Viagem de Bike pela Estrada de Ferro Bahia - Minas. Inverno 2021.
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VIAGEM DE
BIKE PELA
EXTINTA ESTRADA DE ERRO BAHIA - MINAS AGOSTO 2021 |
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577 km |
LOCOMOTIVA POXIXÁ. FOTO: FERNANDO MENDES.
DIAS | ESTAÇÕES DA
BAHIMINAS | EXTENSÃO KM | DISTÂNCIA
KM | ∑ * |
22/08 1º dia | Araçuaí (MG) a Alfredo Graça (MG) | 27 km | 65 km | 65 km |
Alf. Graça (MG) a Engº. Schnoor (MG) | 18 km | |||
Engº Schnoor (MG) a Queixada (MG) | 20 km | |||
23/08 2º dia | Queixada
(MG) a Novo Cruzeiro (MG) | 31 km | 72 km | 137 km |
Novo
Cruzeiro (MG) a Brejaúba (MG) | 19 km | |||
Brejaúba
(MG) a Ladainha (MG) | 22 km | |||
24/08 3º dia | Ladainha (MG) a Icary (MG) | 10 km | 64 km | 201 km |
Icary (MG) a Caporanga (MG) | 10 km | |||
Caporanga (MG) a Sucanga (MG) | 11 km | |||
Sucanga (MG) a Vallão (MG) | 8 km | |||
Vallão (MG) a Teófilo Otoni (MG) | 25 km | |||
25/08 | DIA EM
TEÓFILO OTONI (MG) | |||
26/08 4º dia | T. Otoni (MG) a Pedro Versiani (MG) | 30 km | 68 km | 269 km |
Pedro Versiani (MG) a São João (MG) | 10 km | |||
São João (MG) a Bias Fortes (MG) | 28 km | |||
27/08 5º dia | Bias Fortes
(MG) a Francisco Sá (MG) | 18 km | 75 km | 344 km |
Francisco
Sá (MG) a Mangalô (MG) | 20 km | |||
Mangalô
(MG) a Presidente Pena (MG) | 15 km | |||
Pres. (MG)
a Carlos Chagas (MG) | 22 km | |||
28/08 6º dia | Carlos Chagas (MG) a Nanuque (MG) | 62 km | 62 km | 406 km |
29/08 7º dia | Nanuque à
Estação Serra dos Aimorés | 14 km | 69 km | 475 km |
Serra dos
Aimorés a Ibiranhém | 15 km | |||
Ibiranhém a
Posto da Mata (BA) | 40 km | |||
30/08 8º dia | Posto da Mata (BA) a Helvécia (BA) | 29 km | 102 km | 577 km |
Helvécia em Juerana | 22 km | |||
Juerana (BA) a Ponta de Areia (BA) | 51 km | |||
Ponta de Areia, ponto final.
Da Bahia-Minas, estrada natural.
Que ligava Minas ao porto, ao mar.
Caminho de ferro mandaram arrancar.
Velho maquinista com seu boné.
Lembra o povo alegre que vinha cortejar.
Maria fumaça não canta mais.
Para moças, flores, janelas e quintais.
Na praça vazia um grito, um ai.
Casas esquecidas, viúvas nos portais.
Fernando Brant e Milton Nascimento. Ano: 1975.
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ESTRADA DE
FERRO BAHIA - MINAS |
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Em 1881 foi inaugurada e ligava Ponta
de Areia a Caravelas (BA). Em 1893 chegou à Serra de Aimorés, na
divisa MG/BA. |
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Em 1898 a
ferrovia alcançou Teófilo Otoni (MG), no Vale do Mucuri. |
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Em 1918 chegou a Ladainha (MG). |
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Em 1924
atingiu Novo Cruzeiro (MG) e Queixada (MG). |
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Em 1930 passou por Engenheiro Schnoor
(MG). |
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Em 1941
alcançou Alfredo Graça (MG). |
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Em 1942 seu percurso foi finalizado em
Araçuaí (MG), no Vale do Jequitinhonha. |
A Estrada de Ferro Bahia - Minas ou Bahiminas, como passou a ser carinhosamente chamada, ao longo dos seus 85 anos de existência e operação, começou a ser construída em 1881, ligando Ponta da Areia, distrito de Caravelas, litoral sul baiano a Araçuaí (MG), localizada no Vale do Jequitinhonha, no nordeste de Minas Gerais, totalizando 577 quilômetros de extensão.
Em gesto simbólico, foram inaugurados os primeiros 500 metros da ferrovia, a partir da Estação Ponta de Areia, em 1881, e contou com a ilustre presença do S.M.I o Senhor D. Pedro II e Família.
No dia 16 de maio de 1881, com grande solenidade, foi fixado o primeiro trilho da Estrada de Ferro Bahia Minas.
O primeiro golpe de martelo foi dado pela esposa do Dr. Miguel de Teive e Argolo 1, Jovianna Crissiuma, gesto seguido por inúmeras autoridades da região. Grande regozijo, acalorados discursos, brindes e telegramas vindos de diversas regiões do Brasil.
1 - O engenheiro baiano Miguel de Teive e Argollo (1851 - 1916) recebeu, em 1879, a concessão para construir e explorar a Ferrovia Bahia-Minas, uma idealização sua.
Os trilhos chegaram a Araçuaí (MG) em 1942, 61 anos após a inauguração da ferrovia, que se tornou a esperança de progresso para os Vales do Jequitinhonha e do Mucuri sendo desativada em 31/05/1966.
Ao analisarmos o processo de desativação da Estrada de Ferro Bahia e Minas, infere-se que a crise econômica mundial, ocorrida em 1929, veio a desarticular as atividades cafeeiras e, como consequência, diminuiu o ritmo dos transportes ferroviários, reduzindo, também, a demanda de madeira como combustível e, portanto, a importância do extrativismo vegetal na região.
Com isso, foi introduzida a pecuária na região, que gradativamente ocupou o espaço deixado pelo desmatamento.
Naquele momento, as locomotivas, arcaicas e de difícil manutenção, não eram as mesmas, funcionando à base de combustível vegetal, devido à elevação do preço do petróleo no mercado mundial.
(ELEUTÉRIO, 1996, p.14).
Notou-se a ocorrência evidente que o sistema de transporte ferroviário brasileiro, implantado para atender às necessidades de uma economia predominantemente exportadora de produtos primários, revelou-se inadequada para responder aos estímulos do intenso processo de industrialização, iniciado no Brasil a partir da década de 1930.
A profunda transformação estrutural que a economia brasileira experimentou, ao longo daquelas décadas, acabou por entrar em conflito frente à capacidade instalada no sistema ferroviário.
Muitas das vezes, não flexíveis ou ineficientes para acompanhar os acréscimos na oferta final de bens resultantes da industrialização. (ANDRADE, 1994, p.12).
A extinção da Estrada de Ferro Bahia e Minas foi ratificada por meio de decreto presidencial, tendo como Ministro dos Transportes o General Juarez Távora.
As principais causas para essa lamentável decisão foram:
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I. desmatamento
das margens sem a preocupação do plantio; |
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II. abertura da Rodovia Rio -
Bahia (trecho da BR - 116) e outras rodovias; |
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III. a
madeira bruta passou a ser trazida de grandes distâncias em veículos
motorizados, aumentando o custo; |
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IV. a falta de manutenção e
recuperação das locomotivas, pranchas, vagões, etc.; |
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V. encarecimento do frete devido
ao combustível gasto, em alta escala, pelas locomotivas; |
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VI. o fechamento das grandes
serrarias. |
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Disponível em:
https://wwwfundacaoralile.blogspot.com/p/galeria-de-fotos-estrada-de-ferro-bahia.html.
Acesso: 11/09/2021. |
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Em
30/03/1966, os comboios da E. F Bahia Minas passaram por uma supressão (ato
ou efeito de eliminar) durante 1 mês (de 30/03/1966 a 30/04/1966). |
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As locomotivas deixaram de ter
regularidade nas viagens. |
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30 dias
depois (30/04/1966 a 31/05/1966), os ferroviários caíram em desolamento, ao
receberem a notícia que insistiam em não acreditar: a chegada
de cinco telegramas nas estações de Ponta de Areia, Nanuque, Teófilo Otoni,
Ladainha e Araçuaí, informando que a ferrovia seria extinta na íntegra, a
partir do dia 31/05/1966, uma 3ªf, quando o apito da locomotiva foi ouvido
pela última vez. |
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Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=QJCHCc3bRqE&t=545s>. Acesso: 31/07/2021. "DE UMA PONTA À OUTRA" – Filme Documentário sobre a memória da Ferrovia Bahia Minas. Autor do vídeo: Athylla Borborema. |
A ideia de percorrer pedalando o extinto leito ferroviário da Bahiminas ocorreu-me em 2019, após assistir, no Youtube, a uma reportagem de 2005 feita pela Globonews, na qual o tema foi: "histórias e emoções que ficaram guardadas nas velhas estações".
Ao perceber que a equipe de reportagem percorreu integralmente o leito da Bahiminas de automóvel, concluí: "se foram de carro, posso ir pedalando minha bike".
Roteirizei a viagem a partir das informações obtidas no Google Maps, estabeleci a quantidade de dias a pedalar e os lugares para pernoites.
Esperei a festa de fim de ano passar, aguardei janeiro e fevereiro de 2020 tornarem-se passado e, finalmente, em março, no dia primeiro, comprei duas passagens rodoviárias: Brasília a Belo Horizonte (MG) e Belo Horizonte (MG) a Araçuaí (MG), o ponto de partida da minha aventura.
No dia 16/03/2020 deixei Araçuaí (MG), por voltas 10h, sob calor saariano, característico do Vale do Jequitinhonha e segui em meio à vegetação semiárida, marcada pela presença de muitas plantas cactáceas, dentre as quais os mandacarus predominam.
No dia 18/03/2020, após pedalar 201 quilômetros, cheguei a Teófilo Otoni (MG). Foram três dias "desligados" de notícias do Planeta.
À noite, enquanto aguardava o jantar ser servido no restaurante do hotel, li num site de notícias, via celular, algo atordoante:
"A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que vivemos uma pandemia do novo Coronavírus, chamado de Sars-Cov-2".
“Nas últimas duas semanas, o número de casos de Covid-19, doença provocada pelo vírus [fora da China] aumentou 13 vezes e a quantidade de países afetados triplicou".
"Temos mais de 118 mil infecções em 114 nações, sendo que 4.291 pessoas morreram”, justificou Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.
Na volta ao quarto, assisti ao Jornal Nacional para me atualizar o que ia pela pátria. As notícias chegavam em clima de pânico.
Para evitar o alastramento da doença, decretou-se lockdown (confinamento) e home office (escritório em casa), anglicismos, que logo incorporaram-se ao cotidiano.
Vaticinou-se o uso obrigatório de máscaras, distanciamento social e a máxima: "fique em casa" ou "stay at home", mais um anglicismo incorporado ao dia a dia.
A doença matando a rodo na Europa, cujo país mais atingido foi a Itália, onde os médicos decidiam quem morreria e quem sobreviveria. O pior dos mundos estava estabelecido na Terra.
Por ter [em 2020] 60 anos e sabedor que faço parte do grupo mais vulnerável à infecção pelo coronavírus, falou mais alto minha intuição - esse infalível semáforo da alma - e voltei para casa [em Brasília - DF] no dia seguinte, com ar de pressa e atarantado.
Passaram-se 18 luas [cheias], cerca de 17 meses, para eu retornar à Bahiminas, em agosto de 2021, devidamente vacinado com duas doses.
Convidei minha prima Reane, sexagenária igual a mim, carioca, tal qual eu, e amante de cicloviagens, para percorremos, sem sustos, os 577 quilômetros do extinto leito da Estrada de Ferro Bahia-Minas.
No dia 20/08/2021 nos encontramos na Rodoviária de Belo Horizonte (MG). Ela vindo do Rio de Janeiro (RJ) e eu de Brasília (DF).
Desembarcamos em BH por volta das 19h e reembarcamos, às 21h 45, noutro ônibus, rumo a Araçuaí (MG), 700 quilômetros adiante. Que périplo rodoviário modorrento, mas foi por uma causa justa.
Chegamos ao antigo Povoado do Calhau, o primeiro nome de Araçuaí (MG), - 34. 807 habitantes - IBGE - 2022 - às 9h de uma manhã de sábado, 21/08/2021, sob um grande céu cheio de Sol.
Era dia de feira no Mercado Municipal 2 da cidade.
2 - Um importante prédio histórico e arquitetônico da cidade, o Mercado Municipal de Araçuaí (MG), também se destaca como polo cultural e turístico da região.
Repleto de opções de lazer e comércio, o edifício, que possui seis décadas de história, foi inaugurado em 1961, vindo a substituir o antigo Mercado, que funcionava na parte baixa da cidade.
O Mercadão reúne comerciantes de todos os cantos do município.
Nele são encontrados frutas, verduras, cereais, carnes, temperos a granel, derivados de leite e outros produtos alimentícios, além do rico artesanato do Vale do Jequitinhonha.
Fomos conhecer a famosa feira da localidade. Vendedores disputavam a atenção dos possíveis compradores, em um confuso maremagnum (*) de gritos e pechinchas, que se perdiam naquele mar de gente, que parecia proceder de todos os rumos (ou proas) de uma bússola. Um caos organizado.
Ficamos, por precaução, embora duplamente vacinados, a distância segura daquele maremagnum.
A
expressão "à distância" terá crase quando a distância é
especificada ou determinada.
(Nota do Autor).

