Viagem de Bike - Estrada Real - Diamantina (MG) a Paraty (RJ). Outono 2011.


VIAGEM DE BIKE - MAIO 2011

ESTRADA REAL - DIAMANTINA (MG) A PARATY (RJ)

978 KM

[...] foi graças à explosão dos metais preciosos [na Capitania de Minas Gerias] que os problemas financeiros do império português tiveram alívio. O desequilíbrio da balança comercial entre Portugal e Inglaterra foi, por vários anos, compensado pelo ouro extraído do Brasil, além do alto consumo do metal em obras como o palácio-convento de Mafra e outras obras, que o rei D. João V (o Magnânimo) pretendia ombrear (igualar) com Luís XIV, o rei da França.

 

Fonte: Ibañez, Alexandre. Marília de Dirceu : a musa, a inconfidência e a vida privada em Ouro Preto no século XVIII / Alexandre Ibañez, Staël Gontijo - Belo Horizonte : Gutenberg Editora, 2012, p.41 (com adaptações).

 

D. João V (o Magnânimo) governou Portugal, Brasil e Algarves de 1706 a 1750, quando faleceu. Foi sucedido pelo rei D. José I, pai da futura Rainha de Portugal, Brasil e Algarves, D. Maria I, a louca, mãe de D. João VI, avó materna de D. Pedro I e bisavó de D. Pedro II.

(Nota do Autor).


VIAGEM DE BIKE - ESTRADA REAL - DIAMANTINA (MG) A PARATY (RJ)

DIA

TRECHOS

KM/DIA

01/05/2011

Diamantina (MG) a São Gonçalo do Rio das Pedras (MG)

33 km

02/05/2011

São Gonçalo do Rio das Pedras a Itapanhoacanga (MG)

65 km

03/05/2011

Itapanhoacanga (MG) a Conceição do Mato Dentro (MG)

47 km

04/05/2011

C. do Mato Dentro (MG) a Itambé do Mato Dentro (MG)

64 km

05/05/2011

Itambé do Mato Dentro (MG) a Bom Jesus do Amparo (MG)

44 km

06/05/2011

Bom Jesus do Amparo (MG) a Catas Altas (MG)

73 km

07/05/2011

Catas Altas (MG) a Mariana (MG)

54 km

08/05/2011

Mariana (MG) a Congonhas do Campo (MG)

90 km

09/05/2011

Congonhas do Campo (MG) a São João del Rei (MG)

113km

10/05/2011

São João del Rei (MG) Passeios

# # # #

11/05/2011

São João del Rei (MG) a São Vicente de Minas (MG)

86 km

12/05/2011

São Vicente de Minas (MG) a Caxambu (MG)

80 km

13/05/2011

Caxambu (MG) a Passa Quatro (MG)

60 km

14/05/2011

Passa Quatro (MG) Passeio de Maria Fumaça

# # # #

15/05/2011

Passa Quatro (MG) a Guaratinguetá (SP)

70 km

16/05/2011

Guaratinguetá (MG) a Cunha (SP)

53 km

17/05/2011

Cunha (SP) a Paraty (RJ)

46 km

TOTAL

978 km



A descoberta das minas de ouro no Brasil, no final do século XVII, promoveu a formação de uma rede de aglomerados urbanos inédita na América Portuguesa.

 

Diamantina – antigo arraial do Tijuco – surgiu naquele contexto, no início do século XVIII.

 

Embora sua formação tenha ocorrido em função da exploração do ouro, o crescimento e a consolidação decorreu (sic) da descoberta de diamantes na região, em 1720.

 

[…] O território viveu, ao longo dos séculos, um contínuo processo de transformação caracterizado pelo nascimento e desaparecimento de pequenos arraiais, ao sabor do descobrimento e esgotamento das jazidas de diamantes.

 

Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/1647/>.

Acesso: 31/05/2011.


01/05/2011

Diamantina (MG) a São Gonçalo do Rio das Pedras (MG)

33 km


Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/roteiros-planilhados/caminho-dos-diamantes/>. Acesso: 31/05/2011.

A saída de Diamantina (MG), rumo a São Gonçalo do Rio das Pedras (MG), aconteceu às 9h. Tempo bom e o céu Azul Capri se estendia sem limites, num mar profundo de poucas nuvens. A temperatura estava em agradáveis 17°C.

Saída de Diamantina (MG). Foto: Fernando Mendes.

Nos primeiros quilômetros, a Estrada Real é plana e larga, à semelhança da reta dos boxes do Autódromo de Interlagos. 

As primeiras pedaladas foram lentas para sentir a aventura que se iniciava e apreciar a paisagem colossal da Serra do Espinhaço. 

Na Região Sudeste, encontra-se o maior conjunto de terras altas do País, formado pela Serra do Espinhaço, pela Serra da Mantiqueira e pela Serra do Mar, os chamados “mares de morros”, que marcaram o relevo ao longo da minha jornada pela Estrada Real. 


Estrada Real é isso: 

ou não se vai ou, quando se vai, se sabe ao que se vai.

De Diamantina (MG) a Paraty (RJ) atravessei esses três conjuntos serranos, com subidas insanas, descidas alucinantes e visual de se fazer reverência. A Estrada Real tem que ser percorrida em ritmo lento, de bicicleta, a cavalo ou a pé.

Assim, o viajante pode bebericar todas as belezas que se descortinam aos seus olhos. Não tive pressa ao percorrê-la. Não estava competindo e nem havia um pódio de chegada em Paraty (RJ). 

A sensação de vencer esses caminhos comemorei silenciosamente, sentindo a alegria de estar cumprindo um desejo antigo: pedalar pela mesma rota feita pelos tropeiros do Brasil Colônia. No entanto, ao invés de ouro, eu carregava o desejo pela aventura e o cumprimento de uma missão. 

Diferentemente dos muleteiro (tropeiros), que viajavam em comboio, eu fui sozinho, mas sem me sentir solitário, para estabelecer um diálogo interno e descobrir a força pessoal.

Saída de Diamantina (MG). Foto: Fernando Mendes.

Na saída de Diamantina (MG), o GPS indicava 1.200 m de altitude. Nos primeiros oito quilômetros percorridos, a cota altimétrica caiu para 1.000 m e atravessei a ponte sobre o Ribeirão do Inferno. 

Em seguida, uma subida dos infernos, em forte ângulo de ascensão, me levou de volta aos 1.200 m iniciais. Foi possível sentir que o sobe e desce é constante. 

Após vencer a primeira ladeira – entre muitas que encarei até Paraty (RJ) – passei a pedalar num platô, com quatro quilômetros de extensão até chegar ao Povoado do Vau, pertencente à jurisdição de Diamantina (MG). Eram 13h. Parei para almoçar. 

Havia pedalado, desde a saída, apenas 26 quilômetros e gasto, para tal, 4 horas. Média de medíocres 6 km/h. 

No Vau, em qualquer casa que o viajante bata à porta e peça almoço, a comida é garantida. Faz parte da hospitalidade mineira, presente em todo o trajeto. 

Almocei delicioso prato com arroz, feijão, ovo, asa de peru e tomei uma Coca-Cola de 1 litro. Quando fui pagar, quase não acreditei: apenas R$ 7,00. 

Deixei a pequena localidade e desci até a cota de 900 m, a mais baixa do dia. Atravessei a ponte sobre o Rio Jequitinhonha, que tem sua nascente nos arredores. Esse rio marca a divisa entre os municípios de Diamantina (MG) e Serro (MG). Eram 15h 05.

Estrada Real trecho entre Diamantina (MG) e

São Gonçalo do Rio das Pedras (MG). Foto: Fernando Mendes.

Ponte sobre o Rio Jequitinhonha.

Estrada Real trecho entre Diamantina (MG) e São Gonçalo do Rio das Pedras (MG). 

Foto: Fernando Mendes.

De uma margem à outra [do Jequitinhonha], a distância é de pouco mais de 1 metro. Quando lança suas águas no Atlântico, na localidade de Belmonte (BA), a distância entre as margens ultrapassa dois quilômetros.  

Após a travessia da ponte, veio a mais radical subida daquele dia. Em apenas 2,5 quilômetros, saí da cota 900 m para chegar à cota 1.100 m, na qual está São Gonçalo do Rio das Pedras (MG), bucólico e recôndito distrito do Serro (MG).

Chegada a São Gonçalo do Rio das Pedras (MG). Foto: Fernando Mendes.

Eram 16h 30 e dei por encerrada a jornada daquele primeiro dia, sabendo que a viagem, por conta da altimetria e das condições do piso da Estrada Real, foi mais penosa do que imaginei. 

Por sugestão de um amigo de Brasília (DF), que fez esses caminhos em 2009, dirigi-me à Pousada Fundo de Quintal. Trata-se da casa do Sr. Ademil, sujeito boa praça e dono de um empório que tem [quase] de tudo. Senti-me em casa. 

São Gonçalo do Rio das Pedras - distrito do Serro (MG) - teve sua origem ligada à exploração do ouro. O declínio da mineração e o isolamento geográfico do distrito garantiram - em boa medida - a preservação todos os elementos arquitetônicos e paisagísticos dos séculos XVIII e XIX. É um lugar pacto, daqueles que o tempo tem preguiça de passar. 

Poderia ficar por ali dias e não sentir tédio. As ruas possuem calçamento de pedras e as casas conservam o estilo colonial. É passagem obrigatória dos viajantes que percorrem o Caminho dos Diamantes da Estrada Real.  

Depois do banho, assisti TV até às 19h e saí em busca de um lugar para jantar. Indicado pelo Sr. Ademil, fui à Pizzaria "Quero Mais" e degustei deliciosa pizza portuguesa. 

Voltei à pousada e fui me deitar para merecido descanso, após vencer um trecho com subidas infernais e paisagens maravilhosas, nas quais o cerrado mineiro e a Serra do Espinhaço [1] se fazem presentes.

Considerada a única cordilheira do Brasil, a Serra do Espinhaço tem aproximadamente 1.000 quilômetros de extensão, parte em Minas Gerais e parte na Bahia.

[1] Possui o maior afloramento de calcário do País, jazidas de ouro, ferro, bauxita e manganês. Estima-se que sua idade geológica seja de 2,5 bilhões de anos.

Funciona como divisor de águas: a leste, todos os rios tendem ao Atlântico, enquanto que a oeste inflam o sistema hídrico do São Francisco.

A largura da Serra do Espinhaço varia de 50 a 100 quilômetros. Vales e picos são interpostos, configurando um terreno bastante acidentado.

É Reserva da Biosfera, contém muitas áreas de proteção e outras de preservação, além de reservas particulares. 

 Fonte: Brasília-Paraty, somando pernas para dividir impressões. Weimar Pettengil – Brasília – Editora Thesaurus, p.90.


02/05/2011

São Gon. do Rio das Pedras (MG) a Itaponhaganga (MG)

65 km


Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/roteiros-planilhados/caminho-dos-diamantes/>. Acesso: 31/05/2011.

Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/roteiros-planilhados/caminho-dos-diamantes/>. Acesso: 31/05/2011.

Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/roteiros-planilhados/caminho-dos-diamantes/>. Acesso: 31/05/2011.

Embora adepto da filosofia de que toda viagem tem que começar depois das 8h da manhã, naquele segundo dia de jornada acordei cedo. Havia dormido por longas 11 horas – coisa que jamais consigo em minha rotina. Ciente dos 65 quilômetros que me aguardavam, comecei a pedalar às 7h.

Tomei café da manhã na companhia da família do Sr. Ademil, que me passou dicas valiosas acerca do trecho até a cidade do Serro (MG). Uma delas eu adorei: do pequeno povoado de Milho Verde – sete quilômetros à frente de São Gonçalo – até o Serro (MG), a Estrada Real encontra-se asfaltada.

Os 30 quilômetros que separam São Gonçalo do Rio das Pedras (MG) do Serro (MG), foram percorridos em pouco mais de uma hora. Pausa para fotografar o centro histórico da cidade.


Serro (MG). Foto: Fernando Mendes.


Serro (MG). Foto: Fernando Mendes.


Serro (MG). Foto: Fernando Mendes.


Serro (MG). Igreja de Santa Rita.
Foto: Fernando Mendes.


Serro (MG). Foto: Fernando Mendes.


Serro (MG). Foto: Fernando Mendes.


Serro (MG). Foto: Fernando Mendes.

Saquei dinheiro no BB e fui degustar um pedaço do queijo do Serro, o melhor do Brasil. Aproveitei para tomar uma dose de pinga, que o dono do estabelecimento disse "ser a melhor de Minas Gerais". Tive minhas dúvidas.

Às 9h 32 segui rumo a Alvorada de Minas (MG), 18 quilômetros à frente, em estrada recém-asfaltada. Que maravilha. O tempo estava esplendoroso: céu cheio de Sol, poucas nuvens formando imagens sem definições e temperatura em aprazíveis 22ºC.


Chegada a Alvorada de Minas (MG). Foto: Fernando Mendes.

A média horária, muito baixa em relação ao dia anterior, passou a ser de 20 km/h, elevando o moral. 

Paisagens magníficas me deram forças para pedalar firme e chegar à simpática Alvorada de Minas (MG), às 10h 40. Fui conhecer a Igreja de Santo Antônio (século XVIII).

Alvorada de Minas (MG) teve sua ocupação com o início da mineração do ouro no Rio do Peixe, a partir de 1712. 

Igreja de Santo Antônio em Alvorada de Minas (MG). Foto: Fernando Mendes.

Almocei e segui rumo a um distrito de nome deveras curioso: Itapanhoacanga, pertencente à jurisdição de Alvorada de Monas (MG). Retornei à Estrada Real, agora em leito natural. 

Alvorada, a exemplo da maioria das cidades ao longo da Estrada Real, fica dentro de um buraco fundo. Descia para chegar; penava para sair. 

Estrada Real trecho entre Alvorada de Minas (MG) e Itapanhoacanga (MG). 

Foto: Fernando Mendes.

Pedalei por dois quilômetros uma subida forte até ver Alvorada de Minas (MG) lá embaixo, bem pequena e com a torre da igreja matriz em destaque. 

Havia pedalado, desde a saída de São Gonçalo do Rio das Pedras (MG), 48 quilômetros. Faltavam 17 quilômetros para Itapanhoacanga (MG), topônimo que significa "pedra de cabeça de nego".

