Viagem de Bike - Estrada Real - Diamantina (MG) a Paraty (RJ). Outono 2011.
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VIAGEM DE
BIKE - MAIO 2011 |
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ESTRADA REAL - DIAMANTINA (MG) A
PARATY (RJ) |
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978 KM |
RELATO ATUALIZADO EM 2015, 2018, 2021, 2025 e 2026
O chamado “Caminho dos Diamantes” era o caminho oficial, instituído pela Coroa Portuguesa, que ligava Vila Rica, atual Ouro Preto, ao distrito Diamantino.
Após a descoberta do diamante na região do Serro Frio e do Tijuco, atual Diamantina, esse caminho tornou-se uma via regional de grande importância na capitania.
[...] foi graças à explosão dos metais preciosos [na Capitania de Minas Gerias, desmembrada do controle da capitania de São Paulo, fato motivado pela região das minas contar com certa autonomia administrativa.] que os problemas financeiros do império português tiveram alívio.
D. João V (o
Magnânimo) governou Portugal, Brasil e Algarves de 1706 a 1750, quando faleceu, sendo sucedido pelo rei D. José I, pai da futura Rainha de Portugal, Brasil e
Algarves, D. Maria I, a louca, mãe de D. João VI, avó paterna de D. Pedro I,
bisavó de D. Pedro II e trisavó das princesas Isabel e Leopoldina.
Diamantina – antigo arraial do Tijuco – surgiu naquele
contexto, no início do século XVIII.
Embora sua formação tenha ocorrido em função da exploração do ouro, o crescimento e a consolidação decorreu (sic) da descoberta de diamantes na região, em 1720.
[…] O território viveu, ao longo dos séculos, um contínuo processo de transformação caracterizado pelo nascimento e desaparecimento de pequenos arraiais, ao sabor do descobrimento e esgotamento das jazidas de diamantes.
Acesso: 31/05/2011.
VIAGEM DE BIKE ESTRADA REAL DIAMANTINA (MG) A PARATY (RJ) – MAIO 2011 | ∑ | ||
DIA | TRECHOS | KM/DIA | |
01/05 | Diamantina (MG) a S. G. do Rio das
Pedras (MG) | 33 km | 33 km |
02/05 | S. G. do
Rio das Pedras a Itapanhoacanga (MG) | 65 km | 98 km |
03/05 | Itapanhoacanga (MG) a C. do Mato
Dentro (MG) | 47 km | 145 km |
04/05 | C. do Mato
Dentro (MG) a Itambé do Mato Dentro (MG) | 64 km | 209 km |
05/05 | Itambé do Mato Dentro (MG) a B. J. do
Amparo (MG) | 44 km | 253 km |
06/05 | Bom Jesus
do Amparo (MG) a Catas Altas (MG) | 73 km | 326 km |
07/05 | Catas Altas (MG) a Mariana (MG) | 54 km | 380 km |
08/05 | Mariana
(MG) a Congonhas do Campo (MG) | 90 km | 470 km |
09/05 | Congonhas do Campo (MG) a São João del
Rei (MG) | 113km | 583 km |
10/05 | São João
del Rei (MG) Passeios | # # # # | #### |
11/05 | São João del Rei (MG) a São Vicente de
Minas (MG) | 86 km | 669 km |
12/05 | São Vicente
de Minas (MG) a Caxambu (MG) | 80 km | 749 km |
13/05 | Caxambu (MG) a Passa Quatro (MG) | 60 km | 809 km |
14/05 | Passa
Quatro (MG) Passeio de Maria Fumaça | # # # # | #### |
15/05 | Passa Quatro (MG) a Guaratinguetá (SP) | 70 km | 879 km |
16/05 | Guaratinguetá
(MG) a Cunha (SP) | 53 km | 932 km |
17/05 | Cunha (SP) a Paraty (RJ) | 46 km | 978 km |
TOTAL | 978 km | ||
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01/05/2011 |
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1º DIA |
DIAMANTINA
(MG) A S. G. DO RIO DAS PEDRAS (MG) |
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33 km |
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A saída de
Diamantina (MG), rumo a São Gonçalo do Rio das Pedras (MG), aconteceu às 9h,
com tempo bom e o céu Azul Capri se estendia sem limites, num mar profundo de
poucas nuvens. A temperatura estava em agradáveis 17°C.

Nos
primeiros quilômetros, a Estrada Real é plana e larga, à semelhança
da reta dos boxes do Autódromo de Interlagos.
As primeiras
pedaladas foram lentas para sentir a aventura que se iniciava e apreciar a
paisagem colossal da Serra do Espinhaço.
Na Região
Sudeste, encontra-se o maior conjunto de terras altas do
País, formado pela Serra do Espinhaço, pela Serra da Mantiqueira e pela
Serra do Mar, os chamados “mares de morros”, que marcaram
o relevo ao longo da minha jornada pela Estrada Real.
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Estrada Real é isso: ou não se vai ou, quando se vai, se sabe ao que se vai. |
De
Diamantina (MG) a Paraty (RJ) atravessei esses três conjuntos serranos, com
subidas insanas, descidas alucinantes e visual de se fazer reverência. A
Estrada Real tem que ser percorrida em ritmo lento, de bicicleta, a cavalo ou a
pé.
Assim, o
viajante pode bebericar todas as belezas que se descortinam aos seus olhos. Não
tive pressa ao percorrê-la. Não estava competindo e nem havia um pódio de
chegada em Paraty (RJ).
A sensação
de vencer esses caminhos comemorei silenciosamente, sentindo a alegria de estar
cumprindo um desejo antigo: pedalar pela mesma rota feita pelos tropeiros do
Brasil Colônia. No entanto, ao invés de ouro, eu carregava o desejo pela
aventura e o cumprimento de uma missão.
Diferentemente
dos muleteiro (tropeiros), que viajavam em comboio, eu fui sozinho,
estabelecendo um diálogo interno e descobrir a força pessoal, mas sem me sentir
solitário. Nem sempre estar sozinho é sinal de solidão. São encontros que
eu tenho com meu coração.
Na saída de Diamantina (MG), o GPS indicava 1.200m de altitude. Nos primeiros oito quilômetros percorridos, a cota altimétrica caiu para 1.000m e atravessei a ponte sobre o Ribeirão do Inferno.
Transpassada
a ponte, uma subida dos infernos, em forte ângulo de ascensão, me levou de
volta aos 1.200m iniciais, registrados na saída de Diamantina (MG). Foi
possível sentir que o sobe e desce, na 1ª etapa da viagem, é constante.
Após vencer
o ascenso pós-ponte – entre muitos que encarei até Paraty (RJ) –, passei a
pedalar num platô, com quatro quilômetros de extensão – o dobro do comprimento
da pista 17 do Aeroporto de Congonha –, até chegar ao Povoado do Vau,
pertencente à jurisdição de Diamantina (MG). Eram 13h. Parei para
almoçar.
Havia
pedalado, desde a saída do Antigo Arraial do Tijuco – Diamantina (MG) –, apenas
26 quilômetros e gasto, para tal, 4 horas. Média de medíocres 6 km/h.
No Vau, em
qualquer casa que o viajante bata à porta e peça almoço, a comida é garantida.
Faz parte da hospitalidade mineira, presente nos quatro caminhos da Estrada
Real.
Almocei
delicioso prato com arroz, feijão, ovo, asa de peru e tomei uma Coca-Cola de 1
litro. Quando fui pagar, quase não acreditei: apenas R$ 7,00. (Valor de maio/2011).
Deixei a
pequena localidade, desci até a cota de 900m, a mais baixa do dia, atravessei a
ponte sobre o Rio Jequitinhonha, que tem sua nascente no Serro (MG),
assinalando o limite com Diamantina (MG).
Encostei a
bike numa placa indicativa da divisa e fiquei um tempo relembrando as dimensões
de Rio Jequitinhonha: nasce em trecho estreito, com águas límpidas e a
distância de uma margem à outra é de pouco mais de 3 metros.
Ao lançar
suas águas no Atlântico Sul, na localidade de Belmonte (BA), no litoral sul
baiano, conhecido como Costa do Descobrimento, forma um estuário de alta
relevância ecológica.
Entre a
nascente no Serro (MG) e a foz em Belmonte (BA), o Jequitinhonha desfila por
longos 1.091 quilômetros de extensão.
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Atravessei a ponte, veio a mais radical subida daquele dia. Em apenas 2,5 quilômetros, saí da cota 900m para chegar à cota 1.100m, na qual está assentado o simpático e bucólico Distrito de São Gonçalo do Rio das Pedras (MG), pertencente à jurisdição do Serro (MG). Eram 16h30.
Encerrei a jornada daquele primeiro dia sabendo que a viagem, por conta da altimetria e das condições do piso da Estrada Real, seria (como de fato foi) mais penosa do que imaginei.
Por sugestão de um amigo de Brasília (DF), que fez esses caminhos em 2009, dirigi-me à Pousada Fundo de Quintal. Trata-se da residência do Sr. Ademil, sujeito boa praça e dono de um empório que tem quase de tudo. Senti-me em casa.
Seu bar é parada obrigatória em São Gonçalo do Rio das Pedras (MG) para obter o carimbo no Passaporte Estrada Real, degustar as opções do excelente cardápio de refeições, bebericar vinhos produzidos naquele empório e boa prosa.
O atendimento por parte dele, e da filha Daniela, é atencioso e deveras gentil.
São Gonçalo do Rio das Pedras - distrito do Serro (MG) - teve sua origem ligada à exploração do ouro.
O declínio da mineração e o isolamento geográfico do distrito, garantiram - em boa medida - a preservação todos os elementos arquitetônicos e paisagísticos dos séculos XVIII e XIX. É um lugar pacto, daqueles que o tempo tem preguiça de passar.
Poderia ficar por ali dias e não sentir tédio. As ruas possuem calçamento de pedras e as casas conservam o estilo colonial.
É passagem obrigatória dos viajantes que percorrem o Caminho dos Diamantes da Estrada Real.
Depois do banho, assisti TV até às 19h e saí em busca de um lugar para jantar. Indicado pelo Sr. Ademil, fui à Pizzaria "Quero Mais" e degustei deliciosa pizza portuguesa.
Voltei à pousada e fui me deitar para merecido descanso, após vencer um trecho com subidas infernais e paisagens maravilhosas, nas quais o cerrado mineiro e a Serra do Espinhaço [1] se fazem presentes.
[1] Considerada a única cordilheira do Brasil, a Serra do Espinhaço tem aproximadamente 1.000 quilômetros de extensão, parte em Minas Gerais e parte na Bahia.
Possui o maior afloramento de calcário do País, jazidas de ouro, ferro, bauxita e manganês. Estima-se que sua idade geológica seja de 2,5 bilhões de anos.
Funciona como divisor de águas: a Leste, todos os rios tendem ao Atlântico, enquanto que a Oeste inflam o sistema hídrico do São Francisco.
A largura da Serra do Espinhaço varia de 50 a 100 quilômetros. Vales e picos são interpostos, configurando um terreno bastante acidentado.
É Reserva da Biosfera, contém muitas áreas de proteção e outras de preservação, além de reservas particulares.
Fonte: Brasília-Paraty, somando pernas para dividir impressões. Weimar Pettengil – Brasília – Editora Thesaurus, p.90.
Paraty (RJ) a 945 quilômetros.
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02/05/2011 |
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2º DIA |
S. G. DO RIO
DAS PEDRAS (MG) A ITAPANHOACANGA (MG) |
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65 km |
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Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/roteiros-planilhados/caminho-dos-diamantes/>. Acesso: 31/05/2011.

Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/roteiros-planilhados/caminho-dos-diamantes/>. Acesso: 31/05/2011.
Embora adepto da filosofia de que toda viagem tem que começar depois das 8h da manhã, naquele segundo dia de jornada acordei cedo. Havia dormido por longas 11 horas, algo que jamais consigo em minha rotina.
Ciente dos 65 quilômetros que me aguardavam, comecei a pedalar às 7h.
Tomei café da manhã na companhia da família do Sr. Ademil, que me passou dicas valiosas acerca do trecho até a cidade do Serro (MG).
Uma delas eu adorei: do pequeno povoado de Milho Verde – sete quilômetros à frente de São Gonçalo – até o Serro (MG) -, a Estrada Real encontra-se asfaltada.
Os 29 quilômetros que separam São Gonçalo do Rio das Pedras (MG) do Serro (MG), foram percorridos em pouco mais de uma hora.
Pausa para fotografar o centro histórico daquele belo sítio (lugar) e berço do melhor queijo do Brasil, o Queijo do Serro (MG). Eu garanto.
Saquei
dinheiro no BB e fui degustar um pedaço do queijo do Serro, o melhor do Brasil.
Aproveitei para tomar uma dose de pinga, que o dono do estabelecimento disse "ser a melhor de Minas Gerais". Tive minhas dúvidas.
Às 9h32 segui rumo a Alvorada de Minas (MG), 18 quilômetros à frente, em estrada recém-asfaltada. Que maravilha.
O tempo estava esplendoroso: céu cheio de Sol, poucas nuvens formando imagens
sem definições e temperatura em aprazíveis 22°C.
A média horária, muito baixa em relação ao dia anterior, passou a ser de 20 km/h, elevando o moral.
Paisagens magníficas me deram forças para pedalar firme e chegar à simpática Alvorada de Minas (MG), às 10h40. Fui conhecer a Igreja de Santo Antônio (século XVIII).
Alvorada de Minas (MG) teve sua ocupação com o início da mineração do
ouro no Rio do Peixe, a partir de 1712.
Almocei na podoca local, que oferece um self-service sortido e delicioso. Encerrada a refeição - nada de café expresso -, segui rumo a um distrito de nome deveras curioso: Itapanhoacanga, pertencente à jurisdição de Alvorada de Monas (MG).
Itapanhoacanga, topônimo que significa "pedra de cabeça de nego".
Retornei à Estrada Real, agora em leito natural.
Alvorada, a exemplo da maioria das cidades ao longo da Estrada Real, fica dentro de um buraco fundo, facilitando, dessa forma, a captação de água. Descia para chegar; penava para sair.
Pedalei por dois quilômetros uma subida forte até ver Alvorada de Minas (MG) lá embaixo, bem pequena e com a torre da igreja matriz em destaque.
Oito quilômetros após deixar
Alvorada de Minas (MG), a Estrada Real "deságua" na Rodovia MG–010,
ponto no qual muitos viajantes se equivocam por não visualizarem o marco do
Instituto, que indica a direção de Itapanhoacanga (MG).
Naquele
ponto (foto acima) é preciso seguir como e estivesse voltando para o Serro
(MG), pela Rodovia MG–010, pedalar três
quilômetros à frente – asfaltados recentemente –, até um Marco do Instituto orientar
“virar à esquerda” e seguir na direção de Itapanhoacanga (MG), em leito natural.
Uma bela
paisagem é oferecida ao viajante. Na região conhecida como Duas Pontes está um
curso d’água, que passa sob duas pontes, segue formando pequenos saltos, num
leito tomado por pedras bastante desgastadas pelo Pai–Tempo e cobertas por limo
em profusão.
Cheguei à
pequena - e incógnita - Itapanhoacanga (MG), distrito de Alvorada de Minas
(MG), às 16h30.
Torci para
encontrar lugar para pernoite. Perguntei para umas moças que estavam
conversando na calçada onde poderia me hospedar. Uma delas me disse - e,
minerês castiço: “ocê vai lá na casa do Biu uai, que ele ruma um lugar
procê, moço. É pertim daqui. Fala com a muiê dele. Mas se ocê prifiri, o Biu
passa aqui gurim messss. Ele foi apanhá o fi dele, o Jãozim, na escola”.
Preciso traduzir?
Fui para a
Pousada do Bill, modesta, confortável e com excelente comida. Após o jantar, o
Bill me disse que está iniciando uma expansão no estabelecimento. Serão
construídos mais quartos “num puxadim para cima”, falou orgulhoso.
Itapanhoacanga
(MG) fica encravada em um vale muito profundo e cercada pela Serra do
Espinhaço, que recebe denominações locais de "Serra do São José",
também conhecida por “Serra da Escadinha”.
Ao longo do
Caminho dos Diamantes – trecho compreendido entre Diamantina (MG) e Ouro Preto
(MG) –, o Espinhaço recebe diversas nomenclaturas, dadas pela população nativa.
Em
Itapanhoacanga (MG) existem monumentos religiosos e ricas manifestações
culturais.
O pequeno
vilarejo, situado na porção central do Estado de Minas Gerais, é símbolo da
época do mais rico garimpo de ouro do Serro Frio (arraial que deu origem à
cidade do Serro - MG).
A reforma da Igreja de São José, edificação barroca construída entre 1746 e 1787, está emperrada há 15 anos. Aguarda a liberação de verba.
A situação é tão precária que as imagens e peças sacras foram retiradas e levadas para um local mais seguro.
Não há TV no quarto da pousada. Fui dormir cedo. Eram 20h. Encerrei a jornada daquele segundo dia de viagem bem animado e pensando na subida [9 km] da Serra da Escadinha, programada para o dia seguinte.
Dormi por longas 11 horas, que me proporcionaram o descanso merecido.
A Lua entrou na fase Crescente e quando atingir a fase Cheia, chegarei a Paraty (RJ).
Faltavam 880 quilômetros para eu ver o mar.
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03/05/2011 |
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3º DIA |
ITAPANHOACANGA (MG) A CONC. DO MATO
DENTRO (MG) |
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47 km |
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Pontualmente às 8h, deixei a pequena Itapanhoacanga (MG) saindo pela rua principal, virando à esquerda, após o término do calçamento.
Defronte ao marco da Estrada Real, zerei o ciclo computador, enquanto o GPS de pulso recebia o sinal do satélite, informando que me encontrava à cota altimétrica de 700 m.
A próxima cidade – Santo Antônio do Norte, também chamada de Tapera, dista 14 quilômetros de Itapanhoacanga (MG) e fica na cota 800m.
Caso não tivesse estudado a altimetria desse trecho, eu diria que seria (como de fato não foi) moleza percorrê-lo, afinal saí de 700m para 800m. Ledo engano.
No entanto, Itapanhoacanga (MG) e Santo Antônio do Norte (MG), ou Tapera, são localidades separadas pela imponente Serra da Escadinha.
Nos primeiros nove quilômetros, a elevação vai de 700 para 1.100m. Os primeiros 500 m são impedaláveis, em virtude das ravinas (valas) e muitas pedras soltas, do tamanho de abacates.
Nesse caso, o mais ponderado é descer e empurrar a bike. A falta de tração pode resultar em tombo, e tombo é tudo que um ciclista deve evitar, pois, a viagem pode terminar prematuramente.
Vencidos os 500m iniciais do caminho, a passos e empurrando a bike, passei a pedalar de coroinha (marcha leve), enquanto apreciava - em rápidas espiadas para não perder a atenção ao caminho - a paisagem que se descortinava ao meu redor.
O tempo estava nublado e com cara de chuva. Cota 848m e subindo.
Impressão que chegaria ao céu. Um silêncio delicioso, quebrado, às vezes, por fracas rajadas de vento, que chegavam sem se fazer anunciar.
Foi possível ver Itapanhoacanga (MG), lá embaixo, dentro de um buraco e cercada pela Serra da Escadinha. Cota 872m e subindo.
Parava, fotografava e ouvia sons variados que vinham do vale.
Depois de uma hora pedalando, em moderado ângulo de subida, consultei o ciclo computador que indicava quatro quilômetros percorridos. Cota 896m e subindo. Faltavam cinco quilômetros e 260m de ascensão.
A partir da cota 910m, o moderado ângulo de subida suavizou-se e a pedalada tornou-se mais fácil, sendo possível trocar o câmbio para a coroa do meio.
À frente, o topo côncavo da Serra da Escadinha, situado na cota 1.100m, apareceu. A Estrada Real vai contornando-o até chegar ao mirante, alcançado às 11h, após 3 horas de pedal, 400 metros de ascensão e nove quilômetros morro acima.
Quando o aclive deu lugar a um platô, exclamei: “cheguei”!
As nuvens
abriram caminho e o Sol brilhou forte. Recompensa pelo esforço despendido na
subida. Avistei os mares de morros formados pela Serra do Espinhaço.
Como se
estivesse a bordo de um avião, avistei o pequeno povoado de Santo Antônio do
Norte, lá em baixo, encravado num vale cercado pelas serras do Intendente e São
José (subgrupos do Espinhaço).
Sentei–me
numa pedra à beira do mirante. Momento de reflexão, contemplação e
agradecimento.
O GPS
marcava exatos 1.000m de altitude. O mesmo valor indicado pelo meu GPS está
gravado no marco da Estrada Real, localizado na “vira da serra”, ponto no qual
começa a descida da Escadinha, uma trilha muito técnica, com quatro
quilômetros, em fortíssima declividade e sombreada, por uma mata que mais
parece um pálio.

