e feriados, a Locomotiva 332, da marca Baldwin, fabricada nos EUA em 1929, faz um percurso de 10 quilômetros, saindo da Estação de Passa Quatro (MG) indo à entrada do Túnel da Mantiqueira e voltando à Estação de Passa Quatro (MG).

Em 2011, quando fiz a 1ª edição da Estrada Real - Diamantina (MG) a Paraty (RJ) -, embarquei nesse passeio, deveras interessante. 

Em 2015, ocasião na qual percorri a Estrada Real de Ouro Preto (MG) a Paraty (RJ), atravessei os 997 metros do Túnel da Mantiqueira empurrando a bike. Ao terminar a travessia, estava no município de Cruzeiro (SP).

Os fantasmas que habitam o interior da galeria (túnel) são amigáveis.

Terminada a visita ao Túnel e à Estação, segui na direção de Passa Quatro (MG), tendo os trilhos e os Marcos da Estrada Real como referências.

Às 16h, check-in na Pousada São Rafael. Estada maravilhosa. Carimbo no Passaporte.

 

Serra da Mantiqueira. Passa Quatro (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

Passa Quatro (MG). Foto: Fernando Mendes.

 

Igreja de São Sebastião em Passa Quatro (MG). Fotos: Fernando Mendes.

Até às 18h fiquei no quarto assistindo ao jogo do meu Fluminense X Palmeiras, que terminou 1 a 1. Empate com gosto de vitória para os tricolores, pois a peleja foi no campo do Palmeiras, o Allianz Parque, inaugurado em 19/11/2014.

Saí para jantar, uma vez que dancei no almoço. Quebrei a cara pela segunda vez. O único estabelecimento aberto naquele domingo foi um bar. Contentei-me com alguns petiscos. Pelo menos a cerveja estava gelada.

Um vento frio, sibilante e desagradável, desceu da Mantiqueira e derrubou a temperatura. Voltei à pousada, cobertor e TV ligada até o sono chegar, coisa que não tardou a acontecer. 

Os parcos 33,43 quilômetros daquele domingo, Dia das Mães, foram difíceis e, por extensão, não tiveram nada de parcos, pois tive a sensação de ter pedalado, por baixo, o dobro da distância.

VILA DO EMBAÚ (SP) a PASSA QUATRO (MG)

Distância percorrida

33,43 km

Calorias (kcal)

825

Total subida

874 m

Total descida

489 m

Ritmo cardíaco médio (RMC)

123 b.p.m

Velocidade Média

9,6 km/h

Dados obtidos Garmin Forerunner 310XT

Ouro Preto (MG) a 450,59 quilômetros.

4º DIA

09/05/2022

PASSA QUATRO (MG) A SÃO LOURENÇO (MG)

56,37 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

 

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

O pequeno almoço (café da manhã em Portugal) da Pousada São Rafael é digno de extensos elogios, que deixei registrados no sítio da estalagem, na internet. 

Ciente de que a jornada daquele 4º dia – em particular no trecho entre Pouso Alto (MG) e São Lourenço (MG) – seria, como de fato foi, bastante desgastante, tratei de aproveitar das delícias servidas à mesa e alimentei–me com dignidade.

Às 9h30 encontrava–me diante da Estação Ferroviária de Passa Quatro (MG) para [mais] registros fotográficos.

Ciente de que a jornada daquele 4º dia - em particular no trecho entre Pouso Alto (MG) e São Lourenço (MG) - seria [como de fato foi] bastante desgastante, tratei de aproveitar das delícias servidas à mesa e alimentei-me com dignidade.

 

Estação Ferroviária de Passa Quatro (MG).

 

Estação Ferroviária de Passa Quatro (MG).

 

Estação Ferroviária de Passa Quatro (MG). Fotos: Fernando Mendes.

Às 9h39, tendo a Igreja de São Sebastião à minha esquerda, iniciei o quarto dia de pedal, quicando nos paralelepípedos da Avenida Cel. Ribeiro Pereira. 

Aquele incômodo piso para pedalar estendeu–se até o Colégio São Miguel, ponto a partir do qual começou o leito natural, com 11 quilômetros, percorridos em terreno predominantemente plano até alcançar Itanhandu (MG). "Fácil, extremamente fácil".

 

Estrada Real entre Passa Quatro (MG) e São Lourenço (MG). Ao fundo, a Mantiqueira encoberta nas partes baixas ou gargantas. Foto: Fernando Mendes.

Às 11h estava defronte à Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição em Itanhandu (MG), palavra da língua Tupi que significa "ema de pedra".

 

Estrada Real entre Passa Quatro (MG) e São Lourenço (MG).
Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. Foto: Fernando Mendes.

 

Estrada Real entre Passa Quatro (MG) e São Lourenço (MG).
Estação Ferroviária de Itanhandu (MG). Fotos: Fernando Mendes.

 

Estrada Real entre Passa Quatro (MG) e São Lourenço (MG).
Estação Ferroviária de Itanhandu (MG). Fotos: Fernando Mendes.

A linha férrea que passa por Itanhandu (MG) fez parte da extinta Estrada de Ferro Minas - Rio, fundada em 1884 e que operou até 1983, quando foi desativado o trecho - 169 quilômetros - entre Cruzeiro (SP) e Três Corações (MG) - terra natal de Edison Arantes do Nascimento, o Pelé.

Atualmente, as únicas etapas ativas da falecida Minas e Rio ficam entre a Estação Ferroviária de Passa Quatro (MG) e a entrada do Túnel da Mantiqueira e da Estação São Lourenço (MG) a Soledade de Minas (MG), trechos nos quais ocorrem passeios turísticos nos fins de semana e feriados.

Às 11h49 apontei a proa da bike na direção de São Sebastião do Rio Verde (MG), 12 quilômetros à frente, percorridos em leito natural e onde, outrora, correram os trens da Ferrovia Minas e Rio. Ou seja, pedalava sobre um antigo leito ferroviário à semelhança da Estrada de Ferro Bahia – Minas, a saudosa Bahiminas (*).

(*) entre os dias 22 e 31/08/2021, percorri [de bike] os 577 quilômetros da extinta Estrada de Ferro Bahia - Minas, a Bahiminas, que ligou, por 84 anos, Araçuaí (MG), no Vale do Jequitinhonha, à pacata Ponta de Areia, distrito de Caravelas, litoral sul da Bahia.  

Há relato neste Blog.

Apareceram os primeiros cortes nas rochas, dando a impressão exata de quão espremida a estrada ficava entre duas velhas formações sedimentares pelas quais o trem parecia "encolher" ao atravessá-las. 

Pedalava com a impressão de que, a qualquer momento, ouviria, varando o ar, o apito da velha Maria Fumaça.

 

Estrada Real entre Passa Quatro (MG) e São Lourenço (MG).
Antigo leito ferroviário da Estrada de Ferro Minas e Rio. Fotos: Fernando Mendes.

Aos poucos, o caminho foi ficando largo e nos flancos apareceram áreas de pastagens. Ao fundo, o colosso da Mantiqueira.

 

Estrada Real entre Passa Quatro (MG) e São Lourenço (MG). Fotos: Fernando Mendes.

Estrada Real entre Passa Quatro (MG) e São Lourenço (MG). Fotos: Fernando Mendes.

Nove quilômetros após a saída de Itanhandu (MG) cheguei ao asfalto da Rodovia MG - 350, defronte à Fazenda Retiro. 

Segui à direita na direção de São Sebastião do Rio Verde (MG) e, a seguir, Pouso Alto (MG). 

O cronômetro do GPS devorava os dígitos enquanto meu estômago clamava por víveres. Eram 13h. Almoçaria em São Sebastião do Rio Verde (MG) (*) ou, na pior das hipóteses, em Pouso Alto (MG). A ver.

Em São Sebastião os poucos restaurantes existentes não estavam servindo almoço. Conforme escutei em três deles, ao perguntar se havia refeição, a resposta foi categórica: "acabou"! 

Fiz um tour fotográfico pelos arredores da Igreja Matriz e da Estação Ferroviária da extinta Minas e Rio, inaugurada em 1884. 

(*) A sede da hospitaleira cidade, situada em suave colina às mar­gens do Rio Verde, compreende casario edificado em estilo eclético, ao final do século XIX e início do XX, em grande parte construída por imigrantes italianos, e outros exemplares mais antigos, alguns em estilo colonial. 

Disponível em:<https://www.caminhoreligiosodaestradareal.com/sao-sebastiao-do-rio-verde-mg/>. Acesso: 31/05/2022.

 

Igreja Matriz São Sebastião do Rio Verde. Foto: Fernando Mendes.

 

Estrada de Ferro Minas e Rio. Fotos: Fernando Mendes.

Às 14h11 segui para Pouso Alto (MG), 2,6 quilômetros à frente ou 1,7 milha romana. Uma milha romana valia, à época do Império Romano, 1.480m – uns mil passos. 

Acalentava, embora sem muitas esperanças, o desejo de almoçar. Não logrei êxito. Entendi que nessas localidades menores, as pessoas almoçam cedo porque acordam aos primeiros cantos dos galos, "as trombetas matinais"(*)

 (*) Quinto Horatius Flaccus, romaemono que viveu entre 65 a.C e 8 a.C, foi poeta lírico e satírico e, acerca de galos - descritos por ele como "as trombetas matinais"-, escreveu que "os galos ao cantar, anunciam a última vigília, que começa às 4h, ou seja, duas horas antes do orto solar. 

Ao cocoricar, o galináceo está "a advertir os demônios e os espíritos errantes da noite que se retirem". 

"O galo é o cantor de Deus visto que repete seus louvores sete vezes".

Contentei-me com duas coxinhas numa lanchonete no perímetro urbano de Pouso Alto (MG). 

Eram 14h32. Faltavam 16 quilômetros para São Lourenço (MG).

 

Chegada a Pouso Alto (MG). Foto: Fernando Mendes.

Terminado o lanche, pedalei dois quilômetros pelo perímetro urbano de Pouso Alto (MG), cortado pela Rodovia BR - 354. 

Defronte à Cachaça Paraíso, atravessei a 354 e tomei o rumo de São Lourenço (MG), por caminho em leito natural, sob um céu azul e sem nuvens.

Após atravessar a primeira comunidade à beira do caminho, a Estrada Real faz forte curva à esquerda e a senda empina honestamente para cima, por exatos três quilômetros. Foi a única subida cascuda do dia; e que subida.

Eram 15h. Ainda restavam pouco mais de duas horas de luz natural.

 

Estrada Real entre Passa Quatro (MG) e São Lourenço (MG). Foto: Fernando Mendes.

 

Estrada Real entre Passa Quatro (MG) e São Lourenço (MG). Foto: Fernando Mendes.

A paisagem rural transmite paz e tranquilidade. A atividade predominante é a pecuária, mas observei pequenos sítios ou chácaras - nunca soube a diferença entre ambos-, além de pequenos empórios, que atendem às demandas das comunidades perfiladas ao longo do caminho.

Em certo ponto do trajeto, a Estrada Real interceptou caminho que vem do sul, me fazendo girar 90° à direita, quando passei a pedalar no rumo norte, paralelamente ao Rio Verde. 

São Lourenço (MG) não tardou a aparecer em meu campo visual. 

Cheguei à cidade das águas minerais às 17h, faltando meia hora para o ocaso.

Atravessei-a em meio ao trânsito caótico de fim de tarde. Era hora do rush, correr em inglês. Não confundir com hush, silêncio em inglês.

Chegada a São Lourenço (MG). Foto: Fernando Mendes.

Hospedei–me na Pousada Santo Antônio, vizinha à Estação Ferroviária da cidade, ponto de partida no dia seguinte.

O jantar foi em restaurante adjacente à hospedaria. Que delícia de refeição, regada a algumas tulipas de Chope Ecobier. Não conhecia. Recomendo experimentar.

PASSA QUATRO (MG) A SÃO LOURENÇO (MG)

Distância percorrida

56,37 km

Calorias (kcal)

1.390

Total subida

680 m

Total descida

735 m

Ritmo cardíaco médio (RMC)

96 b.p.m

Velocidade Média

10,2 km/h

Dados obtidos Garmin Forerunner 310XT


Ouro Preto (MG) a 394,22 quilômetros.

5º DIA

10/05/2022

SÃO LOURENÇO (MG) A CRUZÍLIA (MG)

62,98 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

 

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

 

Estação Ferroviária da Minas e Rio em São Lourenço (MG). 
Foto: Fernando Mendes.

 

Estação Ferroviária da Minas e Rio em São Lourenço (MG). 
Foto: Fernando Mendes.

Antes de partir rumo a Caxambu (MG), 27 quilômetros à frente, uma visita à Estação Ferroviária de São Lourenço (MG) que, a exemplo da Estação Ferroviária de Passa Quatro (MG), está em excelente estado de conservação e promove passeios turísticos, entre São Lourenço (MG) e Soledade de Minas (MG), aos finais de semana e feriados.

Às 9h49, contornei a Praça da Estação, atravessei o que restou dos trilhos da extinta ferrovia Minas - Rio e segui por três quilômetros - sempre subindo - transpassando diversos bairros periféricos, até interceptar, ortogonalmente (90°), a BR-460 e continuar, em leito natural, na direção (ou proa) de Caxambu (MG).

Previa-se um dia quente e azul, com poucas nuvens e temperatura em 22°C. O melhor dos mundos para pedalar. O Sol, redondo e implacável, me observava do alto.

O trecho da Estrada Real entre São Lourenço (MG) e Caxambu (MG) é bastante bucólico. 

Extensas áreas de pastagens têm como vizinhos pequenas chácaras, pesqueiros e estâncias para finais de semana.

 

Hotel Fazenda Vista Alegre na saída de São Lourenço (MG).
Estrada Real entre São Lourenço (MG) e Caxambu (MG). Foto: Fernando Mendes.

  

Estrada Real entre São Lourenço (MG) e Caxambu (MG). 
Foto: Fernando Mendes.

 

Estrada Real entre São Lourenço (MG) e Caxambu (MG). 
Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre São Lourenço (MG) e Caxambu (MG). 
Foto: Fernando Mendes.

Faltando 10 quilômetros para Caxambu (MG), ou 5,31 milhas romanas, a Estrada Real "deságua" noutra estrada e, a partir daquele ponto, elas seguem sobrepostas. 