Partimos para o almoço e depois fui dormir. Estava exausto das 26 horas de viagem entre Brasília (DF) e Araçuaí (MG).
O dia, lento e aprazivelmente, foi se extinguindo. A noite, serena, começou a liberar estrelas, que pareciam brigar umas com as outras, para ver quem brilhava mais.
Pizza deliciosa para encerrar aquele 21 de agosto e, após, sono reparador. Precisávamos de repouso. No dia seguinte, a Bahiminas nos esperava.
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1º DIA |
22/08/2021 |
65 km |
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ARAÇUAÍ (MG) A ALFREDO GRAÇA (MG) |
27 km |
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ALFREDO GRAÇA (MG) A ENG. SCHNOOR |
18 km |
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ENG. SCHNOOR A QUEIXADA (MG) |
20 km |
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Quando acordei, o Sol estava na lida havia tempo. Às 8h30 de uma manhã de domingo, dia 22/08/2021, inverno nos trópicos, iniciamos o caminho para ver o mar.
O tempo estava agradável e a temperatura era de 22°C, bem diferente de março do ano passado [2020], quando iniciei a jornada em Araçuaí (MG) e interrompi-a em Teófilo Otoni (MG), em decorrência da pandemia.
Naquela ocasião vivíamos - no Hemisfério Sul - os últimos dias do verão.
[...] "as quatro estações do ano são nítidas e claramente demarcadas, cada uma com os seus sinais, os seus sons, os seus cheiros, a sua própria ampulheta por onde o tempo escorre, nem devagar nem depressa, apenas no seu ritmo sempre igual".


O nome "Araçuaí" possui origem tupi. Significa "rio das araras vermelhas" (raçu - ave, provavelmente a arara vermelha, e hy - rio).

Com a Estação Araçuaí à minha (*) direita, iniciamos as primeiras pedaladas pela Rua Antonio Tanuré, exatamente por onde os trilhos da ferrovia foram assentados. O céu, azul, prometia uma jornada morna e luminosa.
(*) O uso da crase antes de pronomes
possessivos femininos (como "minha") é facultativo.
Saímos bem devagar, como era a partida da Locomotiva Poxixá 3 - valente e forte na língua indígena.
Diariamente, e ao longo de 24 anos (1942 a 1966), deixava Araçuaí (MG), no Vale do Jequitinhonha, às 6h e chegava a Teófilo Otoni (MG), no Vale do Mucuri, às 18h.
3 - Em 2008, a Poxixá foi tombada pelo município de Teófilo Otoni (MG) e repousa placidamente à Praça Tiradentes.

Três quilômetros à frente da Estação Araçuaí (MG) - medi visualmente a distância em linha reta -, atravessamos a ponte sobre o Ribeirão Calhauzinho, afluente da margem direita do Rio Araçuaí que, por sua vez, é, também, afluente da margem direita do Rio Jequitinhonha. Ou seja, o Calahuzinho é um subafluente do Jequitinhonha.
E o calçamento de pedras acabou e começamos a pedalar na direção da Estação Alfredo Graça, distrito de Araçuaí (MG), 20 quilômetros adiante, num caminho em leito natural, exatamente por onde os trilhos passaram e, um dia, foram arrancados.
O Vale do Jequitinhonha tem as mesmas características climáticas e botânicas do semiárido baiano. De Araçuaí (MG) à divisa com a Bahia são 270 quilômetros no rumo norte.
O clima semiárido e a vegetação de caatinga, reinantes no sertão baiano, prolongam-se e mantêm as mesmas características no norte de Minas Gerais: paisagem bastante árida, predomínio de vegetais xerófitos (adaptam-se a ambientes com pouca chuva), solo crestado (queimado, especialmente pelo Sol) e a presença marcante de vegetais xerófitos (ricos em espinhos, principalmente mandacarus e cactos).
A paisagem é deslumbrante. O céu estava azul-cerúleo e as nuvens altas e brancas deram um contraste magnífico ao dia e às fotos.
"Entravam na charneca (terreno árido com vegetação rasteira), que lhe pareceu infindável.
De ambos os lados, a perder de vista, era um chão escuro e triste e por cima um azul sem fim, que naquela solidão parecia triste também".
Quando li essa magnífica obra, do autor português José Maria Eça de Queirós, achei a transcrição acima bastante semelhante à paisagem do Vale do Jequitinhonha.



Entramos na charneca e iniciamos a viagem sob céu limpo e pacífico nos trópicos, com temperatura bastante agradável e o ar cheio do piar das aves. O vivo escarlate daquela manhã pressagiava uma jornada inesquecível. E assim foi.
Explorávamos os arredores do caminho com as vistas e somente as aves e a brisa prestavam atenção em nós, e não muita.
As cigarras e seus intermináveis gritos abrasados se misturavam à fuzarca entre os pássaros, que pareciam chamar uns aos outros.
O leito da extinta Bahiminas está péssimo. As costelas de vaca imperam e tomam toda a largura da estrada. Quando planejava uma parada para fotos, me sentia como a agulha de uma bússola, batendo de um lado para outro, procurando onde parar.
Esse caminho, embora seja o mais rápido para chegar, por exemplo, a Novo Cruzeiro (MG) e/ou Teófilo Otoni (MG), é pouco utilizado por veículos.
Após o término das atividades da Ferrovia, em 31/05/1966, foi prometido asfalto [97 km] na ligação, sequencial, das Estações de Araçuaí a Alfredo Graça, de Alfredo Graça a Engenheiro Schnoor, de Engenheiro Schnoor a Queixada, de Queixada a Novo Cruzeiro.
Cinco décadas e meia se passaram, o século XX deu lugar ao século XXI e a promessa caducou.
Seguimos muito devagar e com cuidado ao pedalar sobre as costelas bovinas. Carregávamos algo em torno de 20 quilos de bagagem, distribuídos em 4 alforjes, dois por bike.
Pedalávamos há cerca de uma hora quando, vindo de latitudes mais meridionais, ou seja, na direção oposta à nossa, quatro ciclistas (3 homens e uma mulher), que moram em Araçuaí (MG). Faziam um giro pela região.
Surpreenderam-se ao saber que estávamos percorrendo - ponta a ponta - o mesmo trajeto que Maria Fumaça, a Pojixá, executou por 85 anos.
Percebi no semblante deles algo parecido com: "como é que nunca tivemos essa ideia"?


Com o Sol brilhando no zênite (12h ou Hora Sexta*), ou seja, na vertical do caminho, as árvores estalando sob o calor e as cigarras gritando em desespero por tréguas, chegamos à recôndita (desconhecida) Alfredo Graça 4, que abriga uma estação da Bahiminas, em lamentável estado de conservação.
4 - Alfredo Graça, distrito de Araçuaí (MG), é uma comunidade com um núcleo urbano considerável, tem cerca de 500 casas muito próximas umas às outras, com igrejas (católica e protestante), pracinha, sede dos correios e uma escola estadual que oferece ensino desde a creche até o 3º ano do Ensino Médio.
A aglomeração urbana se deu, segundo os seus habitantes, graças à introdução da Estação da Estrada de Ferro Bahia Minas.
Embora tenha se dado o desmantelamento da ferrovia, o povoamento deu continuidade com os cruzamentos familiares que foram se constituindo.
Considerada ainda na área de Mata Atlântica, a vegetação é predominantemente de mata seca e caatinga, que sofreu grandes interferências da ação humana.
Conta com aproximadamente 35 mil habitantes, dos quais 13 mil estão na zona rural.
(*) Hora Sexta. Na Palestina de Jesus de Nazaré, os judeus e os demais povos que habitaram aquela região, hoje pertencente ao Oriente Médio, tinham um jeito próprio para estabelecer a hora entre o início do dia e das tarefas cotidianas (às 6h) e o término do dia e da faina (trabalho) rotineira (às 18h).
Os horários eram assim estabelecidos:
6h era a hora do orto solar.
7h era a Hora Primeira.
9h era a Hora Terceira.
12h era a Hora Sexta.
15h era a Hora Nona.
18h era a Hora do Ocaso (fim do dia).
(Nota do Autor).




Estávamos esfaimados (famélicos, famintos) e a barriga roncando, porém, o distrito não dispunha de nenhum estabelecimento que fornecesse almoço.
Contentamo-nos com algumas paçocas de rolha e tocamos para a próxima estação, a Estação Engenheiro Schnoor, 20 quilômetros à frente ou 10,6 milhas romanas, recheadas de costelas bovinas.
1 milha romana valia, à época do Império, 1.480 metros.
O leito da extinta Bahiminas apresenta uma altimetria suave. Nada de subidas insanas e descidas alucinantes. Afinal, rodava por ali um comboio bastante pesado, de forma que o trajeto não contém ascensos e descensos acentuados.
Pedalávamos com a impressão de estarmos em terreno predominantemente plano, um alívio quando as condições do piso são ruins, principalmente na presença das indesejáveis costelas de vaca, que pioravam à medida que as pedaladas progrediam.
O calor começou a ser sentido. Ao menos água conseguimos adquirir em Alfredo Graça. Meno male.

A paisagem continuava árida e bela. Apareceram os primeiros cortes nas rochas, dando a impressão exata de quão espremida a estrada ficava entre duas velhas formações sedimentares pelas quais o trem parecia "encolher" para atravessá-las.
Impressão de que, a qualquer momento, ouviria, varando o ar, o apito da velha Maria Fumaça, a Poxixá.
Às vezes, na passagem por alguns lugares da extinta Bahiminas, que vivem ao abandono, é perceptível um devastador ar de tristeza, misturado à lamúria de saudade.





As pontes sobre os rios foram trazidas da Inglaterra e parecem, mesmo sem manutenção, resistir às intempéries. Não há pontos de ferrugens, trincas ou rachaduras. Contemplei-as como se estivesse avaliando um quadro numa galeria de artes.
Pedalávamos imaginando que na estação seguinte, Engenheiro Schnoor, encontraríamos víveres para acalmar nossos estômagos, que roncavam e a medicina classifica esse barulho de parestresia.
Ao chegarmos à Estação Engenheiro Schnoor - 2.975 habitantes - IBGE - 2022 -paramos defronte a um bar. Um grupo bastante animado bebia cervejas em profusão, mas nada de comida.
O dono alegou dificuldades quanto ao abastecimento, mas cerveja, apesar das dificuldades citadas, não falta.
Fomos informados, por um dos bebedores de cerveja em profusão, "na rua de cima tem outro bar". Seguimos até lá.
A senhora que nos atendeu disse não ter muita coisa a nos oferecer, mas preparou deliciosos pastéis de queijo. "É o que temos para hoje", pude ler nos olhos dela.
Há a possibilidade de o distrito de Engenheiro Schnoor 5 ser elevado à categoria de município, devido ao número de habitantes. A ver.
5 - Émile Armand Henri Schnoor, engenheiro francês, filho de pai alemão, nasceu em Chateauroux, França, em 29/03/1855.
Veio para o Brasil com 10 anos. Por aqui casou e trabalhou até 1923, ano em que veio a falecer.
Deixou de ser conhecido por seu primeiro nome europeu, adotando a alcunha de Emílio Schnoor.
Foi diretor da Estrada de Ferro Bahia-Minas.
Um olhar mais detalhado proporcionou-me uma ideia mais exata da configuração do distrito de Engenheiro Schnoor, projetado - desconheço se acidentalmente ou não - segundo o padrão helênico-romano de cardo maximus e decumani, quer dizer, com uma via básica - de Norte a Sul - ou principal (cardo maximus) interceptada em ângulo reto (90º) por outras ruas menores (decumani) - orientada de Leste a Oeste.
(Nota do Autor).
Abastecidos de água e pastéis, seguimos adiante e sem perda de tempo. Eram 16h 30 e o Sol fugia rapidamente para o Oeste.
Faltavam 20 quilômetros para chegarmos à oculta Queixada, distrito de Novo Cruzeiro (MG).
Pedalávamos no luminoso da tarde com claridade dourada.

O
trecho final pareceu-nos o mais difícil, decerto pela expectativa de
chegar.
Os mandacarus voltaram a se destacar na paisagem árida do Vale do Jequitinhonha; as rochas que espremem o caminho também.