Às 11h52, estava na pequena Santo Antônio do Norte (MG), também chamada de Tapera.
A rua principal é calçada e a igreja do Rosário tem seu charme. O Sol brilhava forte depois de um início de manhã bastante nublado.
Almoço no Restaurante da Enny. O estabelecimento tem o nome da proprietária, uma senhora que estampa a simpatia dos mineiros. É proprietária da Pousada Coyote, a única daquele sítio.
A próxima localidade, 10 quilômetros à frente, chama-se Córregos (MG) que, igualmente a Santo Antônio do Norte (Tapera), pertence ao município de Conceição do Mato Dentro (MG).
O trecho é quase todo plano, intervalado por descensos e ascensos suaves.
Às 13h50, após 1h e 30 de pedal, cheguei à pequena Córregos (MG), com ruas que alternam calçamento em pedras, com leito natural, e o nada anárquico cenário de casas bem simples.
Digo nada anárquico porque, em alguns sítios (lugares), ao longo do trajeto, a disposição de casas e empórios é uma barafunda.
O velho povoado de Nossa Senhora Aparecida de Córregos tem seu casario, tipicamente colonial, distribuído em uma pequena praça e algumas ruas.
São casas térreas e alguns sobrados, simples e
antigos.
Durante muitos anos esquecido e abandonado, o órgão da Igreja Matriz de Nossa Senhora Aparecida no Distrito de Córregos em Minas Gerais, ressurge para nos revelar segredos, informações históricas e de organaria até então ignorados.
Disponível em: < http://cmd.mg.gov.br/distritos/corregos>. Acesso: 31/05/2011.
Córregos (MG) é um lugar no qual se tem a sensação de que tudo transcorre como de hábito, ou seja, sem transcorrer.
Vale apreciar (e registrar em imagens) a minúscula praça, a linda igrejinha Matriz de Nossa Senhora Aparecida e os sobrados coloniais.
Presume-se que a sua construção ocorreu entre os anos de 1745 e 1748.
Porém, na fachada estão gravadas, em cima da porta, as datas de 1872 e 1994.
Possivelmente, é uma referência às reconstruções que ocorreram na igreja.
Fundado por bandeirantes em 1702, o Distrito de Córregos pertenceu ao Serro até o ano de 1851, passando a ser distrito de Conceição do Mato Dentro.
Situado em um vale de difícil acesso, no início de sua formação foi núcleo de mineração de ouro e diamantes.
Córregos é uma das cidades históricas às margens da Estrada Real e integrante do Circuito dos Diamantes.
Deixei Córregos (MG) e pedalei rumo a Conceição do Mato Dentro (MG), 24 quilômetros à frente percorrendo longas retas sob céu azul-cobalto.
Avistei, às margens do caminho, búfalos que se refrescavam dentro de pequenos banhados. Minas Gerais tem o 9º rebanho nacional, com pouco mais que 70 mil cabeças.
A bubalinocultura difundiu-se no Estado, destacando-se pela produção de reprodutores e matrizes para outras Unidades da Federação.
Por décadas a fio, búfalos estiveram
circunscritos à Ilha de Marajó (PA).
Em Minas Gerais, o sucesso da criação de búfalos se revela no rebanho, que em pouco mais de uma década, dobrou no estado, segundo dados da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
A participação mineira no plantel do
país avançou de 2,7% em 2002 para 4,6% em 2015, última estatística disponível
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Os bulbalinocultores estão tendo bons rendimentos com a comercialização e se beneficiam da expansão do mercado.
Disponível em:<https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao-de-leite/criacao-de-bufalos-cresce-em-minas-gerais-105030n.aspx. Acesso: 30/05/2011.
A Estada em Conceição do Mato Dentro (MG) foi no Hotel Cuiabá, localizado na área central, bastante simples, muito barulho ao redor e no interior da estalagem.
Naquele dia, percorri, em minha opinião, a mais bela etapa do Caminho dos Diamantes até então.
O céu de outono nos trópicos, sem nuvens, a temperatura agradável, o canto dos galos, o mugir dos bovinos, o cheiro de mato e o tempo que passa preguiçosamente, são sinais inequívocos das belezas ao longo da Estrada Real.
Aproveitei o que restava de luz natural e fui à Igreja do Bom Jesus de Matozinhos, a mais bela do caminho, embora não seja em estilo barroco.

Em 1931, a igreja encontrava-se em péssimo estado de conservação e foi demolida e substituída por uma construção moderna.
Edificação recente, sem ter um significado artístico - arquitetônico, o atual Santuário do Senhor Bom Jesus de Matozinhos merece menção por ser centro de romaria, que se realiza anualmente pelas festas do Jubileu, entre 14 e 24 de junho, desde os tempos coloniais.
A decisão de construir a igreja foi tomada pela irmandade em reunião no dia 14 de março de 1931.
O lançamento da pedra fundamental ocorreu em 8 de novembro do mesmo ano. O projeto é de autoria do arquiteto Mario Moreira.
As linhas arquitetônicas são bastante ecléticas,
variando do mourisco ao neogótico.
A entronização da imagem do Bom Jesus no Santuário se deu a 12 de maio de 1934.
Paraty (RJ)
a 833 quilômetros.
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04/05/2011 |
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4º DIA |
CONC. DO MATO
DENTRO (MG) A ITAMBÉ DA M. DENTRO (MG) |
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64 km |
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AVISO AOS
NAVEGANTES |
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NÃO EXISTEM PONTOS DE APOIO ENTRE MORRO DO PILAR (MG) E ITAMBÉ DO MATO DENTRO (MG). PREPARE UMA MATULA (MERENDA, FARNEL) E BASTANTE ÁGUA. TRECHO ERMO E ESCASSO EM SOMBRAS. |
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(Nota do
Autor) |
Acordei repentinamente com rumores próximos à porta do meu quarto. Alguém assoando o nariz no banheiro do corredor, enquanto outro tossia e puxava aquela “ostra” vinda dos pulmões. Eram 6h da manhã. “Singela” maneira de ser despertado.
O Hotel Cuiabá hospeda funcionários das mineradoras que trabalham na região de Conceição do Mato Dentro (MG).
A alvorada para esses trabalhadores acontece antes do orto solar (nascer do Sol). Não tive opção. Levantei-me muito a contragosto. Tentar dormir com aquela algazarra, sem chances.
Quando cheguei ao refeitório para degustar o fraco café da manhã, não havia mesa disponível. Esperei por meia-hora. Ao término, arrumei meus haveres e voltei ao pedal e à Estrada Real.
Eram 8h quando deixei Conceição do Mato Dentro (MG) para encarar, até Itambé do Mato Dentro (MG), 64 quilômetros fartos em subidas e escassos pontos de apoio.
Na saída e Conceição, uma subida à vera, pelo asfalto da Rodovia MG–010, com dois empinados quilômetros, enquanto a cidade foi ficando cada vez menor, lá embaixo, dentro de um vale e cercado pelo esplendor da Serra do Espinhaço. Morro do Pilar (MG), 27 desertos quilômetros adiante.
Após vencer essa ascensão, um marco do Instituto indica seguir à esquerda.
Abandonei o asfalto da Rodovia MG–010 e voltei à Estrada Real, em leito natural e tocando e tocando em frente.
O tempo deveras nublado, porém, dava indícios de melhoras.
Ao ingressar
na Estrada Real veio uma descida forte para compensar a subida de dois
quilômetros na saída de Conceição do Mato Dentro (MG).
Em seguida,
longo trecho plano e sombreado. De ambos os lados, pequenas propriedades, com
gado no pasto a mastigar capim.
O tempo
começou a abrir. Hora de renovar o protetor solar. Um promissor silêncio foi
quebrado pelo barulho dos pneus, abrindo caminho no solo salpicado por pequenas
pedras. Respirava, a tragos, ar da melhor qualidade.
Atravessei
a ponte sobre o Rio Santo Antônio, que dá nome ao vale no qual
Conceição do Mato Dentro (MG) foi edificada.
Nas águas do Santo Antônio, os primeiros veios de ouro foram encontrados por volta de 1695, dando início ao Ciclo do Ouro no Brasil Colônia.
A mineração atingiu seu auge em
meados do século XVIII e entrou em declínio no início do século XIX, quando D.
João VI, em 1808, decretou oficialmente o fim do ciclo, que perdurou por 113
anos (de 1695 a 1808).
Transposta a ponte sobre o Rio Santo Antônio, as subidas e as descidas se intervalaram até o topo do último aclive, de onde avistei, no alto de uma colina, a torre da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar e sua inconfundível pintura amarela.
O arraial Gaspar Soares, que deu origem à cidade, surgiu no
alto de um morro no qual o bandeirante Gaspar Soares encontrou ouro, em 1701.
Ali, construiu uma capela dedicada à Nossa Senhora do Pilar.
A exploração durou até 1743, quando um desmoronamento matou 18 escravos e interrompeu as atividades mineradoras.
Morro do Pilar abrigou a primeira fábrica de ferro líquido do Brasil, em 1814. A Real Fábrica de Ferro ou Fábrica do Rei é hoje um dos principais pontos turísticos da região.
O Monumento do Intendente da Câmara foi erguido em homenagem ao intendente responsável por sua instalação.
Da época da exploração do ouro estão as ruínas da Mina do Hogó, exploradas pelo próprio fundador da cidade.
A Igreja do Canga, construída em 1710, e a Matriz de Nossa Senhora do Pilar são singelas demonstrações da fé dos moradores de Morro do Pilar.
A localidade conta com infraestrutura turística e tem atrativos naturais, principalmente as quedas d’água, afastadas do centro da cidade, que merecem uma visita.
Disponível em:
http://www.descubraminas.com.br/Turismo/DestinoApresentacao.aspx?cod_destino=99.
Acesso: 31/05/2011.
Às 13h,
cheguei à área central da desconhecida Morro do Pilar (MG), pedalando
pelo calçamento irregular, com pedras dispostas de forma desorganizada.
O Antigo
Arraial de Gaspar Soares abrigou o primeiro alto–forno siderúrgico do Brasil,
ou seja, a primeira fábrica de ferro do País, a Real Fábrica de Ferro do
Morro do Gaspar Soares, hoje, Morro do Pilar (MG), na região Central de Minas
Gerais.
Em modelo
alemão, a fornalha tinha impressionantes oito metros de altura. Tempos depois,
foi transferido para Itabira (MG), terra natal do poeta Carlos Drummond de
Andrade (1902–1987).
Itabira (MG)
cresceu e Morro do Pilar (MG) parou no tempo.
Num bar em
frente à Igreja de Nossa Senhora do Pilar, ao finalizar excelente almoço,
sentei–me num banco, adjacente ao templo, para iniciar a química
digestiva.
Fazia muito
calor.
O
alto–falante da igreja, que funciona como uma rádio comunitária, anunciava que,
naquela noite, haveria uma reunião de pais e mestres do grupo escolar.
Estava sendo
feita a convocação dos responsáveis pelos alunos do Ensino Fundamental e das
pessoas ligadas à igreja, para encontro após a missa das 18h.
Numa
localidade tão pequena como Morro do Pilar (MG), o alto–falante da igreja é o
arauto de boas e más notícias, como o comunicado de falecimento de um nativo,
ocorrido assim que comecei a pedalar rumo à saída da cidade. Toda forma de
comunicação é válida
Faltavam 37
quilômetros para alcançar Itambé do Mato Dentro (MG), local do 4º pernoite. Bem
alimentado, parti às 14h.
Inicialmente,
o caminho é sombreado, relativamente plano e com cinco quilômetros, paralelos
ao Rio do Peixe. Mas a moleza acabou quando o paralelismo entre a estrada e o
rio terminou e o leito da Estrada Real começou a se elevar, pelos 19
quilômetros seguintes, sem refresco.
Esses
quase vinte quilômetros "sem refresco" começaram com uma subida
contínua e moderada por três quilômetros. Em seguida, transformaram–se num
nervoso sobe e desce durante seis quilômetros. Por fim, inclinaram–se
fortemente ao longo de outros dez quilômetros, até coroar o cume, na cota dos
900 metros, quando avistei, ao fundo da paisagem, a deslumbrante Serra do Cipó
e o Cânion das Bandeirinhas.
No trecho
derradeiro para alcançar Itambé do Mato Dentro (MG), com 18 quilômetros,
percorridos entre declives e aclives civilizados, uma paisagem belíssima
flanqueia o caminho: afloramentos rochosos, de origem sedimentar, que parecem
ter vindos do espaço sideral.
Às 17h15,
pedalava placidamente pelo calçamento de Itambé do Mato Dentro (MG), apreciando
a beleza da Igreja Nossa Senhora das Oliveira, cuja a história entrelaça–se com
o Ciclo do Ouro (1695–1808).
É sabido, por tradição, que este povoado - hoje Itambé do Mato Dentro (MG) - foi fundado pelo bandeirante Romão Gramacho, entre fins de 1600 e princípios de 1700.
Mas o ouro encontrado não demorou a minguar e aqueles que escolheram morar na região ficaram presos na armadilha de seu solo pouco produtivo.
Os tropeiros faziam comida cuidando para não serem roubados por um local (nativo) esfomeado.
Fonte: Antônio Olinto/ Rafaela Asprino.Guia Estrada Real Caminho dos Diamantes; Bauru, Graphpress, 2013, p. 71. Acesso: 31/05/2011.
Após a
igreja, atravessei a ponte sobre o Rio Preto do Itambé, conversão à esquerda e
entrei na Rua Central da recôndita Itambé do Mato Dentro (MG).
Pedalava
vagarosamente pelo downtown, esquadrinhando os pequenos empórios,
bares, restaurantes, o ponto de embarque dos ônibus para "belô", a
prefeitura e algumas casas centenárias bem conservadas. Lugar
simpático. Estada na Pousada Lava-Pés. Excelente. Recomendo.
Tomei
merecido e necessário banho e me senti com outra pele, renovada e limpa, após
tanta poeira da estrada.
Saí para
jantar às 19h e dar uma volta pela bucólica localidade, que parece "dormir
com as galinhas" (expressão idiomática).
Às 20h30 não
havia quase ninguém nas ruas. Fui dormir. Belo dia de pedal.
Para um
marinheiro de 1ª viagem pela Estrada Real, em trajeto tão longo, a partir
daquele 4º dia de aventura, a altimetria passou a não assustar muito.
Paraty (RJ)
a 769 quilômetros.
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05/05/2011 |
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5º DIA |
ITAMBÉ DO MATO
DENTRO (MG) A B. JESUS DO AMPARO (MG) |
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44 km |
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ATUALIZAÇÃO |
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Em 2018, o
trecho da Estrada Real As obras
foram iniciadas em 2011 e concluídas em 2016. |
Ao acordar fiquei sabendo que o Fluminense foi eliminado por um time do Paraguai. Adeus Taça Libertadores da América. Tomei café assistindo ao Bom Dia Brasil, que mostrou o fiasco tricolor. Vida que segue.
Ao cruzar o Portal da Cidade, às 9h, Itambé do Mato Dentro (MG) ficou para trás.
A manhã estava magnífica, com céu cheio de Sol, típico do outono nos Trópicos. Meu GPS Gamin marcava deliciosos 16°C, embora a sensação térmica pareceu–me menor, uns 12°C nada deliciosos.
Sentindo
o ar gelado, encarei mediana subida na saída de Itambé do Mato Dentro (MG), na
tentativa de espantar o frio.
Ao chegar ao topo da mediana subida, medi visualmente a distância, de aproximadamente 500 metros, e comecei a ouvi aquele inconfundível som de máquinas pesadas quando dão marcha à ré: pi–pi–pi–pi.
À medida que a subida ia acabando, vi um trator fazendo a terraplanagem do caminho para posterior asfaltamento até Senhora do Carmo (MG), distrito de Itabira (MG), berço do poeta Carlos Drummond de Andrade.
Embora muitos não sejam a favor da cobertura asfáltica da Estrada Real, eu adorei. Nos 15 quilômetros que se seguiram à saída de Itambé do Mato Dentro (MG), à chegada a Senhora do Carmo (MG), nada de valas, pedras soltas ou areia. Alvíssaras!
O caminho até Senhora do Carmo (MG) foi feito em trecho largo, à semelhança de uma pista de aeroporto de porte médio (30 a 45 metros de largura).
As poucas nuvens na minha vertical iam sendo varridas pelos ventos das altas altitudes, não deixando–as com formas compreensíveis. O céu Azul Capri estava maravilhoso.
| Foto: Fernando Mendes. Foto: Fernando Mendes. Foto: Fernando Mendes. Foto: Fernando Mendes. |
Após
1 hora pedalando, em leito compactado e pronto para receber asfalto, cheguei à
pacata Senhora do Carmo (MG), às 10h.
A
Casa do Centro reúne, no mesmo espaço, uma pequena padaria, uma mercearia
sortida e, como em qualquer lugar deste País, não podia faltar um bar.
Precisava fazer uma boquinha para aguentar até a hora do almoço.
Uma
Coca-Cola acompanhada de deliciosas paçocas de rolha é garantia de açúcar na
veia, para enfrentar 16 quilômetros até Ipoema (MG), sem ouvir reclamações do
meu estômago.
Na
maioria das cidades ao longo da Estrada Real, a saída é feita por fortes e, às
vezes, fortíssimas subidas, pelo fato de as localidades terem sido edificadas
na parte mais baixa do sítio [local], facilitando, assim, a captação de água.
Tranquilidade na chegada; dureza na saída. Parti na proa de Ipoema (MG) às
10h20.
E
não fugindo à regra, uma ascensão insana para deixar Senhora do Carmo (MG)
pareceu não ter fim. O trecho calçado com bloquetes sextavados se estende até
um posto de combustíveis, o Posto Potencial.
A
partir do Potencial, começa o leito natural, mas o aclive não termina naquele
ponto. Ainda têm uns 1.500 metros em ascenso. Sábia decisão ao fazer uma
boquinha lá embaixo.
O
trecho até Ipoema (MG) produziu excelentes fotos e belo visual do Pico do
Itambé e de um mar de morros ao fundo, com o Espinhaço soberano e absoluto.
Foram duas horas de pedal para percorrer a etapa Senhora do Carmo a Ipoema (MG), com apenas 16 quilômetros. Trecho cascudo por conta da longa subida na saída.


