Viagem de Bike Aparecida (SP) a Brasília (DF). Verão 2016

 

VIAGEM DE BIKE

APARECIDA (SP) A BRASÍLIA (DF). VERÃO 2016

ATUALIZAÇÕES: 2022, 2025 E 2026


Santuário Nacional de Aparecida. Foto: Fernando Mendes.

APARECIDA (SP) A BRASÍLIA (DF)

DIA

DATA

TRECHOS

KM/DIA

∑ (*)

DOM

10/01

Aparecida (SP) a Piquete (SP)

34 km

34 km

2ªf

11/01

Piquete (SP) a Itajubá (MG)

56 km

90 km

3 ªf

12/01

Itajubá (MG) a S. Rita do Sapucaí (MG)

43 km

133 km

4 ªf

13/01

S. Rita do Sapucaí (MG) a Ipuiuna (MG)

67 km

200 km

5 ªf

14/01

Ipuiuna (MG) a Poços de Caldas (MG)

70 km

270 km

6 ªf

15/01

Poços de Caldas (MG) a Casa Branca (SP)

86 km

356 km

SAB

16/01

Casa Branca (SP) a S. Rosa de Viterbo (SP)

60 km

416 km

DOM

17/01

S. Rosa de Viterbo (SP) a R. Preto (SP)

69 km

485 km

2 ªf

18/01

Ribeirão Preto (SP) a Uberaba (MG)

180 km

665 km

3 ªf

19/01

Uberaba (MG) a Uberlândia (MG)

105 km

770 km

4 ªf

20/01

Uberlândia (MG) a Catalão (GO)

109 km

879 km

5 ªf

21/01

Catalão (GO) a Sonho Verde (GO)

153 km

1.032 km

6 ªf

22/01

Sonho Verde (GO) a Brasília (DF)

166 km

1.198 km


1º dia

10/01/2016

APARECIDA (SP) A PIQUETE (SP)

34 km


Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Encerrado o giro pelas Terras Alas da Mantiqueira, entre 30/12/2015 e 08/01/2016 e, após dois dias de descanso em Aparecida (SP), retornei à lida no pedal para percorrer 1.198 quilômetros até minha casa em Brasília (DF).

Entre 10/01/2016 e 22/01/2016, foram 13 dias, ininterruptos, girando por terras paulistas, mineiras e goianas, até chegar à Capital Federal, onde resido faz 44 anos.

Parti de Aparecida (SP), para a 2ª parte da jornada, quando o Sol atingiu o Zênite, ou seja, ao meiodia, ingressando na Via Dutra, sentido Rio de Janeiro (Pista Norte), pedalando com a Mantiqueira no meu través Oeste, ou seja, à minha esquerda (*), vista ao fundo da paisagem.


(*) o uso da crase antes de "minha" é facultativo (opcional) quando o pronome possessivo feminino está no singular acompanhando um substantivo.

Almocei no Graal Clube dos 500, no km 60 da Dutra, Vila São José, em Guaratinguetá (SP), e voltei à lida para cumprir os quilômetros que restavam até a saída 51, que coincide com o km 51 da Dutra, onde está o acesso à BR–459, que me levou às Terras Altas da Mantiqueira outra vez, mas, desta feita, pedalando pela vertente Oeste, rumo às terras mineiras.

Os primeiros quilômetros pela BR–459 foram percorridos em uma reta a perder de vista e a Mantiqueira, ao fundo, deume a exata noção das elevações que me aguardavam nos próximos dias.

Passei pelo acesso a Lorena (SP) e segui na proa de Piquete (SP), cidade na qual a rodovia inclina fortemente para cima. 

Parei para pernoite antes que a inclinação começasse. 

Pizza e cama.

Brasília (DF) a 1.164 quilômetros.

Trecho entre Aparecida (SP) e Piquete (SP). Foto: Fernando Mendes.
Trecho entre Aparecida (SP) e Piquete (SP).
Foto obtida da ponte da BR - 459 sobre a Via Dutra.
Foto: Fernando Mendes.
Trecho entre Aparecida (SP) e Piquete (SP). Ao fundo, a Mantiqueira. 
Foto: Fernando Mendes.
BR – 459. Trecho entre Aparecida (SP) e Piquete (SP). Foto: Fernando Mendes.

 

2º dia

11/01/2016

PIQUETE (SP) A ITAJUBÁ (MG)

56 km


Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Ao acordar, esquadrinhei o céu cinzento, com nuvens pesadas, barrigudas e escuras. Verifiquei, via celular, a previsão do tempo: chuva para o dia todo. Homessa (*).

(*) Antiga interjeição originada da junção de 'homem + essa' (no sentido de quem diz "homem! essa agora..."). 

Tem o mesmo sentido de 'ora essa!', indicando que a pessoa está espantada ou intrigada com algo de que teve notícia. Também é grafada da forma "hom'essa".

Disponível em:<https://www.dicionarioinformal.com.br/omessa/>.
Acesso: 31/01/2016.
BR - 459, subida da Serra da Mantiqueira rumo a Itajubá (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Café da manhã devidamente “agasalhado”, despesas de hospedagem pagas e viagem que segue, sob chuva fina, que bailava ao sabor do vento frio e sibilante, que descia da Mantiqueira.

Deixei a pacata Piquete (SP), situada na cota 644m, às 11h e voltei à BR–459 para subir, sem tréguas – exceto para fotos , até a divisa SP/MG. Encarei uma ascensão de 781m, com extensão de 19 quilômetros. Nada mal.

A rodovia serpenteia a Mantiqueira, algumas curvas têm 180º e, quanto mais subia, mais chovia e mais bela ficava a paisagem, apesar da névoa que se formava por conta de tanta umidade, a cobrir as partes mais elevadas do relevo. 

Foi o trecho mais belo pelo qual pedalei entre Aparecida (SP) e Brasília (DF).

Quando cheguei à divisa SP/MG, o GPS marcava 1.425m de altitude. Parei num restaurante para almoçar. Chovia a cântaros.

Na hora de partir, troquei a blusa ensopada por outra seca, de mangas compridas, e vesti o corta–vento impermeável. O restante da jornada até Itajubá (MG), felizmente, foi em descenso contínuo, uma justa compensação pela subida cascuda enfrentada desde a saída de Piquete (SP).

Ventava muito e chovia em cascata solta. O termômetro portátil marcava 16°C, mas a sensação térmica devia beirar os 11°C.

Daquele ponto em diante, depois de atingir 1.425 m de altitude, a Rodovia BR–459 tem descenso de 30 quilômetros até a entrada para Itajubá (MG), onde cheguei às 17h. 