Trata–se do antigo leito ferroviário da Ferrovia Minas – Rio que, em descenso suave, porém, contínuo –, levou–me à portaria do Parque das Águas de Caxambu (MG), sem haver a necessidade de pedalar. 

 

Parque das Águas em Caxambu (MG). 
Foto: Fernando Mendes.

No guichê de venda dos ingressos para acesso ao Parque, o Passaporte da Estrada Real foi carimbado e, em seguida, saí à procura de um restaurante para almoçar. Eram 13h 34.

Às 14h30, após deliciosa refeição, tomei o rumo de Baependi (MG), 8,43 quilômetros adiante, percorridos em calçamento de paralelepípedos, à semelhança de algumas estradas romanas (em latim Romanae viae). 

Muitas Romanae viae sobreviveram por milênios. Algumas foram "sepultadas" por caminhos asfaltados.

"A extraordinária grandeza do Império Romano se manifestou, sobretudo, em três coisas: os aquedutos, as estradas pavimentadas e a construção dos esgotos."

Dionísio de Halicarnasso, Ant. ROM. 3, 67, 5. 

FonteQuilici, Lorenzo (2008): "Land Transport, Part 1: Roads and Bridges", em: Oleson, John Peter (ed.): The Oxford Handbook of Engineering and Technology in the Classical World, Oxford University Press, Nova York, ISBN  978-0-19-518731-.1 , pp. 551–579.

Caxambu (MG) e Baependi (MG) uniram-se em decorrência do crescimento horizontal de ambas, a ponto de os limites físicos entre elas desaparecerem. Esse fenômeno urbano, comum em toda a Terra, a Geografia denomina de conurbação.

Baependi 3 (Mbaé-pindi) significa “clareira aberta” ou “muitos caminhos dependurados”, uma referência à quantidade de caminhos partindo daquela região. 

 3 - A cidade é remanescente do ciclo do ouro (1697 - 1810) em Minas Gerais (MG).  

Baependi (MG) desenvolveu-se ao longo do Caminho Velho da Estrada Real - o primeiro importante meio de comunicação regular no Brasil -, que ligava as minas ao Porto de Paraty (RJ), de onde o ouro era enviado à Corte (Rio de Janeiro) e, posteriormente, embarcado para Portugal.  

Disponível em:<http://www.baependi.mg.gov.br/site/historia/>.
Acesso: 31/05/2022.

Impossível passar por Baependi (MG) e não ouvir louvores e glórias à Nhá Chica 4.

4 Francisca de Paula de Jesus, a Nhá Chica, nasceu em São João del Rei (MG) em 1810. 

Filha da escrava Izabel Maria que, depois de ganhar a liberdade (1820), decidiu se mudar para Baependi. 

Nhá Chica dedicou sua vida à fé e decidiu ajudar os pobres a pedido de sua mãe. 

Recusou todas as propostas de casamento apresentadas a ela. 

 Usou a herança deixada pelo irmão para aumentar seu trabalho social e começar a construção de uma capela mariana. As doações foram usadas como um meio para ela construir o "Santuário de Nossa Senhora da Conceição". 

 Apesar de analfabeta e empobrecida, Nhá Chica acolheu os necessitados em seu novo lugar e ficou conhecida como "Mãe dos Pobres". 

 Ela morava em um humilde casebre de dois cômodos e construiu um pequeno altar enfeitado com rosas. 

 Era conhecida por dar atos de conforto e cura espiritual àqueles que a visitavam. 

Em 8 de julho de 1888, redigiu um testamento no qual decidiu deixar todos os seus bens para sua paróquia. Estabeleceu a distribuição entre os pobres. 

Ela também descreveu como queria o funeral, bem como o número de missas celebradas por sua alma. 

Nhá Chica morreu em 14 de junho de 1895. Foi sepultada em sua capela quatro dias depois. 

Há relatos que havia um cheiro incomum de perfume quando foi enterrada e igual odor foi sentido, por ocasião da abertura de seu caixão, em 18 de junho de 1998, 103 anos depois de seu sepultamento. 

Sua beatificação foi celebrada no Brasil em 2013 e isso fez dela a primeira mulher afro-brasileira a ser beatificada. 

Disponível em:< https://www.nhachica.org.br/sobre-a-nha-chica-historia.php>. Acesso: 31/05/2022.

Quantas vezes passar por Baependi (MG), fotografarei a Igreja de Nossa Senhora de Montserrat, construída em 1754.

 

Igreja de Nossa Senhora de Montserrat construída em 1754. Fotos: Fernando Mendes.

Igreja de Nossa Senhora de Montserrat construída em 1754. Fotos: Fernando Mendes.

Igreja de Nossa Senhora de Montserrat construída em 1754. Fotos: Fernando Mendes.



Avenida JK ou Rua da Ponte. Baependi (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Em Baependi (MG), o vestígio mais famoso da antiga estrada de ferro Minas e Rio é o Pontilhão da Cidade, com estrutura triangular em ferro fundido, importado da Inglaterra e assentado sobre bases de pedra. 

Localizado no acesso aos principais pontos turísticos do município, foi adaptado ao tráfego de veículos, pedestres e ciclistas. 

Os trens pararam de circular e os trilhos foram retirados na década de 1970. 

Desde então, as duas estruturas se tornaram patrimônios históricos e pontos de memória da cidade.

Disponível em: https://www.minasgerais.com.br/pt/atracoes/baependi/pontilhao-da-cidade>. Acesso: 31/05/2022.

Avenida JK ou Rua da Ponte. Baependi (MG).
Fotos: Fernando Mendes.

Às 15h46 deixei Baependi (MG) para trás, dando início à etapa mais difícil daquele quinto dia de aventura: chegar a Cruzília (MG).

Foram 24 quilômetros que deveriam ter sido percorridos em pouco mais de 1 hora e meia. Deveriam!

E veio um trecho deveras interessante e bastante esperado: uma cava

Fonte: Estrada Real: Caminho Velho/Antônio Olinto & Rafaela Asprino,
3ª ed. - São Paulo 2021, p. 72.

Trata-se de um afundamento no leito do caminho, consequência do trânsito frenético [no passado] de tropeiros e [hoje] de veículos leves e pesados. Resultado: pedalava espremido entre as paredes criadas pelo rebaixamento do piso da estrada. 

As árvores, que flanqueiam o caminho, ficaram acima do leito e as raízes expostas dão um ar lúgubre (sinistro) à travessia, feita em ascensão contínua por cinco quilômetros, iniciada na cota 900 m e findada na cota 1.150m. Para 1 quilômetro pedalado, subia 50 metros.

 

CAVA
Estrada Real entre São Lourenço (MG) e Cruzília (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

CAVA
Estrada Real entre São Lourenço (MG) e Cruzília (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

CAVA
Estrada Real entre São Lourenço (MG) e Cruzília (MG).
Foto: Fernando Mendes.

CAVA
Estrada Real entre São Lourenço (MG) e Cruzília (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Foi a 4ª vez que por ali pedalei e a impressão é que a cava continua a afundar.

05/ 2011

Diamantina (MG) a Paraty (RJ)

06/2014

Conceição do Mato Dentro (MG) a São Lourenço (MG)

07/2015

Ouro Preto (MG) a Paraty (RJ)

05/2022

Paraty (RJ) a Ouro Preto (MG)

As cavas sendo abertas 
no início do Ciclo do Ouro (século XVII).




Fonte: SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda viagem a São Paulo e quadro histórico da Província de São Paulo. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2002.

Coleção O Brasil Visto por Estrangeiros pp. 1 a 8.

Quando terminei de subir a cava, o relógio do navegador, preso ao guidão da bike, marcava 17h. 

O Sol, oblíquo e batendo em retirada, fugia na direção Oeste. Restavam-me menos de 30 minutos de luz natural. 

Não foi preciso grande esforço para concluir que a chegada a Cruzília (MG) - como de fato ocorreu - sob o manto da noite.

Precisava seguir. "O tempo não para no porto, não apita na curva e não espera ninguém", como diz a canção de Reginaldo Bessa. Era necessário não perder tempo.

Por volta das 17h50 registrei as últimas claridades no Oeste, antes que a escuridão baixasse sobre a amplitude do caminho. Foi quando me vi diante de uma encruzilhada, feito um brasão de armas, disposto de forma ortogonal (90º) e desfalcada [a encruzilhada] do Marco da Estrada Real. 

Silêncio das rodas. Um longo silêncio se fez. Um silêncio sem fundo, daqueles que antecedem as preliminares de uma execução.

Qual a direção seguir? E agora? Senti-me um camundongo perdido no labirinto. Fiquei oscilante feito uma chama. 

Enquanto minha lógica e meu senso comum ditavam-me o caminho à esquerda, outra força, - pode ter sido esse anjo com nome de mulher chamado "Intuição" arrastou-me para o caminho à direita. Glorifiquei e fui.

Prossegui, mal sabendo que optei pela rota mais longa - não necessariamente errada -, constatada após chegar a Cruzília (MG). Minha intuição fez uma cesta de três pontos.

Estrada Real entre São Lourenço (MG) e Cruzília (MG). Foto: Fernando Mendes.

Eram 18h, a parca claridade no Oeste fez descer o manto da noite que, serena, começou a liberar estrelas, visíveis naquela escuridão intérmina e ininterrupta, forrando o firmamento de maravilhosa magnitude estelar, céu impossível de ser visualizado nos grandes centros urbanos. 

Acionei as luzes traseira, laterais e frontal do capacete e liguei apenas um dos faróis da bicicleta, preservando o segundo para uma eventual necessidade, caso o périplo se prolongasse além do previsto.

Pedalava sob o firmamento coalhado de estrelas. A Lua, em fase Crescente, com sua afilada forma, jogava parca luz pelo caminho. 

Uma Kombi escolar, que levava crianças de volta às suas casas, surgiu em meio à escuridão, uma tábua de salvação.

O motorista falou que eu estava na direção de Cruzília (MG), embora percorrendo caminho mais longo. Naquela altura dos acontecimentos, voltar à bifurcação na qual optei pelo caminho "errado", seria insano. 

Jamais conseguiria identificar de onde vim, principalmente depois de algumas conversões às cegas. Porém não apareceram indicações ou referências que ratificassem que eu estava no caminho certo. 

À semelhança dos cães Napoleão e Lafaiete, aqueles trapalhões do desenho “Os Aristogatos”, ouvi, a larga distância, o barulho de uma moto. Aguardei.

Em meio ao breu, fiz sinal ao motoqueiro para que parasse. 

Informou-me que, dois quilômetros [ou pouco mais] à frente, pendurado num bambuzal, eu encontraria/veria uma placa - que de fato encontrei e visualizei - indicando Cruzília (MG) à direita, e logo chegaria - como de fato cheguei - ao asfalto, e placas me mostrariam - como de fato mostraram-me - o rumo da cidade de Cruzília (MG). Eram 19h30.

Entendi perfeitamente as informações, agradeci e continuei seguindo. Via as luzes de Cruzília (MG), ainda bruxuleantes, (*) a distância muito grande, talvez uns cinco quilômetros e gritei: "Terra à vista!", a frase mais aguardada pelos homens que se fazem ao mar.

(*) Caso a ideia de distância seja genérica, indeterminada ou o sentido for puramente figurado, não leva crase. Haverá a ocorrência do sinal indicativo de crase se a distância for determinada.

(Nota do Autor).

Cruzília (MG) estava lá embaixo, feliz na luz, dentro de um buraco fundo, mas não conseguia encontrar (ou chegar) ao acesso que me levasse à área urbana.

Parei um caminhão e o motorista me informou que a 1,5 quilômetro adiante eu chegaria - como de fato cheguei - a um trevo com as indicações necessárias. Bingo! Consegui. Eram 20h15.

Por 2 horas e 15 minutos, pedalei - aparentemente - no rumo certo, porém pelo caminho mais longo e sem referências ou indicações. Louvados aqueles que me ajudaram.

Cruzília (MG) é o berço do Cavalo Manga Larga Marchador, resultado do cruzamento do Álter Real, puro sangue português, com éguas da região, originando a famosa raça equina brasileira.

Deixei a bike e demais haveres no Hotel Real e parti [a passos] para o Lelinho's Restaurante e Pizzaria, o meu dileto na cidade de Cruzília (MG). 5

 5 Um dos primitivos nomes da localidade foi São Sebastião da Encruzilhada (1858). Cruzília – “Terra da Cruz”. 

 Nome originário do fato de o povoado localizar-se ao lado da encruzilhada formada por duas importantes estradas no período colonial, que ligavam os municípios de São João Del Rei (MG) e Aiuruoca (MG) e Rio de Janeiro (RJ) às regiões auríferas da Capitania de Minas Gerais

Os primeiros habitantes da região foram os faiscadores que exploraram o ouro de aluvião encontrado nas encostas de morros às margens de córregos da localidade. 

Provavelmente vieram da província de São Paulo. 

Ainda hoje, constituem testemunhas da presença daqueles desbravadores das várias escavações existentes no território municipal. 

 Passada a fase da mineração de ouro, chegaram [a Cruzília – MG] os primeiros agricultores e senhores de escravos

Fonte: Enciclopédia dos Municípios Brasileiros – Volume XXIV ano 1958.

O pedal deveras tenso, somado à expectativa de chegar, deixaram-me com fome e sede avassaladoras.

Devidamente alimentado e hidratado, voltei ao Hotel Real, fiz o check-in, banho e cama, exatamente nessa ordem. 

Sonhei que minha bike havia sido furtada da garagem da hospedaria.


SÃO LOURENÇO (MG) A CRUZÍLIA (MG)

Distância percorrida

62,98 km

Calorias (kcal)

1.751

Total subida

1.166 m

Total descida

972 m

Ritmo cardíaco médio (RMC)

103 b.p.m

Velocidade Média

10,2 km/h

Dados obtidos Garmin Forerunner 310XT

Ouro Preto (MG) a 331,24 quilômetros.

6º DIA

11/05/2022

CRUZÍLIA (MG) A CARRANCAS (MG)

61,31 km

 

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

 

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

Noite de muito frio, que esteve por toda parte, parecendo me abraçar. 