Às 12h20,
esfaimado (que tem fome; faminto, esfomeado, famélico), cheguei a Ipoema
(MG).
Primeiramente
parada no Restaurante Sabor Real, haja vista o meu estômago estar tão vazio
quanto uma moringa oca. Almocei delicioso PF, com arroz, feijão, salada e
um bifão acebolado, que excedia as bordas do prato.
Deixei a bike no restaurante, saí a passos, dando início a digestão e visitando a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, construída entre 1915 e 1934, em estilo eclético e com duas torres cobertas no frontispício.
O
Museu do Tropeiro, inaugurado em 29/03/2003, foi a segunda atração visitada.
Carlos Humberto de Oliveira Cruz, tataraneto de tropeiro, começou um debate sobre a possibilidade de se criar um memorial [ou museu] dedicado ao tropeirismo e, ao final das conversas, ficou definido o local – Ipoema (MG) – e o nome (Museu do Tropeiro), conforme se tem hoje.
O objetivo é fortalecer a vocação espontânea do tropeirismo, marca do distrito de Ipoema (MG).

Abrigado em uma casa construída no século XVIII e que pertenceu ao tropeiro conhecido como ‘sô’ Neco, o Museu contém hoje mais de 700 peças que fazem alusão à cultura tropeira, além de documentos desses comerciantes (título de eleitor, certidão de casamento e livros de compra e venda), que viajavam pelas estradas do interior brasileiro.
Cerca de 500 peças
pertenceram ao colecionador José Dutra, fazendeiro da cidade de Rio Vermelho. O
local também se transformou num espaço de convivência com múltiplas funções,
sendo palco para apresentações artísticas e culturais, degustação da deliciosa
culinária regional e, principalmente, para a velha e boa prosa.
Nos séculos XVII e XVIII com a descoberta do ouro e, posteriormente, de diamantes, houve uma grande migração de portugueses, paulistas e escravos em busca do "Eldorado", nas terras das Minas Gerais.
Devido ao grande contingente populacional criado na região, a escassez de alimentos e produtos básicos não demorou a acontecer, gerando alta taxa de mortalidade.
Para os mineradores não era viável colocar um escravo para trabalhar na plantação de alimentos, pois era uma força a menos na busca pelo ouro.
Como consequência desse acontecimento, surgiram os Tropeiros, viajantes encarregados de fazerem a transição de alimentos e materiais de necessidades básicas de outras regiões às áreas de exploração.
Os muares (resultante do cruzamento entre jumento e equino) eram os animais propícios para esse tipo de serviço na região, pois outros meios de transporte, como os carros de boi, não conseguiriam chegar aos locais devido às irregularidades do terreno nas zonas de exploração.

À noite saí para caminhar, comi pizza e fui dormir o sono dos justos.
Paraty (RJ) a 725 quilômetros. A mesma distância terrestre entre Brasília (DF) e Belo Horizonte (MG).
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06/05/2011 |
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6º DIA |
BOM JESUS DO
AMPARO (MG) A CATAS ALTAS (MG) |
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73 km |
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Acordei
cedo, mas continuei deitado. Estava escuro. Quando abri a janela, vi que o
tempo estava fechado. Ameaça de chuva. Fui tomar café.
A pousada na qual me hospedei é comandada por pai e filho. Por isso entendi o porquê da ausência de toalhas sobre a mesa. Que falta faz uma mulher na administração de qualquer lugar.
Saí sem dar muita importância ao tempo nublado. Nessa época do ano, as chuvas rareiam e inicia–se a estiagem. Dito e feito.
Às 8h, quando comecei a pedalar pelos
seis quilômetros iniciais na direção de Cocais (MG), as nuvens foram varridas e
o Sol veio forte.
Forte subida na saída de Bom Jesus do Amparo (MG) - a cidade também fica dentro de um buraco para facilitar a captação de água.
Seis quilômetros à frente, um marco do Instituto indica virar à esquerda. Ingressei na Estrada Real, em leito natural, repleta de cascalho e com belos haras a flanquear o caminho.
Atravessei a Rodovia MG–434 que vai para Itabira (MG), e continuei pela Estrada Real, sempre em terreno plano, passando por chácaras e outros haras.
Após forte descida, cheguei à Rodovia BR–381 que, naquele trecho, liga Belo Horizonte (MG) a João Monlevade (MG). Parei num posto BR. Eram 10h.
Depois de abastecer as caramanholas com água, pedalei 500m pelo acostamento, visualizei um marco do Instituto e virei à direita, voltando ao caminho dito "Real".
Um reflorestamento de eucaliptos passou a dominar ambos os lados da senda. Uma paisagem sinistra, semelhante ao filme As Bruxas de Blair (1999), flanqueia o percurso até Cocais, distrito de Barão de Cocais (MG).
Percorri o eucaliptal ao som da passarada, que não prestavam muta atenção em mim, enquanto cortava a névoa que acentuava, ainda mais, a atmosfera funesta daquela etapa.
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Foto: Fernando Mendes.
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Foto: Fernando Mendes.
Em alguns pedaços da travessia dos eucaliptais, houve um silêncio de sabedoria.
Essa parte da viagem ficou na memória. Na minha modesta opinião, é o trecho mais cênico do Caminho dos Diamantes.
Faltando quatro quilômetros para alcançar Cocais, singelo distrito de Barão de Cocais (MG), encarei uma subida razoável, com dois quilômetros, em seguida, descida de igual quilometragem e cheguei à simpática Cocais, local aprazível, com ruas calçadas com pedras dispostas de forma irregular. Eram 11h.
Deixei o almoço para Barão de Cocais (MG), 14 quilômetros adiante.
| Igreja N. Sr.ª do Rosário – Praça do Rosário. Cocais (MG). Foto: Fernando Mendes. |
Às
11h14, na saída de Cocais, rumo a Barão de Cocais (MG), venci forte subida, que
me deixou acima da maioria dos morros da região.
Iniciei pedalando bem devagar por conta das valas, mata-burros, pedras soltas e bovinos a me observar.
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ATUALIZAÇÃO |
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Em junho de
2014, ocasião na qual percorri a Estrada Real entre Conceição do Mato dentro
(MG) e São Lourenço (MG), conheci o Sítio Arqueológico da Pedra Pintada. Recomendo. |
E assim, pedala um pouquinho, empurra um pouquinho e fotografa um pouquinho, venci os oito insanos quilômetros de subida e alcancei o topo. Eram 13h14.
Parei no mirante da Pedra da Cambota, que além de ser considerado ponto chave para estudos geológicos, oferece uma vista panorâmica da região. E que vista.
Coroado o cume, veio outra
floresta de eucaliptos a atravessar. Porém, diferentemente do primeiro
eucaliptal, entre Bom Jesus do Amparo (MG) e o Distrito de Cocais (MG),
majoritariamente em etapa plana, esse segundo reflorestamento é marcado por
descenso ininterrupto, com seis quilômetros de extensão, serpenteando as
árvores, com piso bastante irregular, pedras de variados tamanhos e a bike
sendo sacudida, como milho antes de virar pipoca. Descida tensa.
Vencida a descida tensa de seis
quilômetros, passei sob a Ponte Ferroviária da FCA (Ferrovia Centro Atlântica)
e comecei a pedalar por bairros periféricos de Barão de Cocais (MG), enquanto avistava
o colosso do Maciço do Caraça, ao fundo da paisagem, imponente e majestoso.
Foto: Fernando Mendes.
Às 14h, cheguei à tumultuada
Barão de Cocais (MG), com o estômago implorando por víveres. Os Marcos do
Instituto sumiram ou inexistem dentro da cidade. Senti–me perdido feito um
camundongo no labirinto.
Parei e, ao respirar fundo, avistei o Restaurante e Churrascaria Dona Laurinda, bem à minha frente. Tratei de almoçar e deixei a preocupação, com a ausência de marcos do Instituto dentro da cidade, para depois do almoço. De barriga cheia é mais fácil raciocinar. Almocei bem e fui ao BB sacar uns reais.
O
fato bizarro é a existência de uma siderúrgica na área central da
cidade.
"Perto
do centro, abriu-me a visão de uma enorme siderúrgica da Gerdau que mais
parece um dragão comendo montanhas e cuspindo fogo".
![]() |
| Siderúrgica Gerdau na área central de Barão de Cocais (MG). https://www.google.com/maps/dir>. Acesso: 31/05/2011. |
Às 15h saí da churrascaria e comecei a perguntar aos nativos acerca da saída de Barão de Cocais (MG) para retornar à Estrada Real. Não logrei êxito. Depois da 5ª pessoa me responder que não sabia, desisti de procurar pelos Marcos do Instituto.
Segui para Catas Altas (MG) pela
Rodovia MG–129 (asfalto). Foram 16 quilômetros até o trevo de acesso à segunda
atração do dia: o Bicame de Pedras, um aqueduto construído por
escravizados, em 1792.
A estrutura original de quartzito media cerca de 251 metros de extensão e até 5,10 metros de altura, embora hoje restem cerca de 100 a 200 metros.
Servia para captação de água do alto da Serra do Caraça, que era destinada à lavagem de minérios e cascalhos, como parte do sistema de exploração aurífera dos séculos XVIII e XIX.
A obra do aqueduto consumiu uma
arroba de ouro, equivalente a 15 kg.
Nada de cimento ou argamassa e está em pé há 234 anos (1792–2026).
Conta com um pórtico em formato de arco central que servia para sustentação estética, uma técnica construtiva similar à romana.
Informações obtidas numa placa instalada na entrada.
Bicame de Pedras. Foto: Fernando Mendes.
Bicame de Pedras. Foto: Fernando Mendes.