O casaco me aqueceu muito bem. Sentia–me um pardal feliz na chuva. Itajubá, em tupi, significa pedra amarela. 

BR - 459, subida da Serra da Mantiqueira rumo a Itajubá (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

BR - 459, subida da Serra da Mantiqueira rumo a Itajubá (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

BR - 459, subida da Serra da Mantiqueira rumo a Itajubá (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

BR - 459, subida da Serra da Mantiqueira rumo a Itajubá (MG).
Foto: Fernando Mendes.


BR - 459, subida da Serra da Mantiqueira rumo a Itajubá (MG).
Foto: Fernando Mendes.

BR - 459, subida da Serra da Mantiqueira rumo a Itajubá (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

BR - 459, subida da Serra da Mantiqueira rumo a Itajubá (MG).
Foto: Fernando Mendes.

BR - 459, subida da Serra da Mantiqueira rumo a Itajubá (MG).
Foto: Fernando Mendes.

BR - 459, subida da Serra da Mantiqueira rumo a Itajubá (MG).
Foto: Fernando Mendes.

BR – 459 passando por Delfim Moreira (MG) rumo a Itajubá (MG).
  Foto: Fernando Mendes.

 

BR - 459, subida da Serra da Mantiqueira rumo a Itajubá (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

BR - 459, chegada a Itajubá (MG). Foto: Fernando Mendes. 


3º dia

12/01/2016

ITAJUBÁ (MG) A S. RITA DO SAPUCAÍ (MG)

43 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Poucos quilômetros – apenas 43 – naquele dia 12/01/2016, para muita chuva. Às 12h parti após delicioso almoço no Restaurante Casa Grande. 

Ingressei na BR–459 e tomei a proa de Piranguinho (MG), nove quilômetros à frente. Trecho plano e acostamento da melhor qualidade.

Na chegada à Capital Nacional do Pé de Moleque, parei num quiosque à beira da estrada para saborear a iguaria do local, acompanhada de delicioso café expresso. 

Foi quando desabou outro dilúvio, que me acompanhou pelos 34 quilômetros restantes até a entrada de Santa Rita do Sapucaí (MG), nacionalmente conhecida como o Vale da Eletrônica ou Vale do Silício Brasileiro.


VALE DA ELETRÔNICA

SANTA RITA DO SAPUCAÍ (MG)

O Vale da Eletrônica, localizado em Santa Rita do Sapucaí (MG), é um dos principais polos tecnológicos do Brasil, abrigando mais de 150 empresas que produzem cerca de 14.500 produtos diferentes. A região se destaca pela fabricação de tecnologia avançada, exportando para mais de 40 países. Principais produtos e áreas de atuação incluem:

 A cidade é responsável por

cerca de 70% da produção nacional de câmeras, alarmes e sensores.

Desenvolvimento de tecnologias

de ponta, incluindo equipamentos para redes 4G, 5G e estudos para o 6G.

Placas eletrônicas, transformadores, chicotes elétricos e fiação.

Fontes de alimentação, nobreaks ou nobreaks (*), carregadores de celulares e sistemas de automação industrial.

Soluções voltadas para o aumento da eficiência no meio rural.

 O polo é conhecido por desenvolver itens como urnas eletrônicas e tornozeleiras eletrônicas.

O ecossistema é formado por uma colaboração entre a Escola Técnica de Eletrônica (ETE)  FMC, o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) e o SENAI, garantindo mão de obra qualificada.

(*) Nobreak (junto) é a forma mais comum e comercialmente popular, enquanto nobreak (com hífen) é a grafia original em inglês, preferida em contextos técnicos.

Disponível em: https://www.google.com/. Acesso: 31/01/2016.

Cheguei às 16h e, antes de me preocupar com hospedagem, fui conhecer a Igreja Matriz de Santa Rita, cujas obras tiveram início em 1822 e foram concluídas em 1839.

Igreja Matriz de Santa Rita do Sapucaí (MG). Foto: Fernando Mendes.

 

Igreja Matriz Santa Rita do Sapucaí. Foto color [s.d].
Disponível em: https://arquidiocesepa.org.br/arquidiocese/paroquias/santuario-santa-rita-de-caldas-santa-rita-do-sapucai/. Acesso: 31/01/2016.

Enquanto fotografava o templo por fora, fui abordado pelo Washington, DJ da Rádio local (104,9 MHz), que pediu permissão para me entrevistar. Falei acerca da empreitada, onde começou, onde terminará e outras coisas a mais sobre viajar de bike.

Foi um dia de poucas fotos em virtude de muita chuva. Uma chuva para lavar a alma. Caso tenham restados ranços de 2015, foram lavados e levados.

Brasília (DF) a 1.121 quilômetros.

BR - 459, entre Itajubá (MG) e Santa Rita do Sapucaí (MG). Foto: Fernando Mendes.

BR - 459, entre Itajubá (MG) e Santa Rita do Sapucaí (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

BR - 459, entre Itajubá (MG) e Santa Rita do Sapucaí (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

BR - 459, entre Itajubá (MG) e Santa Rita do Sapucaí (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

4º dia

13/01/2016

SANTA RITA DO SAPUCAÍ (MG) A IPUÍUNA (MG)

67 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Deixei Santa Rita do Sapucaí (MG) por volta das 10h30, pedalando por um vale cercado pela Mantiqueira. 

O piso asfáltico da Rodovia BR459 está um tapete e o acostamento também. O mormaço maçaricava a pele.

Os primeiros 22 quilômetros até Pouso Alegre (MG) foram plácidos. 

Restaurante Fernandão, em Pouso Alegre (MG). Foto: Fernando Mendes.

Às 12h almocei em Pouso Alegre (MG), no Restaurante Fernandão, às margens da Rodovia Fernão Dias (BR–381).

No retorno à lida do pedal, a chuva me deu as boasvindas, na forma de garoa paulistana, mas logo engrossou e deu o tom para o resto daquele dia. Quando cheguei a Congonhal (MG), estava ensopado. Felizmente não sou de açúcar.

Após atravessar o perímetro urbano de Congonhal (MG), a rodovia corta um vale muito extenso, com gado mastigando capim em profusão, em ambos os lados da estrada. Muito verde e belas fazendas leiteiras.

BR - 459 entre Santa Rita do Sapucaí (MG) e Ipuíuna (MG).
Foto: Fernando Mendes.

BR - 459 entre Santa Rita do Sapucaí (MG) e Ipuíuna (MG).
Foto: Fernando Mendes.