Estrada Real trecho entre Alvorada de Minas (MG) e Itapanhoacanga (MG). 

Foto: Fernando Mendes.


Oito quilômetros após deixar Alvorada de Minas (MG), a Estrada Real "deságua" na Rodovia MG-010, ponto no qual muitos viajantes se equivocam por não visualizarem o marco do Instituto, que indica a direção de Itapanhoacanga (MG), escondido entre duas placas de sinalização.

Estrada Real trecho entre Alvorada de Minas (MG) e Itapanhoacanga (MG). 

Foto: Fernando Mendes.

Nesse ponto (foto acima) é preciso seguir como e estivesse voltando para o Serro (MG) pela Rodovia MG-010. Três quilômetros à frente, um marco do Instituto orienta “virar à esquerda” e seguir na direção de Itapanhoacanga (MG).

Uma bela paisagem é oferecida ao viajante. Na região conhecida como Duas Pontes está um curso d’água, que passa sob duas pontes, segue formando pequenos saltos, num leito tomado por pedras bastante desgastadas pelo pai tempo e cobertas por limo em profusão.

Cheguei à pequena Itapanhoacanga (MG) - distrito de Alvorada de Minas (MG) - às 16h 30. Torci para encontrar lugar para pernoite. Perguntei para umas moças que estavam conversando na calçada onde poderia me hospedar. Uma delas me disse: “ocê vai lá na casa do Biu uai, que ele ruma um lugar procê, moço. É pertim daqui. Fala com a muiê dele. Mas se ocê prifiri, o Biu passa aqui gurim messss. Ele foi apanhá o fi dele, o Jãozim, na escola”. Preciso traduzir?

Fui para a Pousada do Bill, modesta, confortável e com excelente comida. Após o jantar, o Bill me disse que está iniciando uma expansão no estabelecimento. Serão construídos mais quartos “num puxadim para cima”, falou orgulhoso.

Itapanhoacanga (MG) fica encravada em um vale muito profundo e cercada pela Serra do Espinhaço, que recebe denominações locais de Serra do São José, também chamada de “Serra da Escadinha”.

Ao longo do Caminho dos Diamantes – trecho compreendido entre Diamantina (MG) e Ouro Preto (MG) –, o Espinhaço recebe diversas nomenclaturas, dadas pela população nativa.

Em Itapanhoacanga (MG) existem monumentos religiosos e ricas manifestações culturais. O pequeno vilarejo, situado na porção central do Estado de Minas Gerais, é símbolo da época do mais rico garimpo de ouro do Serro Frio (arraial que deu origem à cidade do Serro - MG).


Igreja de São José em Itapanhoacanga (MG). Foto: Fernando Mendes.

A reforma da Igreja de São José - edificação barroca construída entre 1746 e 1787 - está emperrada há 15 anos. Aguarda a liberação de verba. 

A situação é tão precária que as imagens e peças sacras foram retiradas e levadas para um local mais seguro.

Não há TV no quarto da pousada. Fui dormir cedo. Eram 20h. Encerrei a jornada daquele segundo dia de viagem bem animado e pensando na subida [8 km] da Serra da Escadinha, programada para o dia seguinte. 

Dormi por longas 11 horas, que me proporcionaram o descanso merecido. A Lua entrou na fase Nova. Quando entrar na fase Cheia, chegarei a Paraty (RJ). Faltavam 872 quilômetros.

03/05/2011

Itapanhoacanga (MG) a Conc. do Mato Dentro (MG)

47 km


Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/roteiros-planilhados/caminho-dos-diamantes/>. Acesso: 31/05/2011.

Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/roteiros-planilhados/caminho-dos-diamantes/>. Acesso: 31/05/2011.

Pontualmente às 8h, deixei a pequena Itapanhoacanga (MG) saindo pela rua principal, virando à esquerda após o término do calçamento.  

Defronte ao marco da Estrada Real, zerei o ciclo computador, enquanto o GPS de pulso recebia o sinal do satélite, informando que me encontrava à cota altimétrica de 700 m. 

A próxima cidade – Santo Antônio do Norte, também chamada de Tapera - dista 14 quilômetros de Itapanhoacanga e fica na cota 800 m. 

Caso não tivesse estudado a altimetria desse trecho, eu diria que seria moleza percorrê-lo, afinal saí de 700 m para 800 m. 

No entanto, Itapanhoacanga (MG) e Santo Antônio do Norte (MG) [ou Tapera] são localidades separadas pela imponente Serra da Escadinha. 

Nos primeiros nove quilômetros, a elevação vai de 700 para 1.100 m.  Os primeiros 500 m são impedaláveis, em virtude das ravinas (valas) e muitas pedras soltas, do tamanho de abacates.

Nesse caso, o mais ponderado é descer e empurrar a bike.  A falta de tração pode resultar em tombo, e tombo é tudo que um ciclista deve evitar, pois a viagem pode terminar prematuramente.  

Vencidos os 500 m iniciais do caminho, a passos e empurrando a bike, passei a pedalar de coroinha (marcha leve), enquanto apreciava - em rápidas espiadas para não perder a atenção ao caminho - a paisagem que se descortinava ao meu redor. O tempo estava nublado e com cara de chuva.  Cota 848 m e subindo.

Impressão que chegaria ao céu. Um silêncio delicioso, quebrado, às vezes, por fracas rajadas de vento, que chegavam sem se fazer anunciar. 

Foi possível ver Itapanhoacanga, lá embaixo, dentro de um buraco e cercada pela Serra da Escadinha. Cota 872 m e subindo.

Estrada Real trecho entre Itapanhoacanga (MG) e Santo Antônio do Norte (MG).

Foto: Fernando Mendes.

Parava, fotografava e ouvia sons variados que vinham do vale. 

Depois de uma hora pedalando em moderado ângulo de subida, consultei o ciclo computador que indicava quatro quilômetros percorridos. Cota 896 m e subindo.

Faltavam cinco quilômetros e mais 260 m de ascensão. A partir da cota 910 m, o moderado ângulo de subida suavizou-se e a pedalada tornou-se mais fácil, sendo possível trocar o câmbio para a coroa do meio. 

À frente, o topo côncavo da Serra da Escadinha, situado na coto 1.100 m, apareceu. A Estrada Real vai contornando-o até chegar ao mirante, alcançado às 11h, após 3 horas de pedal, 400 metros de ascensão e nove quilômetros morro acima. Quando o aclive deu lugar a um platô, exclamei: “cheguei”!

Estrada Real trecho entre Itapanhoacanga (MG) e Santo Antônio do Norte (MG).

Foto: Fernando Mendes.

As nuvens abriram caminho e o Sol brilhou forte. Recompensa pelo esforço despendido na subida. Avistei os mares de morros formados pela Serra do Espinhaço. 

Como se estivesse a bordo de um avião, avistei o pequeno povoado de Santo Antônio do Norte, encravado num vale cercado pelas serras do Intendente e São José (subgrupos do Espinhaço)

Sentei-me numa pedra à beira do mirante. Momento de reflexão, contemplação e agradecimento. O GPS marcava exatos 1.000 m de altitude. 

Estrada Real trecho entre Itapanhoacanga (MG) e Santo Antônio do Norte (MG).

Foto: Fernando Mendes.

O mesmo valor indicado pelo meu GPS [1.000 m de altitude] está gravado no marco da Estrada Real, localizado na “vira da serra”, ponto no qual começa a descida da Escadinha, uma trilha muito técnica, com quatro quilômetros, em fortíssima declividade e sombreada por uma mata que mais parece um pálio. 

Igreja do Rosário em Santo Antônio do Norte (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Às 11h 52, estava na pequena Santo Antônio do Norte, também chamada de Tapera. 

A rua principal é calçada e a igreja do Rosário tem seu charme. O Sol brilhava forte depois de um início de manhã bastante nublado. 

Almoço no Restaurante da Enny. O estabelecimento tem o nome da proprietária, uma senhora que estampa a simpatia dos mineiros. É proprietária da Pousada Coyote, a única daquele sítio.

A próxima localidade, 10 quilômetros à frente, chama-se Córregos que, igualmente a Santo Antônio do Norte (Tapera), pertence ao município de Conceição do Mato Dentro (MG). 

O trecho é quase todo plano, intervalado por descensos e ascensos suaves.  Às 13h 50, após 1h e 30 de pedal, cheguei à pequena Córregos, com ruas que alternam calçamento em pedras com leito natural e o nada anárquico cenário de casas bem simples.

Digo nada anárquico porque, em alguns sítios (lugares) ao longo do trajeto, a disposição de casas e empórios (lojas) é uma barafunda. 

Igreja Matriz de Nossa Senhora Aparecida em Córregos (mg). 

Foto: Fernando Mendes.

Presume-se que a sua construção ocorreu entre os anos de 1745 e 1748. 

Porém, na fachada estão gravadas, em cima da porta, as datas de 1872 e 1994. 

Possivelmente, é uma referência às reconstruções que ocorreram na igreja. 

Fundado por bandeirantes em 1702, o Distrito de Córregos pertenceu ao Serro até o ano de 1851, passando a ser distrito de Conceição do Mato Dentro. 

 Situado em um vale de difícil acesso, no início de sua formação foi núcleo de mineração de ouro e diamantes. 

Córregos é uma das cidades históricas às margens da Estrada Real e integrante do Circuito dos Diamantes.

Disponível em: < http://cmd.mg.gov.br/distritos/corregos>. Acesso: 31/05/2011.

O velho povoado de Nossa Senhora Aparecida de Córregos tem seu casario tipicamente colonial distribuído em uma pequena praça e algumas ruas.

São casas térreas e alguns sobrados, simples e antigos.  

Durante muitos anos esquecido e abandonado, o órgão da Igreja Matriz de Nossa Senhora Aparecida no Distrito de Córregos em Minas Gerais, ressurge para nos revelar segredos, informações históricas e de organaria até então ignorados.  

Disponível em: < http://cmd.mg.gov.br/distritos/corregos>. Acesso: 31/05/2011. 

Córregos (MG) é um lugar no qual se tem a sensação de que tudo transcorre como de hábito, ou seja, sem transcorrer. Vale apreciar (e registrar em imagens) a minúscula praça, a linda igrejinha Matriz de Nossa Senhora Aparecida e os sobrados coloniais. 

O muro de pedras, que circunda a igreja, foi construído pelos escravos, sem uso de cimento ou argamassa. É pedra encaixada em pedra. E está de pé há mais de 300 anos.  

Deixei Córregos e pedalei rumo a Conceição do Mato Dentro (MG), 24 quilômetros à frente, meu destino daquela terça-feira, 3 de maio do Ano da Graça de 2011.

Avistei, às margens do caminho, búfalos que se refrescavam dentro de pequenos lagos. Minas Gerais tem o 9º rebanho nacional, com pouco mais que 70 mil cabeças. 

A bubalinocultura difundiu-se no Estado, destacando-se pela produção de reprodutores e matrizes para outras Unidades da Federação. 

Por décadas a fio, búfalos estiveram circunscritos à Ilha de Marajó (PA). 

Em Minas Gerais, o sucesso da criação de búfalos se revela no rebanho, que em pouco mais de uma década, dobrou no estado, segundo dados da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento. 

A participação mineira no plantel do país avançou de 2,7% em 2002 para 4,6% em 2015, última estatística disponível pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Os bubalinocultores estão tendo bons rendimentos com a comercialização e se beneficiam da expansão do mercado.   

Disponível em:<https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao-de-leite/criacao-de-bufalos-cresce-em-minas-gerais-105030n.aspx.  Acesso: 30/05/2011.

Criação de búfalos em Córregos (MG). Foto: Fernando Mendes.

E veio a primeira baixa da viagem: pneu dianteiro furado, quando faltavam 10 quilômetros para chegar a Conceição do Mato Dentro (MG). 

Hospedagem no Hotel Cuiabá, bastante simples e muito barulho, tanto nos arredores, quanto no interior. 

Naquele 3 de maio percorri, em minha opinião, a etapa mais bonita do Caminho dos Diamantes. 

O céu de outono nos trópicos, sem nuvens, a temperatura agradável, o canto dos galos, o mugir dos bovinos, o cheiro de mato e o tempo que passa preguiçosamente. Isso é a Estrada Real.  Paraty (RJ) a 818 km. 

Aproveitei o que restava de luz natural e fui à Igreja do Bom Jesus de Matozinhos, a mais bela do caminho, embora não seja em estilo barroco.


Igreja Bom Jesus do Matosinho em Conceição do Mato Dentro (MG).
igreja [s.d] disponível em: <https://br.pinterest.com/pin/543528248754492136/>. Acesso: 31/05/2011.

Em 1931, a igreja encontrava-se em péssimo estado de conservação e foi demolida e substituída por uma construção moderna.

Edificação recente, sem ter um significado artístico - arquitetônico, o atual Santuário do Senhor Bom Jesus de Matozinhos merece menção por ser centro de romaria, que se realiza anualmente pelas festas do Jubileu, entre 14 e 24 de junho, desde os tempos coloniais.

A decisão de construir a igreja foi tomada pela irmandade em reunião no dia 14 de março de 1931.

O lançamento da pedra fundamental ocorreu em 8 de novembro do mesmo ano. O projeto é de autoria do arquiteto Mario Moreira.

As linhas arquitetônicas são bastante ecléticas, variando do mourisco ao neogótico.

A entronização da imagem do Bom Jesus no Santuário se deu a 12 de maio de 1934.


Disponível em: <https://br.pinterest.com/pin/543528248754492136/>.
Acesso: 31/05/2011.

04/05/2011

Conc. do M. Dentro (MG) a Itambé do M. Dentro (MG)

64 km


Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/roteiros-planilhados/caminho-dos-diamantes/>. Acesso: 31/05/2011.

Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/roteiros-planilhados/caminho-dos-diamantes/>. Acesso: 31/05/2011.


 

A QUEM INTERESSAR POSSA:

NÃO EXISTEM PONTOS DE APOIO ENTRE MORRO DO PILAR (MG) 

E ITAMBÉ DO MATO DENTRO (MG).


PREPARE UMA MATULA (MERENDA, FARNEL) E BASTANTE ÁGUA.


TRECHO ERMO E ESCASSO EM SOMBRAS.

 

Acordei repentinamente com rumores próximos à porta do meu quarto: alguém assoando o nariz no banheiro do corredor, enquanto outro tossia e puxava aquela “ostra” vindo dos pulmões. 