Catas Altas (MG), edificada na base do Maciço do Caraça, foi fundada em 1703 por bandeirantes, teve a decadência de sua economia com o término da exploração de ouro.
É uma cidade simpática e as ruas são calçadas com pedras no formato de octógonos regulares.
Estada na Pousada Solar da Serra. Fui o único hóspede naquela noite. Viajar em baixa temporada tem suas vantagens.
Catas Altas (MG) e o Maciço do Caraça. Foto: Fernando Mendes.O PORQUÊ DE A LOCALIDADE
A história de Catas Altas, assim como a história de diversas cidades mineiras, está relacionada ao Ciclo do Ouro. O nome “Catas Altas” provém das profundas escavações feitas no alto dos morros.
O povo vendo que o ouro escasseava nos leitos dos rios e córregos e abundava nas partes altas, dizia: "as catas estão altas", "as catas estão ficando em lugares mais altos", "as catas estão em lugares de mais difícil acesso".
Foto: Fernando Mendes.
Quando abri
a janela do quarto, lá estava ela, a Lua Crescente, num fino halo esbranquiçado
e entre farrapos de nuvens. Parecia sorrir e falar para mim. "Estás
indo muito bem na Estrada Real”. “Quando chegares a Paraty, estarei
cheia e saudarei a conclusão da sua aventura".
Em Catas
Altas (MG), cães e gatos formigam pelas ruas. A maioria tem dono, mas seus
tutores preferem que os bichos fiquem à solta.
Diferentemente
de outras cidades que passei, nas quais vi muitos cães e gatos abandonados, em
Catas Altas (MG), quase todos têm coleira. A prefeitura comanda o mutirão de
veterinários e voluntários. Os animais são castrados e cadastrados.
No
Restaurante Casa de Taipa, me fartei com a típica comida mineira: arroz,
feijão, farofa, salada e bisteca de porco.
A etapa do
dia foi puxada, porém recompensada pelas paisagens.
Fui dormir
relembrando a travessia da sinistra floresta de eucaliptos. Lugar especialmente
belo e que merece outra visita, quando possível.
Paraty (RJ)
a 652 quilômetros.
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07/05/2011 |
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7º DIA |
CATAS ALTAS
(MG) A MARIANA (MG) |
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54 km |
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Acordei
tarde, lavei a bike no jardim da pousada e bati em retirada, às 11h.
Todavia, antes de prosseguir viagem, parada para conhecer a Igreja Matriz de
Nossa Senhora da Conceição. Belíssimo templo.
Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Foto: Fernando Mendes. Disponível em: <https://portaledicase.com/5-lugares-para-visitar-na-cidade-historica-de-catas-altas/. Acesso: 31/05/2011. |
O trecho entre Catas Altas (MG) e Mariana (MG) foi percorrido pela rodovia MG–129. Foram 54 quilômetros marcados por fortes aclives e declives, numa estrada com pouco movimento.
Contornei o Maciço do Caraça, ferido em vários pontos pela ação da mineradora Maybach Mineração e Serviços Ltda.
Minas Gerais está sendo consumida – dia a dia – pelas empresas mineradoras. A maioria delas não age em conformidade com a lei e nem sempre são cobradas ou punidas pelos órgãos fiscalizadores do ambiente.
A situação é preocupante. A sociedade civil de Catas Altas (MG) está mobilizada para impedir a degradação do Caraça.
No Brasil Colônia, o ouro seguia das Minas Gerais para o porto de Paraty em comboios formados por mulas. No Brasil do século XXI, o minério de ferro viaja em comboios puxados por locomotivas a diesel até os portos de Vitória (ES) e Sepetiba (RJ).
O ferro é vendido a peso de ouro. No ano 2000, a tonelada era comercializada por US$ 20; em 2011 estava US$ 110, o mesmo preço de 2026.
O aquecimento da demanda mundial pelo minério de ferro, alimentado principalmente pela República Popular da China, tem movimentado um mercado que parecia estar, até então, quase extinto: o da compra de reservas minerais.
Pedalava tranquilamente pela MG–129. Um inconfundível apito de trem varou o ar e o comprido comboio, num ruído seco de freios contraídos, deslizava pachorrentamente, deixando à mostra um enfileiramento de vagões carregados de minério de ferro. Gigantesca e interminável serpente. Parei para assistir.
No passado, o ouro da Capitania de Minas Gerais ia para Portugal; hoje, o ferro de Minas Gerais vai para a República Popular da China. "Exportar é o que Importa". (*)
(*) Ao longo das décadas de 1970 e 1980, o slogan "exportar
é o que importa" sintetizava o objetivo de nosso comércio exterior e a
própria política industrial brasileira, ao estabelecer como prioridade a
inserção do País no comércio mundial, via exportação de bens e serviços
brasileiros.
Disponível em:<https://www.infomet.com.br/site/noticias-ler.php?bsc=ativar&cod=43473>. Acesso: 31/05/2011 (com adaptações).
Estada no Hotel Brasil Real. Após o banho, caminhada pelo Centro Histórico e aproveitar o resto da luz natural para fotos das belas igrejas de São Francisco e Nossa Senhora do Carmo.
Igreja de São Francisco de Assis (à esquerda) e Igreja de Nossa Senhora do Carmo (à direita). Foto: Fernando Mendes.
Mariana - primeiramente nomeada de Ribeirão do Carmo - foi a primeira vila, a primeira capital, a sede do primeiro bispado e a primeira cidade a ser projetada em Minas Gerais.
A história de Mariana, que tem como cenário um período de descobertas, religiosidade, projeção artística e busca pelo ouro, foi marcada também pelo pioneirismo de uma região que, há três séculos, guarda riquezas que nos remetem ao tempo do Brasil Colônia.
Em 1745, por ordem do rei de Portugal D. João V, o Magnânimo, a região foi elevada à cidade e nomeada Mariana – uma homenagem à rainha Maria Ana D’Áustria, sua esposa, transformando-se no centro religioso do Estado.
Naquela época, a cidade passou a ser sede do primeiro bispado mineiro.
Tomei a primeira chávena de café
expresso desde a saída de Diamantina (MG).
Em Mariana, (MG) fim do Caminho dos Diamantes (Diamantina– MG a Ouro Preto –MG).
No dia seguinte, comecei a percorrer o Caminho Velho (Ouro Preto–MG a Paraty–RJ).
A 1ª etapa foi vencida com altivez.
Paraty (RJ) a 598 quilômetros, quase a mesma distância de Brasília (DF) e Barreiras (BA).
08/05/2011 -
DIA DAS MÃES | |
8º DIA | MARIANA (MG) A
CONGONHAS DO CAMPO (MG) |
90 km | |
Eram 9h da manhã quando
deixei Mariana (MG) pela Avenida Nossa Senhora do Carmo, chegando à Rodovia BR–356
(Rodovia dos Inconfidentes), que passa ao largo de Ouro Preto (MG), tornando-se
desnecessária travessia da cidade, com ruas apertadas, muito movimentadas e
ladeiras de absurda inclinação.
Seguindo pela Rodovia BR–365,
vi Ouro Preto (MG) a certa distância.
Às 10h30 cheguei ao trevo
que dá acesso a São Bartolomeu (MG) e Glaura, dois bucólicos distritos de Ouro
Preto (MG). Voltei ao leito da Estrada Real.
Encarei uma subida
honesta, com uns três quilômetros – belo aquecimento para aquele domingo, Dia
das Mães – passando por casas de alto padrão, que se alastram pelo entorno da
Antiga Vila Rica.
Ao final da forte subida –
asfaltada em 2015 –, um marco do Instituto assinala virar à esquerda e
ingressar numa trilha estreita e em mata fechada. (*)
Estrada Real entre Mariana (MG) e Ouro Preto (MG).
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(*) Trilha sem
manutenção faz tempo, atravessa mata muito fechada, piso escorregadio,
muitas, muitas valas profundas e impossibilidade de pedalar em segurança. Essa travessia insana, pode levar de 2 a 3 horas. |
Plano B, acionado pela primeira vez. Ignorei o marco que indica virar à esquerda, continuei a pedalar pelo leito natural até o distrito de São Bartolomeu, pertencente à jurisdição de Ouro Preto (MG), uma pérola de localidade. 21 quilômetros fáceis. Cheguei às 11h30.
Encerrada
a visita a essa acanhada joia barroca do século XVIII, toquei em frente,
percorrendo plácidos 14 quilômetros, em trecho sombreado pela mata que, às
vezes, escondia o céu, chegando à charmosa Glaura, outro distrito de
Ouro Preto (MG), às 12h 30.
Antes do tour fotográfico, parada providencial no Empório Caza Branca. Restaurante maravilhoso. Ravioli ao sugo e gratinado com muçarela. Almoço dos deuses.
Terminado o repasto, fui a passos percorrer e fotografar essa charmosa localidade.
Disponível em: <https://www.google.com/maps/place/Emp%C3%B3rio+Caza+Branca/@
Acesso: 31/05/2011.
Glaura também é chamada de "Casa Branca".
Igreja Matriz de Santo Antônio das Garças Brancas em Glaura. Foto: Fernando Mendes. |
Igreja Matriz de Santo Antônio das Garças Brancas em Glaura. Foto: Fernando Mendes. |
Igreja Matriz de Santo Antônio das Garças Brancas em Glaura. Foto: Fernando Mendes. Majestosa e imponente, a Matriz de Santo Antônio das Garças, com sua fachada rica em detalhes e cunhais de cantaria, é uma lembrança persistente dos tempos áureos do século XVIII, quando Casa Branca era um próspero povoado produtor de ouro. O nome Santo Antônio da Casa Branca deveu-se, provavelmente, à coloração das casas que, em geral, vigoravam nas minas: casas caiadas, casas alvas, casas brancas. Disponível em: https://www.flickr.com/groups/491819@N21/. |
Deixei a charmosa Glaura às 15h06 e, pelo asfalto, a Estrada Real segue o rumo Sul, por oito quilômetros asfaltados, até Cachoeira do Campo (MG), outro distrito de Ouro Preto (MG).
Igreja Matriz Nossa Senhora de Nazaré. Cachoeira do Campo (MG). Foto: Fernando Mendes. |
Cachoeira do Campo (MG), diferentemente da maioria dos 12 distritos que circundam Ouro Preto, nunca se destacou por desenvolver atividades mineradoras. Está assentada nas duas margens da Rodovia BR-365, que liga Ouro Preto (MG) a BH.
Atravessei a 365 e segui por uma ladeira em paralelepípedos, bem empinada, conduzindo-me à Rodovia MG–440. Oito quilômetros adiante, em discreto descenso asfaltado, cheguei a Santo Antônio do Leite, outro distrito de Ouro Preto (MG). Eram 16h.
Faltavam 54 quilômetros para Congonhas (MG) e duas horas para o pôr do Sol.
Matriz de Santo Antônio do Leite (MG).
Parada rápida para
fotografar a Igreja Matriz, logo avistei o marco que indicava a direção de
Congonhas do Campo (MG).
Terminado o trecho em
calçamento, a Estrada Real passou a ser em leito natural, larga e em boas
condições de tráfego.
De ambos os lados, enormes
pastagens circundadas pelo esplendor da Serra do Espinhaço. Pequenas
propriedades à beira do caminho dão o tom bucólico ao lugar.
Atravessei uma ponte sobre
um pequeno córrego, que forma várias corredeiras, convidativas ao banho.
A caminho de Engenheiro Corrêa. Foto: Fernando Mendes.
Engenheiro Corrêa. Foto: Fernando Mendes.
Às 16h25 passei pelo acesso a
Itabirito (MG) e às 16h45 estava atravessando Engenheiro Correa, outro distrito
de Ouro Preto (MG), com casas simples em ambos os lados da Estrada Real.
Pedalava por um piso que um dia foi chamado de asfalto. Parei no único empório local e tomei uma Coca–Cola. Não havia água para vender.
Vi uma senhora debruçada na janela de uma casa. Aproximei–me e saudei–a: “Boa tarde”. Ela respondeu–me em minerês: “tarde sô!” Perguntei se poderia encher minhas duas garrafas com água. Prontamente e, em minrês, ela sorriu e respondeu: “ispera un cadim”. “Vorto gurinha messs”.
E saiu com as garrafas para dentro de casa. Um longo minuto arrastou-se, depois outro, infindável como a passagem do século.
Por fim, ela voltou trazendo uma bandeja: biscoitos, um pedaço de queijo, outro de goiabada e uma garrafa com café. Isso é a hospitalidade mineira, presente na Estrada Real. Pessoas simples, num lugar simples e sempre prontas a ajudar.
Lanche providencial e inesperado. "Viver é ter a chance da surpresa".
Às 17h45, uma hora após minha
chegada a Engenheiro Corrêa, avancei 15 quilômetros, sobre piso em leito
natural e atravessei a minúscula Miguel Burnier, antiga São Julião, outro
distrito de Ouro Preto (MG).
Não foi possível fotografar a localidade devido à pressa. Consegui fotos na internet.
Com o término do Ciclo do Ouro, Miguel Burnier transformou–se num dos mais importantes pontos de entroncamento da estrada de ferro no Brasil
A Estação Ferroviária, que herdou o nome do chefe da ferrovia, o engenheiro Miguel Noel Nascentes Burnier, foi inaugurada em 1887, tendo completado 124 anos em 2011
Em 1889, a ferrovia chegou até Ouro Preto. A transferência da capital mineira, de Ouro Preto para Belo Horizonte, desembarcou e embarcou em Miguel Burnier, além da mão de obra e materiais necessários para a construção de Belo Horizonte, vindos de diversas partes do Brasil.
Miguel Burnier era o ponto de entroncamento que ligava a nova Belo Horizonte a Ouro Preto e ao Rio de Janeiro.
Mas com a decadência do transporte ferroviário no Brasil, esse ramal foi abandonado, depois de ter passado, em 1970, à administração da Estrada de Ferro Leopoldina.
Em 2007 começaram a existir tentativas locais de reforma e reutilização do prédio da estação.
Infelizmente tudo em Miguel Burnier cheira a miséria.
As casas, outrora, ricas, bem construídas e adornadas, são ocupadas por gente que não tem onde cair morta.
Sem manutenção, essas moradias vão aos poucos definhando, lentamente desaparecendo, matando o passado ferroviário que hoje se resume aos trens da MRS, que levam aço da Usiminas para os Portos do Rio de Janeiro e Santos.
Disponível em:
http://www.estacoesferroviarias.com.br/efcb_mg_linhacentro/burnier.htm.
Acesso: 31/05/2011.