O leito da Bahiminas, ao longo do percurso, segue paralelo - e às vezes - bem próximo ao Rio Gravatá.
Foi a maneira que a engenharia, à época da construção, encontrou para manter os trilhos quase sempre em terrenos planos ou pouco acidentados.
Pedalávamos seguindo o leito do Gravatá, desde a saída de Araçuaí (MG), rio que nos acompanhou até chegarmos à Estação Queixada (MG).
O cronômetro do GPS devorava os dígitos, enquanto o Sol, oblíquo e batendo em retirada, fugia em direção ao Ocidente. O ocaso (pôr do Sol) se pronunciava, deixando o horizonte com coloração rosa pêssego.
Nossa chegada deu-se ao crepúsculo vespertino, às 17h45, e o Sol acabara de seguir seu curso natural rumo ao Japão.
No céu viam-se farrapos de nuvens vermelhas e rosas, a Ocidente, enquanto Vênus despontava no firmamento e, em breve, a Lua Cheia se mostraria - como de fato se mostrou, em sua plenitude, por volta das 19h.
Naquele dia 22 de agosto, domingo do Ano da Graça de 2021 (ou 2774 A.U.C), demos por encerrado primeiro dia de jornada pela Bahiminas. Que pedal maravilhoso.
A.U.C, expressão em latim (ab Urbe Condita), significa "desde a fundação de Roma", ocorrida supostamente em 753 a.C.
Portanto 753 a.C + 2021 d.C = 2774 A.U.C.
(Nota do Autor).






Hospedamo-nos na Pensão da Luíza, a única estalagem em Queixada. 6
6 - O lugarejo [Queixada], nome de um porco do mato, preserva a estação e a casa que serviu de moradia para a família do agente responsável pelo trecho da linha.
A caixa d’água que abastecia a caldeira da máquina de ferro também está lá, imponente, a poucos metros da extinta linha.
Hoje, há poucos moradores em Queixada (MG). Nem sempre foi assim: o lugar era ponto final da Bahiminas na década de 1930. “Havia grandes armazéns, que recebiam mercadorias do Rio de Janeiro."
Os produtos vindos de fora, desembarcavam no Porto de Ponta de Areia, no litoral sul da Bahia (BA), seguindo pela Ferrovia Bahia - Minas, iam sendo desembarcados ao longo do trajeto de 577 quilômetros, até alcançar Araçuaí (MG)”, conta Antônio, proprietário de um empório.
Queixada se beneficiou do vai e vem de negociantes.
A região era a maior produtora de alho do Brasil.
Toneladas do alimento eram embarcadas na estação local.
Para cultivar tanto alho, os fazendeiros precisaram de numerosa mão de obra.
Foi a época áurea de Queixada.
A Luíza, possessora da estalagem, é uma senhora muito acolhedora, gentil e preparou jantar delicioso.
Após o banho - impressão de que troquei de pele - e do repasto, fomos ao Fabiano Bar e Lanchonete tomar umas geladas. Precisávamos.
No Leste, a Lua Cheia, parecendo hóstia, surgiu entre escassos fiapos de nuvens.
A noite deixou no firmamento uma esteira de estrelas que tremulavam raivosas. Vênus e Júpiter, muito próximos entre eles, quase em conjunção, brilhavam como faróis a 20° ou 22° sobre o horizonte.
Voltamos à pensão. Tentei assistir TV. Sentia uma sonolência de novena. Era hora de descansar os membros fatigados.
Fechamos o 1º dia na Bahiminas com 65 quilômetros percorridos em 9h25 (saída de Araçuaí foi às 8h20).
À média horária tão baixa, eu atribuí à enormidade de costelas bovinas, obrigando-nos a pedalar em ritmo lento e às quase duas horas parados em Engenheiro Schnoor para "almoço".
Mas como não estávamos em competição e muito menos havia um pódio (*) de chegada em Ponta de Areia (BA), fomos devagar e assomamos em segurança.
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(*) Pódio é a forma correta da escrita dessa palavra em português e reconhecida no vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de Letras. |
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Podium é a palavra em latim, que originou a
palavra portuguesa pódio. Apesar do
aportuguesamento, ainda é a forma mais utilizada na escrita. Deverá ser
grafada SEM acento gráfico e em itálico (podium),
marcando a sua situação de palavra de outra língua. A palavra pódium
grafada desta forma está ERRADA. |
2º DIA | 23/08/2021 | 72 km | |
QUEIXADA(MG) A NOVO CRUZEIRO (MG) | 31 km | ||
NOVO CRUZEIRO (MG) A BREJAÚBA (MG) | 19 km | ||
BREJAÚBA (MG) A LADAINHA (MG) | 22 km | ||


Noite fria em pleno sertão de Minas Gerais.
Pela manhã, felizmente, a temperatura estava agradável para iniciarmos o 2º dia de pedal pela extinta Bahiminas.
Despedimos de nossa anfitriã, D. Luíza, carismática e muito educada. Pessoa simples, nascida em Queixada (MG) e de lá nunca quis sair.
Sua pensão, muito modesta e bastante acolhedora, têm as portas abertas há décadas.
Foi uma repousante estada em Queixada (MG).

Antes da partida fomos [a passos] conhecer o pequeno Museu Bahiminas, instalado numa antiga casa de funcionário da ferrovia, defronte à estação.
Ambas estão em excelente estado de conservação, diferentemente do que vimos em Alfredo Graça (MG).
A funcionária nos recebeu com muita atenção e gentileza. O acervo é pequeno, mas guarda fotos da época áurea da ferrovia em Queixada (MG), bem como alguns materiais rodantes e o telégrafo, que emitia mensagens em código Morse 7.
7 - Desenvolvido em 1835, pelo pintor e inventor Samuel Finley Breese Morse.





Eram 9h (ou Hora Terceira) de uma manhã que começou esplêndida.
Pela janela aberta do quarto, virada para o Leste, entrou abundosa luz natural bem cedo. Parecia que teríamos um dia festivo, de céu com poucas nuvens e farto de Sol.
Num presto (que se faz com rapidez, ligeiro), o tempo virou e uma névoa alvadia tomou conta do ar, enquanto arrumávamos as bikes para partida.
Um nativo, ao nos ver saindo, disse em minerês: "ocês vai pegar um cadim de chuva no caminho". "A ver", disse à minha prima.
Aos poucos, Queixada (MG), vista pelo retrovisor da bike, foi sumindo. Seguíamos nos rumos ora Sul (S), ora Sudeste (SE), direções nas quais a Bahiminas mantém-se entre Araçuaí (MG) e Teófilo Otoni (MG).



O tempo foi melhorando e o moral se elevando. Um parco azul lavado apareceu entre densas nuvens, mas o Sol lutava para se impor. Alvíssaras!
Vencemos os 31 quilômetros até Novo Cruzeiro (MG), localizada no Médio Jequitinhonha, com muitas paradas para fotos e contemplação da paisagem, a mesma que os viajantes vislumbravam das janelas dos apertados vagões de passageiros.
Muitos, enquanto viajavam, deliciavam-se com Mate-Cola, a bebida oficial e preferida durante as longas jornadas sobre os trilhos.
Trata-se de um refrigerante escuro, à semelhança da Coca-Cola 8, porém muito mais doce e, por extensão, igualmente viciante.

Os trens não rodam mais, todavia a maioria dos empórios ao longo do caminho ainda vendem tal iguaria. A fábrica fica em Teófilo Otoni (MG) e Minas Gerais é o único estado brasileiro a vender essa preciosidade, o Mate-Cola.
Ao meio-dia (Hora Sexta), paramos defronte à Estação de Novo Cruzeiro (MG) - 26.850 habitantes - IBGE - 2022.
A Ilana, funcionária da Secretaria de Turismo do município, nos aguardava. Ela foi informada que pedalávamos por toda extensão da extinta Bahiminas - via zap - pelos quatro ciclistas que encontramos após a saída de Araçuaí (MG).
Recebeu-nos de forma bastante acolhedora e comentou - fato que até então não sabíamos - que o SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) está empenhado em oficializar o trecho Novo Cruzeiro (MG) a Carlos Chagas (MG) - 248 quilômetros - numa rota de cicloturismo à semelhança da Estrada Real, Caminho da Fé, Vale Europeu e Caminho da Luz.
As prefeituras, ao longo desse trecho - Novo Cruzeiro (MG) e Carlos Chagas (MG) -, estão unindo esforços - que não serão poucos - para efetivar, no extinto leito da Bahiminas, um atrativo turístico à região, fomentando a geração de empregos e renda.
Pediu-nos para relatar, a ela - Ilana -, após nossa chegada a Carlos Chagas (MG), as dificuldades ao longo do caminho, a qualidade do piso em leito natural, os pontos de apoio, a estrutura dos hotéis e das pousadas, para tornar esse trecho um chamariz aos ciclistas e aos caminhantes.
No Restaurante Paladar, fiz honra à refeição: arroz, feijão, ovos cozidos, farofa, salada bastante variada e um bifão acebolado, que excedia o diâmetro do prato.
Passamos à senhorita Ilana informações e dificuldades encontradas até Novo Cruzeiro (MG) 9 enquanto saboreávamos a sobremesa (picolé Chica Bom, o da Kibon).
Saímos para continuação da aventura, esperançosos com a frutificação e avanços do projeto. Que esse empreendimento, diferentemente de tantos outros que são idealizados nas esferas municipais, estaduais e federal em nosso País, saia do papel.
9 - A Estrada de Ferro Bahia-Minas, trouxe para a região de Novo Cruzeiro (MG), a esperança de progresso.
Abriu horizontes, perspectivas de vida, vilas e cidades.
Com ela [a ferrovia] vieram as escolas, as ideias, a ampliação do comércio e o incentivo à agricultura.
A ferrovia ligava o Médio Jequitinhonha, ao mar e ao mundo.
Foi durante seis décadas (1924 a 1966), o único meio de transporte ao alcance das classes menos favorecidas.
No ano de 1966, aconteceu o que nenhum neocruzeirense gostaria que acontecesse: a Ferrovia Bahia-Minas foi desativada e seus trilhos arrancados.





A Estação Novo Cruzeiro foi inaugura em 1924 com nome de Estação São Bento.
Em 1942, a moeda brasileira corrente até então - o réis - passou a ser chamada de Cruzeiro, cujo símbolo era Cr$.
Em homenagem à mudança no padrão monetário do País, a estação teve o nome alterado para "Novo Cruzeiro".
(Nota do Autor).
Por volta das 14h (Hora Oitava) partimos de Novo Cruzeiro (MG) rumo a Ladainha (MG), 41 quilômetros à frente e com esperanças de, em breve, o Brasil ganhar outro roteiro de cicloturismo.
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ATUALIZAÇÃO |
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Em 2024, o
caminho foi oficializado, mapeado, tem passaporte e muitas outras informações
acerca de hospedagens, alimentação e dicas variadas.
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Mais detalhes no
sítio https://www.rotabahiaminas.com.br/. |
A rua da estação de Novo Cruzeiro (MG) desemboca na Rodovia Estadual MG - 211.
O pedal pelo asfalto liso e bem cuidado durou pouco. Quatro quilômetros adiante, o antigo leito da Bahiminas reapareceu, após uma bifurcação em Y: à direita, asfalto até Setubinha (MG) e Capelinha (MG); à esquerda, leito natural até Ladainha (MG) e Teófilo Otoni (MG). Avante!
Voltávamos a pedalar por onde os trilhos foram assentados em 1924, quando a Bahiminas chegou a Novo Cruzeiro (MG).
Até Ladainha (MG), a qualidade do piso ficou deveras melhor. Solo bem compactado e sem costelas bovinas.
Dos 41 quilômetros para encerrar a jornada daquele segundo dia, 35 quilômetros foram em discreto descenso. Bastava deixar a bike ir, sem pedalar, e a gravidade faz o resto.
Após 19 quilômetros, desde a saída de Novo Cruzeiro (MG), em discreto ângulo de descida, chegamos à Estação Brejaúba 10, pertencente à jurisdição de Ladainha (MG).
10 - A parada de Brejaúba foi inaugurada em 1924.
O prédio, embora tenha as feições de uma estação, era um posto telegráfico, permanecendo, até o final em 1966, nessa condição.
Nos anos 1990, foi utilizado como sala de aula.
Na Estação Brejaúba, a exemplos das demais estações, consta a data de construção, 1924, mesmo ano da chegada dos trilhos à localidade.
O
nome Brejaúba, faz menção a uma palmeira nativa da Mata Atlântica.
Infelizmente , a Estação Brejaúba encontra-se em péssimo estado de conservação.
Ao redor da construção, existe uma pobre comunidade que vive - ou sobrevive - em casas inacabadas, com cercas separando quintais, esgoto correndo a céu aberto e fluindo pelas valas formadas pelo escoamento superficial das águas das chuvas, muitos cães, alguns gatos, porcos, galinhas e seus pintinhos, que circulam livremente por onde os trilhos passavam.