Eram 6h da manhã. O Hotel Cuiabá hospeda funcionários das mineradoras que trabalham na região de Conceição do Mato Dentro (MG).

A alvorada para esses trabalhadores acontece antes do orto solar (nascer do Sol). Não tive opção. Levantei-me muito a contragosto. Tentar dormir com aquela algazarra, sem chances. 

Quando cheguei ao refeitório, não havia mesa disponível. Esperei por meia hora. Após terminar o café, arrumei meus haveres e de volta ao pedal e à Estrada Real. 

Eram 8h quando deixei Conceição do Mato Dentro (MG). Uma subida [asfalto MG - 010] honesta, com 2,0 quilômetros e a cidade foi ficando cada vez menor, lá embaixo e dentro de um vale cercado pelo Espinhaço.

Após vencer essa ascensão, um marco do Instituto indica seguir à esquerda. Abandonei o asfalto e voltei à Estrada Real, em leito natural e tocando na direção de Morro do Pilar (MG) e Itambé do Mato Dentro (MG). 

Naquela quarta-feira, 4 de maio, aconteceram os jogos de volta das oitavas de final da Taça Libertadores da América. O Fluminense estava nessa.

Tempo deveras nublado, mas dava indícios de melhoras. 

Estrada Real trecho entre Conceição do Mato Dentro (MG) e Morro do Pilar (MG).
Foto: Fernando Mendes.


Estrada Real trecho entre Conceição do Mato Dentro (MG) e Morro do Pilar (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Ao ingressar na Estrada Real veio uma descida forte para compensar a subida [de 2 km - asfalto - Rodovia MG - 010] na saída de Conceição do Mato Dentro (MG). 

Em seguida, longo trecho plano e sombreado. De ambos os lados, pequenas propriedades com gado no pasto a mastigar capim. O tempo começou a abrir. Hora de renovar o protetor solar. Um promissor silêncio foi quebrado pelo barulho dos pneus abrindo caminho no solo salpicado por pequenas pedras. 

Passei pelo Rio Santo Antônio, que dá nome ao vale no qual Conceição do Mato Dentro (MG) foi edificada. 

Nas águas desse rio, os primeiros veios de ouro foram encontrados por volta de 1697, dando início ao Ciclo do Ouro na Colônia Brasil, tendo seu auge na metade do século XVIII e a derrocada em 1808, quando D. João VI decretou [oficialmente] o fim do ciclo de mineração, que durou 113 anos (1697 – 1810).  

Daí para frente, as subidas e as descidas se intervalaram até o alto do último aclive, de onde avistei a torre da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar e sua inconfundível pintura amarela.



Estrada Real trecho entre Conceição do Mato Dentro (MG) e Morro do Pilar (MG).
Foto: Fernando Mendes.


Chegada a Morro do Pilar (MG). Foto: Fernando Mendes.

O arraial Gaspar Soares, que deu origem à cidade, surgiu no alto de um morro no qual o bandeirante Gaspar Soares encontrou ouro, em 1701.  

Ali, construiu uma capela dedicada à Nossa Senhora do Pilar.  

A exploração durou até 1743, quando um desmoronamento matou 18 escravos e interrompeu as atividades mineradoras.  

Morro do Pilar abrigou a primeira fábrica de ferro líquido do Brasil, em 1814. A Real Fábrica de Ferro ou Fábrica do Rei é hoje um dos principais pontos turísticos da região. 

O Monumento do Intendente da Câmara foi erguido em homenagem ao intendente responsável por sua instalação.  

Da época da exploração do ouro estão as ruínas da Mina do Hogó, exploradas pelo próprio fundador da cidade. 

 A Igreja do Canga, construída em 1710, e a Matriz de Nossa Senhora do Pilar são singelas demonstrações da fé dos moradores de Morro do Pilar. 

 A localidade conta com infraestrutura turística e tem atrativos naturais, principalmente as quedas d’água, afastadas do centro da cidade, que merecem uma visita. 

 Disponível em: http://www.descubraminas.com.br/Turismo/DestinoApresentacao.aspx?cod_destino=99. Acesso: 31/05/2011.

Eram 13h pedalava pelo calçamento irregular e com pedras dispostas de forma desorganizada. 

Estava na área central da recôndita (desconhecida) Morro do Pilar (MG), que abrigou o primeiro alto-forno siderúrgico do Brasil, ou seja, a primeira fábrica de ferro do País, a Real Fábrica de Ferro do Morro do Gaspar Soares, hoje Morro do Pilar (MG), na região Central de Minas Gerais. O alto-forno de modelo alemão tinha impressionantes oito metros de altura. 

Num bar em frente à Igreja de Nossa Senhora do Pilar, almocei muito bem. Depois, sentei-me num banco adjacente ao templo para descansar. Sombra refrescante para aliviar o calor.

Igreja Nossa Sr.ª do Pilar. Foto: Fernando Mendes.

O alto-falante da paróquia, que funciona como uma rádio comunitária, anunciava que, naquela noite, haveria uma reunião de pais e mestres do grupo escolar. Estava sendo feita a convocação dos responsáveis pelos alunos do Ensino Fundamental. Também foram chamadas as pessoas ligadas à igreja para encontro após a missa das 18h.

Igreja Nossa Sr.ª do Pilar. Foto: Fernando Mendes.

Toda forma de comunicação é válida. Numa localidade tão pequena como Morro do Pilar (MG), o alto-falante da igreja é o arauto de boas [e más] notícias, como o comunicado de falecimento de um nativo, ocorrido assim que comecei a pedalar rumo à saída da cidade. Eram 14h. Faltavam 38 quilômetros para Itambé do Mato Dentro (MG). 

Na saída, caminho sombreado, plano e com oito quilômetros acompanhando paralelamente o Rio do Peixe. Mas a moleza acabou quando passei pela última ponte. O paralelismo entre a estrada e o rio terminou.

Vieram 22 quilômetros de subidas constantes, embora com moderada inclinação. Mas o excesso de pedras e valas me fez – por segurança – empurrar a bike algumas vezes.

Às 16h 50, tendo a deslumbrante paisagem da Serra do Cipó ao fundo, coroei o topo da subida, na cota 900 m. Os quatro quilômetros restantes, para alívio das pernas e pulmões, foram feitos em declive, até chegar ao calçamento da cidade de Itambé do Mato Dentro (MG). Eram 17h15 e a missão daquele dia estava cumprida.

Estada na Pousada Lava-Pés, tomei banho e me senti com outra pele, renovada e limpa. 

Às 19h saí para jantar e dar uma volta por bucólica localidade, que parece "dormir com as galinhas" (expressão idiomática).

Às 20h 30 não havia quase ninguém nas ruas. Fui dormir. Belo dia de pedal. Paraty (RJ) a 767 quilômetros.

Estrada Real trecho entre Morro do Pilar (MG) e Itambé do Mato Dentro (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real trecho entre Morro do Pilar (MG) e Itambé do Mato Dentro (MG).
Foto: Fernando Mendes.

05/05/2011

Itambé do M. Dentro (MG) a B. Jesus do Amparo (MG)

44 km


Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/roteiros-planilhados/caminho-dos-diamantes/>. Acesso: 31/05/2011.

Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/roteiros-planilhados/caminho-dos-diamantes/>. Acesso: 31/05/2011.

Ao acordar fiquei sabendo que o Fluminense foi eliminado por um time do Paraguai. Adeus Taça Libertadores da América. Tomei café assistindo ao Bom Dia Brasil, que mostrou o fiasco tricolor. Vida que segue.

Ao cruzar o Portal da Cidade, às 9h, Itambé do Mato Dentro (MG) ficou para trás. Ao fundo da paisagem, avistei o majestoso e imponente Pico do Itambé, o farol que guiava os tropeiros que iam para as regiões auríferas de Ouro Preto, a antiga Vila Rica, no século XVIII. 


Estrada Real trecho entre Itambé do Mato Dentro (MG) e Bom Jesus do Amparo (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Encarei uma subida forte de quatro quilômetros para sair do buraco no qual a cidade está. Pouco antes de chegar ao topo do primeiro aclive do dia, ouvi aquele inconfundível som de máquinas pesadas quando dão marcha à ré: pi-pi-pi-pi.

À medida que a subida ia acabando, vi um trator fazendo a terraplanagem do caminho para posterior asfaltamento até Ipoema (MG), distrito de Itabira (MG), berço do poeta Carlos Drummond de Andrade.

Embora muitos não sejam a favor da cobertura asfáltica da Estrada Real, eu adorei. Nos 32 quilômetros que se seguiram à saída de Itambé do Mato Dentro (MG), nada de valas, pedras soltas ou areia. 

O solo bastante compactado rendeu uma média muito boa. Às 11h dei entrada à pacata Nossa Senhora do Carmo (MG), localidade simpática e com saída difícil por conta da subida que parece não ter fim. 

Às 13h estava em Ipoema (MG). Almocei e fui conhecer o Museu dos Tropeiros, o maior acervo da Estrada Real sobre tropeirismo.

Museu do Tropeiro em Ipoema (MG). Foto: Fernando Mendes.

   

Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Ipoema. Foto: Fernando Mendes.

Em 29 de março de 2003, o Museu foi inaugurado com o objetivo de fortalecer a vocação espontânea do tropeirismo, que era uma marca do distrito de Ipoema.

Abrigado em uma casa construída no século XVIII e que pertenceu ao tropeiro conhecido como ‘sô’ Neco, o Museu contém hoje mais de 700 peças que fazem alusão à cultura tropeira, além de documentos desses comerciantes (título de eleitor, certidão de casamento e livros de compra e venda), que viajavam pelas estradas do interior brasileiro.

Cerca de 500 peças pertenceram ao colecionador José Dutra, fazendeiro da cidade de Rio Vermelho. O local também se transformou num espaço de convivência com múltiplas funções, sendo palco para apresentações artísticas e culturais, degustação da deliciosa culinária regional e, principalmente, para a velha e boa prosa.

Nos séculos XVII e XVIII com a descoberta do ouro e, posteriormente, de diamantes, houve uma grande migração de portugueses, paulistas e escravos em busca do "Eldorado", nas terras das Minas Gerais.

Devido ao grande contingente populacional criado na região, a escassez de alimentos e produtos básicos não demorou a acontecer, gerando alta taxa de mortalidade.

Para os mineradores não era viável colocar um escravo para trabalhar na plantação de alimentos, pois era uma força a menos na busca pelo ouro.

Como consequência desse acontecimento, surgiram os Tropeiros - viajantes encarregados de fazerem a transição de alimentos e materiais de necessidades básicas de outras regiões às áreas de exploração.

Os muares (resultante do cruzamento entre jumento e equino) eram os animais propícios para esse tipo de serviço na região, pois outros meios de transporte, como os carros de boi, não conseguiriam chegar aos locais devido às irregularidades do terreno nas zonas de exploração.

Disponível em: <https://guiadaestrada.com.br/listings/museu-do-tropeiro-itabira/>. Acesso: 31/05/2011.

 Às 15h deixei Ipoema (MG) para cumpri os 13 quilômetros restantes para Bom Jesus do Amparo (MG). Pedalei sobre asfalto novo e altimetria generosamente suave.

Cheguei a Bom Jesus do Amparo (MG) às 16h e a hospedagem foi na Pousada Real, a única da comarca. 

À noite saí para caminhar, comi pizza e fui dormir o sono dos justos. Paraty (RJ) a 717 quilômetros.


06/05/2011

Bom Jesus do Amparo (MG) a Catas Altas (MG)

73   km


Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/roteiros-planilhados/caminho-dos-diamantes/>. Acesso: 31/05/2011.




Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/roteiros-planilhados/caminho-dos-diamantes/>. Acesso: 31/05/2011.



Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>. Acesso: 31/05/2011.

Acordei cedo, mas continuei deitado. Estava escuro. Quando abri a janela, vi o tempo estava fechado. Ameaça de chuva. Fui tomar café. A pousada na qual me hospedei é comandada por pai e filho. Por isso entendo o porquê da falta de toalha sobre a mesa. Que falta faz uma mulher na administração.

Saí sem dar muita importância ao tempo nublado. Nessa época do ano, as chuvas rareiam e inicia-se a estiagem. Dito e feito. Quando comecei a pedalar pelos seis quilômetros iniciais na direção de Cocais (MG), as nuvens foram se dissipando e o Sol veio forte. 

Abandonei o asfalto quando um marco do Instituto indica virar à esquerda. Ingressei na Estrada Real, em leito natural e repleta cascalho. No geral, o percurso está em boas condições, com predomínio de terreno plano.

A paisagem que marca o caminho é composta pelas grandes plantações de café e trechos com florestas de eucaliptos. 

Atravessei a Rodovia MG-434, que vai para Itabira (MG) e continuei pela Estrada Real, sempre em terreno plano, passando por várias chácaras e haras. Após forte descida, cheguei à rodovia BR-381, que liga Belo Horizonte (MG) a João Monlevade (MG). Parei num posto. Eram 10h.

Depois de abastecer as caramanholas com água, pedalei 500 m pela BR-381 e virei à direita, voltando ao caminho dito "Real". 

Veio uma subida forte e os eucaliptos passaram a dominar ambos os lados da senda. Uma paisagem sinistra, semelhante ao filme Bruxas de Blair (1999). 

Percorri o eucaliptal aos sons da passarada e do zumbido de abelhas. Havia uma névoa que acentuava, ainda mais, a atmosfera funesta daquele trecho.

Estrada Real trecho entre Bom Jesus do Amparo (MG) e Cocais (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real trecho entre Bom Jesus do Amparo (MG) e Cocais (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Venci subidas fortes com eucaliptos flanqueando o caminho. Avistei o povoado de Cocais. Eram 13h. Parada para o almoço. Fiz uma bela refeição num bar e segui na direção de Barão de Cocais (MG).


Cocais (MG). Foto: Fernando Mendes.


Cocais (MG). Foto: Fernando Mendes.

Na saída de Cocais, forte subida que me deixou acima da maioria dos morros da região. Iniciei pedalando bem devagar por conta das valas, mata-burros e pedras soltas. Em alguns trechos parei para fotos. 

O Sitio Arqueológico Pedra Pintada, com pinturas rupestres de seis mil anos e indicado por um amigo de Brasília (DF) como visita imperdível, infelizmente estava fechado. Ficou para a próxima aventura.