À medida que avançava, a Serra do Cervo, subgrupo da Mantiqueira, se engrandecia à minha frente, à semelhança das ondas na praia de Nazaré, em Portugal.

Passada a Ponte sobre o Rio Cervo, a chuva engrossou. Uma placa indicou "trecho de serra nos próximos 12 quilômetros", com faixa adicional para veículos lentos [e aí eu me incluí].

Quando a subida começou, consultei o GPS de pulso. Estava na cota 853m.

O traçado da estrada foi ficando íngreme, com curvas de 180º e aquele serpentear clássico de trechos serranos, fartos em sinuosidades.

BR - 459 entre Santa Rita do Sapucaí (MG) e Ipuíuna (MG).

Foto: Fernando Mendes.

Quando atingi a cota 1.266m, parei na Pedra do Mirante, um enorme penedo, no meio do caminho, com acesso por escada de metal e, assim, contemplar a bela vista que se descortina do alto, mesmo com tempo fechado. Algumas fotos e segui.


Pedra do Mirante. BR - 459 entre Santa Rita do Sapucaí (MG) e Ipuíuna (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Pedra do Mirante entre Santa Rita do Sapucaí (MG) e Ipuíuna (MG).
Foto: Fernando Mendes.

 

BR - 459 entre Santa Rita do Sapucaí (MG) e Ipuíuna (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Mais subidas pela proa, até atingir a cota 1.324m. Naquele ponto, a faixa adicional acabou e veio uma descida animal, com dois quilômetros de extensão e chegar ao acesso à cidade de Ipuíuna (MG), a Capital Nacional da Batata. Sensação que meus ossos estavam molhados.

BR - 459 entre Santa Rita do Sapucaí (MG) e Ipuíuna (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Hospedei–me no excelente Hotel Fazenda Vale Encantado. Recomendo.

A baixa do dia ficou por conta de duas trocas de câmaras de ar furadas, mas nada que me tirasse o bom humor. 

Brasília (DF) a 1.054 quilômetros.

 

5º dia

14/01/2016

IPUÍUNA (MG) A POÇOS DE CALDAS (MG)

70 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Às 13h, devidamente alimentado, parti de Ipuíuna (MG). Chovia moderadamente e, assim que engrenei nas pedaladas, a chuva veio para não me deixar sozinho.

Os primeiros 21 quilômetros foram fáceis, com trechos planos e intervalados por curvas bem abertas. 

As formações da Mantiqueira mostravam seus contornos mais rugosos e um brilho de chuva, estando coberta por nuvens baixas, que pareciam lambê–la. 

O gado e a passarada estavam felizes com tanta água caindo.

BR - 459 entre Ipuiuna (MG) e Poços de Caldas (MG). Foto: Fernando Mendes.

No 22º quilômetro veio o aviso: "aclive acentuado nos próximos seis quilômetros". Um morrinho com 200m de ascensão para quebrar a monotonia. No topo, a 1.291m, outra placa indicava declive acentuado de dois quilômetros à frente.

Cheguei ao trevo de acesso a Caldas (MG), parei para degustar deliciosos pastéis caseiros e fotografar os gatinhos do estabelecimento. 

A senhora que me serviu avisou–me: "antes de Poços de Caldas, ocê vai subir mais um morrim". Não tive outra opção, uma vez que esse "morrim" estava no meu caminho.

Fotos: Fernando Mendes.

Foto: Senhora dona do Quiosque.

E tome subida, justamente quando a chuva caiu com a força, como se uma imensa tampa fosse aberta, deixando enorme volume de água a cair sobre mim. E veio acompanhada de forte vento lateral.

Às 17h45, o dia havia virado noite. Quanto mais subia, mais as nuvens baixas, repletas de umidade, encobriam o caminho.

BR - 459 entre Ipuiuna (MG) e Poços de Caldas (MG). Foto: Fernando Mendes. 

BR - 459 entre Ipuiuna (MG) e Poços de Caldas (MG). Foto: Fernando Mendes. 

Finalmente, às 18h03, com temperatura em 22°C, cheguei a Poços de Caldas (MG), última cidade mineira do trajeto.

Estada no Joia Hotel, localizado na área central. 

Ótima pizza nas proximidades da estalagem e cama. 

Ao me deitar, sensação de os ossos estarem molhados, após tanta chuva, típica de países tropicais no verão. Para mim, nenhuma novidade.

Foto: Fernando Mendes.


6º dia

15/01/2016

POÇOS DE CALDAS (MG) A CASA BRANCA (SP)

86 km


Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Durante a madrugada, acordei com o barulho da chuva a apedrejar, com a força de uma lapidação (*), as costas quadradas do aparelho de arcondicionado. 

Choveu à larga até o amanhecer.


(*) A lapidação, ou apedrejamento, é uma forma de execução na qual uma multidão ou grupo de pessoas lança pedras contra o réu até a morte.

É considerada uma punição extremamente cruel e lenta.

É prevista legalmente em códigos penais baseados em interpretações extremas da lei islâmica (Sharia) em alguns países, como no Irã, no Sudão, no Iêmen e na Nigéria.

Depois de farto café da manhã no Joia Hotel, preferi partir a ficar. Vontade não faltou de fazer o oposto. Mas prevaleceu, como de hábito, a disciplina.

Às 11h deixei Poços de Caldas (MG) sob chuva moderada. Mas quando o perímetro urbano cedeu lugar à Rodovia BR–267, o aguaceiro caiu com vontade; pingos grossos, semelhantes à bagos de uvas, e vento ululante com rajadas laterais. Pacote completo.

Portal de Poços de Caldas (MG). Foto: Fernando Mendes.

Às 13h cheguei à divisa MG/SP. Mudou o estado, mudou a qualidade [para melhor] da estrada. Mudança da BR – 267 para Rodovia SP–342, sob concessão e duplicada. 

Foto: Fernando Mendes.

Parei para experienciar delicioso almoço. Tirei a blusa ensopada, coloquei uma seca e vesti casaco corta–vento. 

Daquele ponto em diante, começou a descida [14 km] de uma serra, que me levou à cidade de Águas da Prata (SP). Não suportaria tal descida sem casaco. Fazia frio e a bátega era intensa. 

 

Foto: Fernando Mendes.

Estação Ferroviária de Águas da Prata (SP).
Foto: Fernando Mendes.

Em Águas da Prata (SP), parada para bebericar delicioso café expresso, comer uma barra doce de leite e seguir. Terminada a merenda, avante! 

Passei por São João da Boa Vista (SP) e tomei a proa de Vargem Grande do Sul (SP). A chuva não dava trégua.