Miguel Burnier não é a única localidade do Brasil que entrou em decadência devido à desativação de um ramal ferroviário.
Próspera
no passado, hoje o distrito sucumbe ao descaso e padece no esquecimento.
Um projeto chamado Estação Cultura está tentando recuperar uma das mais importantes estações ferroviárias do Brasil.
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ATUALIZAÇÃO -
2012 |
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No dia 10 de novembro de 2012, o imóvel foi devolvido à
comunidade que, enfim, pode usufruir o espaço totalmente restaurado. Passou à sede do Projeto Estação Cultura. O imóvel foi, então, integrado ao cotidiano da comunidade como
sede do Centro Comunitário, que é utilizado para ensaios da banda de música e
coral, reuniões comunitárias e serviços sociais prestados pelo Município de
Ouro Preto (MG). Assim, retomada a sua função social, a propriedade tornou–se
local de uso coletivo, como deve ser um bem cultural. |
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Disponível em:
<https://patrimoniocultural.blog.br/patrimonio-cultural-ferroviario/estacao-de-miguel-burnier/.
Acesso: 07/05/2021. |

No Brasil, o rodoviarismo eclipsou o ferroviarismo e as rodovias foram elevadas à condição de cultura e arte.
Várias expressões, ligadas às rodovias, foram incorporadas ao linguajar cotidiano: “vou pôr o pé na estrada”, “fulano é experiente e tem “x” anos de estrada” ou “para me aposentar, ainda tenho muita estrada a percorrer”.
Às 18h04, com a luz natural findando, parti para os derradeiros 20 quilômetros até Congonhas do Campo (MG).
O
asfalto não tardou a chegar. Sendo assim, em pouco mais de uma hora estaria parando
para pernoite. Estaria, futuro do pretérito do verbo estar, ou seja, aquilo que
não chegou a acontecer. A ver o motivo mais adiante neste relato.
Às 18h38, com uma réstia de luz natural no Oeste, passei sob uma colossal ponte ferroviária da MRS Logística, o Viaduto Soledade.
Cinco quilômetros à frente, estava
sobre o asfalto da rodovia MG–443 que, 11 quilômetros adiante, termina no
entroncamento com a BR–040, no perímetro urbano de Congonhas do Campo (MG). Eram 19h.
Às 19h18
avistei a placa indicativa "Congonhas do Campo (MG) à direita".
Abandonei a MG–443 e desci a alça de acesso à Rodovia BR–040.
Sentia–me
quase no hotel, tomando banho merecido e necessário. Minhas pernas estavam
negras da fuligem do minério de ferro, que cai dos caminhões que circulam pelo
caminho.
Entrei na
BR–040. Restavam três quilômetros para alcançar a entrada de Congonhas (MG).
Senti a bicicleta instável. O que eu menos queria naquela hora era um pneu
furado, faltando tão pouco para chegar.
Em
latim:"Quod non habet remedium". "O que não tem remédio,
remediado está". Frase tão velha quanto o mundo.
Empurrei
a bike até um posto de combustíveis à beira da rodovia, tirei
os alforjes, saquei a roda traseira e substituí a câmara furada por uma nova.
Fui à borracharia, providenciei o remendo e enchi o pneu. Àquela altura dos
acontecimentos, DEVERIA estar no hotel, banhado e preparando-me para o
jantar.
"O
que está feito, feito está".
Frase
de Fiódor Dostoiévski 1821–1881,
escritor, filósofo e jornalista do Império Russo.
Eram 19h55
quando voltei a pedalar por uma rua paralela à BR–040, que me levou ao centro
de Congonhas do Campo (MG).
Ainda
faltava subir uma ladeira de três quilômetros para alcançar o Hotel Colonial,
situado em frente à Igreja Matriz do Bom Jesus de Matosinhos. Creio que
nem o Monte Calvário seja tão inclinado.
Encerrei a
jornada daquele Dia das Mães degustando uma deliciosa macarronada no
restaurante anexo ao Hotel Colonial.
Hotel Colonial.
Disponível em: <https://viajeibonito.com.br/wp-content/uploads/2018/01/congonhas-minas-gerais-hotel-continental.jpg>. Acesso: 31/05/2011.
Antes de
dormir, fui tirar fotos da Igreja Matriz do Bom Jesus do Matosinho.
Noite clara,
com um Lua Crescente entre fiapos de nuvens, que dançavam ao vento de
altitude.


Entre 1800 e 1805, Aleijadinho – Antonio Francisco Lisboa – (1738–1814), realizou o conjunto de esculturas monumentais, marcando definitivamente sua obra: os 12 profetas em pedra–sabão de tamanho quase natural, feitos para o adro dianteiro do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos de Congonhas do Campo (MG)
Exemplo contundente do desenvolvimento do barroco no Brasil. Talvez a sua última grande manifestação
O santuário barroco de Bom Jesus de Matosinhos é o célebre monumento histórico e artístico de Congonhas. Patrimônio da Humanidade foi tombado pelo IPHAN em 1985.
Construído em várias etapas, nos séculos XVIII e XIX, por vários mestres, artesãos e pintores, como o Aleijadinho e Manuel da Costa Ataíde, é uma das maiores realizações do barroco brasileiro.
O santuário mineiro começou a ser construído como pagamento de uma promessa feita pelo fiel português Feliciano Mendes em 1757. Espelha-se no Santuário do Bom Jesus de Braga, em Portugal.
Aleijadinho foi o responsável apenas pela parte escultórica do pátio, sendo o projeto arquitetônico de responsabilidade de Tomás de Maia Brito.
Paraty (RJ) a 508 quilômetros. Metade do caminho foi vencido.
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09/05/2011 |
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9º DIA |
CONGONHAS DO
CAMPO (MG) A SÃO JOÃO DEL REI (MG) |
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113 km |
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Disponível em:<https://www.google.com.br/>.
Acesso: 31/05/2011 (com adaptações).
Noite mal
dormida é pior do que bater na mãe. O restaurante anexo ao Hotel Colonial é
ponto de balada. E a música tocou alto madrugada adentro. Parou às 4h.
Como "Infortunium
est parum ineptiis" – desgraça pouca é bobagem, em latim –, a
cozinha do Hotel Colonial estava sob meu quarto. Aromas noturnos de comida,
fritura e óleo queimado.
Quando a
fuzarca acabou, consegui dormir, mas por pouco tempo. Às 6h, o telefone da
recepção do hotel começou a tocar e não apareceu ninguém para atendê–lo.
Continuou tocando, distante, insistente.
Enfurecido,
levantei–me, fui ao balcão e tirei-o do gancho. Isso me garantiu mais duas
horas de sono.
Às 8h, muito
contrariado e sentindo–me nada descansado, levantei-me. O dia parecia nublado e
cinza.
Quando abri
a janela do quarto, não vi nada. Forte névoa alvadia (esbranquiçada), espessa
e sinistra envolvia o histórico sítio de Congonhas do Campo (MG).
Tomei café e
fiquei à espera de melhoras nas condições do tempo. Sabendo que no outono esse
tipo de formação é comum em regiões serranas e que a única maneira de haver
dissipação da névoa alvadia é com o aumento da temperatura, fiquei a esperar
que o Sol fizesse a sua parte.
Às 10h30, o
Sol aqueceu o ar e a névoa alvadia dissipou–se rapidamente, como se
dissipa um sonho bom.
Parti
com duas horas de atraso. Fui obrigado a executar um caminho alternativo,
genericamente chamado de "Plano B", executado pela segunda vez, haja
vista o adiantar da hora.
Caso
mantivesse a disciplina ao caminho, dito Estrada Real, chegaria a São João del
Rei (MG) por volta da meia–noite, quiçá no alvorecer do dia 10/05.
Pela BR–040
saí de Congonhas (MG) às 11h10. Fui na direção Rio de Janeiro (RJ).
Três
quilômetros à frente, virei à direita [saída 618] e aconteceram as primeiras
pedaladas na BR–383, que liga Congonhas (MG) a São João Del Rei (MG). 110
quilômetros sobre asfalto, acostamento razoável e movimento fraquíssimo.
Mesmo não
pedalando pelo tramo principal da Estrada Real, a BR–383 faz parte da REG.
ESTRADA REAL (Região da Estrada Real).
Após pedalar os 16 quilômetros iniciais da BR–383, cheguei a São Brás do Suaçuí (MG), localizada na microrregião da Serra do Espinhaço.
O município tem uma altitude em torno de 1.000 metros, é servido pela Ferrovia do Aço e está na Zona Metalúrgica de Minas Gerais.
Pausa para delicioso almoço. Comida boa, mas o recinto do restaurante estava envolto em muita fumaça do fogão à lenha. Saí de lá defumado.
Por volta das 14h, voltei à lida no pedal e ao caminho. A próxima cidade, Entre Rio de Minas (MG), 18 quilômetros à frente, foi alcançada às 15h30.
Mais 31 quilômetros e cheguei a Lagoa Dourada (MG),
a terra do rocambole. Eram 17h 30. Optei por não comer a iguaria que
tornou o município conhecido. Estava muito quente.
O povoamento de Lagoa Dourada começou por volta de 1625, quando a bandeira comandada por Oliveira Leitão descobriu ouro nas águas de uma pequena lagoa. Por volta de 1717, a região estava bem povoada e o arraial foi se formando com a chegada de novos “oureiros”.
Em 1734, Dom Frei Antônio de Guadalupe ergueu, então, uma capela dedicada a Santo Antônio. Em 1750, o arraial foi elevado a “Distrito da Paz”.
Em 1832, o nome original de Alagoa Dourada foi alterado para Lagoa Dourada, uma referência à lagoa ali existente, muito rica em ouro.
Após o esgotamento das jazidas auríferas, o arraial buscou alternativa na agricultura, principalmente, no milho e na produção do leite.
Em 1892, o distrito passou a pertencer a Prados, e em 1911, foi finalmente emancipado.
A comunidade é habilidosa na produção de licores, vinhos e doces caseiros, que também recheiam os famosos rocamboles.
De fato, os deliciosos pães de ló recheados de doces variados fazem jus à fama.
Passar por Lagoa Dourada significa provar e comprar rocamboles para levar.
Essa receita, que vem sendo passada de geração em geração, tem as dicas que lhe garantem o irresistível sabor.
Disponível em: http://www.descubraminas.com.br/Turismo/DestinoApresentacao.aspx?cod_destino=188. Acesso: 31/05/2011.
Às 17h45 atravessei o perímetro urbano de Lagoa Dourada (MG). Faltavam 39 quilômetros para São João Del Rei (MG). Como pedalava fora da Estrada Real, de nada adiantava consultar a planilha ou a altimetria.
Resolvi
perguntar a um nativo acerca do trecho a seguir.
– "Olá". “Boa tarde". Saudei-o.
– "Tarde sô", respondeu-me, prontamente, o nativo e em minerês.
– "O senhor sabe me dizer se daqui até São João Del Rei têm muitas subidas", perguntei.
–"NNNNNNNNÚ”. "Daqui ni São João é uns 40 quilontros". "Logali daquilá".
E como não poderia deixar de ser, veio aquela pergunta de praxe:
– "Ocê nessa bicicreta lá evém didonde"?
– "De Diamantina e vou para Paraty", falei de imediato.
– "NNNNNNNÍ". "Cê besta sô"! "Ocê tá vindo de Diamantina mesm"? "Nú"! "Não sei se ocê é doidimais ou animadimaissss".
Por diversas vezes ouvi essa reação quando dizia de onde vinha e aonde (ou para onde) estava indo.
E concluiu: “Ocê vai descê dôi morro”. “Logali daquilá”.
Isso, em linguagem minerês, quer dizer: "você vai descer dois morros. É rapidinho daqui até lá". A informação foi precisa.
Na saída de Lagoa Dourada (MG) uma descida longa, depois um trecho plano, mais descidas e planuras até que, às 19h30, cheguei à entrada da São João Del Rei (MG), localizada no Vale do Rio das Mortes.
A Pousada do Bispo fica nas cercanias da Matriz de São Francisco de Assis. Como todos na cidade conhecem a igreja, foi fácil alcançar o local de pernoite.
No dia seguinte, não houve pedal. A bike foi para revisão.
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10/05/2011 |
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10º DIA |
DIA EM SÃO
JOÃO DEL REI (MG) |
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Beco do Bispo é uma pousada nota 10. O proprietário, Átila Godoy (27/04/1940– 12/06/2026), foi o idealizador ou mentor da Estrada Real. Infelizmente faleceu, mas deixou um legado inesquecível para ciclistas e demais aventureiros.
Pedalar pela Estrada Real é prova cabal de felicidade.
Fiz questão de me hospedar numa das melhores estalagens da cidade, afinal passei dois dias em São João Del Rei (MG). Conforto é bom e eu gosto.
Jantei deliciosa lasanha e dormi numa cama enorme, onde pude me esparramar à vontade. Foi um dia de pedal duro, Sol forte e muitas subidas até Lagoa Dourada (MG).
Felizmente, havia um Plano B no qual evitei a Estrada Real, em virtude do elevado atraso na saída de Congonhas (MG), por conta da neblina espessa. Tudo estava dando certo. Que sensação maravilhosa.
Havia pedalado 559 quilômetros. Paraty (RJ) estava a 400 quilômetros. Mais da metade do caminho foi vencido.
No dia seguinte, nada de pedalar. Estava programado levar a bike para revisão e passar o dia na malandragem.
Acordei às 9h (isso é hora de acordar), tomei delicioso café (pequeno almoço em Portugal) e fui para a Bike Advanced cumprir a única obrigação daquela terça-feira (10/5/2011).
Voltei a passos e sem pressa para o centro histórico. Muitas fotos e deliciosa chávena de café expresso, numa padaria próxima à Estação Ferroviária. Fui à Igreja de São Francisco de Assis. Mais fotos.
A
ocupação remonta a 1704, quando um paulista chamado Lourenço Costa descobriu
ouro no ribeirão de São Francisco Xavier.
A
descoberta fez com que as terras fossem distribuídas a várias pessoas, que
começam a explorar as margens do ribeirão.
Algum
tempo depois, o português Manoel José de Barcelos encontrou mais ouro na
encosta sul da Serra do Lenheiro, num local chamado Tijuco.
Naquele
local estabeleceu–se o primeiro núcleo de povoamento, chamado de Porto Real,
que deu origem ao Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, mais tarde Arraial
Novo do Rio das Mortes e atual São João Del Rei.
Em 8 de
julho de 1713, o então Arraial Novo do Rio das Mortes foi elevado à categoria
de vila, em homenagem ao Rei Dom João V de Portugal, o Magnânimo.
Disponível em:
https://guiadaestrada.com.br/listings/historia-de-sao-joao-del-rei/. Acesso:
31/05/2011.

Bela e imponente, a Igreja de São Francisco de Assis é a grande referência da arquitetura religiosa colonial de São João Del Rei.
Em 1749, existia uma capela dedicada ao santo.
Em 1772, essa capela encontrava–se em péssimas condições, levando a Ordem Terceira Franciscana a iniciar um novo templo.
“A autoria do projeto original é do
Aleijadinho, comprovada pelo risco existente no Museu da Inconfidência de Ouro
Preto.” (IPHAN).
Mas, para executar o risco, foi contratado o mestre Francisco de Lima Cerqueira, que fez várias mudanças no projeto original, como substituição das torres oitavadas, modificações no desenho dos óculos da nave e alteração do arco–cruzeiro.
Os trabalhos arquitetônicos foram concluídos em 1804.
Disponível em:
https://guiadaestrada.com.br/listings/historia-de-sao-joao-del-rei/. Acesso:
31/05/2011.
São João del Rei (MG). Foto: Fernando Mendes.
São João del Rei (MG). Foto: Fernando Mendes.
São João del Rei (MG). Ponte da Cadeia. Foto: Fernando Mendes.
São João del Rei (MG). Foto: Fernando Mendes.
São João del Rei (MG). Igreja de São Francisco de Assis.
Foto: Fernando Mendes.