Atualização: em junho de 2014, ocasião na qual percorri a Estrada Real entre Conceição do Mato dentro (MG) e São Lourenço (MG), conheci o Sítio Arqueológico da Pedra Pintada. Recomendo.

Cocais (Distrito de Barão de Cocais - MG) foi fundada no século XVIII e têm belas cachoeiras, além das ruínas do Congo Soco, uma antiga mina adquirida pelos ingleses no século XIX. O local acabou se transformando em uma vila britânica, com hospital, capela e cemitério particular.

E assim, pedala um pouquinho, empurra um pouquinho, alcancei o topo, de outra floresta de eucaliptos, duas horas após ter saído de Cocais. Eram 15h 30. 

Parei no mirante da Pedra da Cambota, que além de ser considerado ponto chave para estudos geológicos, oferece uma vista panorâmica de várias cidades. E que vista. 

Desci seis quilômetros até entrar na tumultuada Barão de Cocais (MG). Eram 15h50.

Estrada Real trecho entre Cocais (MG) e Barão de Cocais (MG)
Foto: Fernando Mendes.

Optando pelo caminho planilhado pelo Instituto Estrada Real até Catas Altas (MG), chegaria muito tarde a Catas Altas (MG), local do pernoite daquele 6º dia de jornada. Optei em seguir pelo asfalto (Rodovia MG-129). 

Nesse ponto da MG-129 existe um acesso (de 20 km com muitas subidas) para o Santuário do Caraça, que NÃO FAZ PARTE DA ESTRADA REAL. Quem pensa em ir ao Santuário, conhecê-lo e voltar para a Estrada Real, melhor desistir. São 40 quilômetros (ida e volta) e um tempo precioso será gasto. A menos que o viajante queira pernoitar por lá. Reserve hospedagem. Fica a dica.

A três quilômetro da chegada a Catas Altas (MG), parei para conhecer o Bicame de Pedra. Trata-se de um aqueduto com quatro metros de altura, construído pelos escravos, em 1792. 

Servia para captação de água do alto do Maciço do Caraça, destinada à lavagem de minérios e cascalhos, como parte do sistema de exploração aurífera dos séculos XVIII e XIX. Nada de cimento ou argamassa. E está em pé há 232 anos (1792 - 2024 - atualizado).

Bicame de Pedras. Estrada Real trecho entre Barão de Cocais (MG) e Catas Altas (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Bicame de Pedras. Estrada Real trecho entre Barão de Cocais (MG) e Catas Altas (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Bicame de Pedras. Estrada Real trecho entre Barão de Cocais (MG) e Catas Altas (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Catas Altas (MG), edificada na base do Maciço do Caraça, foi fundada em 1703 por bandeirantes, teve a decadência de sua economia com o término da exploração de ouro. 

É uma cidade simpática e as ruas são calçadas com pedras no formato de octógonos regulares. Estada na Pousada Solar da Serra. Fui o único hóspede naquela noite. Viajar em baixa temporada tem suas vantagens. 

Catas Altas (MG) e o Maciço do Caraça. Foto: Fernando Mendes.

A história de Catas Altas, assim como a história de diversas cidades mineiras, está relacionada ao Ciclo do Ouro. O nome “Catas Altas” provém das profundas escavações feitas no alto dos morros. 

 A palavra ´catas´ significa garimpo, escavação mais ou menos profunda, conforme a natureza do terreno para a mineração.

 No povoado, as catas, os garimpos, as minas mais ricas e produtivas, estavam situadas nas partes mais altas, isto é, se encontravam no alto da Serra do Caraça.

  Por isso, a atual cidade ficou conhecida como Catas Altas. 

O povo vendo que o ouro escasseava nos leitos dos rios e córregos e abundava nas partes altas, dizia: "as catas estão altas", "as catas estão ficando em lugares mais altos", "as catas estão em lugares de mais difícil acesso".

Disponível em:<http://catasaltas.mg.gov.br/historia>/.

Acesso: 31/05/2011 (com adaptações).

Foto: Fernando Mendes.

Quando abri a janela do quarto, lá estava ela, a Lua Nova, num fino halo esbranquiçado e entre farrapos de nuvens. Parecia sorrir e falar para mim. "Estás indo muito bem na Estrada Real”. “Quando chegares a Paraty, estarei cheia e saudarei a conclusão da sua aventura".

Em Catas Altas (MG), cães e gatos formigam pelas ruas. A maioria tem dono, mas seus tutores preferem que os bichos fiquem à solta. 

Diferentemente de outras cidades que passei, nas quais vi muitos cães e gatos abandonados, em Catas Altas (MG), quase todos têm coleira. A prefeitura comanda o mutirão de veterinários e voluntários. Os animais são castrados e cadastrados. 

No Restaurante Casa de Taipa, me fartei com a típica comida mineira: arroz, feijão, farofa, salada e bisteca de porco.

A etapa do dia foi puxada, porém recompensada pelas paisagens. Fui dormir relembrando a travessia da sinistra floresta de eucaliptos e o zumbido das abelhas. Lugar especialmente belo e que merece outra visita, quando possível. 

Paraty (RJ) a 644 quilômetros.

07/05/2011

Catas Altas (MG) a Mariana (MG)

54 km

Acordei tarde, lavei a bike no jardim da pousada e bati em retirada, às 11h. 

O trecho entre Catas Altas (MG) e Mariana (MG) foi percorrido pela rodovia MG-129. Foram 54 quilômetros marcados por fortes aclives e declives, numa estrada com pouco movimento.

Contornei o Maciço do Caraça, ferido em vários pontos pela ação da mineradora Maybach Mineração e Serviços Ltda. 

Minas Gerais está sendo consumida - dia a dia - pelas empresas mineradoras. A maioria delas não age em conformidade com a lei e nem sempre são cobradas ou punidas pelos órgãos fiscalizadores do ambiente. 

A situação é preocupante. A sociedade civil de Catas Altas (MG) está mobilizada para impedir a degradação do Caraça. 

No Brasil Colônia, o ouro seguia das Minas Gerais para o porto de Paraty em comboios formados por mulas. No Brasil do século XXI, o minério de ferro viaja em comboios puxados por locomotivas a diesel até os portos de Vitória (ES) e Sepetiba (RJ). 

O ferro é vendido a peso de ouro. No ano 2000, a tonelada era comercializada por US$ 20; em 2011 estava US$ 110.

O aquecimento da demanda mundial pelo minério de ferro, alimentado principalmente pela República Popular da China, tem movimentado um mercado que parecia estar, até então, quase extinto: o da compra de reservas minerais. 

Pedalava tranquilamente pela MG-129. Um inconfundível apito de trem varou o ar e o comprido comboio, num ruído seco de freios contraídos, deslizava pachorrentamente, deixando à mostra um enfileiramento de vagões carregados de minério de ferro. Gigantesca e interminável serpente. Parei para assistir. 

No passado, o ouro ia para Portugal. Hoje, o ferro de Minas Gerais vai para a China. "Exportar é o que Importa" (*).

(*) Ao longo das décadas de 1970 e 1980, o slogan "exportar é o que importa" sintetizava o objetivo de nosso comércio exterior e a própria política industrial brasileira, ao estabelecer como prioridade a inserção do País no comércio mundial via exportação de bens e serviços brasileiros. 

Disponível em:<https://www.infomet.com.br/site/noticias-ler.php?bsc=ativar&cod=43473>. Acesso: 31/05/2011 (com adaptações).

Chegada a Mariana (MG). Foto: Fernando Mendes.

A chegada a Mariana (MG) se deu por volta das 15h. Foi um dia de pedal curto e sob Sol forte. 

Estada no Hotel Brasil Real. Após o banho, caminhada pelo Centro Histórico e aproveitar o resto da luz natural para fotos das belas igrejas de São Francisco e Nossa Senhora do Carmo.


Mariana (MG).  Foto: Fernando Mendes.

Mariana (MG), a antiga Ribeirão do Carmo.

Igreja de São Francisco de Assis (à esquerda) e Igreja de Nossa Senhora do Carmo (à direita). Foto: Fernando Mendes.

Mariana - primeiramente nomeada de Ribeirão do Carmo - foi a primeira vila, a primeira capital, a sede do primeiro bispado e a primeira cidade a ser projetada em Minas Gerais.

A história de Mariana, que tem como cenário um período de descobertas, religiosidade, projeção artística e busca pelo ouro, foi marcada também pelo pioneirismo de uma região que, há três séculos, guarda riquezas que nos remetem ao tempo do Brasil Colônia.

Em 1745, por ordem do rei de Portugal D. João V, o Magnânimo, a região foi elevada à cidade e nomeada Mariana – uma homenagem à rainha Maria Ana D’Áustria, sua esposa, transformando-se no centro religioso do Estado.

Naquela época, a cidade passou a ser sede do primeiro bispado mineiro.

Disponível em: https://mariana.portaldacidade.com/historia-de-mariana-mg.
Acesso: 31/05/2011.

Tomei a primeira chávena de café expresso desde a saída de Diamantina (MG). 

Em Mariana (MG) encerrei o Caminho dos Diamantes (Diamantina - MG a Ouro Preto -MG).

No dia seguinte, comecei a percorrer o Caminho Velho (Ouro Preto -MG a Paraty - RJ). A 1ª etapa foi vencida. Paraty (RJ) a 590 quilômetros.

08/05/2011

Mariana (MG) a Congonhas do Campo (MG)

90 km


Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/dir/>. Acesso: 31/05/2011.

Eram 9h da manhã quando deixei Mariana (MG) pela Avenida Nossa Senhora do Carmo, que desemboca na BR-356 (Rodovia dos Inconfidentes). 

Contornei Ouro Preto (MG) evitando pedalar por aquelas ruas apertadas, muito movimentadas e com ladeiras de absurda inclinação.

O percurso de Mariana (MG) a Ouro Preto (MG), pela Rodovia BR - 365, tem 11 quilômetros com subida moderada. 

Saí da cota 700 metros e atingi o trevo de acesso a Ouro Preto (MG) na cota 1.200 metros. Um belo aquecimento para aquele domingo, Dia das Mães.

Um marco do Instituto indica a direção para São Bartolomeu e Glaura, dois bucólicos distritos de Ouro Preto (MG). Voltei ao leito da Estrada Real.

Estrada Real trecho entre Mariana (MG) e Ouro Preto (MG).

Após forte subida, que atravessa condomínios de luxo num bairro periférico, um marco do Instituto indica virar à esquerda e ingressar numa trilha estreita e em mata fechada. 

Uma placa avisa das precárias condições desse caminho: trilha sem conservação, piso escorregadio, valas, mato alto e trechos [supus] impedaláveis.

Plano B. Fui até Cachoeira do Campo, 11 quilômetros à frente, pela BR-356 (asfalto). Evitei problemas. 

Atualização: conheci São Bartolomeu e Glaura, dois simpáticos distritos de Ouro Preto (MG), em 2014, quando voltei à Estrada Real durante a Copa do Mundo.

Rapidamente cheguei a Cachoeira do Campo (distrito de Ouro Preto - MG), que fica às margens da BR-356. Vencida uma sucessão de quebra-molas, virei à esquerda e voltei à Estrada Real.

Nove quilômetros adiante, Santo Antônio do Leite, outro distrito de Ouro Preto (MG). Parei para almoçar deliciosa bisteca de porco com arroz, feijão e salada. 

Faltavam 54 quilômetros para Congonhas (MG).

Matriz de Santo Antônio do Leite (MG). Foto: Fernando Mendes.

O restaurante fica em frente à Igreja Matriz de Santo Antônio do Leite (MG). Eram 14h 10 quando retomei a viagem, quicando pelo calçamento irregular da cidade.  Avistei o marco que indicava a direção de Congonhas do Campo (MG).

Terminado o trecho em calçamento, a Estrada Real passou a ser em leito natural, larga e em boas condições de tráfego. 

De ambos os lados, enormes pastagens circundadas pelo esplendor da Serra do Espinhaço.  Pequenas propriedades à beira do caminho dão o tom bucólico ao lugar.

Atravessei uma ponte sobre um pequeno córrego, que forma várias corredeiras, convidativas ao banho. 

Estava quente para um domingo de outono nos Trópicos. Deixei o banho de lado. Não queria me atrasar e muito menos pedalar sob o manto da noite. 

Estrada Real trecho entre Santo Antonio do Leite (MG) e Engenheiro Correia (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Estrada Real trecho entre Santo Antonio do Leite (MG) e Engenheiro Correia (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Chegada a Engenheiro Correia (MG). Foto: Fernando Mendes.

Às 15h 08 passei pelo acesso a Itabirito (MG) e às 15h 20 estava atravessando Engenheiro Correa (distrito de Ouro Preto), com casas simples em ambos os lados. 


Estrada Real trecho entre Engenheiro Correia (MG)e Miguel Burnier (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Pedalava por um piso que um dia foi chamado de asfalto. Parei no único empório local e tomei uma Coca-Cola. Não havia água para vender.

Vi uma senhora debruçada na janela de uma casa. Aproximei-me e saudei-a: “Boa tarde”. Ela respondeu-me em minerês: “tarde sô!” Perguntei se poderia encher minhas duas garrafas com água. Prontamente e, em minrês, ela sorriu e respondeu: “ispera un cadim”. “Vorto gurinha messs”.

E saiu com as garrafas para dentro de casa. Um longo minuto arrastou-se, depois outro, infindável como a passagem do século. 

Por fim, ela voltou trazendo uma bandeja: biscoitos, um pedaço de queijo, outro de goiabada e uma garrafa com café. Isso é a hospitalidade mineira, presente na Estrada Real. Pessoas simples, num lugar simples e sempre prontas a ajudar.

Lanche providencial e inesperado. "Viver é ter a chance da surpresa". Uma hora depois, atravessei a minúscula Miguel Burnier, antiga São Julião, outro distrito de Ouro Preto (MG).

Com o término do Ciclo do Ouro, Miguel Burnier transformou-se num dos mais importantes pontos de entroncamento da estrada de ferro no Brasil 

A Estação Ferroviária, que herdou o nome do chefe da ferrovia, o engenheiro Miguel Noel Nascentes Burnier, foi inaugurada em 1887, tendo completado 124 anos em 2011 

Em 1889, a ferrovia chegou até Ouro Preto. A transferência da capital mineira, de Ouro Preto para Belo Horizonte, desembarcou e embarcou em Miguel Burnier, além da mão de obra e materiais necessários para a construção de Belo Horizonte, vindos de diversas partes do Brasil.