Após as fotos do antigo posto telegráfico de Brejaúba, fiquei a olhar para as habitações inacabadas e mal conservadas daquela comunidade à beira da estrada.
Foi como se eu estivesse a bordo do trem, que por ali passava bem devagar.
Lembrei da canção "Gente Humilde" de Chico, Vinícius [in memoriam] e Garoto [in memoriam], composta em 1970, na qual há um trecho que diz:
(...) "Igual a como quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar
São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar".
"Gente Humilde" teria surgido nos anos 1940, durante uma visita do violonista Garoto a um subúrbio carioca. De repente, ao observar aquelas pessoas e suas casas modestas, ele resolveu homenageá-las numa canção.
Tempos depois, acabou gravando-a num acetato para o professor mineiro Valter Souto, registro que possibilitou a sobrevivência da composição, que se manteve inédita em disco comercial.
Em 1970, quinze anos após a morte de Garoto (Aníbal Augusto Sardinha), Baden Powell mostrou-a a Vinicius de Moraes que, apaixonando-se pelo tema, deu-lhe uma letra em parceria com Chico Buarque.
Uma letra primorosa que, segundo Chico, é quase toda de Vinicius: "São casas simples, com cadeiras na calçada / e na fachada escrito em cima que é um lar / pela varanda, flores tristes e baldias / como a alegria que não tem onde encostar."
Em que pese certo exagero sentimental, o poema exprime em belas imagens a admiração comovida dos autores pelo modo de vida conformado daquela gente, "que vai em frente, sem nem ter com que contar".
Passada a Estação Brejaúba (MG) e as "casas simples com cadeiras na calçada", continuamos a deixar a gravidade agir e as bikes desciam com rodas livres, serpenteando um trecho belíssimo, no qual foi possível perceber a transição do Vale do Jequitinhonha, rico em vegetação xerófita, para o Vale do Mucuri, com manchas de Mata Atlântica, visíveis no alto de alguns morros, deveras desgastados pela ação do pai tempo.



Aproximava-se um momento bastante esperado: a travessia do túnel de acesso a Ladainha (MG), tão desconhecida quanto Marte.
Quando chegamos à distância de 100 metros da "boca", a estrada faz uma bifurcação.
A galeria, construída no início da década de 1920, tem altura máxima imprópria aos atuais veículos de cargas, em decorrência do "crescimento" para cima e para os lados.
Há um desvio (à direita) que contorna o morro e termina dentro da cidade de Ladainha (MG).
Seguíamos fielmente o caminho da Bahiminas. Nada de desvios. Fomos em frente e, aos poucos, percebemos um considerável estreitamento no antigo leito, como se as paredes rochosas fossem nos espremer entre elas.



O Túnel da Ladainha, inaugurado em 31/10/1922, - Dias das Bruxas -, levou dois anos para ser concluído.
Tem 135 metros de extensão, sem iluminação, embora as lanternas dos celulares tenham dado luz à travessia, feita a passos e empurrando as bikes.
Era preciso ir bem devagar para bebericar a maravilha daquela magnífica obra, executada a pás e picaretas. Naquela época, dinamite era artigo de luxo.
Foi possível identificar as marcas deixadas nas paredes do túnel, fumaça expelida pela Poxixá. Muitas vezes a fuligem alijada pela locomotiva queimava as roupas de alguns passageiros. E tudo era festa.
Hoje, daria B.O na delegacia mais próxima, processo na Justiça Comum e vídeos se espalhariam pelas redes sociais, denunciando o descaso com os passageiros. Quantas mudanças para pior. Quantos mi-mi-mis.
A História, com um eufemismo mais do que condenável, levou uma confeitaria em São Paulo (SP) a mudar o nome do bolo "Nega Maluca" para "Afrodescendente com problemas psiquiátricos". Haja paciência.
Para que não haja resquícios de dúvidas, eis, abaixo, a prova cabal, incontestável e irrefutável.



Transposto o Túnel ficamos - "quase" cara a cara - com a exuberante Pedra da Ladainha, visível de todos os pontos da região. Ingressamos no Vale do Mucuri.
Contemplei, após sair do Túnel, a mata se abrindo e percebi que a Bahiminas é flanqueada (ir paralelamente) à Pedra da Ladainha que, com seus 320 metros de altura – a mesma altura do Pão de Açúcar –, impera absoluta na região, à semelhança de uma sentinela da cidade, do Rio Mucuri e da represa que abriga uma usina hidrelétrica desativada.
E antes que a escuridão se estendesse sobre a amplitude do caminho, chegamos a 11 Ladainha (MG) - 13.868 habitantes - IBGE - 2022 - junto com o ocaso (às 18h), enquanto os sinos da Igreja Matriz Igreja do Sagrado Coração de Jesus varavam o ar com a canção da Ave Maria.
11 - O nome de Ladainha passou a figurar quase que oficialmente após a conclusão dos trabalhos da construção da linha férrea da Bahiminas e da Estação (1918).
Havendo necessidade de ser dado um nome oficial à estação ferroviária, apelaram para que o Cel. José Ribeiro sugerisse um nome; ele, a título de brincadeira, respondeu: "Ladainha dos Podôs e Caburés", descendentes dos índios que habitavam a região.
O velho Podô morava próximo à residência do Coronel e, como ele dizia, o incomodava muito com as suas ladainhas.
Desse modo, a estação férrea ficou com o nome de Ladainha e também toda a região.
Os nascidos em Ladainha são chamados de ladainhenses.

Duas medalhas nos aguardavam. Bela recepção por pessoas tão acolhedoras.


Ficamos
um bom tempo papeando aos pés da Estação. Hospedagem na Pousada
Recanto das Rosas, um magnífico lugar, bastante arborizado e com um jardim na
área central do estabelecimento, de onde se avista a face Leste da Pedra da
Ladainha ou Marta Rocha, homenagem à famosa baiana, eleita a primeira
Miss Brasil, em 1954.
Sr. Dedé, proprietário da estalagem Recanto das Rosas, é um octogenário com corpinho de 70. Sujeito boa praça - que tive o prazer de conhecer na viagem interrompida pela pandemia, em março de 2020.
Nos recebeu com muita cordialidade, conversou bastante acerca da viagem e estava animado com a visita, dias antes, do pessoal do SEBRAE. Ele também faz parte daqueles que torcem por um circuito de cicloturismo na região.



Mais tarde, fomos nos encontrar com a Ivana e degustamos delicioso lanche à base de algumas cervejas bem geladas e merecidas.
E assim, em meio a pessoas tão especiais, terminamos o segundo dia de pedal pelo leito da extinta Bahiminas. Privilégio para poucos.
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3º DIA |
24/08/2021 |
64 km |
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LADAINHA (MG) A ICARY (MG) |
10 km |
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ICARY (MG) A CAPORANGA (MG) |
10 km |
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CAPORANGA (MG) A SUCANGA (MG) |
11 km |
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SUCANGA (MG) A VALLÃO (MG) |
8 km |
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VALLÃO (MG) A TEÓFILO OTONI (MG) |
25 km |
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Antes da partida, delicioso café da manhã e um pouco mais de prosa com o Sr. Dedé.
Enquanto arrumávamos os alforjes nos bagageiros das bikes e fazíamos as últimas conferências para ver se nada ficaria para trás, uma chamada no celular da Reane. Era a Ilanna, que nos recebeu em Novo Cruzeiro (MG), no dia anterior. Queria saber notícias.

Assim que deixamos a Pousada Recanto das Rosas, fizemos uma parada obrigatória na ponte sobre o Rio Mucuri, de onde descortina-se uma visão privilegiada da Pedra da Ladainha e da represa, que originou a (UHE) Usina Hidrelétrica Engenheiro Wenefredo Portela 12, erguida pela companhia ferroviária, aproveitando a força d’água do Rio Mucuri, que fornecia energia elétrica à oficina de locomotivas e vagões da Bahia-Minas.
Na superfície do lago, formado pelo represamento do Rio Mucuri, a placidez das águas era perturbada pelos esporádicos chapiscos das aves, planando ou caindo em bicadas, buscando sua refeição matinal.
12 - Wenefredo Portela possibilitou a efetivação de muitos benefícios para região: a construção de moderno hospital para atendimento aos ferroviários e demais cidadãos, supriu a cidade com a energia elétrica necessária para mover as oficinas da Companhia, a fundação de escolas, poços artesianos, edificação de casas e serviços de recreação e cultura para os ferroviários.



Voltamos
ao Downtown de Ladainha (MG) para conhecer o conjunto de oficinas da
Bahiminas, o mais avançado centro de manutenção da ferrovia e a escola de
formação de mão de obra qualificada.


A companhia levantou um cinema para o lazer dos trabalhadores e demais moradores de Ladainha (MG).
O empreendimento foi um símbolo do progresso, erguido numa época na qual muitas cidades brasileiras não tinham salas de cinema.
Em 1938, a sala de projeção foi inaugurada com a estreia do filme King Kong.
Às 10h (Hora Quarta), partimos no rumo de Teófilo Otoni (MG), 64 quilômetros nos aguardavam.
O céu azul-cobalto - visto através das lentes polarizadas dos meus óculos - prometia uma jornada tranquila e sossegada, apesar do calor egípcio que, àquela hora, mostrava as caras. Meu GPS assinalava 29°C.
Atravessamos a ponte sobre o Rio Mucuri do Norte, dobramos à esquerda - conforme o trem fazia - e contornamos a represa da Usina Hidrelétrica Wenefredo Portela.
O piso é em pedras dispostas de forma irregular. Chacoalhávamos. Os pensamentos ficaram embaralhados.
À medida que avançávamos, a Pedra da Ladainha passou a ser visualizada em diferentes ângulos, até sumir do meu campo visual.



Com meia hora de pedal ou 10 quilômetros percorridos, passamos pela Parada Icary, inaugurada em 26/12/1918 e utilizada como depósito de utensílios agrícolas, até o final dos anos 1990.
Atualmente encontra-se abandonada e apresenta um ar de esquecimento e abandono.
Icary era uma parada para embarque de malotes dos correios e alguns passageiros. A maioria destinava-se a Teófilo Otoni (MG), cidade que, à época da Bahiminas, chegou a ser a 3º do Estado de Minas Gerais em habitantes, ficando atrás apenas de Juiz de Fora (MG) e de Belo Horizonte (MG).
No alvorecer da 3ª década do século XXI (2021 a 2030), Teófilo Otoni (MG) é o 10º município - entre os 853 de Minas Gerais - em número de habitantes.
Não tardou para chegarmos à Estação Caporanga 13, pertencente ao Município de Poté (MG).
13 - CAPORANGA (caa-poranga) - caa: o mato bonito; poranga: belo, formoso.


A estação de Caporanga foi inaugurada em 1918. Funcionava como agência dos correios. Hoje está fechada. Destino incerto.
Os 11 quilômetros seguintes, que separam a Estação Caporanga da Estação Sucanga, foram percorridos em terreno predominantemente plano, flanqueados por herdades (propriedades rurais extensas), nas quais alguns bovinos mastigavam grama, enquanto outros fugiam do calor do dia e descansavam à sombra de enorme figueira, a árvore sagrada do candomblé.



Em
Sucanga, outra estação abandonada. Foi inaugurada em 1927. Nos anos 1990 estava
sendo reformada para abrigar uma creche e agência dos Correios. Os
projetos, não frutificaram.


A exemplo das Estação Brejaúba, a Estação Sucanga, distrito do Município de Poté (MG), abriga uma comunidade muito carente, que não dispõe de infraestrutura básica.
População abandonada e esquecida pelo Poder Público, à exceção da época de eleições municipais, nas quais futuros candidatos à Prefeitura de Poté (MG) fazem promessas de melhorias, que nunca se concretizam.
Seguimos o leito da Bahiminas. A Estação estava à nossa direita. Após uns 100 metros, a rua (antigo leito) termina defronte à cerca de uma propriedade. Viramos [90º] à direita, e seguimos por pouco metros, por rua esburacada. Quando terminou, outra virada [90º] à esquerda, para ingressarmos na única via calçada - Rua Poté - que nos levou à Rodovia Estadual MG - 217.
A partir de Sucanga, o leito da Bahiminas sumiu em meio à vegetação. A única maneira de chegar à próxima Estação (Vallão) foi pedalando pela MG - 217, com acostamento estreito e febril vaivém de veículos leves e pesados. Um olho no retrovisor da bike e outro na estrada.
E tudo que está ruim pode piorar: duas subidas insanas, intervaladas por curta reta.
Como não estávamos no antigo leito da Bahiminas, os dois aclives são fortes. Seguimos nessas condições por oito quilômetros.
Em Vallão 14, outro distrito de Poté (MG), fizemos uma parada para fotos da estação e hidratação. Um tempo maior a contemplar a bem conservada Estação Vallão.
14 - A estação de Vallão foi inaugurada em 1918
(O Estado de Minas, de 29/03/2004, cita o ano de 1919).
Naquele tempo, havia muito café em Vallão. Por isso, era deixado na cidade um vagão vazio.
Quando o trem voltava como F16, pegava o vagão carregado de café limpo e trazia para Teófilo Otoni (MG).
"Até que não havia muitos passageiros," (Oronilides de Oliveira, ex-telegrafista da Bahiminas).
A estação foi fechada em 1966, com o fim das atividades da ferrovia.
A
Estação Vallão foi tombada pelo patrimônio histórico e artístico municipal.