Quando o orto solar - programado às 6h 22 - aconteceu, estava a caminho do refeitório para o pequeno almoço. 

Através das amplas janelas do cenáculo (*), a luz matinal entrava abundantemente e o Sol rompia o azulado do horizonte, à semelhança da "aurora de dedos rosados" - como cantou Homero-, poeta épico da Grécia Antiga. 

Aurora é a deusa romana do amanhecer, equivalente à deusa grega EOS. 

Homero e a poesia grega descrevem Eos com "dedos rosados" devido à cor do céu ao nascer do Sol ou o orto solar. 

Na mitologia romana, “Aurora renova-se todas as manhãs e voa pelo céu, anunciando a chegada do Sol. ODISSEIA - CANTO 9 (versos 318-414). 

(*) Do latim cenaculum, que significa "sala de jantar".

Pedi à atendente da recepção que, por favor, ligasse a TV para assistir ao que ia pela Pátria. 

Desde a saída de Paraty (RJ), há seis dias, não me inteirava dos acontecimentos nacionais e internacionais. Encerrado o noticiário da Globo - "Hora 1" -, concluí: "tudo como dantes no quartel de Abrantes". (*)

 (*) A frase (...) surgiu no início do século XIX, com a invasão de Napoleão Bonaparte à Península Ibérica.

 Portugal foi tomado pelas forças francesas, porque demorou a obedecer ao Bloqueio Continental, imposto por Napoleão, que obrigava o fechamento dos portos a qualquer navio inglês.

 Em 1807, uma das primeiras cidades invadidas pelo general Jean Androche Junot, braço-direito de Napoleão, foi Abrantes, a 152 quilômetros de Lisboa, na margem direita do Rio Tejo. Lá instalou seu quartel-general e, meses depois, se fez nomear Duque d’Abrantes.

 O general Jean Androche Junot encontrou Portugal à deriva, praticamente sem governo, pois o príncipe-regente, dom João VI e toda a Corte Portuguesa, fugira para o Brasil.

 Durante a invasão, ninguém em Portugal fez menção em se opor ao Duque d’Abrantes, ou seja, ao General Junot.

 A tranquilidade com que ele [Junot, o Duque] se mantinha no poder provocou o dito irônico. 

A quem perguntasse como iam as coisas, a resposta era sempre a mesma:

 Está tudo como dantes no quartel d’Abrantes”.

Frase usual para indicar que nada mudou.

 Disponível em:< https://www.dm.com.br/opiniao/2017/05/esta-tudo-como-dantes-no-quartel-de-abrantes/>. Acesso: 31/05/2022 (com adaptações). 

A etapa Cruzília (MG) a Carrancas (MG) é dividida em duas partes distintas: na primeira, de Cruzília (MG) à Fazenda Traituba [31 quilômetros], a altimetria é predominantemente em descenso, embora o piso da estrada, apesar de compactado, esteja repleto de costelas bovinas.

Na segunda parte [30,31 quilômetros], as costelas e a compactação solo permanecem, todavia, a altimetria judiou, principalmente nos oito quilômetros finais. Estrada Real é isso: ou não se vai ou, quando se vai, se sabe ao que se vai.

A saída de Cruzília (MG) é feita pela BR – 383, asfaltada e com bom acostamento. Vencidos quatro quilômetros, divisei, à esquerda, um Marco da Estrada Real sinalizando (ou orientando) o caminho, em leito natural, até Traituba (1ª parte). Eram 9h40.

De acordo com a sinalização vertical (os Marcos, e não Totens), iniciei a jornada daquele 6º dia de pedal pelo Caminho Velho da Estrada Real, rumo a Ouro Preto (MG), a Antiga Vila Rica.

O dia estava radiante, com céu claro, poucas nuvens e Sol enchendo o caminho de luz e calor, depois de uma noite bastante gelada.

Meu termômetro portátil assinalava, naquele começo do primeiro trecho, tímidos 16°C.

Estrada Real entre Cruzília (MG) e Fazenda Traituba.
Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre Cruzília (MG) e Fazenda Traituba.
Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre Cruzília (MG) e Fazenda Traituba.
Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre Cruzília (MG) e Fazenda Traituba. Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre Cruzília (MG) e Fazenda Traituba. Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre Cruzília (MG) e Fazenda Traituba. Foto: Fernando Mendes.

A partir de Cruzília (MG) ocorreu a transição da Serra da Mantiqueira para a Serra do Espinhaço e da Mata Atlântica para o Cerrado. 

Intervalando essas duas paisagens vegetais, atravessei floresta de araucárias, eucaliptais, plantações de soja e pastagens, que parecem medidas à régua, a tocar o horizonte, de tão extensas. Tudo à minha volta era um verde quieto.

O Espinhaço, lento e exaustivamente trabalhado pela ação implacável do Pai Tempo,  pouco a pouco foi mostrando seus contornos mais rugosos e um brilho polido de pedra preciosa, mesmo que a grande distância.

 Distância não especificada, não tem crase.

(Nota do Autor).

O céu estendia o seu azul do começo ao fim. Pedalava sob um Sol rutilante. Que espetáculo!

Uma variedade de atividades econômicas ao longo do caminho, justificadas pelo cascudo movimento de caminhões carregados com toras de eucaliptos, deixava uma cortina de poeira, impossibilitando, por alguns segundos, enxergar coisa alguma à frente.  Cof, cof, cof.

Lembrei da canção "Sorte Grande", de Lourenço Olegário dos Santos Filho e popularizada na voz de Ivete Sangalo.

"Poeira,

Poeira,

Poeira,

Levantou poeira".

E, fazendo concorrência às carretas carregadas de toras de eucalipto, caminhões transportando cavalos e éguas da raça Manga Larga Marchador, levados aos inúmeros haras que se espalham pelo caminho, também contribuíam, e muito, para levantar ainda mais poeira.

Às 12h49, ou seja, 3 horas e 9 minutos após a saída de Cruzília (MG), cheguei à Fazenda Traituba 6. Infelizmente está fechada.

Outrora, a herdade funcionava como pousada e restaurante. Hoje, nem uma coisa, nem outra. Foi posta à venda.

Desde o começo do século XIX, estas terras eram de propriedade do Sr. João Pedro Diniz Junqueira, amigo da Corte, que sempre recebia a visita de S.M. I o Imperador D. Pedro I, primeiro Imperador do Brasil de 1822 até sua abdicação em 1831. 

O Imperador dava escapadas do Rio de Janeiro e ia caçar veados na região. Hospedava-se como plebeu em uma velha casa onde hoje é o galpão do paiol da Fazenda Traituba.

 Sua Majestade gostava tanto do lugar que o Sr. João Pedro Diniz, bisavô do marido de Dona Alice (ex- proprietária), resolveu construir uma belíssima casa para recepcionar o Imperador e o restante da Corte com a dignidade merecida. 

 A construção demorou 10 anos e foi concluída em 1831, ano no qual D. Pedro I abdicou do trono em favor de seu filho mais novo - Pedro II - e partiu para a Europa.  

D. Pedro I faleceu em Lisboa, em 1834.

Fonte: Antônio Olinto/Rafaela Asprino em Guia de Cicloturismo - Estrada Real - Caminho Velho, 2ª edição; São Paulo, 2012; Editora Gráficos Unidos, p. 64(com adaptações).

 

Fazenda Traituba. Foto: Fernando Mendes.

Fazenda Traituba. Foto: Fernando Mendes.

Fazenda Traituba. Foto: Fernando Mendes.
Fazenda Traituba, um dos berços dos Cavalos Manga Larga Marchadores.

Sentindo-me órfão naquele lugar tão deserto e precisando almoçar, qual não foi meu alívio ao avistar um semelhante a mim - terráqueo, bípede e onívoro -, que caminhava na direção contrária à minha (nesse caso, o uso da crase é optativa). 

"Uai, o Recanto da Chiquinha – um tantin de nada, daqi lá, sô. Coisa de quatro quilôtros da Fazenda Traituba – tá aberto, sô! Acabei de almoçar lá, agorim mesmo." 

Foi a resposta, em minerês, que adorei ouvir. E para o Restaurante da Chuquinha eu me dirigi.

Foi a salvação da lavoura. Àquela hora, após 3 horas de pedal, meu estômago estava tão oco quanto um cântaro vazio.

Como se guiado pelo aroma do feijão e ingredientes, cheguei ao Restaurante da Chiquinha, o único ponto de apoio entre Cruzília (MG) e Carrancas (MG). 

Na última vez que percorri esse trecho (2015), não havia Chiquinha e muito menos qualquer amparo alimentar aos viajantes da Estrada Real. Alvíssaras!

O estabelecimento fica próximo - talvez uns 50 metros - da Estação Ferroviária Traituba que, de tão velha, parece ter mais anos que o Sol. 

A linha férrea está ativa e é operada pela Concessionária MRS Logística no transporte de minério de ferro.

Do ouro (séculos XVII e XVIII) ao minério de ferro dos séculos XX e XXI, ocorreram/ocorrem, em Minas Gerais, ciclos de espoliação mineral.

 

1/2 do caminho. Foto: Fernando Mendes.

Restaurante da Chiquinha: casa à esquerda da árvore. Foto: Fernando Mendes.

Estação Traituba, que parece ter mais anos que o Sol. Foto: Fernando Mendes.

O almoço estava o néctar dos deuses de tão saboroso e sortido. Arroz, feijão, frango caipira, salada e ovos mexidos. Que deleite!

Às 14h, devidamente alimentado, encontrava-me em condições de voltar à estrada e à lida no pedal. 

Entre Cruzília (MG) a Carrancas (MG) - ou vice-versa -, se bater cansaço, a Chiquinha tem quartos para ciclistas, cavaleiros, motoqueiros e caminhantes da Estrada Real. 

Fica a dica e o número do telefone: (35) 99968 - 7577.

 

Dilma, a gatinha da Chiquinha. Foto: Chiquinha a partir do meu celular.

O Restaurante e a Pousada ficam no Bairro Traituba, que se mostrou bastante expandido em relação à última vez [2015] que por lá passei com minha bike, a caminho de Paraty (RJ).

Avistei placas da Prefeitura de Carrancas (MG) anunciando obras de saneamento básico (Copasa) e conclusão da eletrificação rural (CEMIG). É a marcha do progresso.

Faltavam 25 quilômetros para alcançar Carrancas (MG). O ocaso daquele 11 de maio, o sexto dia de viagem, estava marcado, segundo meu GPS Garmin, para às 17h29.

Tendo [re] iniciado o pedal pós-almoço às 14h, contava com 3 horas e 29 minutos de luz natural para percorrer o restante daquela etapa. 

Mas as costelas bovinas, que flanqueiam o caminho, ficaram mais severas e, numa das paradas para fotos, vi um raio da roda traseira balangando (balançando, em minerês castiço), feito dente de leite de criança, prestes a cair.

Augúrio aziago, ou seja, mau sinal. Não podia apertar o ritmo das pedaladas sob o risco de perder outros raios. 

Órfão naquele fim de mundo, exclamei o bordão de Dick Vigarista, o vilão do desenho animado de Hanna–Barbera, a "Corrida Maluca": "raios, mil vezes raios"!

 

Disponível em: https://gartic.com.br/Vitin99901171/desenho-livre/dick-vigarista.
Acesso: 31/05/2022.

A direção geral passou a ser Norte. Via o Sol escorrendo pachorrentamente para o Oeste, à minha esquerda, enquanto pedalava com parcimônia - que significa "menos é melhor" -, para evitar mais estragos no enraiamento (ou radiação) da roda traseira. Era como se pedalasse sobre um caminho pavimentado por ovos.

A sinfonia do caminho é regida pelo piar de aves e, a grande distância, mugidos bovinos.

 

Estrada Real entre a Fazenda Traituba e Carrancas (MG). Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre a Fazenda Traituba e Carrancas (MG). Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre a Fazenda Traituba e Carrancas (MG). Foto: Fernando Mendes.

O movimento de caminhões cessou. O Espinhaço se agigantava à medida que avançava rumo ao Norte.  Parei diante de uma armadilha para ciclistas e motociclistas: mata-burro longitudinal. Sinistro!

 

Armadilha para ciclistas e motociclistas. Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre a Fazenda Traituba e Carrancas (MG). Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre a Fazenda Traituba e Carrancas (MG). Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre a Fazenda Traituba e Carrancas (MG). Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre a Fazenda Traituba e Carrancas (MG). Foto: Fernando Mendes.

A oito quilômetros da chegada a Carrancas (MG), silêncio das rodas diante da última (?) subida. 

Ela tem 6 quilômetros de extensão e serpenteia a borda de um morro, cuja altimetria vai de 1.150 a 1.200 metros. "Carrancas (MG) está atrás dessa elevação", afirmei para meu estômago que, àquela hora, rogava por víveres.

Uma caminhonete passou por mim, enquanto, da borda do caminho, eu admirava a ascensão a vencer. Ali permaneci imóvel, em um "estacionário" perfeito, por mais de um minuto. 

Fiquei a acompanhar o zigue - zague do veículo por entre pastos e a desviar de pedras soltas. 

De repente, sumiu do meu campo visual, mas escutava perfeitamente o aumento das rotações do motor, à medida que o aclive se acentuava.

E logo reapareceu, lá em cima, num trecho mais alto em relação ao momento no qual sumiu dos meus pavilhões oculares. Permaneci, por alguns segundos, ensimesmado. Respirei e fui.

Eram 17h42 e o Sol havia baixado no horizonte ocidental há 13 minutos, mas ainda pulsava uma réstia de luz no poente.

 

Estrada Real entre a Fazenda Traituba e Carrancas (MG). Fotos: Fernando Mendes.

Sem interrupções e pedalando com cuidado, venci os seis últimos quilômetros de ascensão. Últimos?

Deparei-me com outra subida, pequena, é verdade, todavia bem inclinada. "Caracoles"! 

Lentamente percebi um declive, que logo se transformou num obstinado descenso, enquanto as primeiras luzes de Carrancas (MG) foram aparecendo nos postes que margeiam a rua de um bairro periférico. 

O asfalto substituiu o leito natural, dando uma trégua para a roda traseira e igualmente para os meus pulmões. 

Foi a única etapa da viagem - Cruzília - MG a Carrancas - MG - na qual pedalei 100% em leito natural ou estrada de terra.