Miguel Burnier era o ponto de entroncamento que ligava a nova Belo Horizonte a Ouro Preto e ao Rio de Janeiro.

Mas com a decadência do transporte ferroviário no Brasil, esse ramal foi abandonado, depois de ter passado, em 1970, à administração da Estrada de Ferro Leopoldina. 

Em 2007 começaram a existir tentativas locais de reforma e reutilização do prédio da estação. 

  Infelizmente tudo em Miguel Burnier cheira a miséria. 

As casas, outrora, ricas, bem construídas e adornadas, são ocupadas por gente que não tem onde cair morta. 

Sem manutenção, essas moradias vão aos poucos definhando, lentamente desaparecendo, matando o passado ferroviário que hoje se resume aos trens da MRS, que levam aço da Usiminas para os Portos do Rio de Janeiro e Santos.

Disponível em: http://www.estacoesferroviarias.com.br/efcb_mg_linhacentro/burnier.htm.
Acesso: 31/05/2011.


Fotos estação burnier [s.d] disponível em: <http://www.estacoesferroviarias.com.br/efcb_mg_linhacentro/burnier.htm>. Acesso: 31/05/2011.

 Miguel Burnier não é a única localidade do Brasil que entrou em decadência em virtude da desativação de um ramal ferroviário. 

Próspera no passado, hoje o distrito sucumbe ao descaso e padece no esquecimento. 

Um projeto chamado Estação Cultura está tentando recuperar uma das mais importantes estações ferroviárias do Brasil.

Disponível em: <http://www.estacoesferroviarias.com.br/efcb_mg_linhacentro/burnier.htm>.

Acesso: 31/05/2011. 

Ao atravessar Miguel Burnier, constatei pobreza por todos os lados. A estação está caindo aos pedaços e virou moradia de sem-teto. Que tristeza!

Atualização.

No dia 10 de novembro de 2012, o imóvel foi devolvido à comunidade que, enfim, pode usufruir o espaço totalmente restaurado. Passou à sede do Projeto Estação Cultura.

O imóvel foi, então, integrado ao cotidiano da comunidade como sede do Centro Comunitário, que é utilizado para ensaios da banda de música e coral, reuniões comunitárias e serviços sociais prestados pelo Município de Ouro Preto (MG).

Assim, retomada a sua função social, a propriedade tornou-se local de uso coletivo, como deve ser um bem cultural.

Disponível em: <https://patrimoniocultural.blog.br/patrimonio-cultural-ferroviario/estacao-de-miguel-burnier/. Acesso: 07/05/2021.

Estação Miguel Burnier (MG).

estação burnier [s.d] foto color. Disponível em:https://patrimoniocultural.blog.br/patrimonio-cultural-ferroviario/estacao-de-miguel-burnier/#iLightbox[gallery_image_1]/2. Acesso: 07/05/2021.

No Brasil, o rodoviarismo eclipsou o ferroviarismo e as rodovias foram elevadas à condição de cultura e arte. 

Várias expressões ligadas às rodovias foram incorporadas ao linguajar cotidiano: “vou pôr o pé na estrada”, “fulano é experiente e tem “x” anos de estrada” ou “para me aposentar, ainda tenho muita estrada a percorrer”. (Nota do Autor).

Às 17h 04, com a luz natural findando, parti para os derradeiros 20 quilômetros até Congonhas do Campo (MG). 

O asfalto não tardou a chegar. Sendo assim, em pouco mais de uma hora estaria parando para pernoite. Estaria, futuro do pretérito do verbo estar, ou seja, aquilo que não chegou a acontecer.  A ver o motivo mais adiante neste relato.

Estrada Real trecho entre Miguel Burnier (MG)e Congonhas (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Às 17h 38, com o restante de luz natural no Oeste, passei sob uma colossal ponte ferroviária da MRS Logística, o Viaduto Soledade. 

Cinco quilômetros à frente, estava sobre o asfalto da rodovia MG - 443 que, 11 quilômetros adiante, termina no entroncamento com a BR - 040, no perímetro urbano de Congonhas do Campo (MG).

Viaduto Soledade.

Estrada Real trecho entre Miguel Burnier (MG)e Congonhas (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Às 17h 58 avistei a placa indicativa "Congonhas do Campo (MG) à direita". Abandonei a MG - 443 e desci a alça de acesso à BR-040. 

Sentia-me quase no hotel, tomando banho merecido e necessário. Minhas pernas estavam negras da fuligem do minério de ferro, que cai dos caminhões que circulam pelo caminho.

Entrei na BR-040. Restavam três quilômetros para alcançar a entrada de Congonhas (MG). Senti a bicicleta instável. O que eu menos queria naquela hora era um pneu furado, faltando tão pouco para chegar.

Em latim:"Quod non habet remedium". "O que não tem remédio, remediado está". Frase tão velha quanto o mundo.

Empurrei a bike até um posto de combustíveis à beira da rodovia, tirei os alforjes, saquei a roda traseira e substituí a câmara furada por uma nova. Fui à borracharia, providenciei o remendo e enchi o pneu. Àquela altura dos acontecimentos, DEVERIA estar no hotel, banhado e preparando-me para o jantar. 

"O que está feito, feito está". 

Frase de Fiódor Dostoiévski 1821-1881, escritorfilósofo e jornalista do Império Russo.

Eram 18h 30 quando voltei a pedalar por uma rua paralela à BR-040, que me levou ao centro de Congonhas do Campo (MG).

Ainda faltava subir uma ladeira de três quilômetros para alcançar o Hotel Colonial, situado em frente à Igreja Matriz do Bom Jesus de Matosinhos. Creio que nem o Monte Calvário seja tão inclinado. 

Encerrei a jornada daquele Dia das Mães degustando uma deliciosa macarronada no restaurante anexo ao hotel. 

Antes de dormir, fui tirar fotos da igreja. Noite clara, com um Lua Nova quase Crescente - o símbolo das bandeiras de vários países muçulmanos - entre fiozinhos de nuvens, que dançavam ao vento de altitude.  

Paraty (RJ) a 500 quilômetros. Metade do caminho vencido. 

Igreja Matriz do Bom Jesus de Matosinhos. Foto: Fernando Mendes.

Igreja Matriz do Bom Jesus de Matosinhos. Foto: Fernando Mendes.

Entre 1800 e 1805, Aleijadinho - Antonio Francisco Lisboa - (1738-1814), realizou o conjunto de esculturas monumentais, marcando definitivamente sua obra: os 12 profetas em pedra-sabão de tamanho quase natural, feitos para o adro dianteiro do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos de Congonhas do Campo (MG) 

Exemplo contundente do desenvolvimento do barroco no Brasil. Talvez a sua última grande manifestação 

 O santuário barroco de Bom Jesus de Matosinhos é o célebre monumento histórico e artístico de Congonhas. Patrimônio da Humanidade foi tombado pelo IPHAN em 1985. 

Construído em várias etapas, nos séculos XVIII e XIX, por vários mestres, artesãos e pintores, como o Aleijadinho e Manuel da Costa Ataíde, é uma das maiores realizações do barroco brasileiro. 

 O santuário mineiro começou a ser construído como pagamento de uma promessa feita pelo fiel português Feliciano Mendes em 1757. Espelha-se no Santuário do Bom Jesus de Braga, em Portugal.

 Aleijadinho foi o responsável apenas pela parte escultórica do pátio, sendo o projeto arquitetônico de responsabilidade de Tomás de Maia Brito.

Disponível em:<www.ebiografia.com/aleijadinho/>. Acesso: 31/05/2011.


09/05/2011

Congonhas do Campo (MG) a São João del Rei (MG)

113 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/>.

Acesso: 31/05/2011 (com adaptações).

Noite mal dormida é pior do que bater na mãe. O restaurante anexo ao Hotel Colonial é ponto de balada. E a música tocou alto madrugada adentro. Parou às 4h.

Como "Infortunium est parum ineptiis" - desgraça pouca é bobagem, em latim -, a cozinha do Hotel Colonial estava sob meu quarto. Aromas noturnos de comida, fritura e óleo queimado.

Quando a fuzarca acabou, consegui dormir, mas por pouco tempo. Às 6h, o telefone da recepção do hotel começou a tocar e não apareceu ninguém para atendê-lo. Continuou tocando, distante, insistente. 

Enfurecido, levantei-me, fui ao balcão e tirei-o do gancho. Isso me garantiu mais duas horas de sono.

Às 8h, muito contrariado e sentindo-me nada descansado, levantei-me. O dia parecia nublado e cinza.

Quando abri a janela do quarto, não vi nada. Forte névoa alvadia (esbranquiçada), espessa e sinistra envolvia o histórico sítio de Congonhas do Campo (MG).

Tomei café e fiquei à espera de melhoras nas condições do tempo. Sabendo que no outono esse tipo de formação é comum em regiões serranas e que a única maneira de haver dissipação [da névoa alvadia] é com o aumento da temperatura, fiquei a esperar que o Sol fizesse a sua parte.

Às 10h 30, o Sol aqueceu o ar e a névoa alvadia dissipou-se rapidamente, como se dissipa um sonho bom. 

Parti com duas horas de atraso. Fui obrigado a executar um caminho alternativo, genericamente chamado de "Plano B", haja vista o adiantar da hora.

Caso mantivesse a disciplina ao caminho dito Estrada Real, chegaria a São João del Rei (MG) por volta da meia-noite, quiçá no alvorecer do dia 10/05.

Pela BR-040 saí de Congonhas (MG) às 11h 10.  Fui na direção Rio de Janeiro (RJ).

Três quilômetros à frente, virei à direita [saída 618] e aconteceram as primeiras pedaladas na BR-383, que liga Congonhas (MG) a São João Del Rei (MG). 110 quilômetros sobre asfalto, acostamento razoável e movimento fraquíssimo.

Mesmo não pedalando pelo tramo principal da Estrada Real, a BR-383 faz parte da REG. ESTRADA REAL (Região da Estrada Real). 

Estrada Real trecho entre Congonhas (MG) e São João del rei (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Após pedalar os 16 quilômetros iniciais da BR-383, cheguei a São Brás do Suaçuí (MG), localizada na microrregião da Serra do Espinhaço.

O município tem uma altitude em torno de 1.000 metros, é servido pela Ferrovia do Aço e está na Zona Metalúrgica de Minas Gerais.

Pausa para delicioso almoço. Comida boa, mas o recinto do restaurante estava envolto em muita fumaça do fogão à lenha. Saí de lá defumado.

Por volta das 14h, voltei à lida no pedal e ao caminho.  A próxima cidade, Entre Rio de Minas (MG), 18 quilômetros à frente, foi alcançada às 15h 30.

Mais 31 quilômetros e cheguei a Lagoa Dourada (MG), a terra do rocambole. Eram 17h 30. Optei por não comer a iguaria que tornou o município conhecido. Estava muito quente.


Estrada Real trecho entre Congonhas (MG) e São João del Rei (MG).
Foto: Fernando Mendes.


Estrada Real trecho entre Congonhas (MG) e São João del Rei (MG).
Foto: Fernando Mendes.

O povoamento de Lagoa Dourada começou por volta de 1625, quando a bandeira comandada por Oliveira Leitão descobriu ouro nas águas de uma pequena lagoa. Por volta de 1717, a região estava bem povoada e o arraial foi se formando com a chegada de novos “oureiros”.  

Em 1734, Dom Frei Antônio de Guadalupe ergueu, então, uma capela dedicada a Santo Antônio. Em 1750, o arraial foi elevado a “Distrito da Paz”. 

Em 1832, o nome original de Alagoa Dourada foi alterado para Lagoa Dourada, uma referência à lagoa ali existente, muito rica em ouro. 

Após o esgotamento das jazidas auríferas, o arraial buscou alternativa na agricultura, principalmente, no milho e na produção do leite. 

Em 1892, o distrito passou a pertencer a Prados, e em 1911, foi finalmente emancipado.

A comunidade é habilidosa na produção de licores, vinhos e doces caseiros, que também recheiam os famosos rocamboles.

De fato, os deliciosos pães de ló recheados de doces variados fazem jus à fama. 

 Passar por Lagoa Dourada significa provar e comprar rocamboles para levar. 

Essa receita, que vem sendo passada de geração em geração, tem as dicas que lhe garantem o irresistível sabor. 

Disponível em: http://www.descubraminas.com.br/Turismo/DestinoApresentacao.aspx?cod_destino=188. Acesso: 31/05/2011. 

Às 17h 45 atravessei o perímetro urbano de Lagoa Dourada (MG). Faltavam 39 quilômetros para São João Del Rei (MG). Como pedalava fora da Estrada Real, de nada adiantava consultar a planilha ou a altimetria.

Resolvi perguntar a um nativo acerca do trecho a seguir. 

- "Olá". “Boa tarde". Saudei-o.

- "Tarde moço", respondeu-me, prontamente, o nativo.

- "O senhor sabe me dizer se daqui até São João Del Rei têm muitas subidas", perguntei.

-"NNNNNNNNÚ”. "Daqui ni São João é uns 40 quilontros". "Logali daquilá". 

E como não poderia deixar de ser, veio aquela pergunta de praxe:

- "Ocê nessa bicicreta lá evém didonde"

- "De Diamantina e vou para Paraty", falei de imediato.

- "NNNNNNNÍ". "Cê besta sô"! "Ocê tá vindo de Diamantina mesm"? ""! "Não sei se ocê é doidimai  ou animadimaissss".

Por diversas vezes ouvi essa reação quando dizia de onde vinha e aonde (ou para onde) estava indo. 

E concluiu: “Ocê vai descê dôi morro”. “Logali daquilá”. 

Isso, em linguagem minerês, quer dizer: "você vai descer dois morros. É rapidinho daqui até lá". A informação foi precisa.

Na saída de Lagoa Dourada (MG) uma descida longa, depois um trecho plano, mais descidas e planuras até que, às 19h 30, cheguei à entrada da São João Del Rei (MG), localizada no Vale do Rio das Mortes.

A Pousada do Bispo fica nas cercanias da Matriz de São Francisco de Assis. Como todos na cidade conhecem a igreja, foi fácil alcançar o local de pernoite. 

No dia seguinte, não houve pedal. A bike foi para revisão. 