Às 14h30 (Hora Oitava e 1/2), voltamos à lida no pedal para percorrer os derradeiros 25 quilômetros até Teófilo Otoni (MG). O calor e a fome castigavam.
Paramos no Restaurante da Rose, logo após a Estação Vallão. Belíssimo almoço regado a 1 litro de Coca-Cola. Seguimos após o over table, ou seja, a sobremesa.
Pedalávamos enquanto fazíamos a química digestiva. O movimento era frenético, o acostamento estreito e altimetria predominantemente em descenso, facilitando bastante a tarefa de pedalar pós-almoço.
Reane, que vinha atrás de mim, percebeu que a roda traseira da minha bike estava empenada. Resultado de tantas costelas de vaca pelo caminho. Como ainda era cedo, concluí que chegaríamos a Teófilo Otoni (MG) a tempo de ir a uma bicicletaria e tentar resolver o problema.
Lembrei-me que na viagem inacabada do ano passado (2020), quando hospedei-me em Teófilo Otoni (MG) - 142.030 habitantes - IBGE - 2022 - o Hotel Beira-Rio, na área central da cidade, é vizinho a uma bicicletaria.
Às 16h (Décima Hora), estava eu à porta do estabelecimento. O mecânico, após rápida espiada, disse que a roda precisava ser trocada, pois o empeno destruiu alguns raios e provocou pequenas rachaduras no aro.
Mas o serviço não poderia ser executado naquela loja, que dispunha somente de aros para 32 furos de fixação de raios e a roda da minha bike tem 36 furos. Ou seja, o aro disponível era um pouco menor. Que maçada!
E ali ficamos, à porta da bicicletaria, os "três": Reane, esse que aqui escreve e uma profunda indefinição. Será que a viagem "subiu no telhado"? A ver cenas dos próximos capítulos.
Pelo adiantar da hora - não tardaria para o Sol "submergir" no horizonte do Vale do Mucuri -, deixei essa tarefa para o dia seguinte.
Fomos para o Hotel Real - o Beira-Rio estava lotado -, e, na saída noturna à caça de víveres, consultei - via celular - bicicletarias na cidade.
A pesquisa apontou duas lojas. Agora era esperar o dia seguinte e consertar a avaria. Resultado: no dia seguinte - 25/08/2021 -, não rolou pedal.
A balança da sorte, até então a meu favor, inclinou-se contra mim. Num átimo, senti um mau augúrio. Será que, pela segunda vez, minha grande viagem pela Bahiminas naufragaria?
Desde a saída de Araçuaí (MG), há dois dias, eu não degustava uma chávena de café expresso. Encontrei fina iguaria no Café Vitória e lá compensei 48 horas de abstinência.
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4º Dia:
25/08/2021. Dia em Teófilo Otoni (MG). |
Passamos o dia 25/08/2022 na antiga Filadélfia, primeiro nome da cidade de Teófilo Otoni (MG), fundada em 1852.
Em 1876, a freguesia foi elevada à categoria de cidade, com o nome de Teófilo Otoni, em homenagem a seu fundador (Theóhilo Benedicto Ottoni), vindo a ser instalado [o nome] oficialmente em 1878.
"Em 1852, na margem direita do Rio de Todos os Santos, foi lançado o marco inicial da Nova Filadélfia, cidade que, em, em 1878, passou a se chamar Teófilo Otoni".
" A inspiração veio de Philadelphia, na Pensilvânia, nos EUA, onde foi aprovada a Constituição de Independência Americana, em 4 de Julho de 1776".
Os trilhos da Bahiminas chegaram a Teófilo Otoni (MG) em 1898, nove anos após a derrocado do Império (1822 - 1889), com a Proclamação da República, em 15 de Novembro de 1889, resultado um golpe militar e sem a a participação popular.
75 anos à frente, em 1964, a história se repetiu.

A
Estação Ferroviária original da cidade foi construída em estilo arquitetônico
neoclássico-gótico, destacando as singelas ogivas ornamentadas por um grande
relógio mecânico. (GOMES, 2006, p.43).

A belíssima estação foi colocada no rés do chão. Em seu lugar foi erguida a decrépita, Rodoviária de Teófilo Otoni (MG), mais feia que o Zé Ramalho. Avohai. Uma lástima.
Quando o crepúsculo da manhã encheu de luz o cenáculo do Hotel Real, no qual degustávamos o pequeno almoço (café da manhã em Portugal), saí na esperança de adquirir um aro traseiro compatível com a minha bike.
Tentei telefonar para as bicicletarias da cidade, enquanto saboreava uma chávena de expresso no Café Vitória.
A Bike Trip, localizada na saída para Porto Seguro (BA), às margens da Rodovia BR - 418, era a única aberta àquela hora.
Ao chegar à loja, uma surpresa nada agradável: o problema não poderia ser solucionado, pois o estabelecimento encontrava-se sem mecânico. "E mesmo que tivesse um mecânico, não havia daquele aro (36 furos) à venda", falou o vendedor que me atendeu à porta do empório ciclístico.
Até aquele momento, o resultado brilhava pela ausência. Caso fracassasse em minha segunda tentativa de "singrar" a Bahiminas, ficaria o consolo de outra aventura, por outros caminhos. Tal racionalização, para ser franco, não contribuiu para me tranquilizar.
No entanto, esse mesmo colaborador, indicou-me outra bicicletaria, quatro quarteirões adiante. Caso não lograsse êxito, teria que dar a aventura por encerrada, fazer meia-volta e retornar para casa. "Homessa"! (*)
(*) Antiga interjeição originada da junção de 'homem + essa' (no sentido de quem diz "homem! essa agora...").
Tem o mesmo sentido de 'ora essa!', indicando que a pessoa está espantada ou intrigada com algo de que teve notícia. Também é grafada da forma "hom'essa".
Chegando à loja indicada na Bike Trip, o proprietário
me atendeu prontamente à porta do empório ciclístico. Fiquei a esperar pelo que
estava por vir, com a aflição de alguém que antecipa um murro.
Contei o ocorrido, ele esquadrinhou detidamente a situação do aro, enquanto longo minuto se arrastou, depois outro, infindável como o século, até que,
para minha alegria, o veredicto: "tem solução"! Uma vez mais,
a fortuna pôs-se ao meu lado. Alvíssaras!
Tal como eu presumia, e com natural alívio da minha parte, o proprietário levou a bike para a oficina, buscou
no depósito um aro com 36 furos, conversou com o mecânico e, no decorrer de 3/4
de hora, tudo foi resolvido.
Aliviado por não ter que girar 180° e voltar para casa, lembrei-me do velho, porém imortal, princípio shakespeariano: "tudo é bom quando acaba bem".

Para comemorar o não retorno que, decerto traria decepção ímpar, eu e Reane fomos ao Restaurante Pinguim, indicado como o melhor de Teófilo Otoni (MG) e região, e degustamos Carne de Sol com acompanhamentos. Que enlevo!
Voltei ao Hotel Real e dormi até a transição da luz natural para o azul do crepúsculo vespertino acontecer.
À noite, quando retornávamos do jantar, a Maria Elisa ligou para Reane e disse ter resolvido um problema que estava a nos inquietar, desde o início da jornada: pedalar 143 quilômetros, entre Teófilo Otoni (MG) e Carlos Chagas (MG), sem ter onde pernoitar - as localidades nesse trecho não têm hotéis, pousadas ou afins.
A partir de Teófilo Otoni (MG), o leito da Bahiminas volta à luz, mas as condições do piso não são nada animadoras. Pareceu-me impossível percorrer 143 quilômetros naquelas condições.
No entanto, a Maria Luíza, que nem chegamos a conhecer, mas ficou sabendo da nossa aventura e obteve o número de celular da Reane com a Ivana em Ladainha (MG), conseguiu uma casa para nos receber/hospedar em Bias Fortes, 68 quilômetros à frente de Teófilo Otoni (MG). Estávamos salvos. As coisas voltaram a dar certo.




15 - Poxixá - valente, forte na língua indígena - foi a primeira locomotiva Baldwin a puxar os vagões da extinta Ferrovia Bahia e Minas.
Chegou de navio vinda dos EUA em 20/05/1881.
À medida que a ferrovia avançava, ela ia cumprindo seu papel.
Chegou a Teófilo Otoni (MG) em maio de 1918.
Hoje se encontra exposta na Praça Tiradentes.
Foi tombada em 2008 pelo município de Teófilo Otoni (MG).


Em Teófilo Otoni (MG), a Rua Ary Graça intercepta em ângulo de 90º a BR - 116. [...].
Naquele exato ponto - o cruzamento da Rodovia Rio - Bahia com a extinta Ferrovia Bahiminas. [...] existe muito mais do que duas estradas diferentes.
A ferrovia ligava os Vales do Jequitinhonha e do Mucuri ao mundo, através do Oceano Atlântico.
O fim da Estrada de Ferro Bahia - Minas deixou muito mais do que saudades [...] era um projeto local, expressão [...] de movimento comercial e desenvolvimento.
A rodovia [BR - 116] asfaltada subordina a periferia ao centro, ordena e hierarquiza; a primeira [a ferrovia] foi expressão de riqueza; a segunda [a rodovia] nos deixa pensar em miséria.
A ferrovia representava um projeto autônomo, produção cultural independente e uma vida própria, mesmo meio acanhada.
Ligava regiões inóspitas [do Vale do Jequitinhonha] ao comércio mundial, diferentemente da rodovia.
Não foi por acaso que a construção de uma [BR - 116], coincidiu com a destruição da outra [Bahiminas].
Arysbure Batista Eleutério, natural de Ladainha (MG), onde nasceu em 1937, trabalhou na Estrada de Ferro Bahia e Minas como mecânico de máquinas a vapor.
Com a extinção da ferrovia, foi transferido para a oficina de Lavras (MG), trabalhando como eletricista nas locomotivas diesel - elétricas.
Aposentou-se em 1982 e voltou a morar em Teófilo Otoni (MG). É filho e neto de ferroviários.
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5º DIA |
26/08/2021 |
68 km |
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TEÓFILO OTONI (MG) A PEDRO VERSIANE
(MG) |
30 km |
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PEDRO VERSIANA (MG) A SÃO JOÃO (MG) |
10 km |
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SÃO JOÃO (MG) A BIAS FORTES (MG) |
28 km |
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Após a perspectiva de dar meia-volta, que felizmente não aconteceu, estávamos ardendo por raspar-nos de Teófilo Otoni (MG) rapidamente. às 8h (Hora Segunda).
Começamos o 4º dia de pedal enfrentando o tumultuado/confuso/caótico trânsito na área central da antiga Filadélfia, à semelhança de muitas cidades indianas, paquistanesas ou bangladexenses.
Saímos pela avenida Dr. Luis Boali Porto Salman. Há um arremedo de ciclovia entre a avenida (à direita do ciclista) e o poluído Rio de Todos os Santos (à esquerda do ciclista).
Seguimos por 4,5 quilômetros até alcançar a esquina com a Rua Professora Glória Penchel.
Conversão à direita e fomos até o final. Outra conversão, desta feita à esquerda, nos colocou na Rua José Augusto Faria, que desemboca na Rua Floriano Peixoto, Bairro Santa Clara, exatamente onde o piso muda de asfalto para pedras dispostas de forma irregular. "A Ferrovia passava por aqui", afirmei. Estávamos no caminho certo.
Nos preparativos para a viagem, uma das preocupações foi em relação à saída tumultuada de Teófilo Otoni (MG) rumo à Estação Pedro Versiani.
Analisando o Google Maps percebi que a Cerâmica Santa Clara, às margens do extinto leito da Bahiminas, era um excelente ponto de referência. Caso me perdesse ou o GPS desse ruim, começaria a perguntar aos nativos "qual a direção da Cerâmica Santa Clara", técnica anterior à aparição do Sistema de Posicionamento Global (do inglês Global Positioning System).
Mas felizmente o caminho foi percorrido, sem erros, até o Bairro Santa Clara, periferia da cidade de Teófilo Otoni (MG).
Não demorou e o piso de pedras irregulares cedeu lugar ao leito natural da estrada. Que alívio. O traçado é totalmente plano e as longas retas, flanqueadas por pastos, deram o tom do caminho.


Em pouco mais de 1 hora e meia de pedal, chegamos à Estação Pedro Versiani 16, outrora depósito de mercadorias a serem transportadas - café, milho e arroz.
Hoje funciona como Posto da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais.
Pedro Versiani é distrito de Teófilo Otoni (MG) e, diferentemente do que vimos em Brejaúba e Sucanga, o sítio tem na rua principal, por onde os trilhos foram assentados, um calçamento com pedras sextavadas, dispostas de forma regular, casas simples, porém bem acabadas, iluminação pública, posto de saúde e escolas.
Pareceu-me que a vida decorre sem novidades naquele lugar, que abriga 3.234 habitantes - IBGE - 2022.
16 - O nome da Estação foi em homenagem ao engenheiro Pedro Versiani, fiscal de linha ao final do século XIX, de 1892 a 1895.
Foi o principal engenheiro na conclusão do prolongamento da ferrovia entre Serra dos Aimorés (MG) e Teófilo Otoni (MG).


Paramos num empório próximo à saída e degustamos deliciosas paçocas com Mate-Cola. Eram 11h, quase hora do almoço.