SP – 342 entre São João da Boa Vista (SP) e Vargem Grande do Sul (SP).
Foto: Fernando Mendes.

Naquele trecho, o aguaceiro ficou mais intenso, à semelhança de quando estamos dentro de um automóvel e o limpador do para-brisa não dá conta de tanta água. 

Às 16h, anoiteceu. E o dilúvio, inclemente. 

Em Vargem Grande do Sul (SP) parei num posto BR. Um senhor ofereceu me levar de caminhonete até Casa Branca (SP). Agradeci e disse que "o meu objetivo era pedalar". 

Foto: Fernando Mendes.

Às 18h30, Casa Branca (SP) foi alcançada. Desde o início da jornada, em 30/12/2015, não pegava um temporal tão intenso e tão duradouro. Choveu, sem tréguas, de Poços de Caldas (MG) a Casa Branca (SP). 

Foram 86 quilômetros percorridos em 9 horas, com carga d'água ininterrupta. 

Chegada a Casa Branca (SP). Foto: Fernando Mendes.


Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores em Casa Branca (SP).
Foto: Fernando Mendes.

Casa Branca (SP). Foto: Fernando Mendes.

Hospedagem no Hotel Afonso, jantar num restaurante na área central e cama, exatamente nessa ordem. 

Novamente a sensação de ossos molhados ao deitar.

Cheguei a 1/3 do caminho para Brasília (DF). A ver os 2/3 restantes.

 

7º dia

16/01/2016

CASA BRANCA (SP) A SANTA ROSA DE VITERBO (SP)

60 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Despertei com uma réstia de luz que entrava pela beirada da cortina do quarto. Embora sonolento, percebi que o tempo estava aberto, com forte luz natural a ofuscar minha visão. A chuva deu uma trégua e o Sol brilhava forte sobre Casa Branca (SP). Alvíssaras!

Foi um dia de pedal seco e silencioso, com parcos 60 quilômetros. Seco porque a chuva não deu as caras e silencioso por conta da estrada, pouco movimentada, e com o trecho – até Tambaú (SP) – em leito natural, o mais belo daquela manhã. 

Na saída de Casa Branca (SP), optei por um caminho alternativo, para fugir da movimentada rodovia estadual SP – 332.

A estrada é flanqueada por uma vegetação que não consegui identificar. 

O tempo estava abafado, mas nenhum sinal de chuva. 

Caminho alternativo entre Casa Branca (SP) e Tambaú (SP).
Foto: Fernando Mendes.

A oito quilômetros de Tambaú (SP), o asfalto cedeu lugar ao leito natural. Passei por várias chácaras e sítios – nunca soube ao certo a diferença entre ambos  em região na qual a passarada regia os sons, junto com mugidos bovinos, que ecoavam dos quatro pontos cardeais.

Caminho alternativo entre Casa Branca (SP) e Tambaú (SP).
Foto: Fernando Mendes.
Santuário Nossa Senhora Aparecida. Tambaú (SP).
Foto: Fernando Mendes.
Santuário Nossa Senhora Aparecida. Tambaú (SP).
Foto: Fernando Mendes.
Santuário Nossa Senhora Aparecida. Tambaú (SP).
Foto: Fernando Mendes.

Havia muita lama no caminho, resultado das chuvas de vários dias consecutivos. Cheguei a Tambaú (SP) às 14h. 

Almocei no Restaurante Tarzan e fui rever as igrejas locais. 

Igreja de Santo Antônio. Tambaú (SP).
Foto: Fernando Mendes.

Tambaú (SP) é a terra do Padre Donizetti, o Padre Cícero local. É um sítio (lugar) com muitas olarias.

O tempo fechou na saída de Tambaú (SP). Felizmente ficou na ameaça. 

Olaria em Tambaú (SP). Foto: Fernando Mendes.

Encarei os 35 quilômetros finais até Santa Rosa de Viterbo (SP) na SP–332, Rodovia Padre Donizetti. Somente as aves e a brisa prestavam atenção em mim, mas não muita. 

Nenhum movimento de veículos. Estrada com asfalto novo e relevo suave. 

A partir de Casa Branca (SP), a Mantiqueira, aos poucos, foi ficando para trás. 

Passei a pedalar numa região de transição entre a Serra da Mantiqueira e o Planalto Meridional, onde está localizada Ribeirão Preto (SP), a Califórnia Brasileira.

Chegada a Santa Rosa de Viterbo (SP). Foto: Fernando Mendes.

A chegada a Santa Rosa de Viterbo (SP) deu–se no meio da tarde. 

Hospedagem na Pousada Malim, onde deixei meus haveres e fui explorar aquele lugar tão pacato e singelo.

Em pesquisa pós-viagem para redigir este relato, encontrei uma história deveras interessante, acerca do nascimento e morte de Rosa. Ei–la:

HISTÓRIA DE SANTA ROSA ENVOLVE IMPERADOR E PAPA.  

Na Itália do século XIII, Viterbo era a mais forte cidade dos Estados Pontifícios, no caminho de Roma. 

Situada na região da Lazio, a 80 quilômetros de Roma, Viterbo guarda o corpo do Papa Adriano, considerado o primeiro Papa após o apóstolo Pedro, embora essa informação seja controversa. 

Naquela cidade [Lazio], aconteceu uma das mais belas histórias de religiosidade: o nascimento e morte de Rosa, a menina missionária que se tornou Santa e venerada com ardor até os dias de hoje em Viterbo. Ela emprestou seu nome à cidade. 

 A canonização de Rosa nunca chegou a termo, dentro dos trâmites exigidos.  

Mesmo assim, foi integrada à lista dos mártires da Igreja católica (Martirológio Romano) e confirmada por sucessivos pontífices em diversos documentos. 

 As matérias foram publicadas em 1982 pelo Jornal Santa Rosa Notícias.  

A luta contra um Imperador tirano (Frederico II), os milagres, o exílio, a expulsão de Rosa de sua cidade e o seu retorno triunfante são fatos daquela época medieval. 

  Disponível em:< http://santarosa.sp.gov.br/pagina/1_Historia-da-cidade.html>.Acesso: 31/10/2018 (com adaptações). 

O ponto alto da cidade é a Igreja Matriz de Santa Rosa, fundada em 1909.

Igreja Matriz de Santa Rosa de Viterbo. 
Fotos: Fernando Mendes, obtidas em 2014.

No retorno da igreja à Pousada Malim, parada para delicioso jantar no Restaurante H3P, à base de comida japonesa de qualidade. Um deleite.