Paraty (RJ) a 400 quilômetros.

10/05/2011

Dia em São João del Rei (MG)

113 km

Beco do Bispo é uma pousada nota 10. O proprietário chama-se Átila Godoy, o idealizador da Estrada Real. Fiz questão de me hospedar numa das melhores da cidade, afinal passei dois dias em São João Del Rei (MG). Conforto é bom e eu gosto.

Jantei deliciosa lasanha e dormi numa cama enorme, onde pude me esparramar à vontade. Foi um dia de pedal duro, Sol forte e muitas subidas até Lagoa Dourada (MG).

Felizmente havia um Plano B, no qual evitei a Estrada Real em virtude do elevado atraso na saída de Congonhas (MG) por conta da neblina espessa. Tudo estava dando certo. Que sensação maravilhosa. 

Havia pedalado 559 quilômetros. Paraty (RJ) estava a 400 quilômetros. Mais da metade do caminho foi vencido.

No dia seguinte, nada de pedalar. Estava programado levar a bike para revisão e passar o dia na malandragem.

Acordei às 9h (isso é hora de acordar), tomei delicioso café (pequeno almoço em Portugal) e fui para a Bike Advanced cumprir a única obrigação daquela terça-feira (10/5/2011).

Voltei a passos e sem pressa para o centro histórico. Muitas fotos e deliciosa chávena de café expresso, numa padaria próxima à Estação Ferroviária. Fui à Igreja de São Francisco de Assis. Mais fotos. 

A cidade de São João Del Rei originou-se do antigo Arraial Novo do Rio das Mortes.

A ocupação do arraial remonta a 1704, quando um paulista chamado Lourenço Costa descobriu ouro no ribeirão de São Francisco Xavier.  

A descoberta fez com que as terras fossem distribuídas a várias pessoas, que começam a explorar as margens do ribeirão.

Algum tempo depois, o português Manoel José de Barcelos encontrou mais ouro na encosta sul da Serra do Lenheiro, num local chamado Tijuco.

Naquele local estabeleceu-se o primeiro núcleo de povoamento que deu origem ao Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, mais tarde Arraial Novo do Rio das Mortes e atual São João Del Rei.

 Disponível em: https://guiadaestrada.com.br/listings/historia-de-sao-joao-del-rei/. Acesso: 31/05/2011.

São João del Rei (MG). Igreja de São Francisco de Assis. Foto: Fernando Mendes. 

Bela e imponente, a Igreja de São Francisco de Assis é a grande referência da arquitetura religiosa colonial de São João Del Rei. 

Em 1749, existia uma capela dedicada ao santo. Em 1772, essa capela encontrava-se em péssimas condições, levando a Ordem Terceira Franciscana a iniciar um novo templo. “A autoria do projeto original é do Aleijadinho, comprovada pelo risco existente no Museu da Inconfidência de Ouro Preto.” (IPHAN).

 Mas, para executar o risco, foi contratado o mestre Francisco de Lima Cerqueira, que fez várias mudanças no projeto original, como substituição das torres oitavadas, modificações no desenho dos óculos da nave e alteração do arco-cruzeiro.

Os trabalhos arquitetônicos foram concluídos em 1804.

Disponível em: https://guiadaestrada.com.br/listings/historia-de-sao-joao-del-rei/. Acesso: 31/05/2011.

São João del Rei (MG). Foto: Fernando Mendes. 

São João del Rei (MG). Ponte da Cadeia. Foto: Fernando Mendes. 

São João del Rei (MG). Ponte da Cadeia. Foto: Fernando Mendes. 

São João del Rei (MG). 

São João del Rei (MG). Igreja de São Francisco de Assis. Foto: Fernando Mendes. 

São João del Rei (MG).

Encerrado o périplo fotográfico, tomei a direção de um restaurante ao lado da Estação Ferroviária. Comida mineira da melhor qualidade. Saboroso feijão, o mais delicioso que degustei ao longo da jornada.

Precioso café expresso numa padaria adjacente à casa de pasto e voltei para a pousada. Dormi até às 17h 30. Descanso merecido e reparador. Fazia 10 dias que não sabia o que era dormir após o almoço. Essa parada programada em São João Del Rei (MG) foi deveras providencial. 

Bike revisada e tudo em ordem. Voltei pedalando para a pousada. No caminho, passei por outra bicicletaria. Na vitrine, à exposição, um par de alforjes. Foi amor à primeira vista. Comprei-o em substituição aos que levei, deveras surrado, devido às longas viagens desde a aquisição, em 2007. 

À noite tomei deliciosa sopa de mandioquinha e, após essa entrada, lasanha no prato principal. Voltei para o quarto e assisti TV detendo o monopólio do controle remoto. Que maravilha! Diversos canais – entre abertos e a cabo – para meu deleite.

Antes de dormir, deixei os haveres arrumadas nos alforjes novos. Adormeci antes das 22h. Paraty (RJ) a 400 quilômetros.


11/05/2011

São João del Rei (MG) a São Vicente de Minas (MG)

86 km


Disponível em:<https://www.google.com.br/>.

Acesso: 31/05/2011 (com adaptações).

Acordei às 8h com a sensação de que estava chovendo. Percepção errada, ufa! O jardim interno da pousada estava sendo regado. Mas o dia amanheceu nublado e havia previsão de pancadas isoladas para a região. 

Tomei delicioso café da manhã, com frutas, pão de queijo e omelete. Quando estava pagando a conta, o funcionário da recepção perguntou-me qual era o meu destino naquele dia. De pronto, respondi: “Carrancas" (MG)”. 

Ele me deu uma notícia nada animadora. A Estrada Real entre Capela do Saco e Carrancas (MG) está muito ruim para quem pedala com bagagem. Além disso, a Fazenda Traituba – local de possível pernoite entre Carrancas (MG) e Cruzília (MG) – foi fechada. 

Mais uma vez tive que recorrer ao Plano B. Deixei São João Del Rei (MG) - às 9h - pela BR-265 e pedalei até o trevo de acesso à BR-383, que me levou a Cruzília (MG), pelo asfalto, passando por Madre de Deus de Minas (MG), onde almocei e São Vicente de Minas (MG), cidade de pernoite daquele 11 de maio. 

Foi um dia de pedal tranquilo, Sol entre nuvens e chegada a São Vicente de Minas (MG), a terra dos queijos finos, às 17h 30, ao crepúsculo vespertino ou ocaso.


Estrada Real trecho entre São João del Rei (MG) e São Vicente de Minas (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Chegada a São Vicente de Minas (MG). Foto: Fernando Mendes.

Chegada a São Vicente de Minas (MG). Foto: Fernando Mendes.

Desde 1888, o município de São Vicente de Minas (MG) é cruzado por uma ferrovia que, até 1931, era de responsabilidade da Estrada de Ferro Oeste de Minas. 

Durante as décadas seguintes passou a ser propriedade da Rede Ferroviária Federal S.A (RFFSA). Atualmente a concessão cabe à FCA e o trecho é conhecido por Ferrovia do Aço. 

Em setembro de 1912, a antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas inaugurou uma estação com sete residências, nas proximidades do Pico Minduri, que deu o nome à cidade. 

Até 1920, muito pequeno era o movimento daquela estação, que servia mais como um posto de abastecimento de água, lenha e carvão às locomotivas da época. 

Em 12 de dezembro de 1953, Minduri foi elevada à categoria de município. 

Em 1940, passou a ser chamado de Minduri, nome indígena que significa "quem faz casa no chão", referência a uma abelha, também chamada manduri, típica da região. 

A estação fechou para passageiros em 1996, quando o trem Barra Mansa a Ribeirão Vermelho deixou de operar. 

Hoje é um centro cultural do município. Atualmente, a Concessionária FCA (Ferrovia Centro-Atlântico) opera a linha férrea da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas, transportando apenas cargas. 

A principal é o minério de ferro, que segue para a CSN, em Volta Redonda (RJ). 

Fonte: Estações Ferroviárias do Brasil (11 de setembro de 2010). «São Vicente de Minas». Consultado em 31/05/2011.  

Em São Vicente de Minas (MG) o tempo começou a esfriar. Saí para jantar por volta das 19h. Quando retornei para o quarto, deitei-me sob um cobertor acolhedor. 

Foi meu primeiro dia de pedal pelo Circuito Terras Altas da Mantiqueira. A temperatura começou a cair. E foi caindo à medida que o pedal avançava e as altitudes aumentavam. 

Faltavam seis dias para chegar a Paraty. (RJ). Seis dias para a Lua Cheia. Ao deitar verifiquei o termômetro do GPS. Marcava 11°C. 

Paraty (RJ) a 300 quilômetros.


12/05/2011

São Vicente de Minas (MG) a Caxambu (MG)

80 km


Disponível em:<https://www.google.com.br/>.
Acesso: 31/05/2011 (com adaptações).

Pela manhã, o termômetro do relógio digital, que fica defronte ao hotel no qual pernoitei, assinalava 16°C.  

Às 10h deixei São Vicente de Minas (MG). Não saí mais cedo. O frio era desaconselhável. 

Pedalei forte para aquecer e cheguei à pequena Minduri (MG), 23 quilômetros à frente de São Vicente, às 11h 12. 


Estrada Real.
Trecho entre São Vicente de Minas (MG) e Cruzília (MG). Foto: Fernando Mendes.

A próxima cidade, Cruzília (MG), foi alcançada às 13h, após 33 quilômetros de fortes ondulações. Era como se a Serra da Mantiqueira estivesse me avisando: “camarada, isso é apenas o começo do sobe e desce intenso que encontrarás pela frente”.

Cruzília (MG) fica dentro de um buraco fundo. Desci muito para alcançar o downtown e chegar ao Restaurante Castelinho, no qual saboreei uma refeição deliciosa e merecida. 

O Sol brilhava forte e a temperatura era bem agradável. O GPS marcava 23°C. Foi uma boa opção o Plano B.


Estrada Real.
Trecho entre São Vicente de Minas (MG) e Cruzília (MG). Foto: Fernando Mendes.
Ao fundo, o colosso da Mantiqueira.

Alcancei Cruzília (MG) sem precisar me expor ao trecho duro da Estrada Real entre Carrancas (MG) e Cruzília (MG). Essa etapa tem 65 quilômetros em leito natural (isso não é problema) e sem apoio algum (isso é um problemão). 

A Fazenda Traituba, na metade desse caminho deserto, funciona como um “cais do porto para quem precisa chegar.” Funcionava. Foi fechada. Por isso segui para Cruzília (MG) pelo asfalto.


Estrada Real.
Trecho entre São Vicente de Minas (MG) e Cruzília (MG). Foto: Fernando Mendes.
Ao fundo, o colosso da Mantiqueira.

Quando se pedala sozinho é imperioso evitar situações como essa. Para mim, não chegou a ser decepcionante ter pedalado esse percurso fora do caminho dito “oficial” da Estrada Real. 

O caminho dessa estrada nunca foi estático. Variantes ou descaminhos para fugir à cobrança do “quinto”, desmoronamentos, lamaçais, alternância das estações do ano, surgimento de cidades, fazendas que foram desmembradas, passagens outrora livres, hoje estão restritas às mineradoras, são algumas explicações para entender o porquê de a Estrada Real, que aparece nos mapas de hoje, NÃO ser exatamente aquela aberta nos séculos XVII e XVIII.

Por isso as placas indicativas de distâncias, por exemplo, trazem sempre, na parte superior, os dizeres: “REG. ESTRADA REAL”, que significa que o viajante NÃO está – quem sabe, na Estrada Real, mas na REGIÃO INFLUENCIADA por ela, na qual existem polos turísticos que englobam vilas (Milho Verde-MG), distritos (Campos de Cunha-SP) e até municípios (Paraty-RJ).

As estradas que chamamos rodovias são estáticas. BR-116, BR-040, SP-330 e por ai vai. Naquela época, não era assim. Quando uma barreira caía, abria-se uma variante e o caminho mudava. Hoje, quando uma barreira cai, máquinas limpam tudo e a estrada não tem seu trajeto alterado. 

Durante as pesquisas para realizar minha viagem, encontrei esse alerta em várias publicações acerca da Estrada Real. Eis o que diz Marcelo Ribas em “A História do Caminho do Ouro em Paraty”, página 7: “como resultado desse empenho na difícil busca de respostas às tantas indagações que, em sua maioria, encontram-se até hoje em aberto com relação ao traçado do caminho, ou dos caminhos, percurso que variou no espaço, no tempo e nos descaminhos”.

Outra dificuldade para se estabelecer por onde passa (ou passou) o caminho dito “oficial” deve-se ao fato de o Brasil ser um país sem memória histórica. Nação que não prima por registrar hoje o que será história amanhã. 

Esse movimento de penetração do litoral para o interior em busca de riquezas mudou definitivamente a cara do País, até então povoado em vários trechos do litoral.

Foi a grande corrida provocada pela descoberta do ouro no sertão de Cataguás, atual Estado de Minas Gerais que, em ato sem precedentes, interiorizou o povoamento do Brasil.

Após almoçar muito bem, encarei os 23 quilômetros finais até Caxambu (MG) sob um espetacular céu sem nuvens e a esplendorosa Serra da Mantiqueira completando o cenário. 

Depois de 10 quilômetros, a BR-383 termina e desemboca na BR-267, que segue para Caxambu (MG), passando por Baependi (MG). Eram 16h 30 quando cheguei à cidade das águas minerais.


Estrada Real.
Trecho entre Cruzília (MG) e Caxambu (MG). Foto: Fernando Mendes.

Hospedagem no Grande Hotel de Caxambu. Infelizmente o estabelecimento está muito malcuidado, principalmente a parte interna. Os tacos estão soltos no assoalho, os móveis velhos e sem manutenção. 

O glamour (encanto) de outrora foi substituído pelo abandono. Depois do banho, dei umas voltas pela cidade, tomei café expresso e fui visitar a Igreja Matriz.


Estrada Real.
Trecho entre Cruzília (MG) e Caxambu (MG). Foto: Fernando Mendes.

Aproveitei a saída e passei por uma loja de bike. Agendei uns ajustes nas marchas e nos freios para o dia seguinte. 

Durante a execução do planejamento da viagem, programei um dia em Caxambu (MG) para conhecer a cidade e, principalmente, passear pelo Parque das Águas.

Parque das Águas. Caxambu (MG). Foto: Fernando Mendes.