Às 18h15 cheguei à Pousada Roda Viva, em minha opinião, a melhor da localidade. Passaporte Estrada Real carimbado, check-in feito e bike guardada na garagem.

Depois de merecido e necessário banho - sensação de ter trocado de pele - fui ao Adobe Restaurante, o meu favorito em Carrancas (MG). 

Infelizmente o prato de minha predileção naquele estabelecimento - filé de trutas - não estava sendo preparado devido à falta do ingrediente principal, ou seja, as trutas.

Jantei filé de tilápias, acompanhado de farta salada, arroz, feijão e farofa de ovos. A cerveja gelada brindou deliciosa refeição. Depois de etapa tão encardida, sentia-me merecedor de refinado banquete.

Terminada a ceia, sessão de fotos da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição 7que guarda uma história bastante curiosa quanto à configuração de suas torres.

7 - Cada torre tem um molde diferente

Dizem que um raio atingiu uma das torres e os obreiros da época não conseguiram edificar outra com o mesmo formato. 

Fonte: Antônio Olinto/Rafaela Asprino em Guia de Cicloturismo - Estrada Real - Caminho Velho, 3ª edição; São Paulo, 2021; Editora Gráficos Unidos, p. 83.

 

Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. Foto: Fernando Mendes.

Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. Foto: Fernando Mendes.

Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. Foto: Fernando Mendes.

Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. Foto: Fernando Mendes.

Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. Foto: Fernando Mendes.

Na volta à Pousada Roda Viva fui à garagem da hospedaria e constatei dois raios quebrados. 

Quando levantei a bike pela garupa e fiz girar a roda traseira, percebi a extensão do estrago. Não poderia continuar a viagem com o aro deveras empenado e a roda banguela de alguns raios.

O proprietário da Pousada Roda Viva me entregou o contato (WhatsApp) do Rek, possessor (dono) e mecânico da Bicicletaria Estrada Real.

Fui dormir sabendo que a retomada da viagem estava condicionada ao horário no qual o conserto da bike se efetivasse. Era questão de saber esperar, como quase tudo na vida. A ver, portanto.

Pela TV do quarto, assisti ao jogo Fluminense 2 X 0 Vila Nova, pela Copa do Brasil. 

No jogo de ida, no Maracanã, vitória do tricolor por 3 x 2. O placar agregado ficou elástico: 5 x 2.

Encerrada a peleja, caí em profundo, reparador e benéfico sono.

CRUZÍLIA (MG) A CARRANCAS (MG)

Distância percorrida

61,31 km

Calorias (kcal)

1.730

Total subida

907 m

Total descida

888 m

Ritmo cardíaco médio (RMC)

99 b.p.m

Velocidade Média

9,5 km/h

Dados obtidos Garmin Forerunner 310XT



Ouro Preto (MG) a 269,93 quilômetros.

7º DIA

12/05/2022

CARRANCAS (MG) A CAQUENDE (MG)

29,41 km

 

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

 

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

O trecho daquela 5ªf - 12/05/2022 - estava em aberto, à semelhança da corrida presidencial daquele 2022.

Enquanto não soubesse o horário da partida, pois dependia da entrega da bike, deixei que o destino se encarregasse de ajeitar tudo, e saí rumo à oficina.

Às 8 horas a Bicicletaria Estrada Real abriu as portas. O proprietário (Rek) examinou os estragos, trocou 1/2 do enraiamento traseiro, regulou as marchas e lubrificou a corrente, àquela altura deveras empoeirada. 

Às 10h30 tudo resolvido. Ou melhor, quase tudo. Precisava estabelecer qual o trecho daquele 12 de maio, o horário para sair e onde seria o pernoite. 

Pelo adiantar da hora, não chegaria a São João del Rei (MG) sob a luz natural. A solução foi pedalar até o distrito de Caquende, a 28 quilômetros de Carrancas (MG), e pernoitar por lá.

O Rek sugeriu a Pousada "Rancho do Arrudão". Após troca de algumas mensagens pelo Instagran, bingo! Pernoite garantido.

O serviço ficou muito bem feito e a bike voltou a rodar macia. 

Em Carrancas (MG), Bicicletaria Estrada Real. Recomendo. Telefone: (35) 98808-8449.

 

Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. Foto: Fernando Mendes.

Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. Foto: Fernando Mendes.

Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. Foto: Fernando Mendes.

Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. Foto: Fernando Mendes.

Após um rolé fotográfico pelo downtown de Carrancas (MG), almocei no Restaurante Virada do Largo, na Praça da Matriz. 

Às 14h comecei a subir a Serra de Carrancas, cinco quilômetros de extensão e 250 metros de ascensão. 

Ao atingir o topo, uma visão privilegiada. Avistei, mesmo que a larga distância, algumas reentrâncias da Represa de Camargos 8, resultado do barramento do Rio Grande para construção do AHE (Aproveitamento Hidrelétrico) ou UHE (Usina Hidrelétrica) de Camargos, administrada pela CEMIG (Cia. Energética de Minas Gerais).

 8 - O reservatório tem volume de 792.000.000 m³ e área alagada de 50,46 km². 

Disponível em:<https://www.cemig.com.br/usina/uhe-camargos/
Acesso: 31/05/2022.

Passei a pedalar por um platô largo e extenso, à semelhança do veterano porta-aviões Minas Gerais. 

Quando o "porta-aviões" terminou e o caminho inclinou com força para baixo, desci cinco quilômetros em 350 metros, a mesma extensão que subi ao sair de Carrancas (MG).

 

Estrada real entre Carrancas (MG) e Caquende (MG).
Carrancas (MG) foi ficando pequena, lá embaixo. Foto: Fernando Mendes.

Estrada real entre Carrancas (MG) e Caquende (MG). Foto: Fernando Mendes.

Estrada real entre Carrancas (MG) e Caquende (MG). Foto: Fernando Mendes.

Os 18,41 quilômetros restantes foram percorridos entre plantações de eucaliptos, áreas de pasto e matas. Nenhum ponto de apoio, solo bem compactado e sem as famigeradas costelas bovinas. 

Pedalava à luz chamejante daquela tarde esplendorosa de outono nos Trópicos, na altura da latitude 21ºS. 

Serra de Carrancas. Foto: Fernando Mendes. 

Estrada Real entre Carrancas (MG) e Caquende (MG). Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre Carrancas (MG) e Caquende (MG).  Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre Carrancas (MG) e Caquende (MG). Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre Carrancas (MG) e Caquende (MG). Foto: Fernando Mendes.

 

Estrada Real entre Carrancas (MG) e Caquende (MG). Foto: Fernando Mendes.

Às 17h30 cheguei à Capela do Saco, distrito de Carrancas (MG), localizada às margens da Represa de Camargos.

Tão belo quanto o espelho d'água da represa é a formosa Capela de Nossa Senhora do Porto do Saco. 9.

 

Capela de Nossa Senhora do Porto do Saco. Foto obtida durante a viagem pela Estrada Real em Junho 2014.
Foto: Fernando Mendes.

9 Capela de Nossa Senhora do Porto do Saco, distrito de Carrancas, tem esse nome em razão de uma grande curva do Rio Grande que formava um "saco". 

A data de inauguração da Capela de Nossa Senhora da Conceição é 1712, a mando de Júlia Maria da Caridade, uma das Três Irmãs Ilhoas. 

Antônia da Graça, Júlia Maria da Caridade e Helena Maria de Jesus foram três irmãs açorianas que imigraram para o Brasil, em 1723, na companhia da mãe. 

Elas se fixaram na região de São João del-Rei, em Minas Gerais, e são consideradas matriarcas de grande parte das famílias tradicionais mineiras e paulistas.

Disponível em: https://www.jornaldaslajes.com.br/integra/faial-terra-das-tres-ilhoas-acorianas-de-importantes-sobrenomes-brasileiros/4229.

Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

A Balsa Carranquinha, que faz a travessia da represa, transportando pessoas, veículos, motos e bicicletas - eventualmente alguns cães -, está inoperante. E inoperante ficará por um bom tempo. 

ATUALIZAÇÃO

EM OUTUBRO DE 2024A BALSA CARRANQUINHA VOLTOU A OPERAR NA TRAVESSIA DA REPRESA DE CAMARGOS, EFETUANDO A TRANSPOSIÇÃO DE CICLISTAS E OUTROS, QUE ESTEJAM A PERCORRER A ESTRADA REAL.

O Walter, administrador da Pousada Rancho do Arrudão, providenciou um barqueiro para me levar da margem onde está Capela do Saco, distrito de Carrancas (MG), à margem oposta, onde está Caquende, distrito de São João del Rei (MG) até a margem oposta, ou seja, o lado de Caquende, distrito de São João del Rei (MG).

Ao parar diante do espelho d'água, um barqueiro estava à minha espera. 

Cheguei a Caquende exatamente no momento em que o Sol mudava a indumentária do céu, vestindo-o de laranja-amarelado e desaparecendo no Oeste.

O ocaso, naquele 12 de maio, ocorreu às 17h 29, segundo meu GPS Garmin.

 

Pôr do Sol na chegada a Caquende (MG). Foto: Fernando Mendes.

Pôr do Sol na chegada a Caquende (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Chegada a Caquende (MG). Foto: Fernando Mendes.

Chegada a Caquende (MG). Foto: Fernando Mendes.

A avaria na roda traseira da bike atrasou minha saída de Carrancas (MG) que, por sua vez, me fez pedalar até Caquende e ser brindado com entardecer digno de reverência e contemplação. 

O Destino dispõe de mecanismos particulares e nada é capaz de alterar o que está traçado ou escrito.

Concluída a travessia da albufeira (represa), o Walter, administrador da Pousada Rancho do Arrudão, recebeu-me na estalagem, providenciou o quarto e, em seguida, preparou delicioso jantar em empório de sua propriedade.

Terminada a refeição, saí a caminhar pela borda da represa. Era o 5º dia de Lua Crescente, a lua que simboliza as bandeiras de muitos países muçulmanos. 

Era uma noite azulada e de suave atmosfera.

A fraca iluminação pública de Caquende 10 permitiu divisar o firmamento negro, brilhante e com hieróglifos de estrelas, que cintilavam no escuro céu tropical e brigavam umas com as outras para brilhar mais do que a sua vizinha.

10 Acredita-se que a origem do topônimo Caquende é proveniente do termo “Cá-aquém-de”, ou seja, “cá aquém de lá”, pois o lado de cá (o do Caquende/São João del Rei) estava aquém do lado de lá (o da Capela do Saco/Carrancas). 

Disponível em:<http://www.patriamineira.com.br/imagens/img_noticias/155749230710

Caquende.pdf>. Acesso: 31/05/2022.

A palavra hieróglifos se originou a partir da junção de duas palavras gregas: hierós, que significa “sagrado” e glýphein, que quer dizer “escrita”.

Elas continuavam lá, as mesmas constelações de sempre, heroicamente espalhadas naquele céu de outono tropical.

Caquende, um lugar recôndito (desconhecido) e encantador. Não importa se é dia ou se é noite.

 

Caquende, distrito de São João del Rei (MG).

Pousada Rancho do Arrudão em Caquende, distrito de São João del Rei (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Pousada Rancho do Arrudão em Caquende, distrito de São João del Rei (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Pousada Rancho do Arrudão em Caquende, distrito de São João del Rei (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Pousada Rancho do Arrudão em Caquende, distrito de São João del Rei (MG).
Foto: Fernando Mendes.

CARRANCAS (MG) A CAQUENDE (MG)

Distância percorrida

29,41 km

Calorias (kcal)

769

Total subida

503 m

Total descida

655 m

Ritmo cardíaco médio (RMC)

99 b.p.m

Velocidade Média

9,5 km/h

Dados obtidos Garmin Forerunner 310XT

Ouro Preto (MG) a 240,52 quilômetros.

8º DIA

13/05/2022

CAQUENDE (MG) A SÃO JOÃO DEL REI (MG)

47,61 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

 

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

Desconhecidos como Marte ou a fase oculta da Lua, Caquende e Capela do Saco são dois sítios incógnitos, nos quais a vida decorre monótona e placidamente, os únicos pontos que ficaram emersos por ocasião da subida das águas formadoras da Represa de Camargos. 

Caquende é um povoado de ruas calmas, com casas construídas ao redor da Igreja de Nossa Senhora do Carmo.

 

Caquende, distrito de São João del Rei (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Caquende, distrito de São João del Rei (MG). Foto: Fernando Mendes.

Caquende, distrito de São João del Rei (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Cruz dos Martírios ou Penitência. (**) Foto: Fernando Mendes.
(**) - Cruz de Penitência ou Martírio - Simboliza o triunfo de Jesus Cristo sobre a morte e traz todos os objetos que mostram sua penitência e seu sofrimento.

Disponível em:<https://emfrol1.wixsite.com/ourobranco/histricos>.
Acesso: 31/05/2022.

Noite bem dormida é descanso garantido. 

Após café da manhã no empório do Walter, abraços de agradecimentos aos que me receberam e me proporcionaram estada maravilhosa, naquele bucólico sítio de topônimo Caquende.

Às 10h27 pedalava por uma inclinação moderada. Via pelo retrovisor da bike  Caquende, diminuto, lá embaixo, emoldurado pela Represa de Camargos.


Estrada Real entre Caquende (MG) e São João del Rei (MG).
Ao fundo, a Represa de Camargos. Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre Caquende (MG) e São João del Rei (MG).
Ao fundo, a Represa de Camargos. Foto: Fernando Mendes.

Às 11h55 passei sob colossal viaduto da Ferrovia Centro-Atlântica, a FCA (*) 

A Ferrovia Centro-Atlântica S/A (FCA) é a maior malha ferroviária federal do Brasil. 

É administrada pela empresa VLI (Valor da Logística Integrada), operando mais de 7.200 quilômetros de extensão e conecta sete estados (MG, SP, RJ, ES, BA, SE, GO) e o Distrito Federal, escoando minério, grãos e açúcar para os principais portos do País. 

As linhas da FCA são a principal via de integração entre as regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste do País.

 

Estrada Real entre Caquende (MG) e São João del Rei (MG). 
Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre Caquende (MG) e São João del Rei (MG).
Foto: Fernando Mendes.

A Estrada Real segue larga e predominantemente plana, com pequenos descensos e ascensos se intervalando. Os eucaliptos flanqueiam o caminho. 