 

 

Mascote da Pousada Malim, em Santa. Rosa de Viterbo (SP).
Foto: Fernando Mendes.

Desde a saída de Aparecida (SP), em 10/01/2016, foi o primeiro dia de pedal seco, ponta a ponta, e sem a sensação de ossos molhados. 

Apaguei enquanto me preparava para iniciar a contagem de carneirinhos.

8º dia

17/01/2016

SANTA ROSA (SP) A RIBEIRÃO PRETO (SP)

69 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Dancei no café da manhã do hotel. Acordei após às 10h. Pulei essa parte. 

Arrumei meus haveres e, antes de deixar a pacata Santa Rosa (SP), parada para almoço e, pontualmente ao meio–diabike, pedal, estrada. Sempre nessa ordem.

Deixei Santa Rosa de Viterbo (SP) para trás, ingressei na Rodovia Estadual SP–253 e fui pedalando, placidamente, em dia de tempo aberto, céu com poucas nuvens e sem formas definidas.

A primeira cidade pela qual passei, a caminho de Ribeirão Preto (SP), foi (*) São Simão (SP), 18 quilômetros à frente de Santa Rosa de Viterbo (SP). 

Céu cheio de mormaço e, por extensão, muito calor.

(*) São Simão (SP) é a cidades dos três gês (plural da letra G).

Em 1917, ela foi vítima de Geado, Gafanhotos e Gripe Espanhola.

(Nota do Autor).

São Simão (SP). Foto: Fernando Mendes.

Cinco quilômetros após São Simão (SP), a Rodovia SP–253 dá acesso à Via Anhanguera, SP–330. Eram 14h30.

Parei num posto lotado de ônibus piratas. Perguntei a uma das passageiras: "esse ônibus vai aonde"? "Juazeiro do Norte (CE), moço". "Agente vamos chegar (sic) lá na terça-feira". Que coragem. Encarar uma viagem de três dias num ônibus sem a menor condição. Talvez para economizar R$ 50,00 em relação aos ônibus regularizados. 

A suposta economia do transporte clandestino ignora todas as regras de sobrevivência.

A vida é feita de escolhas. E minha viagem seguiu.

Daquele posto, "inundado" de ônibus piratas, até Ribeirão Preto (SP), foram 30 quilômetros, em relevo semelhante às corcovas de vários camelos enfileirados. 

Para alcançar Cravinhos (SP), encarei uma subida alienada, em meio ao mormaço e à sensação de presenciar minha cremação. Pareceu-me ter o inferno sob meus pés.

Quando a subida alienada terminou, a Via Anhanguera ou SP–330 manteve–se plana, por uns dois quilômetros, e começou uma forte descida, da qual foi possível avistar, lá embaixo, dentro de um vale, a enorme Ribeirão Preto (SP), à semelhança de uma maquete.

Rodovia SP - 330 Via Anhanguera. Foto: Fernando Mendes.

Isso explica o porquê de a cidade ser tão quente e abafada. Por esses motivos [calor e abafamento], optei por hospedagem no Hotel Bandeirantes, homônimo da Churrascaria, que fica às margens da Via Anhanguera, no km 303. 

Assim, tornou–se desnecessário entrar em área tão densamente povoada à procura de hospedagem.

Ganhei tempo [no dia seguinte] na hora de zarpar rumo a Uberaba (MG), 180 quilômetros à frente de Ribeirão Preto (SP).

A Via Anhanguera, ou Rodovia SP–330, não recebeu essa numeração por acaso. Na bússola, o rumo  ou proa  de 330 graus aponta para a direção quase norte, coincidindo com a orientação predominante da rodovia.

Analisando o mapa rodoviário do Estado de São Paulo, a SP–330 sai de SP Capital e segue sempre na proa Norte, até a divisa com Minas Gerais, na Ponte sobre o Rio Grande. Ou seja, depois que ingressei na Via Anhanguera, minha direção geral foi sempre o Norte, até alcançar minha casa, em Brasília (DF).

Isso significou que assisti, até Brasília (DF), ao ocaso ou pôr do Sol à minha esquerda, no Oeste, enquanto o orto solar ou nascer do Sol, à direita, no Leste.

Naquele 17/01/2016 foram completados 1.000 quilômetros, desde o início da viagem, em 30/12/2015, quando zarpei de Aparecida (SP), para um passeio de 534 quilômetros pelas Terras Altas da Mantiqueira.

Fazia uma semana que havia partido de Aparecida (SP), pela 2ª vez, tendo por objetivo chegar a Brasília (DF). Faltavam 710 quilômetros. 

 

 

 

 

Chegada a Ribeirão Preto (SP). Foto: Fernando Mendes.


9º dia

18/01/2016

RIBEIRÃO PRETO (SP) A UBERABA (MG)

180 km


Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Sob um céu azul–ferrete e com nuvens de brancura láctea, que formavam desenhos desconexos, iniciei, em Ribeirão Preto (SP), às 8h10, a etapa mais longa da jornada: pedalar 180 quilômetros até Uberaba (MG), fartos em subidas e descidas extensas.

Trecho entre Ribeirão Preto (SP) e Uberaba (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Com uma hora e meia de pedal, atravessei a Ponte sobre o Rio Pardo, que separa o município de Ribeirão Preto (SP) de Jardinópolis (SP).

Logo em seguida, paralela à Anhanguera (SP–330), no km 332, a magnífica Ponte Ferroviária administrada pela Concessionária VLI, em Jardinópolis (SP), passou no meu través Leste.

Foi construída em 1935 pela empresa Azevedo & Travassos.

Trecho entre Ribeirão Preto (SP) e Uberaba (MG).
Ponte Ferroviária em Jardinópolis (SP). Foto: Fernando Mendes.

Às 12h atravessei o perímetro urbano de Orlândia (SP) e às 13h parei em São Joaquim da Barra (SP) para almoçar.

A partir de São Joaquim da Barra (SP), o bicho pegou. O calor era intenso e o consumo de água idem. E tome protetor solar.

Por volta das 16h, não suportando tanta quentura, parei num posto e tomei banho, com roupa mesmo. Com as vestimentas ensopadas, o corpo agradeceu.

Às 18h01, cheguei à Ponte sobre o Rio Grande, divisor natural dos Estados de SP/MG. Nos arredores, caia uma chuva isolada.

Trecho entre Ribeirão Preto (SP) e Uberaba (MG).
Divisa SP/MG. Foto: Fernando Mendes.

Transpassada a Ponte sobreo Rio Grande, veio o trecho mais difícil do dia: os 30 quilômetros finais até Uberaba (MG), em trecho que se assemelha à amplitude de uma senoide (*). Foi a prova de fogo daquele dia.