O Parque das Águas em Caxambu é o único a concentrar, no mesmo local, fontes de água mineral, com propriedades químicas diferentes umas das outras. Dentro do limite do parque, há o suntuoso complexo arquitetônico do Balneário. 

Uma luxuosa construção datada de 1912, com imenso portal de vitral, abrigando diversificados banhos, duchas, saunas e piscinas térmicas de água mineral. 

Caxambu está sobre o maior manancial de águas minerais carbogasosas da Terra. São mais de dois milhões e meio de litros fluindo diariamente por meio de doze fontes. 

 Disponível em: http://www.turismo.mg.gov.br/component/content/article/41/447-caxambu. Acesso: 31/05/2011.

Jantei delicioso nhoque à bolonhesa numa casa de massas. Voltei à cafeteria e tomei outro expresso. Recolhi-me ao Grande Hotel, pois a temperatura, segundo um termômetro da rua, era de 15°C.

Caxambu (MG) fica no coração da Mantiqueira na cota de 900 metros. Essa altitude é suficiente para rebaixar as temperaturas, principalmente à noite.

Nenhuma preocupação em dormir cedo, pois o dia seguinte foi de malandragem.

Acordar tarde e sem o compromisso de pedalar, não tem preço. O hotel estava vazio e quando apaguei a luz do quarto, cenário de filme de terror. Lembrei da película “O Iluminado”. Faltavam cinco dias para a Lua Cheia.

Paraty (RJ) a 230 quilômetros. Viagem maravilhosa.


13/05/2011

Dia em Caxambu (MG)

Deixei a bike para ajustes na oficina e saí para conhecer o Parque das Águas. Pelas ruas vi muitas charretes, paisagem característica de cidades que não perderam seu ar rural e bucólico, apesar da grande urbanização pela qual Caxambu (MG) vem passando. 

Da portaria do Parque, segui por uma alameda bem arborizada. 

Parque das Águas. Caxambu (MG). Foto: Fernando Mendes.

Parque das Águas. Caxambu (MG). Fonte D. Pedro II. Foto: Fernando Mendes.

É a fonte mais antiga e simbólica do Parque das Águas. Possui interessante construção em estilo greco-romano sendo um dos cartões postais da cidade de Caxambu. 

A captação ocorreu em meados do século XIX, e o pavilhão atual, de inspiração neoclássica, foi construído no início da década de 1960. 

O prédio em que ela se encontra possui cúpula apoiada por pilastras grossas, não tendo paredes. Em seu interior, encontra-se uma réplica da coroa que pertenceu a Dom Pedro II. 

A Fonte Dom Pedro em Caxambu MG está em uma pilastra de mármore encimada pela Coroa Imperial. A água sai de uma torneira de aço inox.

Disponível em: http://www.turismo.mg.gov.br/component/content/article/41/447-caxambu. Acesso: 31/05/2011.

Depois de beber a saborosa água da Fonte D. Pedro II fui conhecer o prédio da Hidroterapia. Havia um pequeno movimento de pessoas que usavam a sauna e as salas de banho.

Fazer uma sauna seria uma boa pedida. Mas eu deveria ter atestado médico. Deixei para outra ocasião.

Creio que andei pelos 210.000 m2 do Parque ou quase isso. O movimento era pequeno. As águas do lago estavam espelhadas e as fotos renderam belos dublês de imagem. 

Deixei o Parque ao meio-dia. Mas antes de almoçar, fui conhecer a Igreja de Santa Isabel de Hungria.

Igreja de Santa Isabel de Hungria. Foto: Fernando Mendes.

Oferecida pela Princesa Isabel, em agradecimento ao pedido atendido (era estéril e as águas de Caxambu a curaram). 

A construção foi iniciada em novembro de 1868. A consagração do templo aconteceu em 1897, quando o Brasil era República, e a família real se encontrava no exílio (França). 

A arquitetura da igreja é em estilo neogótico, utilizado a partir da segunda metade do século XIX para a construção de templos religiosos. 

Um dos acessos para a igreja é feito por uma escadaria de 126 degraus. Ao longo do caminho, estão passos da Via Sacra, iluminados por lanternas; no topo, há um cruzeiro de cinco metros de altura.

Disponível em: <https://www.diariopopular.com.br/opiniao/consagracao-do-brasil-a-maria-146820/>. Acesso: 31/05/2011.

Subi os 126 degraus e conheci o templo por fora. Lá do alto, bela vista da cidade de Caxambu (MG). Desci e fui almoçar delicioso arroz com feijão, salada e bisteca de porco.

Após a refeição, café expresso e ida à lotérica fazer uma fé na Mega-Sena acumulada. Foi uma manhã cheia.

Voltei ao hotel e dormi deliciosamente até o fim da tarde. Ao despertar, caminhei até a oficina e retirei a bike.

Limpa, revisada, sem marchas pulando e com novas pastilhas de freios. Quando dei aquela voltinha para testar, senti vontade de pegar a Estrada Real. Mas havia anoitecido e começava a esfriar.

De volta ao Grande Hotel, deixei a bike na garagem, agasalhei-me e fui jantar na mesma casa de massa da noite anterior. Pizza portuguesa de qualidade. 

Terminei o dia querendo beber uma água mineral Caxambu. Não logrei êxito na busca por delicioso líquido. Em Caxambu (MG) não se encontra água mineral Caxambu.

A explicação é que os tributos que incidem sobre a água mineral, que leva o nome da cidade, são elevados. Assim, os comerciantes preferem vender outras marcas, como a  "São Lourenço".

A produção de Água Mineral com a marca "Caxambu" é comercializada para outras Unidades da Federação.


14/05/2011

Caxambu (MG) a Passa Quatro (MG)

60 km


Disponível em:<https://www.google.com.br/>.
Acesso: 31/05/2011 (com adaptações).

Sempre me embasando na tese de que toda viagem deve começar depois das 8h da manhã, deixei Caxambu (MG) às 9h 30. 

Fui pela BR-354 até Pouso Alto (MG), onde acessei a MG-158, passando por Itanhandu (MG) e chegando a Passa Quatro (MG).

Estrada Real trecho entre Caxambu (MG) e Passa Quatro (MG). Foto: Fernando Mendes.

Caso optasse por seguir pela Estrada Real, não chegaria à cidade sorriso (Passa Quatro – MG) naquele sábado. Isso significava perder o passeio de Maria Fumaça, que acontece aos finais de semana.

Os 32 quilômetros que separam Caxambu (MG) de Pouso Alto (MG) são percorridos em subidas intermináveis. 

A paisagem da Mantiqueira é exuberante. A rodovia é sombreada pela Mata Atlântica e como o movimento era pequeno, o canto da passarada ditou o ritmo das pedaladas.

Passei por Pouso Alto (MG) às 12h 30. Hora do almoço. Parti às 13h e pedalei nove quilômetros para alcançar Santana do Capivari (MG). Naquele ponto, deixei a BR-354 e ingressei na MG-158.

Estrada Real trecho entre Caxambu (MG) e Passa Quatro (MG). Foto: Fernando Mendes.

Mais nove quilômetros – agora em descidas – até passar por Itanhandu (MG) e 12 quilômetros - com descidas e subidas suaves - até Passa Quatro (MG). 

Cheguei às 14h 51. O dia estava esplendoroso. Céu com poucas nuvens, típico do outono tropical brasileiro.

Estrada Real trecho entre Caxambu (MG) e Passa Quatro (MG). Foto: Fernando Mendes.

Estada na Pousada Ecos da Montanha. Excelente. Fui à Estação Ferroviária e adquiri o bilhete para o passeio de trem do dia seguinte. 

Em seguida, rolêzinho pela cidade. Era preciso aproveitar a luz natural para registros fotográficos.

Chegada a Passa Quatro (MG). Foto: Fernando Mendes.

Visitei a Igreja Matriz de São Sebastião, a 4º capela construída na cidade, em 1850, pelos fundadores de Passa Quatro, Ana Motta Paes e José Ribeiro Pereira.

A imagem de São Sebastião foi trazida de Portugal. Fotografei o casario colonial e as ruas de paralelepípedos. Passa Quatro (MG) é daqueles lugares que não dá vontade de ir embora. 

Faltavam 147 quilômetros para Paraty (RJ) e três dias para a Lua Cheia.


15/05/2011

Passa Quatro (MG) a Guaratinguetá (SP)

70 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/>.
Acesso: 31/05/2011 (com adaptações).

Dei um pulo da cama às 9h. Pensei ter perdido a hora. Ou melhor, o trem. Passado o susto, tomei café, arrumei meus haveres, paguei a conta na pousada, deixei a bike na garagem, para pegá-la na volta do passeio de Maria Fumaça, e seguir viagem até Guaratinguetá (SP).

Cheguei à Estação Ferroviária uns 20 minutos antes de o trem partir. Tirei fotos da Locomotiva 332 (da marca Baldwin 1929) e às 10h o apito soou alto e varou o ar da cidade, nostalgia dos tempos da RMV (Rede Mineira de Viação). 

Locomotiva 332. Foto: Fernando Mendes.

Locomotiva 332. Foto: Fernando Mendes.

Também conhecido como Trem da Serra, o passeio começou na histórica estação de Passa Quatro (MG), com uma parada [20 minutos] para compras na Estação Manacá, e segue até a Estação Coronel Fulgêncio, a poucos metros do Túnel da Mantiqueira, na divisa de MG/SP, onde ocorreu uma memorável batalha durante a Revolução Constitucional de 1932 (ou Guerra Paulista).

 O movimento armado, ocorrido no Estado de São Paulo, entre 9 de julho e 4 de outubro de 1932, teve por objetivo derrubar o Governo Provisório de Getúlio Vargas e promulgar outra constituição para o Brasil, em substituição à Carta Magna de 1894.

 As tropas federais adentraram o Túnel da Mantiqueira pelo lado mineiro (Passa Quatro - MG) e derrotaram os paulistas, que os esperavam doutro lado da galeria, em Cruzeiro (SP).

 São Paulo, depois da revolução de 1932, voltou a ser governado por paulistas. Dois anos depois, foi promulgada a Constituição de 1934, que durou apenas três anos.

 Em 10/11/1937, Getúlio Vargas, enfim, consumou o seu longamente amadurecido golpe de Estado palaciano.

 As eleições presidenciais - às quais, constitucionalmente, Vargas não poderia se candidatar - estavam suspensas, assim como a Constituição promulgada em 1934.

A Assembleia foi dissolvida e os partidos também.

Censura à imprensa foi estabelecida e criaram tribunais especiais para julgar os crimes políticos. Todas as visões discordantes deviam ser silenciadas à nascença.

 O regime adotou duas diretrizes fundamentais: Ordem e Progresso e recebeu o nome de Estado Novo, mesmo nome da ditadura estabelecida por Salazar em Portugal, em 1926 e que se prolongou até 1974.

O Estado Novo Brasileiro teve vida bem mais curta, felizmente. 

Acabou em 1945 com a deposição de Getúlio Vargas.

(Nota do Autor).

Túnel da Mantiqueira. Foto: Fernando Mendes.

Túnel da Mantiqueira. 997m de extensão. Foto: Fernando Mendes.

O Túnel da Mantiqueira foi construído sob a Garganta do Embaú, no ano de 1882, e inaugurado em 14 de junho de 1884. 

Contou com a ilustre presença de S. M. Imperial o Senhor D. Pedro II e da família real, realizando a primeira viagem do trecho entre Passa Quatro (MG) e Cruzeiro (SP). 

Os trilhos fazem parte de antigo Ramal - com 169 km - da Estrada de Ferro Minas e Rio, que ligava Cruzeiro (SP), lá embaixo, no Vale do Paraíba, a Pouso Alto, São Sebastião do Rio Verde, Itanhandu, Passa Quatro, Soledade de Minas, São Lourenço e terminava em Três Corações, a terra natal de Edison Arantes do Nascimento, o Pelé.

O percurso feito pela Locomotiva 332 é histórico. O cenário deslumbrante, visto da janela do trem, é formado pela Mata Atlântica recobrindo a Mantiqueira, pequenos vales e abundantes riachos.

Às 12h, a 332 retornou a Passa Quatro (MG), desembarquei, voltei à pousada, subi na bike e parti rumo a Guaratinguetá (SP). 

Na próxima vinda a Passa Quatro (MG), terei que ficar mais um dia para apreciar lugar tão especial.

Serra da Mantiqueira. Foto: Fernando Mendes.

Foto: Fernando Mendes.

Locomotiva 332 vista da MG 158. Foto: Fernando Mendes.

Locomotiva 332 vista da MG 158. Foto: Fernando Mendes.

Deixei Passa Quatro (MG), a última cidade mineira da Estrada Real, pela MG-158, às 13h.

Os 12 quilômetros até a divisa MG/SP foram feitos pelo asfalto e com aclive contínuo. Haja pernas para movimentar a bike, com 15 quilos de bagagem.

Trecho entre Passa Quatro (MG) e Guaratinguetá (SP). Foto: Fernando Mendes.

Trecho entre Passa Quatro (MG) e Guaratinguetá (SP). Foto: Fernando Mendes.

Alcancei a divisa MG/SP às 13h 44. Parei no Mirante da Serra onde fica o ponto (Garganta do Embaú - 1.200 metros de altitude) no qual os tropeiros subiam rumo às regiões auríferas da antiga Cataguá (atual Minas Gerais).

Trecho entre Passa Quatro (MG) e Guaratinguetá (SP). Foto: Fernando Mendes.

No Mirante da Serra existe uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Avista-se a cidade de Cruzeiro (SP), localizada no Vale do Paraíba, 600 m abaixo em relação à cota altimétrica do Mirante.


Vale do Paraíba visto do Mirante da Serra. Foto: Fernando Mendes.

Quando voltei ao pedal, uma descida alucinante [rodovia SP - 052] de 8 quilômetros me aguardava. Fui à forra após tantas subidas desde Diamantina (MG). Maior adrenalina.

Quando a estrada estabilizou, parei num restaurante e almocei deliciosa macarronada. Eram 14h 30. Desci 600 m em 8 quilômetros.

Ao voltar à estrada, consultei a planilha e Guaratinguetá (SP) estava a 36 quilômetros. Pedalava agora por uma região plana, intervalada por curtas descidas e subidas. E assim o perfil do terreno se manteve até acessar a Via Dutra. Eram 15h 30.