São João del Rei (MG). Foto: Fernando Mendes.
Encerrado o périplo fotográfico, tomei a direção de um
restaurante ao lado da Estação Ferroviária. Comida mineira da melhor qualidade.
Saboroso feijão, o mais delicioso que degustei ao longo da jornada.
Precioso café expresso numa padaria adjacente à casa de pasto e voltei para a pousada. Dormi até às 17h30. Descanso merecido e reparador. Fazia 10 dias que não sabia o que era dormir após o almoço. Essa parada programada em São João Del Rei (MG) foi deveras providencial.
Bike revisada e tudo em ordem. Voltei pedalando para a pousada. No caminho, passei por outra bicicletaria. Na vitrine, à exposição, um par de alforjes. Foi amor à primeira vista. Comprei-o para substituir o par que levei comigo, deveras surrado pelo uso acumulado nas longas viagens desde sua aquisição, em 2007.
À noite tomei deliciosa sopa de mandioquinha e, após essa entrada, lasanha no prato principal.
Voltei para o quarto e assisti TV detendo o monopólio do controle remoto. Que maravilha! Diversos canais – entre abertos e a cabo – para meu deleite.
Antes de dormir, deixei os haveres arrumadas nos alforjes novos.
Adormeci antes das 22h.
Paraty (RJ) a 395 quilômetros, quase a mesma distância entre Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP), pela Via Dutra, que é de 402 quilômetros.
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11/05/2011 |
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11º DIA |
SÃO JOÃO DEL
REI (MG) A SÃO VICENTE DE MINAS (MG) |
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86 km |
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Acesso: 31/05/2011 (com adaptações).
Acordei às
8h tendo a sensação de ouvir barulho de chuva. Percepção errada, ufa! O jardim
interno da pousada estava sendo regado. Mas o dia amanheceu nublado e havia
previsão de pancadas isoladas para a região.
Tomei
delicioso café da manhã, com frutas, pão de queijo e omelete. Quando estava
pagando a conta, o funcionário da recepção perguntou–me qual era o meu destino
naquele dia. De pronto, respondi: “Carrancas" (MG)”!
Ele me deu
uma notícia nada animadora: "A Estrada Real, entre Capela do Saco e
Carrancas (MG) está muito ruim para quem pedala com bagagem". "Além
disso, a Fazenda Traituba – local de possível pernoite entre
Carrancas (MG) e Cruzília (MG) – foi fechada e posta à venda".
Informação de grande valia.
Pela terceira vez, recorri ao
Plano B: seguir até São Vicente de Minas (MG) pelas Rodovias BR–265 e BR–383.
Deixei São
João Del Rei (MG) às 8h15. De acordo com as informações obtidas com o
funcionário do hotel – o mesmo que me falou acerca da precariedade da Estrada
Real, entre Capela do Saco (MG) e Carrancas (MG) –, a referência para acessar a
saída da Cidade dos Sinos é a Igreja de São José Operário, localizada no
tradicional Bairro do Tijuco, para onde me dirigi, pedalando em meio a ruas apertadas, com trânsito confuso e o frenesi de motos com escapamentos adulterados.
Quando visualizei o templo, à minha direita, uma placa, fixada acima de um sinal de trânsito, indica "BR-265 à esquerda".
Quando a luz verde apareceu no semáforo,
conversão, em ângulo de 90º, à esquerda, e ingresso numa subida leve, porém, longa,
que "deságua" – finalmente – na Rodovia BR–265.
Em virtude
das ruas apertadas e do trânsito cascudo, quase uma hora para sair da Cidade dos Sinos.
Pouco depois
das 9h, dei por iniciado os trabalhos daquele 11º dia de jornada, girando os
pedais – nonstop –, por 19 quilômetros, até o trevo de acesso
São Vicente de Minas (MG), local do pernoite daquela 3ªf. O tempo permanecia
emburrado.
No km 274 da
Rodovia BR–265, virei à esquerda e ingressei na Rodovia BR–383.
Acesso: 31/05/2011.
Ao seguir por asfalto, não passei por Carrancas (MG), além das localidades de São Sebastião da Vitória (MG) e
Caquende (MG), ambos distritos de São João del Rei (MG) e Capela do Saco,
distrito de Carrancas (MG).
Caquende e Capela do Saco ficam
em margens oposta do lago formado, quando o Rio Grande foi represado, dando
origem à Usina Hidrelétrica de Camargos, administrada pela CEMIG.
Felizmente, em minha 2ª edição pela Estrada Real – junho de 2014 –, conheci os distritos de São Sebastião da Vitória, Caquende e Capela do Saco. Os dois últimos foram os únicos sítios que ficaram acima da linha d'água quando o Rio Grande foi represado.
Madre de Deus de Minas (MG), 36 quilômetros à frente, foi a parada para almoço no Hotel, Restaurante e Pizzaria Casarão, ou seja, três em um. Eram 11h45.
Local simples, bem organizado, limpo e self service sortido, tendo minhas iguarias preferidas: arroz e feijão; depois vêm os demais víveres.
Parti da singela Madre de Deus de Minas (MG) ao meio–dia e meia e, 30 quilômetros adiante, pedalando quase solitariamente pela Rodovia BR–383, adentrei em São Vicente de Minas (MG), a terra dos queijos finos.
A partir de Madre de Deus (MG), comecei a girar pelas Montanhas Mágicas da Mantiqueira. A Serra do Espinhaço ficou para trás.
Foi um dia de pedal tranquilo e vagaroso, com Sol entre nuvens e chegada a São Vicente de Minas (MG) às 17h30, ao crepúsculo vespertino ou ocaso.
Foto: Fernando Mendes.
Foto: Fernando Mendes.
Chegada a São Vicente de Minas (MG). Foto: Fernando Mendes.
Desde 1888, o município de São Vicente de Minas (MG) é cruzado por uma ferrovia que, até 1931, era de responsabilidade da Estrada de Ferro Oeste de Minas.
Durante as décadas seguintes passou a ser propriedade da Rede Ferroviária Federal S.A (RFFSA). Atualmente a concessão cabe à FCA e o trecho é conhecido por Ferrovia do Aço.
Em setembro de 1912, a antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas inaugurou uma estação com sete residências, nas proximidades do Pico Minduri, que deu o nome à cidade.
Até 1920, muito pequeno era o movimento daquela estação, que servia mais como um posto de abastecimento de água, lenha e carvão às locomotivas da época.
Em 12 de dezembro de 1953, Minduri foi elevada à categoria de município.
Em 1940, passou a ser chamado de Minduri, nome indígena que significa "quem faz casa no chão", referência a uma abelha, também chamada manduri, típica da região.
A estação fechou para passageiros em 1996, quando o trem Barra Mansa a Ribeirão Vermelho deixou de operar.
Hoje é um centro cultural do município. Atualmente, a Concessionária FCA (Ferrovia Centro-Atlântico) opera a linha férrea da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas, transportando apenas cargas.
A principal é o minério de ferro, que segue para a CSN, em Volta Redonda (RJ).
Fonte: Estações Ferroviárias do Brasil (11 de setembro de 2010). «São Vicente de Minas».Consultado em 31/05/2011.
Estação Ferroviária em São Vicente de Minas (MG).
Em São Vicente de Minas (MG) o tempo começou a esfriar. Estada na Pousada Rosa dos Ventos, ampla, limpa, bem localizada e com excelente café da manhã.
Por volta das 19h, saí para jantar na Pizzaria Paulista, com sortidas iguarias, mas a música ao vivo estava em volume além do meu gosto.
Quando retornei à estalagem,
sentindo o ar gelado, o termômetro do meu relógio assinalava 11°C.
Deitei-me sob um cobertor acolhedor e esperançoso quanto à elevação do moral para o dia seguinte, com pedal de 80 quilômetros até Caxambu (MG).
Paraty (RJ) a 309 quilômetros, a mesma distância terrestre entre Brasília (DF) e Cavalcanti (GO), um dos principais destinos turísticos na Chapada dos Veadeiros.
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12/05/2011 |
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12º DIA |
SÃO VICENTE DE
MINAS (MG) A CAXAMBU (MG) |
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80 km |
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Acesso: 31/05/2011 (com adaptações).
Disponível em:<https://www.google.com.br/>.Acordei com
a claridade que vencia as cortinas pouco densas do quarto. Verifiquei o
termômetro do relógio de pulso, que assinalava 16°C. Lá fora, devia estar
menos que isso.
Às 10h
deixei São Vicente de Minas (MG). Não foi possível sair mais cedo. O frio
estava desaconselhável. Aconselhável seria continuar deitado e ficar mais tempo
na cama. Mas, como de hábito, a disciplina prevaleceu.
Pedalei
forte para aquecer o corpo e a alma, em meio à temperatura tão baixa.
Cheguei à
pequena e incógnita - pelo menos a mim - Minduri (MG), 23 quilômetros à frente
de São Vicente, às 11h21. Hidratação e avante!
Foto: Fernando Mendes.
A próxima cidade alcançada foi Cruzília (MG), ocorrida às 13h, após percorrer 33 quilômetros fartos em ondulações, que se assemelham à amplitude de uma senoide (*)
(*) Curva matemática que descreve uma oscilação suave e repetitiva, baseada na função trigonométrica seno.
Acesso: 30/01/2016.
Era como se a Serra da Mantiqueira estivesse me avisando: “camarada, isso é apenas o começo do sobe e desce intenso que encontrarás pela frente”.
Foto: Fernando Mendes.
Cruzília (MG) fica dentro de um buraco fundo. Desci muito para alcançar o downtown e chegar ao Restaurante Castelinho, no qual saboreei uma refeição, farta, deliciosa e merecida.
O Sol brilhava forte e a temperatura era bem agradável. O GPS marcava 23°C. Foi uma boa opção o Plano B. O moral, aos poucos, elevou-se.
Ao fundo, o colosso da Mantiqueira. Foto: Fernando Mendes.
Estrada Real entre São Vicente de Minas (MG) e Cruzília (MG). Foto: Fernando Mendes.
Para mim,
não chegou a ser decepcionante ter pedalado, a partir de São João del Rei (MG),
fora do caminho dito “oficial” da Estrada Real.
O caminho
dessa estrada nunca foi estático. Variantes ou descaminhos para fugir à
cobrança do “quinto”, desmoronamentos, lamaçais, alternância das estações do
ano, surgimento de cidades, fazendas que foram desmembradas, passagens outrora
livres, hoje estão restritas às mineradoras, são algumas explicações para
entender o porquê de a Estrada Real, que aparece nos mapas de hoje, NÃO ser
exatamente aquela aberta nos séculos XVII e XVIII.
Por isso, as
placas indicativas de distâncias, por exemplo, trazem sempre, na parte
superior, os dizeres: “REG. ESTRADA REAL”, que significa que o
viajante NÃO está – quem sabe – na Estrada Real, mas na REGIÃO
INFLUENCIADA por ela, na qual existem polos turísticos que
englobam 199 municípios, dos quais 169 estão no Estado de Minas Gerais (MG), 22
no Estado de São Paulo (SP) e 8 no Estado do Rio de Janeiro (RJ).
Durante as
pesquisas para realizar minha viagem, encontrei diferentes definições e
explicações acerca da Estrada Real, seus caminhos e descaminhos.
Uma delas
está na obra: "A História do Caminho de Ouro Preto a Paraty", de
Marcos Caetano Ribas, além de outras bibliografias citadas no box abaixo.
OS CAMINHOS E
OS DESCAMINHOS |
Por Marcos
Caetano Ribas |
À página 7, o autor anotou: “como
resultado desse empenho na difícil busca de respostas às tantas indagações
que, em sua maioria, encontram–se até hoje em aberto com relação ao traçado
do caminho, ou dos caminhos, percurso que variou no espaço, no tempo e nos
descaminhos”. À página 28, da obra do mesmo autor, está
registrado: "Acontecia um descaminho quando eram sonegados os
impostos de uma mercadoria legal de livre circulação, como era o caso do ouro". "Para mercadoria ilegal e de circulação proibida (diamantes), que
tinham um contratador com exclusividade de exploração e vendas, era
considerado contrabando". Em outro trecho da mesma obra, está registrado à página 29: "Representação feita pelo Conselho Ultramarino ao Rei de Portugal, D.
Pedro II, "o pacificador", que reinou de 1863 a 1706: "quanto
mais forem os caminhos, mais descaminhos haverá". E finalmente, à página 14, Marcos Ribas registrou: “Esse tempo todo existiram outros caminhos, trilhas e descaminhos”? "Sem dúvidas que
sim! "As trilhas do mato não eram como as modernas
autoestradas de asfalto ou cimento, fixas e imutáveis". "Eram,
por suas naturezas, incertas e movediças". "Mesmo pelas trilhas principais, algumas veredas
certamente teriam que existir para permitir a passagem furtiva (às
escondidas) dos famosos santos do pau oco, com ouro escondido no bojo,
exemplos emblemáticos do contrabando generalizado que então se praticava". |
Fonte: Ribas, Marcos Caetano. A História do Caminho do Ouro em
Paraty / Marcos Caetano Ribas. - : Contest Produções Culturais, 2003, 3ª
Edição. |
A Estrada Real deve ser entendida como uma extensa e dinâmica
malha viária – e não uma rota única como o nome, no singular, pode sugerir,
pois muitos trechos foram importantes somente em determinados momentos, sendo
substituídos gradualmente por trechos mais funcionais e transitáveis. |
(RENGER, p.
136, 2007). |
Os vestígios de alguns deles ainda hoje podem ser contemplados,
assim como trechos calçados, localizados sobretudo em regiões íngremes, de
passagem mais difícil dos viajantes, comboios de escravizados e tropas nos
períodos de chuva. Esses calçamentos encontram-se muitas vezes degradados e
provavelmente a maior parte não existe mais, em função da expansão de áreas
urbanas, soterramento (no caso dos trechos localizados em matas densas),
falta de manutenção, construção de rodovias, vandalismo, entre outras causas. |
(CUNHA e
GODOY, p. 29, 2003). |
Outra dificuldade para se estabelecer por onde passa (ou passou) o caminho dito “oficial”, deve–se ao fato de o Brasil ser um país sem memória histórica. Nação que não prima por registrar hoje, o que será história amanhã.
Esse movimento de penetração do
litoral para o interior, em busca de riquezas, mudou definitivamente a
configuração do País, até então com sua ocupação concentrada ao longo do
litoral.
Foi a grande corrida provocada pela descoberta do ouro no Sertão de Cataguás, atual Estado de Minas Gerais que, em ato sem precedentes, interiorizou o povoamento do Brasil e deslocou mão de obra escravizada, que abundava nos canaviais da Zona da Mata Nordestina, para as regiões auríferas dos atuais Estados de Minas Gerais (MG), Goiás (GO) e Mato grosso (MT).
Após almoçar muito bem no Restaurante Castelinho, em Cruzília (MG), raspei–me dali às 14h, para encarar os derradeiros 23 quilômetros do dia até Caxambu (MG), sob um espetacular céu sem nuvens e a esplendorosa Serra da Mantiqueira a me espreitar, pedalada por pedalada.
Dez quilômetros após Cruzília (MG), a Rodovia BR–383 desemboca na Rodovia BR–267, que me conduziu a Caxambu (MG), passando por Baependi (MG).
Eram 16h30 quando cheguei à cidade das águas minerais.
Foto: Fernando Mendes.
Hospedagem
no Grande Hotel de Caxambu. Infelizmente o estabelecimento está muito
malcuidado, principalmente a parte interna. Os tacos estão soltos no assoalho,
os móveis velhos e sem manutenção. O glamour (encanto) de outrora foi
substituído pelo abandono.
Depois do
banho, dei umas voltas pela cidade, tomei café expresso e fui visitar a Igreja
Matriz.
Aproveitei a saída e passei por uma loja de bike. Agendei uns ajustes nas marchas e nos freios para o dia seguinte.
Durante a execução do planejamento da viagem,
programei um dia em Caxambu (MG) para conhecer a cidade e, principalmente,
passear pelo Parque das Águas.
O Parque das Águas em Caxambu é o único a concentrar, no mesmo local, fontes de água mineral, com propriedades químicas diferentes umas das outras. Dentro do limite do parque, há o suntuoso complexo arquitetônico do Balneário.
Uma luxuosa construção datada de 1912, com imenso portal de vitral, abrigando diversificados banhos, duchas, saunas e piscinas térmicas de água mineral.
Caxambu está sobre o maior manancial de águas minerais carbogasosas da Terra. São mais de dois milhões e meio de litros fluindo diariamente por meio de doze fontes.
Disponível em: http://www.turismo.mg.gov.br/component/content/article/41/447-caxambu. Acesso: 31/05/2011.
Jantei delicioso nhoque à bolonhesa numa casa de massas. Voltei à cafeteria e tomei outro expresso. Recolhi–me ao Grande Hotel, pois a temperatura, segundo um termômetro da rua, era de 15°C.
Caxambu
(MG) fica no coração da Mantiqueira na cota de 900 metros. Essa altitude é
suficiente para rebaixar as temperaturas, principalmente à noite.
Nenhuma preocupação em dormir cedo, pois o dia seguinte foi de malandragem.
Acordar tarde e sem o compromisso de pedalar, não tem preço.
O hotel estava vazio e quando apaguei a luz do quarto, cenário de filme de terror. Lembrei–me da película “O Iluminado”.
Faltavam cinco dias para a Lua Cheia.
Paraty (RJ) a 229 quilômetros. Viagem maravilhosa.
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13/05/2011 |
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13º DIA |
DIA EM CAXAMBU
(MG) |
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# # # # |
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Deixei a bike para ajustes na oficina e saí para conhecer o Parque das Águas.
Pelas ruas vi muitas charretes, paisagem característica de cidades que não perderam seu ar rural e bucólico, apesar da grande urbanização pela qual Caxambu (MG) vem passando.
Da portaria do Parque, segui por uma
alameda bem arborizada.
Parque das Águas. Caxambu (MG). Foto: Fernando Mendes.
Fonte D. Pedro II. Foto: Fernando Mendes.
É a fonte mais antiga e simbólica do Parque das Águas. Possui interessante construção em estilo greco-romano sendo um dos cartões postais da cidade de Caxambu.
A captação ocorreu em meados do século XIX, e o pavilhão atual, de inspiração neoclássica, foi construído no início da década de 1960.
O prédio em que ela se encontra possui cúpula apoiada por pilastras grossas, não tendo paredes. Em seu interior, encontra–se uma réplica da coroa que pertenceu a S. M. I o Senhor Dom Pedro II.
A Fonte Dom Pedro em Caxambu MG está em uma pilastra de mármore encimada pela Coroa Imperial. A água sai de uma torneira de aço inox.
Depois de beber a saborosa água da Fonte D. Pedro II, fui ao prédio da Hidroterapia. Havia um pequeno movimento de pessoas que usavam a sauna e as salas de banho.
Fazer uma sauna seria uma boa pedida. Mas eu deveria ter atestado médico. Deixei para outra ocasião.
Creio que andei pelos 210.000 m2 do Parque ou quase isso. O movimento era pequeno, as águas do lago estavam espelhadas e as fotos renderam belos dublês de imagem.
Deixei o Parque ao meio–dia
e fui conhecer a Igreja de Santa Isabel de Hungria.
Igreja de Santa Isabel de Hungria. Foto: Fernando Mendes.
Oferecida pela Princesa Isabel, em agradecimento ao pedido atendido, pois, foi considerada estéril e as águas de Caxambu a curaram.
Tempos depois, deu à luz três filhos: Pedro de Alcantara, em 1875, Luís Maria, em 1878 e Antônia Gastão, em 1881. Luísa Vitória, natimorta, em 1874.
A construção da igreja foi iniciada em novembro de 1868.
A consagração do templo aconteceu em 1897, oito anos após o golpe militar de 1889, que passou o Brasil à República e sepultou a Monarquia.
A Família Real se exilou na França e Dom Pedro II morreu por lá, no Hotel Bedford, em Paris, no dia 5 de dezembro de 1891, aos 66 anos de idade.
A arquitetura da igreja é em estilo neogótico, utilizado a partir da segunda metade do século XIX para a construção de templos religiosos.
Um dos acessos para a igreja é feito por uma escadaria de 126 degraus.
Ao longo do caminho, estão passos da Via Sacra, iluminados por lanternas; no topo, há um cruzeiro de cinco metros de altura.
Subi os 126 degraus e conheci o templo por fora. Lá do alto, bela vista da cidade de Caxambu (MG). Desci e fui almoçar delicioso arroz com feijão, salada e bisteca de porco.
Após a refeição, café expresso e ida à lotérica fazer uma fé na Megasena acumulada. Foi uma manhã cheia.
Voltei ao hotel e dormi deliciosamente até o fim da tarde. Ao despertar, caminhei até a oficina e retirei a bike.
Limpa, revisada, sem marchas pulando e com novas pastilhas de freios, despertou vontade de pegar a Estrada Real, quando dei uma volta para testar a manutenção feita.
De volta ao Grande Hotel, guardei a bike na garagem, agasalhei–me e fui jantar na mesma casa de massa da noite anterior. Pizza portuguesa de qualidade.
Terminei o dia querendo beber uma água mineral Caxambu. Não logrei êxito na busca por delicioso líquido. Em Caxambu (MG), não se encontra água mineral Caxambu.
A explicação é que os tributos que incidem sobre a água mineral, que leva o nome da cidade, são elevados. Assim, os comerciantes preferem vender outras marcas, como a São Lourenço.
A produção de Água Mineral com a marca "Caxambu" é comercializada para outras Unidades da Federação.
Parque das Águas. Caxambu (MG). Foto: Fernando Mendes.Parque das Águas. Caxambu (MG). Foto: Fernando Mendes.
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14/05/2011 |
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14º DIA |
CAXAMBU (MG) A
PASSA QUATRO (MG) |
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60 km |
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Disponível em:<https://www.google.com.br/>.
Acesso: 31/05/2011 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/>.
Acesso: 31/05/2011 (com adaptações).
Sempre me embasando na tese de que toda viagem deve começar depois das 8h da manhã, deixei Caxambu (MG) às 9h30.
Foto: Fernando Mendes.
Caso
optasse seguir viagem pela Estrada Real, não chegaria à cidade sorriso (Passa
Quatro – MG) naquele sábado, perderia o passeio de Maria Fumaça, que acontece
aos finais de semana.
Os 32 quilômetros que separam Caxambu (MG) de Pouso Alto (MG) foram percorridos em subidas intermináveis e intervaladas por curvas sinuosas.
A paisagem da Mantiqueira é exuberante. A rodovia é sombreada pela Mata Atlântica e como o movimento era pequeno, o canto da passarada ditou o ritmo das pedaladas.
Passei por Pouso Alto (MG) às 12h30. Hora do almoço.
Parti às 13h e pedalei nove quilômetros para alcançar Santana
do Capivari (MG). Naquele ponto, deixei a BR–354 e ingressei na MG–158.
Outros nove quilômetros – em
descidas – até passar por Itanhandu (MG) e outros 12 quilômetros – com descidas e
subidas suaves – até Passa Quatro (MG).
Cheguei às 14h51. O dia estava esplendoroso, céu com poucas nuvens, típico do outono tropical brasileiro.
Foto: Fernando Mendes.
Estada na Pousada Ecos da Montanha. Excelente estalagem.
Fui à Estação Ferroviária e adquiri o bilhete para o passeio de trem do dia seguinte.
Aos finais de semana e feriados, a Locomotiva 332, da marca Baldwin, fabricada nos EUA, em 1929, faz um percurso de 10 quilômetros, saindo da Estação de Passa Quatro (MG), indo à entrada do Túnel da Mantiqueira e voltando, os mesmos 10 km, em marcha à ré, de volta à Estação de Passa Quatro (MG).
Em seguida, caminhada pela cidade. Era preciso aproveitar a luz natural para registros fotográficos.
Visitei a Igreja Matriz de São Sebastião, a 4º capela construída na cidade, em 1850, pelos fundadores de Passa Quatro, Ana Motta Paes e José Ribeiro Pereira.
A imagem de São Sebastião foi trazida de Portugal.