Em rápida parada para fotos e hidratação, um forte vento começou a agitar o eucaliptal e a curvar os altos caules. O mau tempo estaria à frente?

Havia previsão de chuva para as próximas 48 horas em São João del Rei (MG) e região, incluindo Tiradentes (MG), Prados (MG), Lagoa Dourada (MG) e Casa Grande (MG), localidades presentes no trajeto. 

O vento, que agitou os eucaliptos, foi o presságio de virada no tempo? "A ver", pensei.

 

Estrada Real entre Caquende (MG) e São João del Rei (MG). 

Fotos: Fernando Mendes.

Estrada Real entre Caquende (MG) e São João del Rei (MG). 

Fotos: Fernando Mendes.

Os 23 quilômetros entre Caquende (MG) e São Sebastião da Vitória (MG), outro distrito de São João del Rei (MG), foram tranquilamente pedalados em 3 horas. Cheguei às 13h 27.

 

Igreja Matriz de São Sebastião da Vitória.
Fotos: Fernando Mendes.

Sempre que passo por esse distrito de São João del Rei (MG), a igreja de São Sebastião da Vitória 11 está fechada. Bati em retirada e rumei para o Restaurante João e Maria. Almoço maravilhoso.

 11 - A origem da devoção e do nome São Sebastião aconteceu a partir da construção da primeira capela, inaugurada em 4 de outubro de 1884, por meio do Padre José Bonifácio dos Santos.

 O local, segundo a tradição oral, devido às comemorações em torno da vitória na Guerra dos Emboabas (1709 - 1710) tinha [a igreja] o nome de "Vitória", sendo acrescentado o crédito de São Sebastião.

 O cônego João Batista da Trindade, então vigário de Conceição da Barra de Minas, foi designado para dar assistência à paróquia recém-criada. 

Disponível em:< http://www.oswaldobuzzo.com.br/Home/estrada-real-cam-velho/1o-dia-sao-joao-del-rei-a-sao-sebastiao-da-vitoria-26-quilometros>.

Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

Ao término da refeição, quando saía do estabelecimento, encontrei três ciclistas de Belo Horizonte (MG). Chegavam para almoçar. Percorriam a Estrada Real na direção oposta à minha, e não ao contrário.

Um deles observou, enquanto eu retirava os cadeados das rodas da bike para seguir viagem: "você está indo ao contrário!" Fiz de conta que não ouvi ou não entendi. Melhor assim.

Os ciclistas belo-horizontinos não sabiam da paralisação da balsa na travessia da Represa de Camargos. Orientei-os a falar com o Walter, o dono do único empório em Caquende, e a travessia estava garantida. 

Pontualmente às 14h, após me despedir do trio, rumei na proa de São João del Rei (MG).

No entanto, o trecho da Estrada Real entre São Sebastião da Vitória e Rio das Mortes - outro distrito de São João del Rei (MG) - nunca foi de fácil transposição.

A trilha, muito mal cuidada, atravessa pastos, banhados e diversas voçorocas. Em três passagens pela região (2011, 2014 e 2015), nunca consegui percorrer esse trecho da Estrada Real. Começava e, não tardava, dava meia-volta.

A única opção foi seguir pela BR - 265, bastante movimentada e com um arremedo de acostamento.

Pedalados 12 quilômetros entrei em Rio das Mortes, distrito de São João del Rei (MG) e local no qual Nhá Chica - a beata de Baependi (MG) - nasceu e foi batizada.

Eram 14h44.

 

Estrada Real entre Caquende (MG) e São João del Rei (MG). 

Fotos: Fernando Mendes.

Igreja de Santo Antônio do Rio das Mortes

Foto: Fernando Mendes.

Igreja de Santo Antônio do Rio das Mortes

Foto: Fernando Mendes.

Igreja de Santo Antônio do Rio das Mortes

Foto: Fernando Mendes. 

A Igreja de Santo Antônio do Rio das Mortes é o único templo no Brasil onde existe uma imagem, que relata um dos milagres de Santo Antônio e ao lado do Demônio 12.

 

Imagem do Demônio, que relata um dos milagres de Santo Antônio. Foto: Fernando Mendes.

12 - Segundo a tradição oral, uma pessoa muito religiosa e piedosa, por não conseguir o que queria, caiu num grande erro ao fazer um pacto com o diabo, para que seu pedido fosse atendido.  

Quando o homem morreu, o diabo foi cobrar a parte dele no pacto, ou seja, levar sua alma para o inferno. 

 Santo Antônio se apiedou da alma do pobre homem, sabendo de seu bom coração, mesmo com seu deslize, impediu que o diabo o mantivesse no inferno, retirando-o de lá, levando-o para o purgatório, para alcançar o perdão divino. 

 Essa história está ilustrada no quadro. 

Disponível em:<https://www.conhecaminas.com/2019/03/rio-das-mortes-terra-onde-nasceu-nha.html>. Acesso: 31/05/2022. 

O templo abriga a Pia Batismal onde foi batizada Francisca Paula de Jesus, a Nhá Chica. 

Em 04/05/2013, Nhá Chica foi beatificada (e não canonizada), ou seja, se tornou a primeira leiga e negra brasileira a ser declarada beata pela Igreja Católica.

O distrito de Rio das Mortes foi fundado em 1693, quando os primeiros veios de ouro (afloramento de rochas e geralmente contêm muito frequentemente minerais de minério de ouro) começaram a ser explorados no Rio das Velhas, em Sabará (MG), em Vila Rica (atual Ouro Preto - MG) e Ribeirão do Carmo (atual Mariana - MG). 

Entre essas regiões produtoras de ouro, São João Del Rei (MG), localizada na mesorregião do Campo das Vertentes, era o ponto central da exploração aurífera.

Os 10 quilômetros finais entre Rio das Mortes e São João del Rei (MG), a Cidade do Sinos, foram percorridos rapidamente. 

Às 16h06 estava defronte à Igreja de São Francisco de Assis, a fotografá-la. 

Construção: 1774 a 1809.

 

Igreja de São Francisco de AssisFoto: Fernando Mendes.

Igreja de São Francisco de AssisFoto: Fernando Mendes.

Igreja de São Francisco de Assis. Foto: Fernando Mendes.

Hospedei-me no Hotel Ponte Real, defronte à Ponte da Cadeia. 13. 

 13 - Sólida construção, em estilo romano, datada de 1798. 

Suas grossas paredes são formadas por grandes blocos de pedra cortada, rejuntadas com argamassa à base de óleo de baleia.

Disponível em:<https://idasbrasil.com.br/Ponte+da+Cadeia/Sao+Joao+Del+Rei/minas-gerais/atracao-turistica/649/g>. Acesso: 31/05/2022.

 

São João del Rei (MG). Ponte da Cadeia. Foto: Fernando Mendes.

São João del Rei (MG). Ponte da Cadeia. Foto: Fernando Mendes.

Após check-in no Ponte Real, saí em périplo fotográficos. Eram 16h 20.

O ocaso naquela sexta-feira (13) aconteceu às 17h 27. 

Tive 1 hora e sete minutos de luz natural para fotografar igrejas e casarios de São João del Rei (MG), cujo topônimo foi em homenagem ao Rei D. João V, o Magnânimo, que governou Portugal, Brasil e Algarves de 1706 a 1750. 

Sua esposa, Maria Ana Josefa de Áustria, originou o nome da cidade de Mariana (MG), a antiga Ribeirão do Carmo.

 

Igreja Nossa Senhora do Carmo. Foto: Fernando Mendes.

Igreja Nossa Senhora do Rosário. Foto: Fernando Mendes.

Igreja Nossa Senhora do Pilar. Foto: Fernando Mendes. 

Igreja Nossa Senhora do Pilar. Foto: Fernando Mendes.


Prefeitura de São João del Rei (MG): Fernando Mendes.

São João del Rei (MG): Fernando Mendes.

Findo o périplo fotográfico pela Cidade dos Sinos, voltei ao Ponte Real, banhei e saí para pizza e cervejas. O dia estava ganho.

CAQUENDE (MG) A SÃO JOÃO DEL REI (MG)

Distância percorrida

47,61 km

Calorias (kcal)

769

Total subida

793 m

Total descida

814 m

Ritmo cardíaco médio (RMC)

98 bpm

Velocidade Média

11,2 km/h

Dados obtidos Garmin Forerunner 310XT


Ouro Preto (MG) a 192,91 quilômetros.

9º DIA

14/05/2022

SÃO JOÃO DEL REI (MG) A PRADOS (MG)

33,22 km

  

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

 

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

Sábado é dia de passeio de Maria Fumaça, que serpenteia a Serra do São José, por 12 quilômetros, entre São João del Rei (MG) e Tiradentes (MG).

Nos arredores da Estação Ferroviária havia um frenesi de turistas, automóveis e ônibus de excursão.

Foi preciso descer da bike e empurrá-la em meio àquele maremágnum (locução latina que designa grande abundância, confusão, aglomeração) que se intensificou quando a Locomotiva Baldwin 4-4-0, fabricada nos EUA em 1908, apitou alto e forte, varando o ar e anunciado a partida.

Eram 9h55. Faltavam cinco minutos para o comboio zarpar.

Os retardatários, apressados, corriam para a plataforma de embarque, enquanto eu retomava as pedaladas, alguns metros à frente da Estação, rumando para a Ophicina Bike Shop, local de carimbo no Passaporte Estrada Real.

O céu foi estendendo seus azuis do começo ao fim. Outro dia esplêndido para pedalar. E se for pela Estrada Real, mais esplendoroso ficará.

O tempo, contrariando as previsões do dia anterior, não dava sinais de chuva. O céu, azul, recebeu-me sereno.

Após me livrar do trânsito confuso de São João del Rei (MG), cheguei a Santa Cruz de Minas (MG), município vizinho e conurbado à Cidade dos Sinos.

Emancipado em 1995, após ser desmembrado de São João del Rei (MG), Santa Cruz de Minas (MG) abriga o único Marco Zero da Estrada Real, homenagem à parceria feita com o Ministério do Turismo, para a sinalização do eixo Paraty (RJ) a Ouro Preto (MG).

Embora essas duas cidades (Paraty- RJ e Ouro Preto - MG) estejam nas extremidades do Caminho Velho, o Marco Zero não significa o início ou fim do trajeto.

Entre os 5.570 municípios existentes no Brasil, Santa Cruz de Minas (MG) é o menor em área territorial, abrangendo 3,565 km2o equivalente a 500 campos de futebol e abriga 8.109 habitantes, de acordo com Censo IBGE de 2022.

 

Estrada Real trecho São João del Rei (MG) a Prados (MG).
Marco Zero da Estrada Real. Fotos: Fernando Mendes.

Estrada Real trecho São João del Rei (MG) a Prados (MG).
Marco Zero da Estrada Real. Fotos: Fernando Mendes.

Passado o Marco Zero, uns dois quilômetros à frente, saí da rua principal e muito movimentada, ingressando numa senda em leito natural, que me levou a um promontório (parte alta), de onde avistei Tiradentes (MG), flanqueada pela bela Serra de São José, datada da era Proterozoica (entre 2,5 bilhões e 541 milhões de anos) e, em virtude desse elástico tempo, à mercê das intempéries.

Ela apresenta-se muito desgastada pela ação da erosão, com contornos suaves, bem diferente das formações geológicas de idades recentes (70 milhões de anos – relevo adolescente), que têm a configuração marcada por elevadas altitudes e picos proeminentes, a exemplo dos Andes e do Himalaia.

Serra do São José. Foto: Fernando Mendes.

A cidade estava um caos organizado. Havia encontro de motoqueiros, que pareciam ter vindos dos quatro pontos cardeais e a bizarra "Corrida do Chope" organizada da seguinte forma: em cada ponto de parada, o "atleta" ia "matando" o conteúdo em tulipas e quem conseguisse chegar com alguma sobriedade, ganhava.

Na Pousada do Largo, localizada no Largo das Forras - aquela praça rodeada por charretes coloridas -, obtive carimbo no Passaporte Estrada Real e, em seguida, divino expresso no Rocambole & Cia. 

Tive uma simpática companhia, enquanto degustava uma chávena de café expresso.

Essa dócil cachorrinha tem dono, mas prefere passar os dias no Rocambole & Cia. É alimentada e muito bem tratada pelos funcionários e clientes.

 

Fotos: Fernando Mendes.

 

Largo das Forras em Tiradentes (MG). Foto: Fernando Mendes.

O Largo das Forras e é uma referência histórica do período colonial, quando a praça funcionava como o local no qual os escravizados recebiam suas cartas de alforria (forras).

(Nota do Autor).

 

Largo das Forras em Tiradentes (MG). Foto: Fernando Mendes. 

Deixei a muvuca que estava Tiradentes (MG) - muvuca essa que ficou mais intensa quando o comboio (trem) vindo de São João del Rei (MG) chegou - e rapidamente tomei a direção do distrito de Vitoriano Veloso 14, popularizado pela alcunha de "Bichinho". 

14 - Povoado se formou com a descoberta de ricas lavras de ouro no princípio do século XVIII.  

O nome atual é uma homenagem ao inconfidente Vitoriano Gonçalves Veloso, negro e escravo alforriado. Nasceu e viveu em Arraial de Gritador (nome derivado de Greta D'Ouro). 

Ele era vizinho e compadre de D. Hipólita, a única mulher a participar ativamente do movimento revolucionário conhecido por Inconfidência Mineira (1788 - 1789). 

Hoje, o povoado é uma sequência de casas antigas que servem tanto como residências quanto oficinas, ateliês e lojas de artesanato.

Pelo que se sabe, Vitoriano Gonçalves Veloso (1738 – 1803) era um homem humilde, tendo o ofício de alfaiate por profissão.  

Sabe-se também que ele ficou conhecido como o “mensageiro dos conjurados”, pois era um dos que gozavam da confiança de muitos dos envolvidos com a trama de 1789, especialmente escolhido para transportar notícias importantes ou sigilosas.

Registros dão conta de que ele foi o portador da mensagem que denunciava Joaquim Silvério dos Reis como sendo o delator do movimento conjuratório.