Atravessamos a Rodovia BR - 418, poucos metros à frente - talvez uns 200 metros - transpassamos a ponte metálica e fim do caminho, que desapareceu em meio à mata fechada, poucos quilômetros à frente.
Demos meia volta, [re] ingressamos no asfalto da BR - 418 e pedalamos pouco mais de três quilômetros até o Restaurante Frigideira. Não almoçamos. Estava muito quente. Preferimos pão com linguiça a um prato comercial. Eram 14h (Hora Oitava).

Na volta à estrada asfaltada (BR - 418), percorremos seis quilômetros em declive suave, viramos à esquerda, num caminho em leito natural que, ao que tudo indicava, é o antigo leito da ferrovia. Percepção correta.
Seguimos por ele [o antigo leito], deixando o asfalto para trás e, em poucos quilômetros, chegamos à Estação São João (1926) que, atualmente, fica dentro de uma propriedade privada.
Abrimos a porteira e fomos muito bem recebidos por uma senhora e seus três filhos pequenos: dois devem ter entre 4 a 6 anos e o menor, uns 10 meses, que se fazia pesado e não estando mais para colo.


Tiramos algumas fotos, brincamos um pouco com as crianças, que ficaram encantadas com o tamanho das bicicletas.
A Estação São João ficou para trás e, ao invés de voltarmos por onde viemos, seguimos em frente, percorrendo um grande U invertido, formado pelo extinto leito, e seis quilômetros à frente, saímos novamente na BR - 418. Mas, não por muito tempo.
Oito quilômetros adiante e em asfalto, assomamos a um trevo bem sinalizado e uma placa indicava a direção para Bias Fortes, que é o nome da próxima estação, localizada em Crispim Jaques, outro distrito de Teófilo Otoni (MG).
Deixamos a Rodovia BR - 418 e por 14 quilômetros pedalamos placidamente à luz rica da tarde e em terreno predominantemente plano, até chegarmos ao calçamento de Bias Fortes, sobrenome de Crispim Jaques. Eram 16h.
O Renato, nosso anfitrião, nos aguardava no portão de casa, que é a primeira moradia do distrito àqueles que vêm de Teófilo Otoni (MG). Nesse domicílio, aconteceu o pernoite daquela etapa.
Fomos muito bem acolhidos e a estada foi maravilhosa. Tomamos cervejas a valer, enquanto a conversa fluía fácil.
Mais tarde, nos foi servida uma galinhada de comer rezando. Alguns parentes, que moram em casas adjacentes, vieram para nos conhecer. A conversa foi até tarde.
O lugar é muito bucólico, nenhuma zoada de motos com escapamentos abertos, carros com som nas alturas e bares com aglomerações. Um deleite.
Após o jantar, por volta das 20h30, saí para caminhar no silêncio daquela noite adormecida e sem luar (naquele 27/08/2021, o nascer da Lua ocorreu às 21h40).
A parca iluminação pública concedeu-me o privilégio de contemplar o céu com seus hieróglifos de estrelas (ou hieroglifos - ambas as grafias estão corretas).
Um enlevo para os olhos e um regozijo para a alma.
Dormi muito bem aos sons da natureza.
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6º DIA |
27/08/2021 |
75 km |
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BIAS FORTES (MG) A FRANCISCO SÁ (MG) |
18 km |
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FRANCISCO SÁ (MG) A MANGALÔ (MG) |
20 km |
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MANGALÔ (MG) A PRESIDENTE PENA(MG) |
15 km |
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PRES. PENA(MG) A CARLOS CHAGAS (MG) |
22 km |
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O "Pequeno Almoço" - modo como os portugueses referem-se ao nosso "Café da Manhã" - foi servido às 8h (Hora Segunda).
Despedimo-nos do Renato e Família e ficamos honrados com tamanha hospitalidade, acolhimento e generosidade, ao ceder acomodação para pessoas que, até então, ele não conhecia. Isso se chama hospitalidade mineira.
Por diversas ocasiões, nas quais percorri a Estrada Real, que conheço a palmos, a hospitalidade mineira sempre esteve presente por onde passei.
Antes de começar o pedal daquele 5º dia, paramos defronte à Estação Bias Fortes 17 - 18 para registros fotográficos.



17 - Crispim Jaques Bias Fortes exerceu o governo provisório de Minas Gerais por nomeação do Marechal Deodoro da Fonseca em quatro breves ocasiões que, na prática, se estenderam de 24 de julho de 1890 a 11 de fevereiro de 1891.
Em 1894, renunciou à cadeira de senador estadual em virtude de sua eleição para presidente - naquela época não existia o cargo de Governador do Estado de Minas Gerais - período de 7 de setembro de 1894 a 7 de setembro de 1898.
Durante seu governo, realizou-se, em 12 de dezembro de 1897, a transferência da capital mineira de Ouro Preto (MG) para Belo Horizonte (MG).
Após o mandato de presidente estadual, retornou ao senado estadual, onde permaneceu até 1918, vindo a falecer durante o exercício do mandato.
18 - A Estação de Bias Fortes foi inaugurada em 1896.
Possivelmente construída por Wilhelm (Guilherme) Giesbrecht que, anos mais tarde, tornou-se diretor da Bahiminas.
Em 1943, o povoado foi elevado à categoria de distrito de Teófilo Otoni (MG), porém com o nome Crispim Jaques (foram os dois primeiros nomes de Bias Fortes, antigo governador de Minas Gerais).
O nome da Estação, no entanto, permaneceu Bias Fortes até 1966, quando a ferrovia foi desativada.


De Bias Fortes a Carlos Chagas (MG) - percurso daquele dia, com 75 quilômetros -, pedalamos pelo trecho mais bucólico do percurso, ponta a ponta, da Bahiminas.


Os primeiros 18 quilômetros levaram-nos à Estação Francisco Sá, no distrito de Carlos Chagas (MG). A antiga caixa d´água, à semelhança de uma atalaia, deu-nos boas-vindas.
Ficamos sabendo, enquanto degustávamos pastéis no único empório aberto, que a estação, após a desativação, em 1966, foi comprada pela família do Sr. Dimas e transformada em salão de festas.







Em 1896, a região na qual se encontra a Estação Francisco Sá era habitada por índios pouco amigáveis.
Quando faziam incursões pelo povoado, os funcionários da Bahiminas se entrincheiravam no andar de cima. Daí a razão de a Estação ter dois andares.
Não sei se a história é verídica. Foi um nativo quem nos contou, enquanto pagávamos a conta dos pastéis.

Às 11h (Hora Quinta), pernas nos pedais, com as costelas de vaca de volta, a infernizar, ao longo dos 20 quilômetros até chegarmos a Estação Mangalô, construída em 1926.






Quinze quilômetros após a passagem pela Estação Mangalô, chegamos à Estação Presidente Pena, município de Carlos Chagas (MG), inaugurada em 1895. Eram 13h (Hora Sétima).
Inicialmente era chamada de Estação Todos os Santos, homônima ao rio que a acompanha, por 123 quilômetros, de Teófilo Otoni (MG) a Presidente Pena, desaguando na margem direita do Rio Mucuri.


Enquanto Reane fazia um rolezinho pelas cercanias do distrito de Presidente Pena, sentei defronte à Estação e imaginei um frenesi de pessoas na plataforma, a esperar a chegada do comboio.
Pessoas ansiosas com a viagem prestes a começar, misturando-se às outras que foram esperar familiares desembarcando. O mesmo trem que trazia, também levava. "O trem que chega é o mesmo trem da partida"
Semblantes felizes pelos que chegavam misturam-se à tristeza nos rostos dos que iam. "A hora do encontro é também despedida"
Muitos que partiram no trem estavam alegres pelos familiares e amigos que encontrariam na chegada ao destino; outros ficavam tristes, conhecidos e íntimos que talvez nunca mais regressassem. A Bahiminas foi um vai e vem de emoções.
Enquanto contemplava a Estação Presidente Pena, criei essas imagens, que trouxream pra dentro de mim as coisas que a mente vai longe buscar.
Foi como se um filme se descortinasse, à minha frente, projetado numa tela acima da plataforma. "A plataforma dessa Estação. É a vida desse meu lugar".
Lembrei da canção de Milton Nascimento e Fernando Brant - "Encontros e Despedidas" - gravada pela cantora Simone e lançada em seu 8º LP [Amar] no Verão 1981/82, pela gravadora CBS. Proporcionou um disco de platina à cantora.
Encontros e Despedidas.
Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar quando quero
Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir
São só dois lados da mesma viagem
O trem que chega é o mesmo trem da partida
A hora do encontro é também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida.



O distrito de Presidente Pena tem ruas calçadas, posto de saúde e escolas. A Estação está sendo reformada. O material para as obras foi acondicionado junto à plataforma. Pareceu-me que a empreitada será para breve. Esperemos.
Paramos num empório à beira da senda (caminho). Um sujeito boa praça e muito falante, proprietário do empório, nos serviu deliciosas coxinhas de penosas, regadas ao viciante Mate-Cola.
Antes de partir, fomos informados que, dos 22 quilômetros - em leito natural - que tínhamos a percorrer, para chegarmos a Carlos Chagas (MG), "os oito quilômetros finais são sobre asfalto", falou o possessor do estabelecimento. Glorificamos e fomos.
Partimos para a última etapa daquele dia às 13h 45 (Hora Sétima e 3/4) e decidimos almoçar em Carlos Chagas (MG). "22 quilômetros, sendo 8 quilômetros em asfalto, é moleza", disse à minha prima. Chegaremos por volta das 15h (Hora Nona). Ledo engano.
Ao sair do perímetro urbano de Presidente Pena, calçado e nivelado, as costelas de vaca [re] apareceram fundas e presentes de uma margem à outra do extinto leito ferroviário. Vimo-nos obrigados a pedalar - novamente - em velocidade de Internet discada.
Girávamos os pedais cuidadosamente. Ter outro aro empenado, nem pensar. Íamos pela parte mais externa da via, esperançosos que as costelas de vaca, ali presentes, tivessem menos proeminente. Mera ilusão.
Após duas angustiantes horas, o leito natural cedeu espaço ao asfalto, gasto, cheio de remendos e os trincamentos pronunciados, à primeira vista, pareceram-me categoria 4, numa escala que vai até 5.
A sinalização horizontal, ou seja, as faixas centrais (linhas de divisão de fluxo) e as faixas laterais (linhas de bordo) inexistem devido à ação das intempéries. A sinalização vertical está coberta pelo mato.
Pedalamos com vagar, tal e qual fizemos no trecho anterior, repleto de costelas bovinas.
Previ que chegaríamos às 15 (Hora Nona), chegamos às 16h15 (Hora Décima e 1/4) e famélicos.
Bem antes de alcançarmos a área central de Carlos Chagas (MG) - 18.531 habitantes - IBGE - 2022, um boteco "di catigoria" surgiu diante de nossos pavilhões oculares. Alvíssaras!
Almoçamos prato comercial acompanhado de salada e alguns viciantes Mate - Cola. Faltou uma chávena de café expresso para arrematar. "Quod non habet remedium, remedium est", em latim. Em português castiço, "o que não tem remédio, remediado está".
Por indicação do Renato, nosso anfitrião em Bias Fortes, hospedamo-nos no Hotel Minas, vizinho à ex-Estação Carlos Chagas 19, demolida para dar lugar ao Fórum do município.
19 - O primeiro nome [da Estação] foi Uruçu, inaugurada em 1892, uma alusão ao Rio Uruçu, que passa junto à Estação. É afluente do Rio Mucuri.
Posteriormente, e por pouco tempo, chamou-se Getúlio Vargas, a partir de 1930, provavelmente uma homenagem ao ditador gaúcho, que governou o Brasil em duas ocasiões: 1930 a 1945 - como ditador - e 1951 a 1954 -saudoso de governar como um déspota -, quando saiu da vida para entrar na História.
Tempos depois, o nome da Estação foi cambiado para Carlos Chagas. 20. Mudança justíssima.
(Nota do Autor).
20 - Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas (1879 - 1934), nascido em Oliveira (MG), foi um dos maiores ícones (ou expoentes) da ciência brasileira.
Foi biólogo, médico sanitarista, infectologista, cientista e bacteriologista, que trabalhou como clínico e pesquisador.
Carlos Chagas identificou, no município mineiro de Lassance, em 1909, a Tripanossomíase americana ou Doença de Chagas, moléstia tropical parasitária causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi e transmitida, principalmente, por insetos.
Concluiu-se, então, o ciclo da doença, tendo identificado o vetor (barbeiro, inseto triatomíneo), como o agente causal o protozoário Trypanosoma cruzi.
Ao lado do Hotel Minas fica o Restaurante e Pizzaria Dainner. Para jantar, bastou descer os degraus, do segundo andar à recepção, sair à rua e chegar ao estabelecimento. Saboreamos duas pizzas deliciosas. Depois, o sono dos justos.
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7º DIA |
28/08/2021 |
62 km |
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CARLOS CHAGAS (MG) A CHARQUEADAS (MG) |
12 km |
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CHARQUEADAS (MG) A PAM PAM (MG) |
11 km |
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PAM PAM (MG) A MAYRINK (MG) |
19 km |
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MAYRINK (MG) A NANUQUE (MG) |
20 km |
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O pedal do 7º dia foi deveras sem graça, percorrido 100% em rodovia (BR - 418), nenhuma estação para conhecer, pois, todas elas, ao longo do percurso, entre Carlos Chagas (MG) e Nanuque (MG), foram demolidas ou, seja, colocadas no rés do chão, sem hífens, segundo o Novo Acordo Ortográfico (2009).
Há três vestígios da Bahiminas em Carlos Chagas (MG).
Na saída da cidade, no acesso à Rodovia BR - 418, feito pela Avenida Capitão João Pinto, ficavam a Estação - demolida para dar lugar ao Fórum -, a caixa d´água, que abastecia as caldeiras das locomotivas e as laterais da ponte metálica, trazida da Inglaterra, sobre o Rio Uruçu.