 (*) Curva matemática que descreve uma oscilação suave e repetitiva, baseada na função trigonométrica seno.

Disponível em: < https://www.google.com/search>.
Acesso: 30/01/2016.

Às 20h10, após 12 horas de pedal, desde a saída de Ribeirão Preto (SP), etapa marcada por incessantes sobe e desce, alguns deveras inclinados – tanto para cima quanto para baixo – e calor demencial, avistei o letreiro com a inconfundível logomarca da Rede Graal, em Uberaba (MG). Foi pedal para o dia todo, de Sol a Sol.

Hospedagem e jantar no Hotel Antares. Uma chávena de café expresso e cama.

Brasília (DF) a 530 quilômetros. 

 

10º dia

19/01/2016

UBERABA (MG) A UBERLÂNDIA (MG)

105 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

De Uberaba (MG) a Uberlândia (MG) são 105 quilômetros, etapa percorrida naqueles dois – dos 35 municípios – que constituem o Triângulo Mineiro. 

Apesar da grandeza econômica dessas duas cidades, a falta de atração e integração econômica entre Uberlândia (MG) e Uberaba (MG) deriva de suas vocações históricas distintas e da rivalidade regional acirrada.

Enquanto Uberlândia (MG) se consolidou como o principal polo logístico, industrial e de serviços, Uberaba (MG) especializou–se como a capital nacional da genética bovina e referência no setor sucroenergético. Há um forte bairrismo (*) entre elas.

(*) Bairrismo é o apego excessivo aos costumes, à cultura e aos interesses do próprio bairro ou terra natal. Embora expresse profundo orgulho local, frequentemente ganha uma conotação negativa ao gerar visões extremistas, onde tudo de fora é menosprezado.

Disponível em: https://www.google.com/search?q=bairrismo&sca. Acesso: 31/07/2016.

Pedalei entre ambas por longos trechos da BR–050, quase desertos, com raríssimos pontos de apoio. 

A paisagem era dominada por extensas lavouras de soja, milho e por rebanhos bovinos a ruminar capim. Algumas veredas (*) rompiam a monotonia da paisagem e emprestavam beleza ao percurso.

(*) Vereda é um tipo de formação vegetal do Cerrado que ocorre nas florestas-galeria.

Caracterizada pelos solos hidromórficos (solos que, em condições naturais, se encontram saturados por água), podem apresentar buritis (da família das palmáceas), em meio a agrupamentos de espécies arbustivo-herbáceas e são seguidas pelos campestres.

No cerrado brasileiro são denominados campo limpo, caracterizados por uma topografia amena e úmida, mantendo parte da umidade em estratos de solo superficial e garantindo a umidade mesmo em períodos de seca, tornando-se um refúgio da fauna e flora, assim como local de abastecimento hídrico para os animais [e ciclistas].

Recebem este nome por serem caminho para a fauna hidratarse.

Comumente encontradas nos Estado de Minas Gerais, Bahia e na Região CentroOeste.

Disponível em: <https://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Agencia16/AG01/arvore/AG01_65_911200585234.html> Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Vereda [s.d] foto color. Disponível em:<https://www.iguiecologia.com/veredas-o-oasis-do-cerrado/>. Acesso:31/01/2016.

Às 10h fui despertado com o barulho da chuva indo de encontro às janelas do quarto do hotel. Teria um dia bastante molhado.

Mas quando deixei Uberaba (MG), às 12h, após farto almoço, a chuva cessou e elevou o calor do asfalto, que parecia me abraçar com "ternura".

O trecho Uberaba (MG) a Uberlândia (MG) assemelha–se a uma montanha russa: subidas fortes e descidas acentuadas. Raras são as partes planas, bem como os pontos de apoio.

Rodovia BR - 050, trecho entre Uberaba (MG) e Uberlândia (MG).
Foto: Fernando Mendes.

Às 13h30, parada para hidratação no Posto Caxuxa I, 22 quilômetros após Uberaba (MG).

Nova substituição no jogo do tempo meteorológico: as nuvens se foram e o mormaço cedeu lugar ao Sol. O termômetro do GPS assinalava 36°C.

Rodovia BR - 050, trecho entre Uberaba (MG) e Uberlândia (MG). 
Foto: Fernando Mendes.

Quando voltei à estrada e ao pedal, o calor era digno de uma cremação. 

Meia hora depois, o tempo fechou e caiu uma chuva de verão, rápida, como um piscar de olhos. A quentura desprendida do asfalto aumentou a sensação de abafamento.

Rodovia BR - 050, trecho entre Uberaba (MG) e Uberlândia (MG). 
Foto: Fernando Mendes.

Após o Caxuxa I, pedalei parcos 14 quilômetros e parada para banho no Posto Tejuco. O calor estava abrasador. Banhei vestido. Assim, na volta à estrada e ao pedal, com as roupas encharcadas, a sensação é deveras refrescante, mas por pouco tempo.

No Posto Caxuxa II, 57 quilômetros antes de Uberlândia (MG), açaí na tigela (700 ml). Era energia que faltava. 

Sentia–me preparado, hidratado e alimentado para encarar 40 quilômetros até o Posto Décio Buriti, nos arredores de Uberlândia (MG) e outros 17 quilômetros – total 57 km – até o Hotel Carlton, na área central da cidade, local de pernoite naquele dia 19/01/2016.

Quando entrei no Posto Décio Buriti, pneu traseiro furado. Respirei, entrei no estabelecimento, saboreei uma chávena de Café Expresso, precedida por 1/2 litro de água mineral, retornei à área externa do posto, substituí a câmara furada e, aproveitando que estava com a "mão na massa", executei o rodízio dos pneus, enquanto o Sol escorria mansamente para o horizonte, à minha esquerda (Oeste), e a Lua Crescente - símbolo das bandeiras de muitos países muçulmanos - se mostrava entre nuvens, à minha direita (Leste).

E assim aconteceu a minha chegada a Uberlândia (MG), às 18h, apesar dos percalços.

Diferentemente do que muitos dizem, pensam ou entendem, o Triângulo Mineiro NÃO é formado somente pelos municípios de Araguari (MG), de Uberlândia (MG) e de Uberaba (MG).

O Triângulo Mineiro é uma das dez regiões de planejamento ou Macrorregiões do Estado de Minas Gerais e é constituído por 35 municípios (*), que abrigam 1.718.957 habitantes, de acordo com a tabela e o mapa que se seguem, respectivamente.