Disponível em:< http://www.oswaldobuzzo.com.br/Home/2010---estrada-real---ii---caminho-do-ouro-1/9o-dia-prados-a-tiradentes-18-quilometros>. Acesso: 31/05/2022.

Desmantelado o movimento denominado Inconfidência Mineira, à exceção de Tiradentes (1746 – 1792), que foi condenado à morte por enforcamento, Vitoriano Gonçalves Veloso, o alfaiate mulato da Inconfidência, foi sentenciado ao degredo na África (Moçambique). Morreu por lá em 1803.

Disponível em:<https://jornalggn.com.br/historia/o-alfaiate-mulato-da-inconfidencia-mineira/>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

Poucas pessoas que visitam [o Bichinho] têm conhecimento da importância de Vitoriano Veloso - escravo alforriado - no movimento sedicioso (insurgente ou revoltoso) denominado Inconfidência Mineira (1788 - 1789). 

Não há no distrito um museu que faça alusão a esse humilde alfaiate, um dos pilares do movimento, que emancipação da rica Capitania de Minas Gerais e, assim, livrá-la da insaciável fome da Coroa Portuguesa pelo ouro da Colônia Brasil.

 Em tempo: a Inconfidência Mineira objetivou separar a CAPITANIA DE MINAS GERAIS de PORTUGAL e não a INDEPENDÊNCIA do BRASIL de PORTUGAL, como muitos pensam e - erroneamente - acreditam. 

(Nota do Autor).  

Como bem escreveu Chico Buarque no samba Vai Passar: "passagem desbotada na memória das nossas novas gerações".

Atualmente, a maior atração no Bichinho é a Casa Torta, duas casas inclinadas nas quais a parte interna oferece, segundo o sítio www.casatorta.com: "um espaço de recordações lúdico, interativo que propõe um diálogo sensível e uma quebra de tabu: fazer adultos brincarem novamente como nos tempos de infância".

Havia um aglomerado de pessoas à frente da Casa Torta para fotografá-la. O trânsito engarrafa diante das duas habitações inclinadas.

Pareceu-me que o "monumento" é tão fotografado quanto o Castelo da Cinderela na Disney World que, diferentemente do que muitos pensam, não fica em Orlando, na Flórida (FL). Está localizada [a Disney] em Lake Buena Vista, cidade vizinha a Orlando (FL), ambas no Condado de Orange.

 

Casa Torta em Bichinho (MG). Fotos: Fernando Mendes.

Às 14h25 cheguei ao downtown do Bichinho, distrito de Prados (MG). 

Os restaurantes estavam lotados e com filas [hectométricas] de espera. O Tempero da Ângela, como de hábito, era o mais concorrido. 

A densidade demográfica no distrito de Bichinho assemelhava-se, naquele sábado, à de Bangladesh, um dos países mais povoados da Ásia, com 1.147 hab./km2

Em 2025, 1.350 hab./km2.

Macau, região autônoma na costa sul da China, tem a maior densidade demográfica da Ásia: 21.789  hab./km2. Em 2025, 23.167  hab./km2.


Disponível em:<https://www.indexmundi.com/map/?v=21000&r=as&l=pt>.
Acesso: 31/05/2022 e 31/05/2025.

Felizmente, no interior da Galeria Bichinho, um restaurante com mesa disponível e comida deliciosa.

Galeria Bichinho. Foto: Fernando Mendes.

Terminado o almoço fui à Igreja Nossa Senhora da Penha de França, datada de 1771. 

Infelizmente estava fechada. Em quatro edições pela Estrada Real (2011, 2014, 2015 e 2017) encontrei esse templo fechado.

Segundo pesquisas, a pequena igreja, de aparência simples, guarda raros exemplares de pinturas em estilo rococó. É patrimônio histórico tombado pelo IPHAN. É uma das mais belas de Minas Gerais. 

Igreja Nossa Senhora da Penha de França (1771).
Foto: Fernando Mendes.

Cruz dos Martírios ou Penitência. Foto: Fernando Mendes.

Igreja Nossa Senhora da Penha de França (1771).
Foto: Fernando Mendes.

Igreja Nossa Senhora da Penha de França (1771).
Foto: Fernando Mendes.

Igreja Nossa Senhora da Penha de França (1771).
Foto: Fernando Mendes.

Deixei o distrito de Vitoriano Veloso (Bichinho) às 15h e rumei na direção de Prados (MG), 12 quilômetros à frente. 

O ocaso (pôr do Sol), naquele sábado, 14 de maio, aconteceu às 17h26, segundo meu GPS Garmin.

Cheguei a Prados (MG) às 16h33, a tempo de fotografar o centro histórico, tão belo quanto Tiradentes (MG) e São João del Rei (MG).

 

Prados (MG). Foto: Fernando Mendes.

 

Prados (MG). Foto: Fernando Mendes.

Prados (MG). Foto: Fernando Mendes.

 

Prados (MG). Foto: Fernando Mendes.

  

Prados (MG). Foto: Fernando Mendes.

 

Prados (MG). Foto: Fernando Mendes.

  

Prados (MG). Foto: Fernando Mendes.

Igreja Nossa Senhora da Conceição. Prados (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Em Prados (MG), hospedei-me no Apart Hotel Água Limpa, o melhor num raio de 200 quilômetros. Recomendo.

Enquanto dormia, o tempo virou e, lá fora, tudo ficou branco.

SÃO JOÃO DEL REI (MG) A PRADOS (MG)

Distância percorrida

33,22 km

Calorias (kcal)

874

Total subida

464 m

Total descida

402 m

Ritmo cardíaco médio (RMC)

86 b.p.m

Velocidade Média

11,2 km/h

Dados obtidos Garmin Forerunner 310XT


Ouro Preto (MG) a 159,69 quilômetros.

10º DIA

15/05/2022

PRADOS (MG) A CASA GRANDE (MG)

55,62 km


Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

 

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

Ao sair para esplêndido café da manhã no Água Limpa - o melhor em todas as estadas -, uma surpresa nada agradável: tempo fechado, neblina densa e previsão de chuva a qualquer momento. 

As nuvens cinzas e muito baixas, caíram materialmente sobre Prados (MG) e não pressagiavam nada de bom: frentes de chuvas fortes e não muito distantes, vieram acompanhadas de vento, que soprava de forma pertinaz.

Sentindo os primeiros pingos esparsos a fazer "plec"-"plec"-"plec" sobre a superfície do casaco impermeável, iniciei a dura jornada daquele domingo. 

Ruas vazias e muito frio. O termômetro do GPS acusava 14°C, mas a sensação térmica devia ser menor, decerto. Eram 8h30.

Subi (e que subida!) a Avenida Tiradentes que, a partir do Parque de Exposições, muda o nome para Rua Vereador José Pedro de Moura e antes de ingressar na Estrada Real, um singelo desvio para chegar à Pousada Vivenda Letícia e carimbar o Passaporte. Desvio de uns três quilômetros. A chuva passou de forte à moderada.

Retornei pelo singelo desvio até alcançar a Rua Caeté, onde um Marco da Estrada Real orienta virar à esquerda.

Início do Caminho em leito natural até Lagoa Dourada (MG), a terra do rocambole, 27 quilômetros adiante. A chuva moderada intensificou-se e o vento, vindo do Leste, não dava trégua.

O piso começou a apresentar trechos com excesso de lama. 

Passei pelo Restaurante Grotão, famoso num raio de 300 quilômetros. 

A fama chegou à Grande Belo Horizonte (MG), composta por 34 municípios no Núcleo Central e 16 no Colar Metropolitano.

 

Estrada Real entre Prados (MG) e Casa Grande (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

Estrada Real entre Prados (MG) e Casa Grande (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

Estrada Real entre Prados (MG) e Casa Grande (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Do Grotão à Igreja Nossa Senhora das Graças, o Caminho faz um enorme V em seu leito.

Uma forte descida - com a bike patinando no piso escorregadio - e acentuada subida, que comprometeu a tração em alguns pontos. Ufa, cheguei à Igreja. Pausa para fotos.

 

Igreja Nossa Senhora das Graças. Fotos: Fernando Mendes.
Foto: Fernando Mendes.

Após a igreja, forte descida, flanqueada por milharais até chegar à ponte sobre o Rio Carandaí, cuja nascente localiza-se em Ressaquinha (MG), na Serra da Mantiqueira, à cota de 1.200 metros.

O curso de águas espumosas e velozes, percorre 645 quilômetros até desaguar ao Rio das Mortes, em São João del Rei (MG), de quem é afluente. 

A chuva voltou e caía em cascata solta.

 

Estrada Real entre Prados (MG) e Casa Grande (MG).
Fotos: Fernando Mendes.

Estrada Real entre Prados (MG) e Casa Grande (MG).
Fotos: Fernando Mendes.

Às 12h23 parei em uma bifurcação bastante conhecida; conhecida de "outros carnavais".

 Explico: 

 Em julho de 2015, em companhia de minha prima Reane, ocasião na qual percorremos a Estrada Real de Ouro Preto (MG) a Paraty (RJ) - na direção oposta (e não "ao contrário") -, ao pedalar entre Lagoa Dourada (MG) e Prados (MG), pouco depois de atravessar um eucaliptal, a estrada estreitou e inclinou fortemente para baixo.

Foi impossível pedalar porque os buracos e valas eram enormes.

 Após, atravessamos um córrego e veio uma subida tão difícil quanto a descida.

 Empurramos as bikes por uns 200 metros em ascensão e com as sapatilhas enterradas na lama, que chegou até as canelas.

 Quando o terreno aplainou, grossas camadas de barro travaram as rodas. 

Foi preciso borrifar a água das caramanholas para "derreter" a lama e prosseguir viagem.  

Enquanto nos virávamos como podíamos naquela operação, passou um nativo e falou que nós poderíamos ter evitado esse trecho tenebroso. 

Bastava, antes do eucaliptal, ter seguido à esquerda, evitando, assim, atravessar a "floresta", pedalar paralelamente à cerca que faz o limite da plantação e sair "lá na frente", contornando o "pobrema" (sic), conforme ele [o nativo] falou. 

Tudo isso foi em julho de 2015, em companhia de minha prima Reane. Seguem fotos. 

 

Foto: Reane. Julho 2015. 

 

Foto: Reane. Julho 2015. 

 

Foto: Reane. Julho 2015. 

 

Foto: Reane. Julho 2015. 

 

Foto: Fernando Mendes. Julho 2015.

De volta ao mês de Maio do Ano da Graça de 2022. 

Ao chegar a tal bifurcação e não pretendendo encarar o "calvário" de 2015, avistei o eucaliptal, contornei-o e segui pelo caminho que me deixou na Rodovia BR - 383, a exatos cinco quilômetros de Lagoa Dourada (MG). 

Apesar da falta de acostamento e da chuva pertinaz, foi a melhor opção.

Às 13h14 pedalava pelo perímetro urbano de Lagoa Dourada (MG), a terra do rocambole. (*)

Fiz uma rápida parada no "Legítimo Rocambole" para obter carimbo no Passaporte Estrada Real. A inclemência da chuva deu uma trégua.


(*) Contam que o libanês Miguel Youssef contraiu núpcias com a lagoense Dolores e começaram a vender guloseimas em um bar da cidade, inclusive o rocambole.

Mais tarde, com o falecimento de Miguel, o filho - Paulo - teve uma ideia para aquecer as vendas: colocar o doce em caixinhas para que os viajantes pudessem levar para casa.

Anos depois, Ricardo, filho de Paulo e neto de Miguel Youssef, assumiu os negócios e começou a colocar plaquinhas nas estradas, anunciando o doce, aguçando a curiosidade e o paladar dos viajantes.

Hoje, a avenida onde estão as lojas se chama Miguel Youssef do Líbano, em homenagem ao precursor da receita, que deixou a cidade famosa nacionalmente.

 Disponível em: http://www.mineirosnaestrada.com.br/lagoa-dourada-a-cidade-do-rocambole/. Acesso: 31/05/2022.

Após deixar o empório adocicado, 800 metros adiante - talvez menos -, parada na Taberna do Zius, anexo a um posto BR, para saborear delicioso almoço. Eram 13h45.

De volta à lida no pedal, deixei Lagoa Dourada (MG) rumo a Casa Grande (MG), 27 quilômetros à frente. A saída é feita pela Rodovia BR - 383. 

Em três quilômetros e pedalando sobre asfalto, alcancei o Sítio da Gameleira, abandonei a 383, conversão à direita diante de um Marco e ingressei em estrada de terra (ou leito natural), com solo bem compactado, embora bastante enlameado nas bordas.

Faltavam 24 quilômetros para Casa Grande (MG). O tempo chuvoso, passou a nublado.

 

Estrada Real entre Lagoa Dourada (MG) e Casa Grande (MG). Foto: Fernando Mendes.

 

Estrada Real entre Lagoa Dourada (MG) e Casa Grande (MG). Foto: Fernando Mendes.

Às 16h12, depois de pedalar 11 quilômetros, pit stop no Povoado Catauá, pertencente à jurisdição de Lagoa Dourada (MG). 

Lugar pacato no qual todos se conhecem e passam as tardes de domingo reunidos na praça, botecos e casas de lanche. 

Preferi parar no C & L Açaí. Mas o fruto bacáceo de cor roxa ficou para outra oportunidade. Estava em falta ou o hilário: "tem, mas acabou".

 

Igreja Povoado Catauá. Foto: Fernando Mendes.

Contentei-me com duas paçocas de rolha e uma Coca-Cola 290 ml, a famosa KS. King Size (?)

Dois quilômetros adiante passei pela Fazenda do Vau, famoso criatório de Jumentos Pêga 15, raça brasileira de origem nobre. É o resultado aperfeiçoado do cruzamento do jumento brasileiro com a jumenta egípcia.

 15 -"Esse nome (Pêga), é porque os animais são assinalados com uma marca de fogo, cujo desenho lembra as algemas de ferro colocadas nos tornozelos de escravos fugitivos”, anotou em seu diário o Andarilho Oswaldo Buzzo. 

Disponível em:<http://www.oswaldobuzzo.com.br/Home/2010---estrada-real---ii---caminho-do-ouro-1/7o-dia-casa-grande-a-lagoa-dourada-29-quilometros>.
Acesso: 31/05/2020.