Fotografei o casario colonial e as ruas de paralelepípedos. Passa Quatro (MG) é daqueles lugares que não dá vontade de ir embora.

Passa Quatro (MG). Foto: Fernando Mendes.
Passa Quatro (MG). Foto: Fernando Mendes.
À
noite, jantar delicioso no Restaurante Casa da Fazenda, a poucos passos da
Pousada Ecos da Montanha. Os trabalhos daquele antepenúltimo dia estavam
finalizados.
Voltei à estalagem e dormi por quase 12 horas, sem intervalos.
Faltavam 169 quilômetros para Paraty (RJ) e três dias para a Lua Cheia.
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15/05/2011 |
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15º DIA |
PASSA QUATRO
(MG) A GUARATINGUETÁ (SP) |
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70 km |
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Acesso: 31/05/2011 (com adaptações).

Dei um pulo da cama às 9h. Pensei
ter perdido a hora, ou melhor, o trem.
Passado o susto, tomei café, arrumei meus haveres, paguei a conta na pousada, deixei a bike na garagem, para pegá-la na volta do passeio de Maria Fumaça, para seguir viagem até Guaratinguetá (SP).
Cheguei à Estação Ferroviária uns 20 minutos antes do trem partir.
Tirei fotos da Locomotiva 332 e às 10h o apito soou alto e varou o ar da cidade, som nostálgico dos tempos
da RMV (Rede Mineira de Viação).
Estação Ferroviária de Passa Quatro (MG).
Foto: Fernando Mendes.
Locomotiva Baldwin 332. Foto: Fernando Mendes.
Também conhecido como Trem da Serra, o passeio começou na histórica Estação de Passa Quatro (MG). O percurso feito pela Locomotiva 332 é histórico. O cenário deslumbrante, visto da janela do trem, é formado pela Mata Atlântica recobrindo a Mantiqueira, pequenos vales e abundantes riachos.
Com pouco mais de 20 minutos de viagem, parada para conhecer a Estação Manacá, comprar lembrancinhas e guloseimas variadas, vendidas em profusão nas áreas externas e internas do terminal.
De volta ao comboio (trem), outros 30 minutos para vencer um trecho em subida leve, até chegar à Estação Coronel Fulgêncio. Parada de meia–hora.
Todos desceram do comboio e, caminhando – talvez 100 metros – entre os trilhos e pisando nas dormentes, chega–se à entrada do majestoso Túnel da Mantiqueira, construído sob a Garganta do Embaú, no ano de 1882, e inaugurado em 14 de junho de 1884.
Contou com a ilustre presença de
S.M.I o Senhor D. Pedro II e da Família Real, que realizou a primeira viagem
ferroviária no trecho entre Passa Quatro (MG) e Cruzeiro (SP).
Os trilhos fazem parte de antigo Ramal da Estrada de Ferro Minas e Rio, que ligava Cruzeiro (SP), lá embaixo, no Vale do Paraíba, a Três Corações (MG), passando por São Sebastião do Rio Verde, Itanhandu, Passa Quatro, Soledade de Minas, terminando em São Lourenço, num percurso de 169 quilômetros .
Três Corações (MG), é a terra natal de Edison Arantes do Nascimento, o Pelé (1940–2022).
No interior da galeria e áreas externas, ocorreu uma memorável batalha durante a Revolução Constitucional de 1932 (*), ou Guerra Paulista.
(*) O movimento armado, aconteceu no Estado de São Paulo, entre 9 de julho e 4 de outubro de 1932, teve por objetivo derrubar o Governo Provisório de Getúlio Vargas e promulgar outra constituição para o Brasil, em substituição à Carta Magna de 1894, a primeira da era republicana.
As tropas federais adentraram o Túnel da Mantiqueira por Passa Quatro (MG) e derrotaram os paulistas, que os esperavam doutro lado da galeria, em Cruzeiro (SP).
São Paulo, depois da revolução de 1932, voltou a ser governado por paulistas.
Dois anos depois, foi promulgada a Constituição de 1934, que durou apenas três anos.
Em 10/11/1937, Getúlio Vargas, enfim, consumou o seu longamente amadurecido golpe de Estado palaciano.
As eleições presidenciais marcadas para 03/01/1938 – às quais, constitucionalmente, Vargas não poderia se candidatar – estavam suspensas, assim como a Constituição promulgada em 1934.
A Assembleia foi dissolvida e os partidos políticos também.
Censura aos meios de comunicação daquela época (rádios e jornais – a TV chegou ao Brasil em 1951) e criaram tribunais especiais para julgar os crimes políticos.
Todas as visões discordantes deviam ser silenciadas à nascença.
O regime adotou duas diretrizes fundamentais: Ordem e Progresso e recebeu o nome de Estado Novo, mesmo nome da ditadura estabelecida por Salazar em Portugal, em 1926 e que se prolongou até 1974.
O Estado Novo Brasileiro teve vida bem mais curta, felizmente.
Acabou em 1945 com a deposição de Getúlio Vargas.
(Nota do Autor).
Túnel da Mantiqueira. Foto: Fernando Mendes.
Foto: Fernando Mendes.
Às 12h, a Locomotiva 332 Baldwin 1929, carinhosamente apelidada no Brasil de "Maria Fumaça, retornou a Passa Quatro (MG), desembarquei, voltei à pousada, subi na bike e parti rumo a Guaratinguetá (SP), fáceis 70 quilômetros, a maior parte em descidas.
Serra da Mantiqueira. Foto: Fernando Mendes.
Foto: Fernando Mendes.
Locomotiva 332 vista da MG – 158. Foto: Fernando Mendes.
Locomotiva 332 vista da MG – 158. Foto: Fernando Mendes.
MG - 158.
Foto: Fernando Mendes.
MG - 158.
Foto: Fernando Mendes.
Foto: Fernando Mendes.
Ao deixar o Mirante da Serra e retornar ao pedal, voei baixo numa descida alucinante, com 8 quilômetros de extensão, na Rodovia SP–052, indo à forra após tantas subidas desde a saída de Diamantina (MG). Maior adrenalina.
Quando a estrada estabilizou, parei no maravilhoso Restaurante Essência do Vale e almocei deliciosa macarronada à bolonhesa. Eram 15h. Havia descido 600 metros em 8 quilômetros.
Foto: Garçom do restaurante.
Ao voltar à estrada, consultei a planilha e Guaratinguetá (SP) estava a 36 quilômetros. Pedalava agora por uma região plana, muito quente, intervalada por curtas descidas e subidas.
E assim, o perfil do terreno se manteve até acessar a Via Dutra, às 17h20, 11 quilômetros à frente do Restaurante Essência do Vale.
Foto: Fernando Mendes.
Do ingresso na Via Dutra até a área central de Guaratinguetá
(SP), onde fica o Kafe Hotel, local do pernoite daquele penúltimo dia de viagem, pedalei 25 quilômetros, com
acostamento largo e pavimentação excelente.
À medida que avançava para alcançar a saída 60, que corresponde ao km 60 da Dutra –, avistava, não muito distante, flash de relâmpagos no interior de uns cumulus–nimbos, a nuvem do mau tempo, com grande desenvolvimento vertical e arauta (*) de chuva forte.
(*) Arauta é o feminino de arauto.
Em poucos minutos, um rio vertical desabou sobre mim, chuva característica de fim de tarde, em dias quentes e curta duração (uns 15 minutos), mas arrefeceu o ar abafado.
Nesse cenário pós-chuva passageira, cheguei a Guaratinguetá (SP), topônimo originário da língua tupi-guarani, significando a reunião de muitas garças brancas.
A palavra é a junção de três termos: Guará (ou gûyrá), que significa ave ou garça; Tinga, que significa branco ou branca e Etá, que significa muito, reunião ou abundância
Chegada a Guaratinguetá (SP). Foto: Fernando Mendes.
No Kodama Sushi e Pizza – dispensei a pizza –, fartei–me com os víveres nipônicos, deveras sortidos e bem frescos.
Voltou a chover forte quando saí do restaurante. O jeito foi esperar passar e torcer para que fosse uma chuva tão rápida quanto a que me saudou na chegada, há poucas horas.
Mas veio para ficar ou, pelo menos, demorar. Depois de quase uma hora esperando que a bátega estiasse, desisti e fui caminhando, entre um pingo e outro, até chegar ensopado ao Kafe Hotel, à semelhança de um pardal que pede abrigo em dias chuvosos; chuva que veio para lavar a alma e retirar o restante da poeira do caminho.
Faltavam dois dias para a Lua Cheia iluminar Paraty (RJ) e saudar minha chegada.
Paraty a 99 quilômetros, um pouco
menos do que a distância terrestre ente o município do Rio de Janeiro e o
município de Araruama (RJ), localizado na Região dos Lagos, que é de 119
quilômetros.
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16/05/2011 |
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16º DIA |
GUARATINGUETÁ
(SP) A CUNHA (SP) |
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53 km |
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Acesso: 31/05/2011 (com adaptações).
Às 10h, com o Sol dividindo o céu com
nuvens de brancura láctea, parti da Terra das Garças Brancas, para o penúltimo
dia da aventura.
Contornei a Praça Santo Antônio, onde está assentada a Igreja Matriz de Santo Antônio de Guaratinguetá e continuei pelas ruas Feijó, Sete de Setembro, Tamandaré, transpassei, por meio de um mergulhão, o viaduto da Dutra, continuei pela Rua Tamandaré, agora pedalando paralelamente à Via Dutra, até alcançar o trevo (ou rotatória), no qual tem início a Rodovia Estadual SP–171, que dá acesso a Cunha (SP). Eram 10h46.
Igreja Matriz de Santo Antônio de Guaratinguetá.
Foto: Fernando Mendes.
No dia anterior (15/05/2011), desci 8 quilômetros na Serra da Mantiqueira, vindo de Passa Quatro (MG) e ingressei no Vale do Paraíba. Agora era preciso sair do Vale, subir a Serra do Mar, até seu ponto mais alto, para descê-la e chegar a Paraty (RJ).
Muitos cicloturistas preferem percorrer o Caminho Velho até Paraty (RJ), iniciando a jornada em Ouro Preto (MG), sob o seguinte argumento: "do interior (Ouro Preto - MG) para o litoral (Paraty - RJ) têm mais descidas do que subidas". Percepção errônea (ou quase).
Levando–se em as subidas – de Paraty (RJ) a Ouro Preto (MG) (ascensos) – e as descidas – de Ouro Preto (MG) a Paraty (RJ) (descensos) – ascensos e descensos quase se equivalem, numa proporção de 2,04 m (de subida ou descida) para cada quilômetro pedalado.
A conclusão que cheguei é a seguinte: a maioria dos cicloturistas prefere sair de Ouro Preto (MG) rumo a Paraty (RJ), por entender que as descidas predominam em relação às subidas. Isso é fato, mas a diferença altimétrica é quase imperceptível, de apenas 12%, conforme as tabelas que se seguem.
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PARATY (RJ) A OURO PRETO (MG) |
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ACLIVE TOTAL |
10.639 m |
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DECLIVE TOTAL |
9.411 m |
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1.228 METROS DE ASCENSÃO (SUBIDAS) |
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OURO PRETO (MG) A PARATY (RJ) |
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ACLIVE TOTAL |
9.411 m |
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DECLIVE TOTAL |
10.639 m |
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1.228 METROS DE DESCENSO (DESCIDAS) |
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Os
primeiros oito quilômetros da SP–171 são planos e sombreados. Existem pequenos
sítios e comércio modesto a flanquear o caminho.
Vencido esse tranquilo e refrescante trecho, uma placa informa: “faixa adicional nos próximos 12 quilômetros”. Preparei as pernas e os pulmões.
Ao coroar o final da subida de 12 quilômetros, com 3ª faixa adicional, avistei uma churrascaria. Aleluia! Era o que precisava para acalmar meu estômago que, àquela altura, estava em prantos, após longa subida e nenhum ponto de apoio para alimentação, enquanto a temperatura subia e o Sol torrava a carcaça.
Quando me aproximei do letreiro "Churrascaria da Serra", não senti aroma de carne sendo assada, porque o estabelecimento estava fechado.
Viagem que segue, com estômago tão oco quanto um cântaro vazio.
Pouco metros após o empório de carnes na brasa, a estrada inclinou para baixo. Quando comecei a me animar para descer forte o declive que começava, avistei, à beira da Rodovia SP –171, uma lanchonete – ou oásis –, à minha esquerda.
Comprei água e bati uma tigela [700 ml] de açaí. Meu estômago e minha goela agradeceram. Eram 13h12.
Havia percorrido exatos 24 quilômetros desde a saída de Guaratinguetá (SP) e os 29 quilômetros finais, até a cidade de Cunha (SP), foram marcados por longas descidas e curtas subidas, vencidas em 1h e 44 minutos.
Cheguei à antiga Freguesia do Falcão às 14h56.
A Estância Climática de Cunha tem suas origens por volta de 1695.
Naquela época, muitos aventureiros subiam a serra pela trilha dos Guaianás, com destino ao Sertão de Minas Gerais, atraídos pela notícia de que havia ouro e pedras preciosas naquela região.
Com isso, Cunha, que era conhecida como “Boca do Sertão”, tornou–se parada obrigatória para descanso e reabastecimento das tropas.