Os 25 quilômetros até Guaratinguetá (SP) foram pedalados na BR-116 (Via Dutra), movimentadíssima, mas com acostamento largo e pavimentação excelente.

Trecho entre Passa Quatro (MG) e Guaratinguetá (SP). Foto: Fernando Mendes.

Após passar por Cachoeira Paulista (SP), percebi que o tempo, que estava bastante abafado, dava sinais de que mudaria. E mudou rapidamente. 

Faltando três quilômetros para chegar a Guaratinguetá (SP), desabou um dilúvio bíblico. Foi o tempo de alcançar uma passarela para pedestres e me abrigar debaixo dela. A chuva foi rápida, mas intensa.

Trecho entre Passa Quatro (MG) e Guaratinguetá (SP). Foto: Fernando Mendes.

Logo à frente, atravessei a Dutra pela passarela para pedestres e saí em frente ao Hotel Paturi, encerrando a jornada do penúltimo dia de viagem. Eram 15h 14.

Paraty a 109 km. Faltavam dois dias para a Lua Cheia.


16/05/2011

Guaratinguetá (SP) a Cunha (SP)

53 km

Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/>. Acesso: 31/05/2011.

O Paturi [hotel] fica às margens da Via Dutra (KM 59). Isso facilitou as coisas. Não foi preciso entrar na cidade de Guaratinguetá (SP). 

Parti para o último dia de pedal atravessando a passarela para pedestres, que fica em frente ao hotel, saindo na Dutra, pista sentido São Paulo.

Quatro quilômetros à frente, pela alça de acesso à direita, ingressei na SP-171, a Rodovia Guaratinguetá-Cunha, que pertence à Estrada Real. Trata-se de uma rodovia asfaltada e trânsito tranquilo. Eram 10h 46.

No dia anterior (15/05/2011) desci 8 quilômetros na Serra da Mantiqueira e ingressei no Vale do Paraíba. Agora era preciso sair do Vale, subir a Serra do Mar até seu ponto mais alto, para descê-la e chegar a Paraty (RJ). 

Comete ledo engano quem imagina que o trecho Ouro Preto (MG) a Paraty (RJ) é mais fácil de percorrer, em virtude de o viajante descer a Serra da Mantiqueira e a Serra do Mar. 

A diferença total em aclives é de 1.228 m, 12% a menos em relação ao trajeto Paraty (RJ) a Ouro Preto (MG). 


PARATY (RJ) A OURO PRETO (MG)

Aclive total

10.639 m

Declive total

9.411 m

1.228 m de ascensão.


OURO PRETO (MG) A PARATY (RJ)

Aclive total

9.411 m

Declive total

10.639 m

1.228 m de descenso.


Disponível em:<https://www.olinto.com.br/guia-livro-dvd-viagem-bicicleta/estrada-real-caminho-velho/>. Acesso: 31/05/2011.


Estrada Real trecho entre Guaratinguetá (SP) a Cunha (SP). Foto: Fernando Mendes.

Os primeiros oito quilômetros na SP-171 são planos e sombreados. Existem pequenos sítios e comércio modesto. Vencido esse tranquilo e refrescante trecho, uma placa informa: “faixa adicional nos próximos 12 quilômetros”.

Ao fundo, a Serra do Mar.

Estrada Real trecho entre Guaratinguetá (SP) a Cunha (SP). Foto: Fernando Mendes.

Ao final da subida, uma churrascaria, mas estava fechada. Mais um pouco e a estrada inclinou para baixo. Quando comecei a me animar para descer forte o declive que começava, avistei uma lanchonete à esquerda. Parei, comprei água e bati uma tigela de açaí.  Eram 13h 12.

Estrada Real trecho entre Guaratinguetá (SP) a Cunha (SP). Foto: Fernando Mendes.

Havia percorrido exatos 24 quilômetros desde a saída de Guaratinguetá (terra das garças brancas). Os 26 quilômetros finais até a cidade de Cunha (SP), marcados por longas descidas e curtas subidas, foram vencidos em 1h e 44 minutos. Cheguei à antiga Freguesia do Falcão às 14h 53.

A Estância Climática de Cunha tem suas origens por volta de 1695. 

Naquela época, muitos aventureiros subiam a serra pela trilha dos Guaianás, com destino ao Sertão de Minas Gerais, atraídos pela notícia de que havia ouro e pedras preciosas naquela região. 

Com isso, Cunha, que era conhecida como “Boca do Sertão”, tornou-se parada obrigatória para descanso e reabastecimento das tropas. 

Em 1730, os viajantes que se fixaram na região, construíram um povoado no qual a família portuguesa Falcão ergueu uma capela chamada Sagrada Família. 

Devido à contribuição dessa família para o povoado, durante muito tempo a cidade foi chamada de Freguesia do Falcão. 

No início do século XVIII, a grande movimentação de tropas pelo local atraiu bandidos e saqueadores.  

Muito ouro que vinha de Minas Gerais para embarcar em Paraty-RJ, rumo à Portugal, foi desviado.

Devido à necessidade de se criar um posto para vigiar o local, surgiu a Barreira do Taboão, localizada entre a Freguesia do Falcão e Paraty. 

Com o declínio do ciclo do ouro, muitos desbravadores acabaram ficando na região atraídos pelo clima e pela fertilidade do solo. 

Essa intensa movimentação gerou um rápido desenvolvimento local. É o maior município interiorano do estado de SP, com 1.410 410 km2.


Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/cunha/historico.
Acesso: 31/05/2011.
 

Hospedei-me na Pousada Clima da Serra. Recomendo. Tomei banho e não tive coragem de sair à rua.

Depois que o corpo esfriou das pedaladas escalando a Serra do Mar, pude sentir como estava esfriando. O termômetro do GPS marcava, fora do chalé, 13°C. Eram 16h.

Acomodei-me sob um delicioso cobertor e tentei ver TV. Mas o sono me venceu em poucos minutos. Acordei por volta das 18h. Havia escurecido. Senti que a temperatura havia caído mais um pouco. Saí do chalé para conferir. Diante de mim, a Lua quase cheia. Faltava um dia. Tirei fotos. Entrei e me preparei para sair e jantar.

Começou a chover intensamente. Há dez minutos o tempo estava limpo e a Lua visível. 

Cunha, com 1.100 metros de altitude, está localizada em uma ferradura formada pela Serra do Mar e duas serras do seu subgrupo: Bocaina e Quebra-Cangalha.

O Oceano Atlântico fica a apenas 50 quilômetros, na direção sul. A umidade vinda do mar ascende pela serra e provoca chuvas orográficas, quase que diárias na cidade.

A explicação para tanto frio é simples: estávamos numa estação intermediária (outono) associada à elevada altitude. Resultado: muito frio, principalmente à noite.

Quando voltei do restaurante para a pousada, a temperatura havia caído para 10°C. Foi a segunda (e última) vez que usei calças compridas e casaco. A primeira foi na noite que dormi em Passa Quatro (MG).

A chuva ficou moderada e, aos poucos, foi parando. 

Por volta das 22h, ouvi um barulho de algo que batia insistentemente na porta do chalé. Fui verificar. Era o rabo de uma cadela (Catarina, esse é o seu nome). Estava molhada, tremia de frio e parecia me pedir ajuda. 

Usei uma toalha velha, que sempre levo na bagagem à cautela. Enxuguei-a e fui buscar comida no restaurante da pousada.  

Fiquei sabendo que o animal é da dona da pousada. Ela me deu um pote com ração e levei para Catarina. 

Comeu muito e ficou na varanda a me fazer companhia, enquanto relembrava cada trecho que percorri na Estrada Real entre Diamantina (MG) e Cunha (SP).  

Era forte a sensação de ter saído “ontem” de Diamantina (MG). Enquanto isso, espiava a chuva cair em grossos pingos, à semelhança de bagos de uvas.

Paraty (RJ) a 46 km. Estava quase conseguindo.


17/05/2011

Cunha (SP) a Paraty (RJ)

46 km


Disponível em:<https://institutoestradareal.com.br/>. Acesso: 31/05/2011.

E chegou o último dia. Ele sempre chega; demora, mas chega. Eram 10h quando comecei a pedalar pela Alameda Francisco da Cunha Meneses em direção ao portal da cidade, o mesmo por onde entrei no dia anterior.

Ao ingressar na SP-171, repeti o mesmo ritual que faço ao iniciar um dia de pedal. Zerei o ciclo computador da bike e liguei o GPS de pulso, que me informou a temperatura, a altitude, a proa a ser seguida, a hora do nascer do Sol, a hora do pôr do Sol e os batimentos cardíacos.

Instrumentos funcionando, parti. Sabia que teria um dos dias mais duros a percorrer. De Cunha à divisa dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro são 23 quilômetros de obstinada ascensão. 

Subi 440 metros em 23 quilômetros. E tudo isso sob chuva fina, que começou a cair antes mesmo que eu completasse o primeiro quilômetro pedalado.

A subida foi inclinando na mesma proporção que o ritmo pedalado diminuía. Parei para tirar a camisa ensopada e suada. Coloquei outra, limpa e seca. 

Vesti, pela primeira [e única] vez na viagem, o casaco de chuva. Foi agradável a sensação de estar usando uma roupa seca e limpa sob uma vestimenta impermeável.


Estrada Real trecho entre Cunha (SP) e Paraty (RJ). Foto: Fernando Mendes.

Parei e consultei o GPS. Estava na cota 1.300. Faltavam 240 metros de ascensão. Foram os mais difíceis do dia. Naquele ponto, a estrada inclinou mais um pouco. A chuva bailava no ar ao sabor do vento. Eram 11h 35 e nenhum veículo havia passado por mim, nem indo e tampouco vindo. 

Faltavam 10 quilômetros para chegar à divisa dos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, que foram percorridos em incríveis 90 minutos (1h e 30). Às 13h 05, avistei uma placa. A distância que em encontrava dela não consegui ler a informação devido à moderada neblina. Aproximei-me mais um pouco e, sobre a superfície enferrujada, li: divisa São Paulo - Rio de Janeiro a 500 metros. Era o fim do martírio daquele dia. 

Da divisa entre esses dois estados até Paraty (RJ), a estrada inclina absurdamente para baixo. São 23 quilômetros em declive contínuo. Parei para registrar a passagem pela última divisa estadual. 

Chovia e fazia frio. Minha blusa estava ensopada, mas de suor. Apesar da temperatura baixa, o esforço dos últimos quilômetros me aqueceu.

Estrada Real trecho entre Cunha (SP) e Paraty (RJ). Foto: Fernando Mendes.

Naquele ponto, a SP-171 termina e começa a RJ-165, que tem os 10 quilômetros iniciais em leito natural, em virtude de atravessar o Parque Nacional da Serra da Bocaina (subgrupo da Serra do Mar). 

Esse trecho foi calçado com bloquetes. Fim do tormento. 

Obra concluída em 2015.

As chuvas dos últimos verões deixaram a RJ-165 impraticável para veículos de passeio e de carga. Somente os 4X4 (e fuscas) trafegam por tão precária estrada. 

Após registrar em fotos minha passagem pela divisa, iniciei a descida, sem pedalar e driblando as crateras abertas no solo da rodovia. As copas das árvores da Mata Atlântica se abraçam e formam uma imensa galeria de troncos e folhas.

Percebi que a chuva havia aumentado. Mas logo notei que não era chuva; era a transpiração da mata.

Igualmente à Amazônia, as raízes das árvores da Mata Atlântica funcionam como bombas de sucção, que retiram o excesso de água da chuva do solo e nutrem os vegetais. Ao transpirar, as plantas jogam umidade no ar, processo conhecido como evapotranspiração.

Estrada Real trecho entre Cunha (SP) e Paraty (RJ). Foto: Fernando Mendes.

Essa umidade que as plantas jogam no ar, somada à umidade proveniente do Atlântico, provocam as intensas chuvas que caem na região. 

A mesma água cai repetidas vezes. O Sol de hoje evaporou a chuva que caiu ontem, que subirá para cair novamente amanhã. É o ciclo hidrológico.

Os índices pluviométricos no trecho Cunha (SP) a Paraty (RJ) são os mais elevados da Estrada Real e um dos maiores do Brasil. 

O Município de Calçoene (AP) - 7.000 habitantes - IBGE 2010 - é a localidade mais chuvosa do País com precipitação média anual de 4.165 milímetros. 

A análise desses dados foi realizada, em 2006. O estudo foi levantado pelo pesquisador, Daniel Pereira Guimarães, que atua na área de agrometeorologia da Empresa brasileira de Pesquisa Agropecuária. Essa organização está vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Atualmente (2022) a população de Calçoene (AP) é de 11.306 habitantes - IBGE 2020.

Gastei uma hora para descer os 10 quilômetros iniciais, em leito natural, da RJ-165.  A rodovia estava em petição de miséria. 

Quando o leito natural deu lugar ao asfalto, avistei a Baía de Paraty, lá embaixo e "florida" por tantas embarcações.

Baía de Paraty. Foto: Fernando Mendes.

Faltavam 13 quilômetros para o término da jornada que começou em Diamantina (MG), 17 dias atrás. 

A oito quilômetros do Portal de Paraty (RJ), parada, no Bairro da Penha, onde existe uma igreja sobre uma pedra, como são todas as igrejas da Penha pelo Brasil. 

Foto: Fernando Mendes em visita a Paraty (RJ) no ano de 2005.

Tomei deliciosa Coca-Cola no Bar da Marlene e percorri os derradeiros quilômetros, descendo, sem pedalar e sentindo o ar ainda molhado pela chuva que havia dado uma trégua. 

Quando a estrada voltou a ficar plana, transpassei a ponte sobre o Rio Perequê-Açu, atravessei pelo Bairro Pantanal e entrei na ciclovia. Parei numa placa que indicava “Paraty”. 

Chegada a Paraty (RJ). Foto: Fernando Mendes.

Comemorei minha triunfal chegada, às 15h 32, após 17 dias de viagem e 978 quilômetros pedalados. 

Atravessei o maior conjunto de terras altas do País, formado pelas Serra do Espinhaço, pela Serra da Mantiqueira e pela Serra do Mar. No século XVII, esse percurso (Diamantina a Paraty) era feito em até 95 dias. 

Não sou tropeiro, sou ciclista. Não vim a cavalo, vim pedalando. 

Cheguei a Paraty (RJ) pedalando. Eu consegui.