Na entrada da Fazenda do Vau há uma enorme figueira. A sombra é tão acolhedora e refrescante que, “quando D. Pedro II passou por ali, não quis entrar na casa. Apeou do cavalo e tomou chá descansando à sombra da frondosa árvore”, anotou Antônio Olinto/Rafaela Asprino em Guia de Cicloturismo. Estrada Real. Caminho Velho. 2ª Edição; São Paulo, 2012; Editora Gráficos Unidos, p. 89.

Faltavam 11 quilômetros para Casa Grande (MG). O tempo continuava nublado e nuvens escuras na minha vertical prenunciavam mais chuva. Apertei as pedaladas para chegar antes que a bátega caísse. 

Eram 17h17. O ocaso naquele domingo - 15/05/2022 - aconteceu às 17h26, segundo meu GPS Garmin.

O Sol estava encoberto por nuvens escuras. A noite caiu junto com minha chegada a Casa Grande (MG), localidade pacata na qual tudo parece transcorrer como sempre: sem transcorrer. 

Uma garoa paulistana saudou o fim da jornada, quando assomei à Pousada Casa Grande, de propriedade da Sr.ª Madalena, anfitriã muito atenciosa e deveras gentil.

Em 2014, quando preferi pedalar pela Estrada Real à Copa do Mundo, fiquei hospedado naquela pousada. Estadas - ambas - maravilhosas.

Foi uma etapa puxada. Delicioso jantar e regado a cerveja gelada, garantiram relaxamento e sono profundo. 

Tão profundo que sequer escutei uma forte chuva que passou procedente do Campo das Vertentes em direção à Zona da Mata.

PRADOS (MG) A CASA GRANDE (MG)

Distância percorrida

55,62 km

Calorias (kcal)

1.651

Total subida

1.106 m

Total descida

1.192 m

Ritmo cardíaco médio (RMC)

97 b.p.m

Velocidade Média

9,3 km/h

Dados obtidos Garmin Forerunner 310XT

Ouro Preto (MG) a 104,07 quilômetros.

11º DIA

16/05/2022

CASA GRANDE (MG) A OURO BRANCO (MG)

56,31 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

 

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

Ao acordar, por volta das 8h, visualizei da sala na qual café da manhã foi servido, o seguinte cenário: o céu continuava denso e fechado, com as nuvens baixas a ocultar as formações elevadas da Serra do Espinhaço. 

O mau tempo, cinza e robusto, estava na vertical Casa Grande (MG) e adjacências. E a chuva não tardou a dar o ar da graça. O tempo estava desbotado. O vento ululava. 

Parti rumo a Queluzito (MG), às 9h15.

 

Estrada Real entre Casa Grande (MG) a Queluzito (MG).
Saída de Casa Grande (MG). Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real entre Casa Grande (MG) a Queluzito (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Um olhar mais atento - cheguei na noite anterior e não consegui perceber - ao sair pela rua principal de Casa Grande (MG), no rumo de Queluzito (MG), constatei que a configuração da área urbana foi projetada - acidentalmente ou não - segundo o padrão helênico-romano de cardo maximus e decumani, quer dizer, com uma via principal de Norte a Sul (cardo maximus) interceptada, em ângulo reto (90º), por outras ruas menores (decumani), orientada de Leste a Oeste.  

Inúmeros municípios brasileiros de porte pequeno têm esse padrão helênico - romano. 

(Nota do Autor).

Os primeiros 11,31 quilômetros, entre Casa Grande (MG) e Queluzito (MG), foram percorridos em asfalto muito desgastado e com crateras repletas pelas águas das chuvas da madrugada. Armadilhas.

Exatamente nesse trecho - Casa Grande (MG) a Queluzito (MG) - ocorreu a mudança ou transição do Caminho Velho (Casa Grande - MG) para o Caminho Novo (Queluzito - MG).

Às 10h40 estava na pacata 15 Queluzito (MG), antiga povoação de Santo Amaro e fundada em 1730. 

15 POPULAÇÃO: 1.943 PESSOAS (IBGE 2020). Bem pacata!

Rápida parada para fotografar a Igreja Matriz de Santo Antônio, tombada pela Prefeitura sob Decreto 06/2002.

A construção foi iniciada em 1726, sendo inaugurada no dia 12 de março de 1738.

 

Queluzito (MG). Igreja Matriz de Santo Antônio. Foto: Fernando Mendes.
Foto de 2014. Com a chuva forte, ficou impossível fotografar a igreja naquele dia.

Queluzito (MG). Igreja Matriz de Santo Antônio. Foto: Fernando Mendes.
Foto de 2014. Com a chuva forte, ficou impossível fotografar a igreja naquele dia.

Sob chuva moderada, deixei Queluzito (MG) pela Rua Padre Gurgel e reingressei na Rodovia LMG 844.

Pedalei forte por sete quilômetros - em asfalto - até visualizar um Marco da Estrada Real indicando sair à esquerda e entrar em caminho de terra, serpenteando os eucaliptais que flanqueiam o percurso. 

Naquele momento, fazendo valer-me do dinamismo que o tempo meteorológico é dotado, a chuva cessou e, cúmplice, Alguém - lá em cima -, limpou o firmamento, presenteando-me com um céu que estendeu seus azuis sobre mim. Fascinante!

 

Etapa entre Queluzito (MG) e Conselheiro Lafaiete (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

Etapa entre Queluzito (MG) e Conselheiro Lafaiete (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

Etapa entre Queluzito (MG) e Conselheiro Lafaiete (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 Caminho Novo

Etapa entre Queluzito (MG) e Conselheiro Lafaiete (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

Trecho entre Queluzito (MG) e Conselheiro Lafaiete (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Terminado o reflorestamento de eucaliptos, cheguei ao asfalto e atravessei três bairros periféricos de Conselheiro Lafaiete (MG): Jardim Europa, São Geraldo e Copacabana, sendo que, por este último, cheguei à BR – 040. Após atravessá-la, tomei o rumo do Hotel Meri, na área central.

No Meri, carimbo no Passaporte Estrada Real e almoço no Restaurante Fogão à Lenha, ao lado da Estalagem e defronte à Estação Ferroviária de Conselheiro Lafaiete (MG) 16, a cidade que mudou de nome três vezes.

16 Primeiramente foi Carijós (1752 a 1790).  

Em 1790, D. Maria I, a “rainha louca”, elevou a localidade ao “status” de Vila, passando a chamar-se Real Vila de Queluz, que recebeu uma estação da Ferrovia Oeste de Minas, em 1883.  

O nome Conselheiro Lafaiete passou a vigorar a partir de 27 de marco de 1934, 

pelo Decreto Estadual n.º 11.274, em homenagem ao Conselheiro Lafayette Rodrigues Pereira (1834 – 1937), quando se comemorava o centenário de seu nascimento.  

Lafayette foi um jurista, proprietário rural, advogado, jornalista, diplomata e político brasileiro. 

Fonte: Guia de Cicloturismo Estrada Real Caminho Velho. Antônio Olinto/Rafaela Asprino, 2ª Edição; São Paulo, 2012; Editora Gráficos Unidos, p. 99 (com adaptações).

Da entrada em Conselheiro Lafaiete (MG) - às 12h 30 - à saída na Unidade da Vale em Morro da Mina - às 15h - percorri 12 quilômetros em meio ao caos: trânsito frenético, ruas estreitas, asfalto gasto e cheio de remendos, sinalização deficiente e muitos, muitos buracos.

Os Marcos do Instituto Estrada Real inexistem na área urbana da cidade. O GPS do celular quebrou o galho. Todavia, pilotar a bike, ficar atento àquele trânsito infernal e - simultaneamente - ouvir/entender/executar as informações das direções a seguir foi muito tenso. 

Não à toa, entre chegar a Conselheiro Lafaiete (MG), carimbar Passaporte, almoçar e encontrar a saída rumo a Ouro Branco (MG), foram duas horas e trinta minutos de périplo. Em 2014, calvário foi o mesmo.

Defronte à Unidade Morro da Mina, da Vale do Rio Doce, finalmente um Marco da Estrada Real. Alvíssaras!

Pedalava agora por estrada em leito natural e seguindo os Marcos do Instituto, mas por pouco tempo. Logo cheguei ao asfalto da Rodovia MG - 129 e por ela segui até Ouro Branco (MG). 

Pelo adiantar da hora (faltavam 40 minutos para o ocaso) devido ao tempo gasto para atravessar Conselheiro Lafaiete (MG), abandonei a Estrada Real, ingressei na Rodovia Estadual MG - 129 e cheguei a Ouro Branco (MG) junto com o pôr do Sol que, naquele 16 de maio de 2022, aconteceu às 17h 25.

Hospedei-me no Hotel Verdes Mares, excelente estada, e jantei no Helmira´s Restaurante, ao lado da Estalagem. Noite muito fria e chuva fina durante a madrugada.

CASA GRANDE (MG) A OURO BRANCO (MG)

Distância percorrida

56,31 km

Calorias (kcal)

1.546

Total subida

1.000 m

Total descida

900 m

Ritmo cardíaco médio (RMC)

102 b.p.m

Velocidade Média

11,0 km/h

Dados obtidos Garmin Forerunner 310XT


Ouro Preto (MG) a 47,76 quilômetros.

12º DIA

17/05/2022

OURO BRANCO (MG) A LAVRAS NOVAS (MG)

28 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

  

Ouro Branco (MG). Igreja Matriz de Santo Antônio.
Foto: Fernando Mendes.

Antes de rumar para Lavras Novas, distrito de Ouro Preto (MG) e distante 28 quilômetros de Ouro Branco (MG), visita à Igreja Matriz de Santo Antônio 17, exemplo clássico do Barroco do século XVIII.

17 Recursos de R$ 1,3 milhão garantem o restauro da Igreja Matriz de Ouro Branco. A ordem de serviço foi assinada em 13/5/2022.

Foi tombada [1949] pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A Matriz de Santo Antônio é anterior a 1717. Existe uma certidão do primeiro casamento ocorrido na Igreja em 1701.

A construção terminou em 1779, data inscrita em seu frontispício. 

Disponível em:< www.em.com.br/app/noticia/gerais/2021/05/13/interna_gerais,1266367/recursos-de-r-1-3-milhao-garantem-restauro-da-igreja-matriz-de-ouro-branco.html>.
Acesso: 31/05/2022.
 

O topônimo Ouro Branco é uma alusão ao ouro [branco] encontrado à época da exploração, ou seja, "mal formado", como dizia Antonil. 18. 

18 - Padre André João Antonil (1649 – 1716), missionário, autor, historiador e executor da obra Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas, publicado em Lisboa (1711), é considerado o melhor registro acerca das condições sociais e econômicas do Brasil no início do século XVIII. 

É de Antonil o dito:

 “O Brasil é o inferno dos negros, o purgatório dos brancos, e o paraíso dos mulatos e das mulatas”. 

Fontes: Quem nos Falou do Brasil Colonial? Enciclopédia Delta de História do Brasil. [S.l.]: Editora Delta S/A. 1969, p. 1571. 

Não sendo possível determinar o local, utiliza-se a expressão sine loco (do latim "sem um lugar"), abreviada e entre colchetes [S.l.].

Por volta das 10h20 iniciei a etapa Ouro Branco (MG) a Lavras Novas (MG), a penúltima da viagem de bike. Saí pela Rua da Lavoura, com a Matriz de Santo Antônio à minha esquerda, e ingressei na Rua José Luís. Um absurdo descenso me levou à Avenida Macapá, que logo passou a ser a Rodovia MG – 129. 

Até o Seday Transporte, a altimetria é plana e o trecho [4 km] foi percorrido placidamente em ciclovia.

 

Fonte: Estrada Real: Caminho Velho/Antonio Olinto & Rafaela Asprino, 3ª ed. - São Paulo 2021, p. 133 (com adaptações).

A partir do km 4, a estrada tem obstinada ascensão, à semelhança do trecho Paraty (RJ) a Cunha (SP), se estendendo por três quilômetros e 250 metros de elevação. 

Sob o casaco corta vento, minha blusa estava embebida, ensopada de suor. Quando atingi o topo, desci o que havia subido.

No 11º quilômetro, pausa no Bar e Restaurante Parada Itatiaia. Troquei a blusa encharcada por uma limpa e seca, degustei deliciosa empada, uma Coca-Cola KS e, para arrematar, uma chávena de café expresso, acompanhada de lascas de rapadura. 

Precisava repor as energias. A subida que veio após o "Parada Itatiaia" me tirou de 1.200 m e me levou a 1.560 m de altitude (*).

 

(*) Essa foto, de minha autoria, foi obtida na jornada Petrópolis (RJ) a Diamantina (MG), em Janeiro de 2017, quando percorri 903 quilômetros pela Estrada Real.   

 Nesta viagem [maio 2022], não fiz o registro porque a placa com as informações foi retirada do acostamento da Rodovia MG -129.  

 Altitude máxima de 1.560 metros, a mesma verificada na divisa RJ/SP, no 1º dia de jornada.  

Na etapa de 28 quilômetros entre Ouro Branco (MG) e o acesso à entrada de Lavras Novas, a rodovia MG -129 serpenteia a maravilhosa paisagem que circunda o caminho, emoldurada pela Serra de Ouro Branco, subgrupo do Espinhaço.

Da cota 1.560 m (foto) ao trevo de acesso a Lavras Novas, percorri quatro quilômetros em singelo descenso. 

 

Etapa entre Ouro Branco (MG) e Lavras Novas (MG). Rodovia MG - 129. 
Foto: Fernando Mendes.

 

Etapa entre Ouro Branco (MG) e Lavras Novas (MG). Rodovia MG - 129
Foto: Fernando Mendes.

 

Etapa entre Ouro Branco (MG) e Lavras Novas (MG). Rodovia MG - 129
Foto: Fernando Mendes.

 

Etapa entre Ouro Branco (MG) e Lavras Novas (MG). Rodovia MG - 129
Foto: Fernando Mendes.

Às 13h17, abandonei a MG -129 e segui, à direita, por sete quilômetros, a maior parte intervalando subidas moderadas e fortes, em estreita rodovia asfaltada e com belo visual do Espinhaço a me espreitar, tal e como fazem os guarda nos Postos da PRF (Policia Rodoviária Federal), às margens das rodovias pelo País.