As últimas lembranças da Bahiminas em Carlos Chagas (MG) inexistem. É como se tivessem sido apagadas propositalmente.
Sucessivos prefeitos, avessos à história e à cultura locais, não deram a menor importância a tais patrimônios e, sem-cerimônia, colocaram abaixo tudo que lembrasse a Ferrovia Bahia-Minas.
Continuamos em frente, atravessamos a ponte sobre o Rio Uruçu, a avenida passou a ser Frei Simeão, permanecendo com esse nome até o trevo de acesso à BR - 418. Pontualmente 10h (Hora Quarta).

Carlos Chagas (MG) tem um dos maiores rebanhos bovinos de Minas Gerais. Por isso é denominada a "Capital do Boi".
O tempo estava nublado, porém sem ameaça de chuva. A Rodovia BR - 418 está em estado razoável de conservação, o mesmo acontece com o acostamento.
Doze quilômetros à frente de Carlos Chagas (MG) existiu algures (em algum lugar) a Estação Charqueadas, inaugurada em 13/06/1936. Sua edificação ficou por conta de um fazendeiro negociador de charque, daí seu nome. Foi demolida quando a ferrovia pereceu.
Onze quilômetros depois de Charqueadas deveria aparecer a Estação Pam Pam, inaugurada em 1926 e derrubada quando o vai e vem dos trens cessou.
Foi erguida no mesmo sítio da original, uma casa, que nada tem a ver com a antiga estação. Segundo informaram-me, fica numa propriedade privada e o acesso é restrito.
Faltavam 19 quilômetros para Mayrink, distrito de Carlos Chagas (MG). A fome apertava e o movimento de veículos crescia.
O Rio Mucuri corre paralelo à estrada. Em alguns trechos aproxima-se bastante do asfalto; em outros, quase some ao alcance dos olhos, correndo ao longe, como uma fita de renda prateada.
Ao meio-dia e meia (Hora Sexta e 1/2), chegamos ao trevo de acesso à cidade de Mayrink (MG).
Inútil entrar na área urbana. Não há estação para conhecer e fotografar. Ficamos no Restaurante "Rodovia da Moqueca", defronte à BR - 418.

Refeição deliciosa e regada ao Mate-Cola e 1 litro de Coca-Cola. Àquela altura da viagem, o vício à base de cola tornou-se explícito.
A química digestiva foi feita pedalando os 20 quilômetros derradeiros para chegar a Nanuque (MG).
Na saída do Restaurante "Rodovia da Moqueca", ingressamos na BR - 418. Naquele trecho, o traçado faz longa curva à esquerda e, quando a rodovia se alinha com o horizonte, vislumbramos a enorme ponte rodoviária sobre o Rio Mucuri.
Ao iniciarmos a travessia, avistamos uma segunda ponte, paralela à ponte rodoviária, à nossa esquerda, desativada, com piso repleto de mato à meia altura e marcante aspecto de abandono. Fiquei a contemplá-la e...... bingo! "É uma ponte da Bahiminas", exclamei. É óbvio!
O trem saía de Mayrink - ou chegava a Mayrink - por essa estrutura, daí a razão do abandono daquela obra.



Outro monumento esquecido e corroído pelo tempo. Imaginei que a BR - 418, nesse trecho, segue o traçado da ferrovia e quiçá sobreposta ao antigo leito da Bahiminas.
Observação deveras lógica. A construção de uma [a rodovia] foi balizada pela extinção da outra [a ferrovia].

Chegamos a Nanuque (MG) - 34.668 habitantes. IBGE 2022 - com um arremedo de chuva tentando nos molhar. Sugeri à Reane não entrarmos na cidade.
O Hotel Luíza Nanuque - excelente - fica às margens da BR - 418, no acesso sul. Estada maravilhosa.
A única coisa interessante para ser vista/fotografada em Nanuque (MG) é a Pedra do Bueno, cercada pelas águas do Rio Mucuri.

No Auto Posto Divisa, há cerca de 600 metros do Hotel Luíza Nanuque, tomei umas cervejas para arrefecer o calor e sossegar a sede.
O banho ficou para mais tarde, enquanto aguardava o entregador trazer os hambúrgueres encomendados, via aplicativo. Espera de 1 hora.
Ter "descoberto" a antiga ponte ferroviária, paralela à BR - 418, e a minguada chuva que caiu, tornaram a etapa não tão sem graça quanto eu senti que seria. Meno male.

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8º DIA |
29/08/2021 |
69 km |
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NANUQUE (MG) A ARTUR CASTILHO (MG) |
14 km |
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A. CASTILHO (MG) A IBIRANHÉM (MG) |
15 km |
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IBIRANHÉM (MG) A POSTO DA MATA (BA) |
40 km |
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O Hotel Luíza Nanuque - uma das melhores estadas ao longo do caminho - ofereceu um café da manhã farto em frutas, pães e afins.
Começamos o dia alimentados com dignidade e preparados para uma etapa com alternância entre o leito natural da Bahiminas e o asfalto da BR - 418.


21 - Em Nanuque (MG), no Vale do Mucuri, o empresário Tadeu Milbratz orientou um funcionário a fazer lances para aquisição de uma das aeronaves da Vasp.
Com a grande concorrência, a opção restante foi uma unidade que se encontrava em Manaus (AM), distante 4,5 mil quilômetros da cidade mineira.
Autorizado pelo patrão, o rapaz comprou a unidade por R$ 84 mil.
Até chegar ao destino - Nanuque (MG) -, foram 10 meses entre o planejamento logístico, o desembaraçamento e o transporte.
Foram 20 dias - de barco - Manaus (AM) e Belém (PA), e outro tanto - rodoviário - até Belo Horizonte (MG).
Custo: R$ 150 mil, quase duas vezes o valor do Boeing.
O empresário contratou 11 carretas para transferir - de BH até Nanuque (MG) - o cargueiro, à bagatela de R$ 230 mil. O Boeing 737-200 tem 30 metros de cumprimento.
Apaixonado por aviação, Milbratz também é piloto.
A aeronave deve servir de chamariz para visitantes de um centro comercial, que ele pretende montar em uma fazenda de 1.200 hectares, às margens da rodovia [BR - 418] que liga Nanuque ao sul da Bahia.
Um projetista foi contratado para elaborar a planta. A proposta é negociar lotes do terreno no qual podem ser instalados um posto de combustíveis, um restaurante e outros serviços apropriados para uma parada rodoviária. “É como se fosse um presente para a cidade”, afirmou.
A única dúvida de Milbratz: a manutenção ou não da pintura original com as cores da Vasp. Após consultar amigos, decidiu a manter o logotipo.
Poderá ser “uma forma de manter viva a história da companhia”, concluiu o empresário.
Às 10h (Hora Quarta), deixamos o 727-200 em seu sono perpétuo e seguimos na proa de Serra dos Aimorés (MG) para conhecer a Estação Artur Castilhos.
O topônimo (nome do lugar) deve-se à sua localização na serra na qual habitavam os índios Aimorés, no quadrante Nordeste do Estado de Minas Gerais.
Pedalávamos sob céu cheio de Sol, que nos observava por entre nuvens de base acinzentadas.
A qualidade do asfalto não ajudava a desenvolver uma boa média para uma etapa bastante plana, assentada numa reta que se misturava com o horizonte.
Alcançado o trevo de acesso à cidade de Serra dos Aimorés (MG) - 6.847 habitantes - IBGE - 2022 - dobramos à esquerda e logo pedalávamos pelo calçamento da cidade.


A Estação Bahiminas, no Município de Serra dos Aimorés (MG), recebeu o nome de Artur Castilho 22, engenheiro e diretor do Departamento Nacional de Estradas de Ferro.
Foi inaugurada em 1882 - e fica defronte à Rodoviária Dona Mocinha.
22 - Em 2018 era uma estação muito bem cuidada - não me pareceu -, tendo sido usada anteriormente como agência dos correios e agora como biblioteca.



A Partir de Serra dos Aimorés (MG), o leito da Bahiminas ressurgiu.



Estávamos a quinze quilômetros da Estação Ibiranhém, que marca a divisa dos Estados de Minas Gerais e da Bahia.
A caniçada (coletivo de canavial) havia sido cortada, fazendo com que o horizonte ficasse à mostra, aumentando a beleza do lugar.
Nos seus três séculos como colônia de Portugal, o Brasil foi sinônimo de açúcar.
E açúcar era sinônimo de escravidão.
Mesmo no auge da produção de ouro e diamantes (século XVIII), continuou [o açúcar] a ser o produto mais importante na pauta de riquezas enviadas pela colônia à metrópole [...].
A data do primeiro plantio de cana no Brasil é incerta, mas acredita-se que tenha ocorrido menos de duas décadas após a chegada de Pedro Álvares Cabral à Bahia [...].
Isso numa época em que o principal produto da colônia era ainda a madeira de pau-brasil, escreveu Laurentino Gomes na Trilogia Escravidão, Volume 1ª - ed. - Rio de Janeiro - 2019 - pp. 313 - 316 e 317.
Pedalávamos sobre as canas (Phragmites australis) que não foram colhidas. Algumas estavam amassadas e outras retorcidas. Portanto, sem valor econômico. E eram muitas.
Ao longe, podíamos visualizar, à semelhança de uma maquete e em meio à fraca névoa seca, as construções do distrito de Ibiranhém.
Quando entramos pelas ruas esburacadas, com esgoto correndo a céu aberto, falta de calçadas e carência de outros itens básicos de infraestrutura, tivemos a dimensão do abandono da localidade.
Casas inacabadas com tijolos à mostra, terracinhos com roupas no varal, cães em profusão perambulando - embora a maioria seja dos moradores -, emaranhado de fios entre postes, semelhantes à cabeça de Medusa, de onde os "gatos", para obtenção de energia elétrica, parecem multiplicar-se e muita, muita sujeira espalhada à roda.
Mas em época de eleições municipais, quando a comunidade é lembrada pelos candidatos, as promessas de melhorias multiplicam-se e nada acontece, após a posse do prefeito eleito.
Prática política tão velha quanto o mundo ou com mais anos que o Sol.
Ibiranhém (BA) pertence à jurisdição do Município de Mucuri (BA).
Perguntei a uma moradora onde poderíamos almoçar, e ela respondeu: "moço, restaurante tem não!" Outro dia sem papá.
Empurramos as bikes até a Estação Ibiranhém, haja vista a precariedade do piso das poucas rua.
A estação encontra-se em lastimável estado de conservação, sendo usada como residência para pessoas de baixo poder aquisitivo.
Posicionei-me de frente à estação. O que vi? O lado esquerdo pertence ao município de Mucuri (BA) e o lado direito pertence a Serra dos Aimorés (MG).
Na parte central da estação está a Associação Comunitária de Ibiranhém, distrito de Mucuri (BA). Ou seja, 1/2 da estação está na Bahia e 1/2 em Minas Gerais.
A porta do lado baiano abriga uma pequena família; a do lado mineiro é a moradia de um rapaz.


Ao longo desse trajeto (divisa MG/BA a Ponta de Areia - BA), estão as estações de Posto da Mata, Cândido Mariano, Helvécia, Juerana e Caravelas. Todas estão de pé; Peruípe, Aparaju e Ponta de Areia foram ao rés do chão.
O leito natural ficou para trás e Minas Gerais também. Passamos a pedalar pelo asfalto da BR - 418, cujo piso estava coberto parcialmente por toletes de cana-de-açúcar que caem dos caminhões.
A qualidade do asfalto é ruim. Muitos remendos, imperfeições e mulunduns (calombos), que fazem as carretas sacolejarem bastante e, por extensão, derramam parte da mercadoria pelo caminho.
Da Estação Ibiranhém ao Posto da Mata (BA) - 40 quilômetros - foi o trecho mais duro daquele penúltimo dia de pedal.
Acostamento estreito, caminhões com até três carretas transportando cana-de-açúcar, asfalto ruim e muito, muito calor, apesar de a estação do ano ser o inverno. Fiquei a imaginar como será (ou seria) fazer essa empreitada durante o verão.
Apesar das condições adversas do asfalto da BR - 418 e do calor senegalês àquela hora, chegamos a Posto da Mata (BA), que não é um posto de combustíveis, às 15h (Hora Nona), a hora mais quente do dia.
Fomos à área central conhecer a diminuta Estação Mata 23, que era um posto telegráfico.
23 - Surgiu em 1939 (data tendo como fonte o Guia Geral das Estradas de Ferro do Brasil, 1960), onde havia muita mata, muita floresta.
A estrada de ferro explorava a madeira para abastecer as caldeiras dos trens e produzir as dormentes nas quais os trilhos eram fixados.
A data de inauguração (1939) é contestada por um artigo de jornal de 1931, quando o nome da estação foi aprovado pelo Ministério da Viação, naquele ano.