Em 1730, os viajantes que se fixaram na região, construíram um povoado no qual a família portuguesa Falcão ergueu uma capela chamada Sagrada Família.
Devido à contribuição dessa família para o povoado, durante muito tempo a cidade foi chamada de Freguesia do Falcão.
No início do século XVIII, a grande movimentação de tropas pelo local atraiu bandidos e saqueadores.
Muito ouro que vinha de Minas Gerais para embarcar em Paraty–RJ, rumo a Portugal, foi desviado.
Devido à necessidade de se criar um posto para vigiar o local, surgiu a Barreira do Taboão, localizada entre a Freguesia do Falcão e Paraty.
Com o declínio do ciclo do ouro, muitos desbravadores acabaram ficando na região atraídos pelo clima e pela fertilidade do solo.
Essa intensa movimentação gerou um rápido desenvolvimento local. É o maior município interiorano do estado de SP, com 1.410 410 km2.
Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/cunha/historico.Acesso: 31/05/2011.
Hospedei–me na Pousada Clima da Serra. Recomendo. Tomei banho e não tive coragem de sair à rua.
Depois que o corpo esfriou das pedaladas "escalando" a Serra do Mar, pude sentir como estava esfriando. O termômetro do GPS marcava, fora do chalé, 13°C. Eram 16h.
Acomodei-me sob um delicioso cobertor e tentei ver TV. Mas o sono me venceu em poucos minutos.
Acordei por volta das 18h. Havia escurecido. Senti que a temperatura havia caído mais um pouco. Saí do chalé para conferir. Diante de mim, a Lua quase cheia. Faltava um dia. Tirei fotos. Entrei e me preparei o jantar, servido no restaurante da estalagem. Deliciosas panquecas, recheadas com carne moída e queijo.
Enquanto me fartava com deliciosa refeição, regada a algumas cervejas geladas, o tempo, e seu dinamismo incomparável, virou e começou a chover intensamente. Há dez minutos o tempo estava limpo e a Lua – quase cheia – era visível.
Cunha, com 1.100 metros de altitude, está localizada em uma ferradura formada pela Serra do Mar e duas serras do seu subgrupo: Bocaina e Quebra-Cangalha.
O Oceano Atlântico fica a apenas 50 quilômetros, na direção Sul. A umidade vinda do mar ascende pela serra e provoca chuvas orográficas, quase que diárias na cidade.
A
explicação para tanto frio é simples: estávamos numa estação intermediária
(outono) associada à elevada altitude. Resultado: muito frio, principalmente à
noite.
Quando voltei, sob forte chuva, do restaurante para o chalé, a temperatura havia caído para 10°C. Foi a segunda (e última) vez que usei calças compridas e casaco durante a aventura. A primeira foi na noite que dormi em São Vicente de Minas (MG).
A chuva ficou moderada e, aos poucos, foi parando, mas o céu permaneceu encoberto e a claridade da Lua era vista de forma opaca.
Por volta das 22h, ouvi um barulho de algo que batia insistentemente na porta do chalé. Fui verificar. Era o rabo de uma cadela (Catarina, esse é o seu nome). Estava molhada, tremia de frio e parecia me pedir ajuda.
Usei uma toalha velha, que sempre levo na bagagem à cautela. Enxuguei–a e fui buscar comida no restaurante da pousada.
Fiquei sabendo que o animal é da dona da estalagem. Ela me deu um pote com ração e levei–o para Catarina.
Comeu muito e ficou na varanda a me fazer companhia, acomodada sobre meus pés, enquanto relembrava cada trecho que percorri na Estrada Real entre Diamantina (MG) e Cunha (SP). Sensação de ter saído “ontem” para o início da empreitada.
Enquanto isso, voltou a chover forte e eu espiava os grossos pingos, à semelhança de bagos de uvas, a molhar aquela noite, sem Lua e sem estrelas.
Deitei–me e apaguei antes de a chuva terminar, ou engrossar mais.
Paraty (RJ) a 46 quilômetros. Estava quase conseguindo.
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17/05/2011 |
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17º DIA |
CUNHA (SP) A
PARATY (RJ) |
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46 km |
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E chegou o
último dia. Ele sempre chega; demora, mas chega.
Eram 10h
quando comecei a pedalar pela Alameda Francisco da Cunha Meneses em direção ao
portal da cidade, o mesmo por onde entrei no dia anterior. Chovia comedidamente
e a temperatura em civilizados 17°C.
Ao ingressar na Rodovia SP–171, repeti o mesmo ritual que faço ao iniciar um dia de pedal. Zerei o ciclo computador da bike e liguei o GPS de pulso, que me informou a temperatura, a altitude, a proa a ser seguida, a hora do nascer do Sol, a hora do pôr do Sol e os batimentos cardíacos. Pura rotina.
Checklist feito,
parti. Estava ciente que teria – como de fato tive – um dos dias mais
difíceis a percorrer.
Do 8º
quilômetro, após a saída de Cunha (SP), até atingir a divisa dos Estados de São
Paulo (SP) e do Rio de Janeiro (RJ), são 28 quilômetros de extensão, com subida
ininterrupta, que varia de moderadas a encardida, em 440 metros de
elevação.
E tudo isso
sob chuva fina, que começou comedidamente a cair, na saída de Cunha (SP), e foi
se avolumando, como se avolumam as águas de um rio quando ocorre o fenômeno
conhecido por "cabeça d'água".
Enquanto a
grande subida de 28 quilômetros inclinava, o ritmo pedalado declinava. Parei
para tirar a camisa ensopada e suada. Coloquei outra, limpa e seca.
Vesti, pela
primeira e única vez na viagem, o casaco corta–vento. Foi agradável a sensação
de estar usando uma roupa seca e limpa, sob uma vestimenta impermeável.
Foto: Fernando Mendes.
Parei e
consultei o GPS. Estava na cota 1.300m e faltavam, portanto, 240 metros de
elevação – em derradeiros 10 quilômetros – para chegar à divisa dos
Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro.
A chuva
bailava no ar ao sabor do vento. Eram 11h52 e nenhum veículo havia passado
por mim, nem indo e tampouco vindo.
A Cachoeira
do Mato Limpo passou à direita. Eram 12h29. Mas banho naquelas condições
meteorológicas, nem pensar.
A blusa
limpa e seca que vesti, em substituição à molhada, estava ensopada,
minha bermuda colada às pernas, a sapatilha com água transbordando, mas "quem
está na chuva é para se molhar", conforme antigo ditado, que parece
ter mais anos que o Sol.
Às 13h10,
avistei uma placa à certa distância. Inicialmente, não identifiquei o que
estava escrito, devido à visibilidade distorcida, por conta dos olhos molhados
pela chuva e da moderada neblina que parecia me abraçar.
Aproximei-me
mais um pouco e, sobre a superfície enferrujada, li: "divisa São
Paulo – Rio de Janeiro a 500 metros". Alvíssaras.
Fim do
martírio daquele dia. Às 13h40, coroei o cume na altitude de 1.540m. É a maior
altitude do Caminho Velho e a maior da Estrada Real, em seus quatro caminhos.
Havia
acabado de conquistar o meu Everest pessoal.
Da divisa
SP/RJ até Paraty (RJ), a estrada inclina singelamente para baixo, em 23
abençoados quilômetros.
Chovia e
fazia frio. Minha blusa estava ensopada, mas de suor. Apesar da temperatura
baixa, o esforço dos últimos quilômetros me aqueceu.
Estrada Real entre Cunha (SP) e Paraty (RJ).
Foto: Fernando Mendes.
A partir da divisa SP/RJ, a Rodovia a SP-171 termina e começa a Rodovia RJ-165, que tem os 10 quilômetros iniciais em leito natural, em virtude de atravessar o Parque Nacional da Serra da Bocaina (subgrupo da Serra do Mar).
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A etapa entre
a divisa SP/RJ e o limite do Parque Estadual da Serra da Bocaina, sempre em
péssimo estado de conservação, foi calçado com bloquetes. Fim do
tormento. Obra concluída em 2015. |
As chuvas
dos últimos verões deixaram a Rodovia RJ–165 impraticável para veículos de
passeio e de carga. Somente os 4X4 (e fuscas) trafegam por tão precário
caminho.
pós
registrar em fotos minha passagem pela divisa, iniciei a descida, sem pedalar e
driblando as crateras abertas no solo dos últimos quilômetros da Estrada Real,
Caminho Velho.
Foto: Fernando Mendes.
Foto: Fernando Mendes.
Foto: Fernando Mendes.
Percebi que a chuva havia aumentado. Mas logo notei que não era chuva; era a transpiração da mata.
Igualmente
à Amazônia, as raízes das árvores da Mata Atlântica funcionam como bombas de
sucção, que retiram o excesso de água da chuva do solo e nutrem os vegetais. Ao
transpirar, as plantas jogam umidade no ar, processo conhecido como
evapotranspiração.
Foto: Fernando Mendes.
Essa umidade
que as plantas jogam no ar, somada à umidade proveniente do Atlântico, provocam
as intensas chuvas que caem na região ao longo dos anos.
A mesma água
cai repetidas vezes. O Sol de hoje evaporou a chuva que caiu ontem, que subirá
para cair novamente amanhã. É o ciclo hidrológico.
Os índices
pluviométricos na etapa entre Cunha (SP) e Paraty (RJ) são os mais elevados da
Estrada Real e um dos maiores do Brasil.
O Município
de Calçoene (AP) – 9.174 habitantes – IBGE 2011 – é a
localidade mais chuvosa do País, com precipitação média anual de 4.165 mm.
O
estudo foi levantado pelo pesquisador, Daniel Pereira Guimarães, que atua na
área de agrometeorologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(EMBRAPA).
Essa
organização está vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento.
A análise
desses dados foi realizada, em 2006.
Em 2022,
o Censo IBGE recenseou 11.461 habitantes em Calçoene (AP).
Gastei uma
hora para descer os 10 quilômetros iniciais, em leito natural, da
Rodovia RJ–165, em petição de miséria. Hoje, não mais.
Quando o
leito natural deu lugar ao asfalto, ao final da área do Parque Estadual da
Serra da Bocaina, avistei a Baía de Paraty, lá embaixo e "florida"
por tantas embarcações.
Faltavam 13
quilômetros para o término da jornada, que começou em Diamantina (MG), duas semanas atrás.
A oito
quilômetros do Portal de Paraty (RJ), parada, no Bairro da Penha, onde existe
uma igreja sobre uma pedra, como são todas as igrejas da Penha pelo
Brasil.
Igreja Nossa Senhora da Penha.
Foto: Fernando Mendes em visita a Paraty (RJ), em 2005.
Tomei deliciosa Coca–Cola no Bar da Marlene e percorri os derradeiros quilômetros, descendo, sem pedalar, e sentindo o ar ainda umedecido pela chuva que havia dado uma trégua.
Quando a estrada voltou a ficar plana, transpassei a ponte sobre o Rio Perequê–Açu, atravessei o Bairro Pantanal e entrei na ciclovia.
Parei
diante de uma placa que indicava “Paraty”.
Comemorei
minha triunfal chegada, às 15h, após 17 dias de viagem e 978 quilômetros
pedalados.
Atravessei o maior conjunto de terras altas do País, formado pela Serra do Espinhaço, pela Serra da Mantiqueira e pela Serra do Mar.
Nos séculos XVII e XVIII, esse percurso
(Diamantina a Paraty) era feito entre 75 e 90 dias.
Não sou
tropeiro, sou ciclista. Não vim a cavalo, vim pedalando.
Às 15h43
cheguei ao Portal de Paraty (RJ).
Foram as últimas pedaladas da viagem. Pedaladas vagarosas, enquanto observava o movimento na cidade naquele meio de tarde.
Nenhuma daquelas pessoas podia imaginar a aventura que eu acabara de realizar, muito menos a sensação de dever cumprido e meta alcançada. Mais uma aventura para meu portfólio.
Essa viagem
foi tão maravilhosa quanto às demais que concluí. Ela não foi a mais longa,
porém, foi a mais especial e encantadora, até então.
Alegria e
emoção, comparáveis quando o time do coração faz um gol, no último minuto dos
acréscimos, e decide o campeonato.
Parei a bike
na beira do cais, onde a Estrada Real chegou ao fim, num fim de tarde
alaranjado.
Silenciosamente
dediquei a conquista ao meu querido e saudoso pai que, decerto, viaja comigo
aonde quer que eu vá. E de onde ele está agora, deve estar igualmente
orgulhoso.
Também
agradeci a todos que, a distância, me acompanharam, me apoiaram e me
incentivaram.
Depois do
banho fui à Bike Shop Show, desmontei a Guerreira e embalei–a para
a viagem de volta à minha casa, em Brasília (DF).
É impossível
chegar a Paraty (RJ) e não ficar, pelo menos, dois dias a passear e a
fotografar lugar tão encantador.
Às 13h do
dia 20/05/2011, segui em ônibus da Reunidas Paulista até o Terminal Tietê, de
onde reembarquei, noutro ônibus, da Empresa Rápido Federal, rumo a Brasília
(DF), chegando, à minha casa, no sábado, dia 21/05/2011.
Creio ter
percorrido a Estrada Real rápido demais.
Na próxima
edição, irei a pé para bebericar demoradamente as belezas e singularidades do
caminho.
“O melhor não é chegar, mas aproveitar o caminho”.
(Anônimo).
Antônio Fernando Mendes, 51 anos, Professor de
Geografia e Geógrafo.
Brasília, 31 de Maio de 2011.

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