(*) OS 35 MUNICÍPIOS DO TRIÂNGULO MINEIRO

IBGE - CENSO 2022 - ÁREA: 53.719 km²

MUNICÍPIO

POPULAÇÃO

MUNICÍPIO

POPULAÇÃO

1. Água Comprida

2.108

22. Ituiutaba

102.207

2. Araguari

117.808

23. Iturama

38.295

3. Araporã

8.479

24. Limeira do Oeste

8.687

4. Cachoeira Dourada

2.315

25. M. Alegre de Minas

20.170

5. Campina Verde

18.011

26. Pirajuba

5.537

6. Campo Florido

8.466

27. Planura

11.145

7. Canápolis

10.608

28. Prata

28.342

8. Capinópolis

14.655

29. Santa Vitória

20.973

9. Carneirinho

9.422

30. São Fco. de Sales

5.732

10. Cascalho Rico

2.712

31. Tupaciguara

24.470

11. Centralina

10.207

32. Uberaba

377.846

12. Com. Gomes

2.773

33. Uberlândia

713.232

13. C. das Alagoas

28.381

34. União de Minas

3.828

14. Conquista

6.694

35. Veríssimo

3.411

15. Delta

10.494

35 municípios e 1.718.957 habitantes

16. Fronteira

14.533

Disponível em:< https://www.in.gov.br/web/dou/-/portaria-pr-470-de-28-de-junho-de-2023-493169747>.

Acesso: 20/05/2026.

17. Frutal

58.588

18. Gurinhatã

5.192

19. Indianópolis

6.171

O gentílico para quem nasce em um dos 35 municípios do Triângulo Mieiro é TRIANGOLINO.

20. Ipiaçu

3.775

21. Itapagipe

13.690

Esquematização da região do Triângulo Mineiro em Minas Gerais e localização das cidades comprovadas. Fonte do mapa base: IBGE.


Disponível em: https://https://www.researchgate.net/figure/Figura-17-Esquematizacao-da-regiao-do-Triangulo-Mineiro-em-Minas-Gerais-e-localizacao_fig5_340506112>. Acesso: 22/05/2026.

"Antes de adquirir a sua atual configuração, o Triângulo Mineiro fazia parte da região do Alto Parnaíba". 

"O reordenamento das regiões, promovido pelo IBGE na década de 1990, fez com que essa área fosse dividida em duas, de onde surgiu, então, o Triângulo Mineiro."

Fonte: IBGE.

 

11º dia

20/01/2016

UBERLÂNDIA (MG) A CATALÃO (GO)

109 km


Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Eram 10h30 quando comecei a arriscada aventura daquele 22º dia de viagem: atravessar o perímetro urbano de Uberlândia (MG). Muito movimento e pouco espaço para a bike


A QUEM INTERESSAR POSSA

Na travessia do perímetro urbano de Uberlândia (MG), o trecho descrito como "tenso e perigoso" pode ser evitado utilizando o Anel Rodoviário Ayrton Senna, com 25 quilômetros de extensão, passando ao largo da área central daquela cidade, que tem trânsito pesado, cascudo e trincheiras sem guardacorpo para ciclistas e caminhantes. Fica a dica.

Mas quando deixei para trás aquele trecho tenso, retornei à BR050, na proa de Araguari (MG), 30 quilômetros à frente.

Uma descida de 10 quilômetros me levou à ponte sobre o Rio Araguari, divisor natural dos municípios de Uberlândia (MG) e Araguari (MG).

Foto: Fernando Mendes.

Após a travessia da ponte sobre o Rio Araguari  a ponte foi duplicada em 2022 , encarei 12 quilômetros de ascenso contínuo até o perímetro urbano de Araguari (MG). Parei para almoçar no Restaurante Paraná. R$ 13,00, preço de 2016. Maravilha.

Disponível em: https://www.badiinho.com.br/concessionaria-eco050-celebra-uma-decada-com-mais-de-200-quilometros-de-duplicacao-na-br-050-e-com-investimentos-bilionarios/. Acesso: 09/01/2022.

Pouco antes de atingir o perímetro urbano de Araguari (MG), parei para fotografar a Estação Ferroviária de Stevenson, a mais charmosa do Triângulo Mineiro.

Estação Ferroviária de Stevenson.  Foto: Fernando Mendes.

A Estação Ferroviária de Stevenson, monumento turístico, localizado às margens da BR–050, entre Uberlândia (MG) e Araguari (MG), foi entregue ao público em 1927. Pertenceu à Cia. Mogiana de Estradas de Ferro, fundada em 1872.

Atravessei o perímetro urbano de Araguari, pedalando sobre um elevado (igual ao Minhocão de SP), que separa a BR–050 (em cima) do trânsito local (abaixo). 

Ao finalizar a transposição do trecho elevado, teve início a forte descida da Serra de Araguari (MG), com 10 quilômetros de descenso, que termina na ponte sobre o Rio Jordão.

Deixei a bike encostada no guarda–mão do passadiço (ponte) e tomei delicioso banho.

Rio Jordão. Foto: Fernando Mendes.

Quase meiahora (*) a me deliciar nas águas daquele rio. 

(*) Quando o tempo decorrido não for específico, meia-hora exige hífen. 

Quando o tempo for especificado, meia hora não tem hífen.

(Nota do Autor).

De volta à lida pedaleira, zerei uma subida honesta até o trevo de acesso a Monte Carmelo (MG) e Estrela do Sul (MG).

A Árvore Solitária. Araguari (MG).
Trecho entre Uberlândia (MG) e Catalão (GO). Foto: Fernando Mendes.

Às 16h, atingi a divisa MG/GO, parei no Restaurante do Baixinho para repor a água.

 

Trecho entre Uberlândia (MG) e Catalão (GO). Foto: Fernando Mendes.

ATUALIAZAÇÃO:
Ponte sobre o Rio Paranaíba após a duplicação, 
em 2023. Divisa MG/GO.
Disponível em: < https://www.badiinho.com.br/com-finalizacao-das-obras-de-reforco-e-alargamento-ponte-wagner-estelita-campos-na-divisa-de-goias-com-minas-gerais-esta-com-dois-lados-liberados/>. Acesso: 02/02/2023.

Trecho entre Uberlândia (MG) e Catalão (GO).
Foto: Fernando Mendes.

Pedalei os 33 quilômetros derradeiros até Catalão (GO), com longas subidas e sob calor inclemente.

Às 18h12, cheguei ao Posto JK, em Catalão (GO), e "matei" 500 ml de açaí, o meu combustível em trechos difíceis, como daquele 20/01/2016, dia de São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio de Janeiro (RJ).