Estação Mata, antigo Posto Telegráfico.
Foto: Fernando Mendes. 
Estação Mata, antigo Posto Telegráfico.
Foto: Fernando Mendes.
Estação Mata, antigo Posto Telegráfico.
Foto: Fernando Mendes.
Posto da Mata é um distrito de Nova Viçosa (BA). O projeto de emancipação para torná-lo município baiano engatinha, há décadas, no Congresso Nacional. Nenhuma novidade esse engatinhar de projetos naquela casa.
Posto da Mata - 22.168 habitantes - IBGE - 2022 - é o segundo distrito brasileiro mais populoso, ficando atrás de Pajuçara - 53.000 habitantes - IBGE - 2022 -, distrito do município de Maracanaú (CE).
Estada na Marina's Pousada e Restaurante. Excelente estada ao longo do caminho.
Estávamos, até àquela hora, sem almoço. Pedimos, via aplicativo, Carne de Sol com mandioca.
Enquanto aguardávamos a chegada da merenda, ficamos a banhar na piscina da pousada. Banho abençoado, mediante tamanha canícula (calor intenso).
À noite metemos o pé na jaca. Fomos à Churrascaria e Sushi Bar, que serviu comida japonesa da melhor qualidade e acompanhada de algumas cervejas bem geladas. Um deleite.
Faltavam 102 quilômetros para vermos o mar.
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9º DIA |
30/08/2021 |
102 km |
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POSTO DA MATA (BA) A HELVÉCIA (BA) |
29 km |
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HELVÉCIA (BA) A JUERANA(BA) |
22 km |
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JUERANA(BA) A PONTA DE AREIA (BA) |
51 km |
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Tomamos café da manhã (Brasil) ou Pequeno Almoço (Portugal) às 7h (Hora Primeira) e partimos às 8h (Hora Segunda).
Saída pela Rua Espírito Santo, que desemboca na Avenida Odilon de Carvalho. Viramos à esquerda e, em pouco tempo, alcançamos a Rodovia BR - 418.
Passamos por uma sucessão de postos de combustíveis e empórios variados, de ambos os lados da estrada, até chegarmos ao entroncamento da BR - 418 com a BR -101.
Contornamos o trevo em 180º e continuamos nossa jornada pela BR-418.
A partir daquele ponto, uma reta, recém-asfaltada e que parecia não ter fim, possibilitou uma média horária - a maior desde a saída de Araçuaí (MG) - na casa dos 22 km/h.

Dez quilômetros à frente, após a intersecção da BR - 418 com a BR - 101, viramos à direita e ingressamos na Rodovia Estadual BA - 697 que, por dois ondulados quilômetros, nos conduziu à Estação Cândido Mariano, pertencente ao Município de Nova Viçosa (BA).
O nome da Estação foi em homenagem a um engenheiro da Ferrovia Bahiminas. Na comunidade, homônima à estação, vive um grupo quilombola.
Nas pesquisas para redigir este relato, não encontrei, no Guia Geral das Estradas de Ferro do Brasil, de 1960, a data de inauguração dessa estação.
Era conhecida como km 87 e atualmente funciona como um posto de saúde.


Retornamos pelos dois ondulados quilômetros da Rodovia BA - 697 para reingressar na BR - 418. Eram 9h. (Hora Terceira).
A Estação Helvécia 24 veio a seguir, após onze quilômetros vencidos em pouco mais de meia-hora.
Helvécia (BA) - 3,7 mil habitantes - IBGE - 2022 - é um distrito do município de Nova Viçosa (BA), localizada na margem direita do Rio Peruípe.
24 - Estabelecida em 1818, por colonos alemães e suíços, foi chamada de Colônia Leopoldina.
Abrigou, por vários anos, uma grande população de escravizados
e imigrantes.
A produção de café declinou a partir de 1888, com a assinatura da Lei Áurea.




Às 10h (Hora Quarta), voltamos ao "tapete" que está a BR - 418, pós-asfaltamento.
Até 2018, o trecho entre Posto da Mata (BA) e Ponta de Areia (BA), com longos 102 quilômetros de extensão, era em leito natural e coberto por fina camada de areia.
Aproveitamos a etapa com altimetria predominantemente plana e com asfalto recém- aplicado, para pedalar, sem tréguas, por uma reta que parecia sumir no horizonte.
A média horária mantinha-se na casa dos 22 km/h e o movimento de veículos de passeio era fraquíssimo; o de carretas transportando toras de eucaliptos, frenético.

No acesso a Peruípe, distrito de Caravelas (BA), parada para hidratação à base de água de coco.
Não entramos na comunidade, pois, a estação, embora não demolida, encontra-se em área de difícil acesso e coberta por densa vegetação, segundo vídeo (Youtube), sob o título "De uma Ponta à Outra", de autoria de Athylla Borborema, assistido nas pesquisas pré-viagem pela Bahiminas.
Hidratados, tocamos por nove quilômetros e chegamos a Juerana, outro distrito de Caravelas (BA).
A localidade é bem organizada, com ruas asfaltadas e a estação, inaugurada em 1882, está em bom estado de conservação.
"Aqui havia abundância de pau juerana, madeira que originou o nome do lugar", falou-me um nativo, dono de um empório, enquanto eu comprava garrafas com água mineral.




Quase meio-dia e nossos estômagos clamavam por víveres. Faltavam 51 quilômetros para Ponta de Areia (BA). Decidimos fazer essa última etapa nonstop (*), uma vez que não há estações para conhecer/fotografar a partir de Juerana.
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Embora a forma com hífen seja a oficial (non
stop), a versão junta (nonstop) também é bastante aceita e
utilizada, principalmente no inglês americano e em nomes comerciais. |
Saímos pela Rua Bahia e Minas e voltamos à BR - 418. A grande reta, que começou em Posto da Mata (BA), estava à nossa espera e parecia nos desafiar a vencê-la.
Pedalamos nonstop por 26 quilômetros até a localidade de Aparaju, povoado na jurisdição de Alcobaça (BA), que abrigou a Estação Aparaju, inaugurada no dia 10 de março de 1927 e posta no res do chão em data desconhecida.
Não encontrei, no Guia Geral das Estradas de Ferro do Brasil, de 1960, a data de demolição da Estação Aparaju.
Giramos por 1 hora e 15 minutos, média de quase 23 km/h.
Mas Pauperum gaudium parum duret - em latim. Em português, "alegria de pobre dura pouco".
A BR - 418, após Aparaju, faz uma longa curva à direita, mudando radicalmente a direção de Nordeste (NE) para Sul, num giro de 135°, alinhando-se à proa de Ponta de Areia (BA), como se as duas bikes fossem pequenos monomotores, ambas na final para pouso visual, perfiladas e visualizando a pista do aeroporto e Ponta de Areia, a 15,5 milhas ou 25 quilômetros, estivesse à nossa frente.
Mas, um vento contrário e com rajadas, vindo do Sul, soprava pertinente, pegando-nos de chofre (sem aviso prévio).
Os 25 quilômetros finais até Ponta de Areia, distrito de Caravelas (BA), percorridos em duas horas, foram penosos e com a sensação de pedalar e não sair do lugar. Bike não é monomotor.

Às 15h (Hora Nona) chegamos ao Monumento Bahiminas na Praça dos Ferroviários, em Ponta de Areia (BA). Era dia 30/08/2021.
Nossa missão estava cumprida. Sensação de ter saído ontem de Araçuaí (MG). Sensação de ter sido muito rápida a jornada. Foi um passeio fenomenal.



Após as comemorações de finalização e êxito da aventura, pedalamos dez parcos quilômetros até Caravelas (BA) e a estada foi na Pousada Encanto Abrolhos.

Após detida observação do sítio no qual se ergueu o Porto de
Ponta de Areia (BA), cheguei à seguinte conclusão: ele [o porto] foi construído
num lagamar, ou seja, lugar onde se pode fundear embarcações com segurança e em
qualquer tempo.
Concluído o check-in na Pousada Encanto Abrolhos fomos, sem demora, ao Restaurante Carenagem, saborear merecido almoço: moqueca com peixe da região (esqueci o nome), pirão, salada e cervejas para hidratar e comemorar a façanha realizada.
Os 577 quilômetros do percurso da extinta Bahiminas foram vencidos em nove dias - à exceção da parada de um dia em Teófilo Otoni (MG), devido à problemas mecânicos -, sem maiores percalços e em segurança.

No dia seguinte, faríamos um passeio de barco ao Arquipélago de Abrolhos. Faríamos! O tempo virou ao final daquela tarde e a aventura foi cancelada. Choveu a cântaros ao longo da noite e a maior parte do dia seguinte (30/08/2021).
No dia 31/08/2021, Reane voltou para o Rio de Janeiro (RJ). A chuva permaneceu.
Aproveitei o tempo impróprio à passeios e praia, para colocar a escrita em dia, que auxiliou bastante na redação deste relato.
Dia 01/09/2021, 82º aniversário do início da Segunda Guerra Mundial na Europa, a chuva permanecia, mas não me impediu de pedalar até Alcobaça (BA), 34,5 quilômetros de distância e hospedagem na Pousada Pé de Caju.
O restante daquele 1º dia do mês de setembro, fiquei a passear por Alcobaça (BA). Cidade pouco interessante.
No dia 02/09/2021, fiz um bate e volta Alcobaça (BA) - Prado (BA) - Alcobaça (BA), com 52 quilômetros e almoço maravilhoso no Restaurante Jubiabá, em Prado (BA).
No último dia, 06/07/2021, pedalei de Alcobaça (BA) a Teixeira de Freitas (BA) - 65 quilômetros pela Rodovia BA - 290, predominantemente plana - e pernoitei no Hotel Caraipe, pertencente à Rede OYO, próximo à rodoviária de Teixeira de Freiras (BA).
No dia seguinte, 07/09/2021, 199º aniversário da Independência do Brasil, embarquei para Brasília (DF), às 10h30 (Quarta Hora e 1/2) numa viagem rodoviária, cansativa, modorrenta, recheada de paradas para embarques e desembarques, ônibus convencional e estradas muito concorridas, principalmente por grupos de motoqueiros, que se dirigiam a Brasília (DF), por conta do 7 de Setembro. A viagem durou 28 horas e 50 minutos. Haja paciência.
Ao longo do pedal no extinto leito ferroviário da Bahiminas, em diversas ocasiões, quando parava para refeições ou pernoites, ouvi algumas pessoas dizendo a mim - não sei se com base ou sem base: "a Bahiminas será reativada"; "o governo quer recolocar os trilhos"; "estão dizendo que a estrada vai voltar"; "a Bahiminas será conectada à Ferrovia da Vale" e tantas outras "declarações", que adquiriram um danoso efeito multiplicador, espalhando-se e fazendo com que muitos acreditem nessas "profecias" que, para mim, estão mais para fake news.
Inúmeras audiências públicas aconteceram - muitas outras acontecerão - e nada de progressos.
Segundo notícia publicada - em 02/09/2021 - no Jornal Diário do Comércio, sob título "Indenização da Samarco pode garantir reativação de Ferrovia Bahia-Minas", afirma que:
[...] o acordo bilionário do governo de Minas Gerais [...] diz respeito à reativação da Ferrovia Bahia-Minas, desativada em 1966, com investimentos iniciais de, ao menos, R$ 3 bilhões.
Pouco provável que a Bahiminas ressurja.
Na minha modesta opinião, a reativação da Estrada de Ferro Bahia – Minas (Bahiminas) terá custos elevadíssimos se comparados às reduzidas demandas no transporte de cargas e, principalmente, de passageiros sobre os trilhos.
Relação custo-benefício nada favorável.
(Nota do Autor).

Brasília, 11 de setembro de 2021.
20º aniversário dos ataques terroristas às Torres Gêmeas em Nova York e ao Pentágono, localizado no condado de Arlington, no Estado da Virgínia (VA) e não em Washington - DC, como anunciado recorrentemente e erroneamente.
(Nota do Autor).
Antônio Fernando Mendes - 61 anos.
Professor de Geografia e Geógrafo.
Brasília (DF), 11/09/2021.
Grato pela leitura.






Comentários
Anos atrás eu pretendia fazer esse roteiro, estava de passagem comprada e tudo, mas desisti em cima da hora. Acabei fazendo de carro, mas não passei por todos os lugares que você passou.
Pretendo retomar o sonho de fazê-lo de bike!