Rodovia MG - 129. Acesso a Lavras Novas (MG)
Foto: Fernando Mendes.

Rodovia MG - 129 entre Ouro Branco (MG) e Lavras Novas (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

Rodovia MG - 129 entre Ouro Branco (MG) e Lavras Novas (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

Rodovia MG - 129 entre Ouro Branco (MG) e Lavras Novas (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

Rodovia MG - 129 entre Ouro Branco (MG) e Lavras Novas (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Lavras Novas (MG) situa-se a 1.510 metros de altitude e a temperatura, em queda livre, era de 11°C, quando comecei a pedalar pelo calçamento daquele belíssimo distrito de Ouro Preto (MG). Eram 14h30. 

Fui ao restaurante Serra do Luar, o único aberto naquela 3ªf. Almocei bem e me recolhi à Pousada Vila de Gaia.  A temperatura estava proibitiva para ficar ao ar livre. 

Dormi até às 18h, jantei na pousada e terminei o dia sob cobertas grossas e vendo TV.

Naquele dia, desconheço a razão, a causa, o motivo ou as circunstâncias que levaram o GPS Garmin de pulso a não registrar o trecho Ouro Branco (MG) a Lavras Novas (MG).

O mesmo aconteceu no 1º dia da viagem, entre Paraty (RJ) e Cunha (SP).

Ouro Preto (MG) a 19,76 quilômetros.

13º DIA

18/05/2022

LAVRAS NOVAS (MG) A OURO PRETO (MG)

19,76 km


LAVRAS NOVAS (MG) A OURO PRETO (MG)

Distância percorrida

19,76 km

Calorias (kcal)

339

Total subida

351 m

Total descida

576 m

Ritmo cardíaco médio (RMC)

90 b.p.m

Velocidade Média

12,4 km/h

Dados obtidos Garmin Forerunner 310XT

 

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

 

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

Ao acordar, por volta das 7h, consultei o termômetro do Cateye da bike, que pernoitou ao relento: 9°C. 

Inviável sair rumo a Ouro Preto (MG) com aquela temperatura polar. O tempo desbotado e cinzento do dia anterior foi substituído por céu limpo, cheio de Sol, sem nuvens, mas com vento pertinaz.

O café da manhã do Vila de Gaia - fui o único hóspede naquela estada - é um dos fortes da pousada, além do quarto e alcova de banho amplos, limpeza impecável e muita, muita natureza ao redor da estalagem. 

Após 11 horas de sono fui acordado pelo piar de muitas aves, que pareciam conversar entre elas, todavia sem se entenderem plenamente.

 

Lavras Novas (MG). Pousada Vila de Gaia.
Foto: Fernando Mendes.

Lavras Novas (MG). Pousada Vila de Gaia.
Foto: Fernando Mendes.

Lavras Novas (MG). Pousada Vila de Gaia.
Foto: Fernando Mendes.

Lavras Novas (MG) "bomba" nos 52 ou 53 finais de semana do ano e, mais ainda, nas férias de verão e, por extensão, nos feriados "esticados". 

Minha estada aconteceu em dias úteis (17/5 e 18/5 - 3ªf e 4ªf respectivamente). Portanto, nada de muvuca naquele sítio. 

No planejamento da viagem, tive o cuidado de não coincidir a passagem por Lavras Novas (MG) com final de semana. 

A população chega a sextuplicar (!) durante a alta temporada. Segundo o IBGE 2020, Lavras Novas tem 1.500 habitantes fixos ou residentes.

Consumido o farto pequeno almoço fui a passos "explorar" e fotografar Lavras Novas (MG).

  

Lavras Novas. Foto: Fernando Mendes.

  

Lavras Novas. Foto: Fernando Mendes.

 

Lavras Novas. Foto: Fernando Mendes.

 

Lavras Novas. Foto: Fernando Mendes.

Há muitas pousadas, restaurantes e fartos empórios de artesanato. A localidade é muito charmosa, as ruas são limpas e pavimentas com paralelepípedos. É passeio para o dia todo ou vários dias.

O ponto alto é a Igreja Nossa Senhora dos Prazeres 19Lamentavelmente estava fechada.

 19 Com características das mais antigas igrejas do século XVIII, a belíssima Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres é composta por três altares com características singelas.  

Tem-se um belo adro que circunda plenamente a edificação.  

No frontispício do adro existe uma grande cruz de pedra em cantaria.

Cantaria é algo esculpidos ou lavrados manualmente por um mestre canteiro, para ganhar formatos específicos.   

Disponível em:<https://turismo.ouropreto.mg.gov.br/atrativo/782>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

 

Igreja Nossa Senhora dos Prazeres em Lavras Novas.
Fotos: Fernando Mendes.

 

Igreja Nossa Senhora dos Prazeres em Lavras Novas.
Fotos: Fernando Mendes.

 

Igreja Nossa Senhora dos Prazeres em Lavras Novas.
Fotos: Fernando Mendes.

 

Igreja Nossa Senhora dos Prazeres em Lavras Novas.
Fotos: Fernando Mendes.

Localizada a 1.500 metros de altitude, Lavras Novas (MG) tem a tirolesa mais alta do Brasil e, esconde, em meio à Serra do Espinhaço, um ar bucólico e acolhedor, repleta de casinhas coloridas, pousadas à beira das montanhas, turismo de aventura e muita comida mineira.

 

Lavras Novas. Fotos: Fernando Mendes.

 

Lavras Novas. Fotos: Fernando Mendes.

 

Lavras Novas.
Fotos: Fernando Mendes.

 

Lavras Novas.
Fotos: Fernando Mendes.

Encerrado o périplo fotográfico, voltei à pousada, subi na bike e rumei para Ouro Preto (MG), 18 quilômetros à frente. A viagem estava prestes a terminar.

Da Vila de Lavras Novas à Rodovia MG - 129, são sete quilômetros - a maior parte em descenso - calçado por pedras sextavadas e flanqueado por belas formações do Espinhaço.

 

Lavras Novas (MG). Foto: Fernando Mendes.

 

Lavras Novas (MG). Foto: Fernando Mendes.

 

Lavras Novas (MG). Foto: Fernando Mendes.

 

 Lavras Novas (MG). Foto: Fernando Mendes.

 

Lavras Novas (MG). Foto: Fernando Mendes.

 

Lavras Novas (MG). Foto: Fernando Mendes.

Ao atingir a MG - 129, os 11 quilômetros seguintes foram percorridos em descida contínua até o entroncamento com a BR - 365. 

Atravessei-a e entrei na Avenida Lima Júnior, no Bairro Saramenha, repleto de casas, empórios e a gigante Hindalco Brasil, empresa do grupo indiano que atende aos mercados nacional e internacional. Opera em Ouro Preto (MG) desde agosto de 2013.

Continuei pela Avenida Lima Júnior avistando as primeiras casas de Ouro Preto (MG), a antiga Vila Rica, perfiladas do alto dos morros até as partes mais baixas do sítio ouro-pretano. Esta é a minha descrição de Ouro Preto (MG) no século XXI.

Veja a descrição da chegada a Vila Rica 21 - atual Ouro Preto (MG) - e de seu cotidiano, baseada em texto do comerciante inglês John Luccock, que a visitou em 1817. 

21 - Ao ver o povoado [Vila Rica], um viajante da época do Ciclo do Ouro achou-o "muito sedutor", mas não deixou de notar que ele [o povoado] parecia estar encravado em um dos piores lugares da Terra para se erguer uma cidade.

De fato, aquela sequência de morros na colossal Serra do Espinhaço, a 1.100 metros de altitude, não era o melhor sítio para assentar um núcleo urbano com mais de 2 mil casas grudadas umas às outras, uma dúzia de igrejas corpulentas e alguns prédios públicos de grande porte.

O "amor pelo ouro", contudo, venceu a lógica e fez florescer no interior do Brasil um centro urbano vigoroso.

Vila Rica abrigava 79 mil "almas" (excluindo-se os indígenas), o equivalente a 2,3% da população da Colônia.

Apesar de estar a quatrocentos quilômetros do porto marítimo mais próximo, em uma área de difícil acesso e coalhada de bandidos violentos e indígenas bravios, a comarca de Vila Rica tinha mais habitantes que as cidades do Rio de Janeiro (39 mil) e Salvador (menos de 46 mil).

Era quase duas vezes e meia maior que Nova York (33 mil habitantes), a cidade mais populosa dos Estados Unidos àquela época.

E, com menos de cem anos de existência, tinha o equivalente a 15% dos moradores de Paris, cuja história somava, por baixo, vinte séculos.

Fonte: O Tiradentes : Biografia de Joaquim José da Silva Xavier / Lucas Figueiredo - 1ª ed. - São Paulo : Companhia das Letras, 2018, pp. 33-34.

 

Ouro Preto (MG).
Fotos: Fernando Mendes.

  

Ouro Preto (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

Ouro Preto (MG).
Foto: Fernando Mendes.

  

Ouro Preto (MG). 
Foto: Fernando Mendes.

 

Ouro Preto (MG).
Foto: Fernando Mendes.

  

Ouro Preto (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

Ouro Preto (MG). Foto: Fernando Mendes.

Antes de providenciar hospedagem, fui à Secretaria de Turismo, localizada na Praça Tiradentes, 20 para obter o último carimbo no Passaporte Estrada Real.

20 - Na atual Praça Tiradentes em Ouro Preto (MG), ex- Praça do Mercado, funcionou um dos principais mercados de escravos do Brasil, no qual homens e mulheres jovens, juntamente com crianças, eram os produtos cobiçados.  

Dependendo do biotipo e das habilidades, chegavam a ser disputados numa espécie de leilão a céu aberto. 

Fonte: Ibañez, Alexandre. Marília de Dirceu : a musa, a inconfidência e a vida privada em Ouro Preto no século XVIII / Alexandre Ibañez, Staël Gontijo 

Belo Horizonte : Gutenberg Editora, 2012, p. 51.

Imaginei que sairia da Secretaria de Turismo com o Certificado Estrada Real, minha "medalha" pela conquista alcançada. Ledo engano. 

 

Disponível em:<https://br.pinterest.com/pin/88735055127972152/>.
Acesso: 31/05/2022.

Os certificados de conclusão dos caminhos da Estrada Real, que convergem para Ouro Preto 21 (Caminho Velho, Caminho do Sabarabuçu, Caminho Novo e Caminho dos Diamantes), desde 2021, são digitais, ou seja, o aventureiro fotografa [via celular] os carimbos obtidos ao longo do trajeto e os envia [por e-mail] para Instituto Estrada Real, em Belo Horizonte à Av. do Contorno, nº 4456, 7º andar, Bairro Funcionários, CEP: 30.110-028 e Fone: (31) 3263-4765. 

  • E-mail: estradareal@estradareal.org.br

No dia seguinte, o Certificado chegou em formato PDF.

Minha Medalha.

21 Em 1823, após a Independência do Brasil, Vila Rica, fundada em 1711, recebeu o título de Imperial Cidade, conferido por S.M Imperial o Senhor D. Pedro I do Brasil, tornando-se oficialmente a capital da então província das Minas Gerais e passando a ser designada como Imperial Cidade de Ouro Preto.

Em 1897, a mudança da capital para Belo Horizonte (MG) provocou o esvaziamento da cidade (aproximadamente 45 % da população), inibindo o crescimento urbano nas décadas seguintes, fato que contribuiu - deveras - para preservação do seu Centro Histórico.

Disponível em:<https://www.ouropreto.mg.gov.br/historia>.
Acesso: 31/05/2022 (com adaptações).

Fiquei o resto daquela tarde a fotografar Ouro Preto (MG) e arredores. E esse enredo se estendeu pelos dois dias que se seguiram à minha chegada à antiga Vila Rica.

 

Pico do Itacolomi, o Farol dos Bandeirantes.
Foto: Fernando Mendes.

O céu emoldura o Pico do Itacolomi de azul colonial.
Foto: Fernando Mendes.

 

Igreja de São Francisco de Assis.
Foto: Fernando Mendes.

 

Rua Cláudio Manoel.
Foto: Fernando Mendes.

 

Igreja de São Francisco de Assis.
Foto: Fernando Mendes.

 

Igreja Matriz Santa Efigênia.
Foto: Fernando Mendes.

 

Rua Cláudio Manoel.
Foto: Fernando Mendes.

 

Museu da Inconfidência (à esq.) e Matriz Nossa Senhora do Carmo (à dir).
Foto: Fernando Mendes.

 

Praça Tiradentes. Foto: Fernando Mendes.

 

Igreja Nossa Senhora das Mercês.
Foto: Fernando Mendes.

 

Ouro Preto (MG).
Fotos: Fernando Mendes.

 

Praça Tiradentes.
Foto: Fernando Mendes.

No sábado (21/5/2022) embarquei de volta para casa, em Brasília (DF), com a sensação de missão cumprida. 

Foi a minha 7 ª edição pelos caminhos da Estrada Real, desta feita - e pala 3ª vez - o Caminho Velho, entre Paraty (RJ) e Ouro Preto (MG), que não é o caminho "ao contrário".

Brasília (DF), 31 de Maio de 2022.

Antônio Fernando Mendes - 62 anos - Professor de Geografia e Geógrafo (devidamente aposentado desde 2019).

Obrigado pela leitura.

MINHAS 8 EDIÇÕES PELA ESTRADA REAL (2011 – 2026)

05/2011

Diamantina (MG) a Paraty (RJ)

09/2011

Serro (MG) à Serra do Cipó (MG) bate e volta

06/2014

Conceição do Mato Dentro (MG) a São Lourenço (MG)

01/2015

Diamantina (MG) a Conceição do Mato Dentro (MG)

07/2015

Ouro Preto (MG) a Paraty (RJ)

01/2017

Petrópolis (RJ) a Ouro Preto (MG) – Caminho Novo

Ouro Preto (MG) a Cocais (MG) – Caminho do Sabarabuçu

Cocais (MG) a Diamantina (MG) – Caminho dos Diamantes

05/2020

Paraty (RJ) a Ouro Preto (MG)

ATUALIZAÇÃO - 2026

05/2026

Ouro Preto (MG) a Petrópolis (RJ)


Antônio Fernando Mendes - 62 anos.

Professor de Geografia e Geógrafo.

 Brasília (DF), 31 de maio de 2022.







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