Foram 109 quilômetros percorridos em 7 horas e meia. Deu para o gasto.

Hospedagem no Hotel Champion, jantar em pizzaria anexa à estalagem e cama. 

A sensação de ossos molhados foi substituída pela sensação de corpo abrasado.


12º dia

21/01/2016

CATALÃO (GO) AO HOTEL SONHO VERDE (GO)

153 km


Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

 

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

 

Dia 21/01/2016, 223º aniversário do enforcamento do último monarca francês, Luís XVI, na Praça da Concórdia, em Paris, França.

Após deixar Catalão (GO), as subidas me deram as boas–vindas. 

Até o Posto Eldorado – 20 quilômetros à frente – subi mais do que desci. Almocei no Eldorado.

Cinco quilômetros adiante atravessei a pequena Pires Belo (GO) e pedalei non-stop (*) até o Posto Paulistano. 

(*) Embora a forma com hífen seja a oficial, a versão junta (nonstop) também é bastante aceita e utilizada, principalmente no inglês americano e em nomes comerciais. 


Disponível em: <https://dictionary.cambridge.org/us/dictionary/english/nonstop>.
Acesso: 22/05/2026.

Daí adiante, a estrada atravessa um trecho plano, com 35 quilômetros de extensão. 

A média horária, muito baixa por conta das subidas desde a saída de Catalão (GO), aumentou e deu ritmo mais veloz à viagem.

Por volta das 18h30, quando passava pelo Posto Ponte Alta (*), nuvens de chuva vinham dos 4 pontos cardeais.


ATUALIZAÇÃO

(*) Em 2022, o Posto Ponte Alta, localizado no km 149 da BR  050, foi ao rés do chão, sendo inaugurado, em 2023, o Posto Vereda Verde,

deveras melhor em relação ao falecido.

BR - 050, km 149. Ponte Alta. Foto: Fernando Mendes.

Pedalei os 20 quilômetros finais com as nuvens de chuva no meu encalce. 

A pouco quilômetros do Hotel Sonho Verde – uns cinco talvez –, o aguaceiro caiu sobre mim, como um rio vertical. 

Brasília (DF) a 166 quilômetros.


13º dia

22/01/2016

HOTEL SONHO VERDE (GO) A BRASÍLIA (DF)

166 km

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Disponível em:<https://www.google.com.br/maps/>.
Acesso: 31/01/2016 (com adaptações).

Deixei o Restaurante e Hotel Sonho Verde, localizado no km 128 da BR050, às 9h20. Cheiro de chuva no ar. O dia prometia.

Até Cristalina (GO), foram 32 quilômetros em subidas leves e longas, que se intervalaram com poucos trechos planos. 

E as nuvens densas e robusta a me acompanhar.

Chegada a Cristalina (GO). Foto: Fernando Mendes.

Após pedalar 32 quilômetros, em longas, mas pouco inclinadas subidas, cheguei à cidade dos cristais às 11h20. 

Enquanto almoçava delicioso prato comercial no Posto Lamar, a chuva começou fraca e logo engrossou. 

De nada adiantaria ficar à espera de melhoras no tempo. 

As nuvens baixas e cor de chumbo não pressagiavam nada de bom. Vesti casaco impermeável e segui na proa de Brasília (DF), 133 quilômetros à frente.

Passei pelo Posto JK, no meu través Leste, ponto no qual se situa a maior altitude do dia: 1.250m. 

A partir daquele ponto, a Rodovia BR050 "deságua" na Rodovia BR–040 e mantêm–se sobrepostas até Brasília (DF). Nas placas indicativas de km, prevalece a nomenclatura "BR040". 

Passei pela última praça de pedágio, no km92 da BR040, hoje desativada e pedalei forte, aproveitando o traçado em declive, ininterrupto, por 28 quilômetros, até a Ponte sobre o Rio Furnas. Fiz esse trecho em uma hora. E a chuva castigando.

Parei na Pamonharia Acantus, degustei delicioso pão com linguiça. Após, pé na estrada. Era necessário não perder tempo. A caminho!

Logo à frente, atravessei a ponte sobre o Rio São Bartolomeu que, naquele ponto, marca a divisa dos municípios de Cristalina (GO) e Luziânia (GO). E tome chuva. 

Veio um trecho duplicado da BR040, que ainda não havia sido liberado ao tráfego. Reinei absoluto por uns 15 quilômetros. Hoje esse trecho está liberado.

Na serra chamada "Mané Preto", uma borda de chapada, com quatro quilômetros de extensão, a água, pela calha lateral da estrada, descia em forte torrente.

Trecho entre Cristalina (GO) e Brasília (DF).
Foto: Fernando Mendes.

Trecho entre Cristalina (GO) e Brasília (DF).
Foto: Fernando Mendes.

 

Trecho entre Cristalina (GO) e Brasília (DF).
Foto: Fernando Mendes.

 

Trecho entre Cristalina (GO) e Brasília (DF) - atualmente está duplicado.
Foto: Fernando Mendes.

Passei pelo trevo de acesso à antiga Santa Luzia  hoje Luziânia (GO)  por volta das 16h.  O dia havia virado noite.

E veio a parte mais perigosa do trajeto: atravessar os municípios goianos do Entorno Sul do Distrito Federal, com trânsito frenético, pedestres desatentos caminhando pelo acostamento, veículos piratas, entrando e saindo, dos pontos improvisados para embarques e desembarques, sem sinalizar, além de muita, muita chuva. 

Faltavam apenas 60 quilômetros para chegar em casa. Em condições normais, era uma distância modesta; naquele temporal, porém, parecia não ter fim.

Às 18h, cruzei a divisa GO/DF. Restavam exatos 38 quilômetros até o fim da jornada. A chuva, porém, seguia impiedosa.

Quando entrei no Eixão Sul, o pior dos mundos. A cidade estava sob dilúvio bíblico. Tesourinhas alagadas, carros enguiçados e passagens de pedestres submersas. 

Apesar do caos, cheguei bem à porta da garagem do prédio no qual resido – na Asa Norte , pouco antes das 20h. Novamente aquela sensação de ossos molhados. 

Cheguei bem e em segurança. Obrigado aos que me acompanharam, comentaram e deram força.

Foram 1.198 quilômetros percorridos em 13 dias, com média de 92 km/dia.

Não foi possível tirar mais fotos no último dia por conta das chuvas.

Obrigado pela leitura.

Antônio Fernando Mendes - 46 anos.

 Professor de Geografia e Geógrafo.

Brasília (DF), 31/01/2016.



 


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